Bem vindos à minha fábrica de sonhos!
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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Um Epílogo Alheio - Bons Sonhos, Stella Vazjekovzka


Virou-se vagarosa na cama, parecia uma velha tartaruga, encarquilhada, pesada, cascuda e enrugada, seus olhos mal abriam-se, a luz era fraca mas ainda assim era forte demais para suas retinas antigas, desgastadas por tudo o que já presenciaram, fotografaram e guardaram com carinho ou com ojeriza nos veios e sulcos de memórias do cérebro de uma velha de quase oitenta anos. Oitenta anos muito bem vividos. Ou não, os últimos tem sido feitos de pura amargura. Havia alguém parado aos pés da cama, ela sabia que havia alguém mesmo não tendo se virado para o lado da porta do hospital, não sabia, não lembrava como havia ido parar naquele quarto azul, tão sem graça e sem glamour algum.

- Está acordada, Stella, querida? - perguntou a voz.

Stella gemeu, parecia uma lhama no leito de morte.

- Vamos querida, faça um esforcinho, vire-se para me ver! Senti tanto a sua falta! - ela reconhecia essa voz de algum lugar, mas não sabia de onde. Com dificuldade, meneou a cabeça para o lado, a fim de enxergar o rosto que a velava. Não era Aline nem nenhuma das pessoas que ela conhecia, pelo menos não recentemente. Era alguém que há muito tempo ela não via. Sua voz trouxe doces lembranças relacionadas a parques nevados, cheiro de chantilly e chocolate quente, morangos fatiados ao meio e cheiro forte de tabaco. Cat Power tocava alto em algum canto da mente da velha, ela só não sabia onde.

- Quem, quem está aí? - com dificuldade, seus olhos idosos se abriram para depararem-se com uma criatura estranha, de óculos escuros e sobretudo preto, escuro como a noite. Um gorro escondia as mechas encaracoladas, quase crespas, com a cor natural de chocolate já perdida, agora era algo mais cinza, mais alvo, estranho. Seu rosto também estava mudado, o tempo havia lhe dado de presente muitos sulcos e rugas, e sua boca enorme agora estava ressecada. Ela sabia quem era. Aquele rosto, aquela voz...

- Vou retirar os óculos, querida, assim você pode me ver melhor. - a criatura riu e levou a mão aos lábios. Usava luvas de couro preto. - me sinto como o lobo mau disfarçado de chaupéuzinho vermelho, pronto para matar a vovózinha!

Retirou a única coisa que impedia a velha Stella de reconhecê-lo.

E isso fez seu coração fragilizado saltar, fez também cada uma das máquinas reguladores gritarem, alertando que o peito estava em frenezi, em pandemônio, sua saúde estava ameaçada mais uma vez por uma forte emoção.

- Black... Cherry... - fez ela, com uma voz rouca, o ar forçando a saída garganta afora. - Porque?! Porque o meu Lucas?! - foi a única coisa que ela conseguiu dizer. Suas mãos apertando o peito com força, como se isso fosse adiantar alguma coisa.

- Ele nunca foi seu... E nem meu... - riu outra vez - por isso agora não é mais de ninguém! Minha filha fez um bom trabalho...

- Não... pode... ser... Gabriela? - estava à beira do desmaio. Onde estavam os malditos médicos e enfermeiros daquele hospital?!

A criatura abaixou-se e beijou-a na testa.

- Não há mais motivos para me preocupar... Duvido muito que você passe dessa noite... Em todo caso... Bons sonhos, Stella Vazjekovzka...


Tudo apagou. Era pra sempre?


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Vítimas da Moda


- Então, Gabriela assumiu mesmo a culpa do crime sozinha?
- Sim, mamãe... Todos nós sabemos que havia alguém por trás dela, e que ela não estava com a arma nas mãos no momento em que Veronica a flagrou, mas ela insiste que fez e planejou tudo sozinha, e que a ameaça feita por celular foi feita por um qualquer, que ela contratou na rua...
- Difícil de engolir Stefan, difícil – Stella suspirou. – nunca vamos descobrir quem está por trás desse crime, mas já que Gabriela quis assumir, ela que morra e apodreça na prisão!
Stefan parecia minúsculo agora, mais cabisbaixo do que nunca. Gabriela era sua esposa, mãe de sua única filha, seria frieza demais da sua parte ignorar isso.
- Ela afirma que fez isso por mim, pela minha filha, ela queria você morta para que tivéssemos direito a toda a herança, confessou que a odiava mesmo... Foi estranho... Não parecia a Gabriela que eu conhecia, a minha mulher... – ele virou-se para o pôr-do-sol, para esconder as lágrimas, pôs a cabeça fora da janela.
- Nunca sabemos de verdade que tipo de gente temos dentro de casa. – cacarejou Stella, amarga, revoltosa.
- Ah, antes que eu me esqueça... Havia uma mensagem para você no telefone! No meu telefone! – ele virou-se rapidamente para a velha que ainda arrumava as malas. Iria passar as férias bem longe, no Brasil se fosse possível. Ela parou o que fazia na mesma hora, pega de surpresa.
- O que?! – gaguejou.
- Sim, mas não entendemos o que queria dizer...
- O que dizia a mensagem?! – exclamou a velha, aproximando-se de seu filho com os olhos esbugalhados de ansiedade.
- “No bolso do McQueen” – Stefan deu de ombros – não entendi o que queria dizer, mas estava em rascunhos, era para ter sido enviada pra você mas...
Stella sabia o que queria dizer, ela sabia o que aquilo significava.
Invadiu o closet como uma ave de rapina feroz, retirando todas as cruzetas das araras, derrubando todos os cabides e abrindo todas as gavetas.
- ONDE ESTÁ?! ONDE ESTÁ?!
- Mamãe! O que está acontecendo?! – Stefan corria atrás de sua mãe assustado com a sua reação – mamãe! A coluna, o coração! – ele repetia.
E então ela a encontrou. Uma bata extravagante, vermelha, cheia de babados, lembrava o século 16, cheia de detalhes dourados, um quê oriental pairava sobre aquela peça de roupa. Imediatamente Stella vasculhou seus bolsos, encontrando enfim o que procurava.
Era inverno, final das gravações de um filme baseado num livro... Ela não lembrava o nome... A memória lhe deixava na mão quando se tratava de detalhes... Alguém pôs algo no bolso de sua bata, e ela sorriu para esse alguém. Mas quem? Quem era?
Stella nunca chegou a ler o bilhete. Só usara aquela bata uma única vez em toda a vida, era escandalosa demais. Nunca vasculhara os bolsos para ver o que seu amigo imemorável havia posto ali dentro...


Somos todos Vítimas da Moda
Não é mesmo, querida?
Beijos sabor boldo,
Black Cherry.



A velha caiu de joelhos. O coração chiou. Chiou alto demais. Stefan foi rápido, mas não rápido o bastante. Alguém descobriria a verdade um dia, a verdade sobre a morte de Lucas Lustat? Quem sabe. A filha da cereja negra, seu instrumento durante todos esses anos, jamais abriria a boca para entregar sua mãe, morreria e apodreceria na cadeia, como Stella havia previsto. E a verdade cairia no esquecimento.
Inveja, vingança ou puro desejo de morte?
Somos todos vítimas das nossas ambições. Somos todos vítimas da moda.


FIM
Créditos & Agradecimentos
Agradeço humildemente ao meu irmão intelectual Andrew Oliveira por ter cedido-me gentilmente seu Lucas Lustat num pacote DELUXE na companhia de seu alter-ego Black Cherry, sem vocês três, escritor e personagens, a Stella não seria a mesma! Desculpe por ter matado o seu Lucas, Andrew, mas alguns sacrifícios tinham de ser feitos, meu muito Obrigado!
E obrigado ao Google Images (risos) por ter me cedido as imagens de abertura de capítulo desse romance policial, espero ter me saído bem como estreante em casos policiais e mistérios! Obrigado mais uma vez, aos leitores imaginários deste blog, e desculpem se desabilitei a opção de comentários para anônimos, eu andei sofrendo cyberbullying estes últimos dias e as coisas tem sido um pouco difícil emocionalmente para mim, mas eu sou uma ostra que produz pérolas a partir das coisas ruins que nela adentram. Por isso tive de desativar os comentários por enquanto, para não colocar meu blog na linha de fogo de pessoas gordas mal intencionadas, em breve vocês poderão comentar, tudo bem?
Grandes beijos a todos que acompanharam Stella Para Sempre!
Louie Mimieux//Antonio Fernandes

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Veronica's Secret


- Entre, Stefan – grasnou a velha. Ela sabia que seu filho estava para do outro lado da porta pelo modo como seu punho tocava a madeira, ela reconhecia a batida de cada um deles. A batida de Aline era sonora, a batida de Gabriela era nervosa, e a de Stefan era firme. Riu consigo mesma. O que Gabriela estaria fazendo na mansão? A não ser que tivesse fugido da prisão, estaria disposta a fazer sua sogra “amada” de refém, com certeza.
- Está arrumando as malas, mamãe? – Stefan pareceu surpreso, sentou-se à beira da cama acariciando a pelagem comprida e macia do gato felpudo de cara preta que balançava seu rabo de espanador de um lado para o outro. Estava nervoso e agitado por ver sua dona sempre tão lenta, assim, tão vivaz como naquela manhã. A coluna da velha não dava sinal de vida há algumas horas, e já era seguro fazer alguns movimentos mais audaciosos, como agachar para encher a bagagem com suas vestimentas favoritas.
- Claro, não confio em mais ninguém depois de toda essa história. Você não pode imaginar o estado do meu psicológico nesse exato minuto... – ela deu uma pausa e escorou-se na penteadeira, acendeu um cigarro enorme e soltou uma baforada no ar – estou pensando sinceramente em me deitar e morrer logo de uma vez.
- Vai morrer mais rápido se continuar fumando essas coisas, mamãe – Stefan levantou-se e tomou o cigarro da boca de sua avó-mãe, caminhou até a varanda e sugou o máximo de fumaça que pode para dentro dos pulmões, ferindo tudo com a maldita e viciante nicontina.
- Eu posso morrer, você não, é jovem ainda – ela acendeu outro. A esta altura, o quarto era uma verdadeira sauna, cheia de fumaça.
- Eles rastrearam o meu celular e o encontraram, acredite se quiser, em Cingapura!
Stella gargalhou, a mesma gargalhada de esponja de aço, um pouco mais macia.
- Na posse de quem? – perguntou ela, como se desinteressada, mas no fundo, cheia de curiosidade.
- Estava largado no aeroporto, no fundo de uma lixeira! Acredita nisso?! – foi a vez de Stefan gargalhar, virou-se para a velha mãe. – a Interpol foi acionada, mas duvido que vão achar o verdadeiro assassino do tio Lucas... Como vão achar um assassino sem rosto? Não sabemos quem é... E a Gabriela...
- Ora, não toque no nome dessa maldita dentro do meu quarto! – Stella escarrou num lenço e jogou-o com asco dentro do lixeiro. Para ela, não era o seu catarro contaminado que estava indo para o meio das porcarias, era Gabriela. Não passava de gosma asquerosa. Baixa.
- Ela preferiu pegar prisão perpétua a revelar o verdadeiro mandante do crime... – resmungou ele, cabisbaixo. – ela assumiu a culpa sozinha...
- Veronica nunca iria mentir, jamais mentiria...

- Não tenha medo, Veronica, tudo bem? Estamos somente eu e você aqui dentro desta sala, e não há ninguém do outro lado do vidro, eu pedi a todos que saíssem para que você pudesse me contar o que de fato é a verdade... – o detetive segurava o rosto da mulher entre as mãos. Ela ainda tremia, mas inexpressiva. Suas lágrimas rolavam soltas como rios pelo seu rosto fixo e vermelho. – está pronta?
Ela fez que sim.
- As mensagens começaram há uma semana... – começou Veronica, já um pouco mais calma, após um longo e apreensivo silêncio – eu sempre tive uma paixão oculta pelo Senhor Stefan, mas nunca fui corajosa para admitir, e quando as mensagens começaram a chegar, eu me senti a mulher mais sortuda do mundo! Eu estava nas nuvens!
“Eu estava disposta a tudo o que ele me pedisse, eu jamais negaria qualquer coisa... E derramei muitas lágrimas quando ele me pediu que o ajudasse nisso... Eu não conseguia imaginar o porquê de o Senhor Stefan querer a mãe morta! A sua mãe! Aquela que ele mais amava no mundo todo e que o acolhera após a triste morte de seus pais! Que lhe sustentara, que lhe dera do bom e do melhor, que lhe dera carinho e apoio nos mais distintos momentos da vida! Eu simplesmente não conseguia entender! Eu não conseguia chegar a um ponto lógico disso! Ele não podia estar de olho na herança, ele era rico por si próprio! A carreira como ator lhe rendera rios de dinheiro e agora isso! Por quê? Eu me perguntava, e várias vezes lhe pedi que me tirasse dessa.”
- Então foi tudo um grande engano! Lucas morreu no lugar de Stella! – o detetive estava bestificado.
- Sim – prosseguiu Veronica, agora segura de si mesma. – As instruções eram estas: eu deveria estar esperando no corredor, próxima do elevador, pronta para indicar o número do quarto aonde a Senhora Stella estaria naquela manhã... Mas de última hora eu senti que não deveria fazer isso! A Senhora Stella me deu casa e emprego quando cheguei a este país, ela era um pouco ranzinza e respondona, mas era como uma mãe para mim... Ela me ensinou muitas coisas...
“Havia uma lista com os quartos e quem iria ocupá-los, e como a Senhora Stella vivia falando desse Lucas, o único nome que me veio à cabeça foi o dele, e o número de seu quarto, que foi o primeiro em que bati os olhos na listagem do hall! Entenda, por favor, que eu estava nervosa e muito comprometida, e não tinha outra saída, eu poderia ter dado um número qualquer, de qualquer outro quarto, mas eu não poderia deixar um daqueles velhinhos indefesos morrerem, velhinhos que nem sequer fazem parte desta história toda... Foi doloroso para mim, e pedi perdão à Deus milhares de vezes enquanto o elevador descia. Eu estava gelada e arrependida de ter feito o que havia feito... Por isso eu peguei os sapatos do Senhor Lucas das mãos de uma assistente e subi para tentar reparar o erro, mas quando cheguei... Era tarde demais!”

- ELE ESTÁ MORTO! ESTÁ MORTO! – urrava a búlgara apontando para o cadáver ensangüentado que se debatia coberto pelo vestido branco, agora rubro.
- VOCÊ VAI FICAR CALADA, ENTENDEU? CALADA?! VOCÊ NÃO VIU NADA DO QUE ACONTECEU AQUI! NADA! – sibilava Gabriela, feito uma cobra venenosa, enquanto sacudia os ombros da indefesa Veronica com violência, empurrando-a porta afora em seguida, antes de descer desembestada às escadas de emergência.

- Eu não vi outra solução se não me esconder – disse Veronica ao detetive, limpando as lágrimas. Sua fala estava fluente e os soluços eram raros agora. – eu me escondi no escuro do corredor e vi o momento em que o Senhor Stefan abriu a porta e deparou-se com cadáver, eu o vi correndo pelas mesmas escadas de emergência por onde sua esposa fugira... Nessa mesma hora eu soube que havia sido enganada, que ele não matara o Senhor Lucas... Aconteceu tudo tão rápido
- Gabriela estava em posse da arma? – perguntou o detetive.
- Não, ela estava de mãos vazias.
- Como você passou batido por Stefan? Ele esteve jogado no chão, próximo ao elevador durante algum tempo...
- Usei o elevador de serviço, ficava mais próximo do quarto do Senhor Lucas... logo ao lado, no pequeno corredor... À esquerda...
- Sim, sim, logicamente... Mas me conte sobre o telefonema de hoje pela manhã... – o detetive olhou no relógio. Já passavam das duas da madrugada – de ontem de manhã, digo.
- Senhora Gabriela me ligou e mandou que eu ficasse quieta, disse que alguém queria falar comigo e que eu ouvisse com atenção... O homem do outro lado não disse seu nome, mas disse que se eu abrisse a boca, estava morta antes de me dar conta, e se eu não o respeitasse, ele mataria a todos nós... – Veronica voltou a chorar, dessa vez baixinho, um choro silencioso. – Não sei quem ele era, mas ele e a Senhora Gabriela estavam juntos nisso, eles se fizeram passar por Stefan para que eu acreditasse realmente que ele queria a herança da mãe, e que confirmasse a história aqui, na polícia...
- Está dispensada, Senhorita Petrova – e saiu porta afora, para nunca mais voltar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Um Par de Armanis


- Repita para mim, por favor, exatamente o que aconteceu – pediu o detetive, com calma.
- Eu contei tudo o que aconteceu, tudo! Quer que eu repita mais o que?! – gritou Gabriela. – eu já estou ficando irritada com as suas insinuações, detetive Mimieux! Se me permite, eu tenho uma sessão de Yoga para relaxar dessa tensão toda! – fez menção de levantar-se.
- Nem tente sair desta sala, Gabriela Stefanovna, trate de sentar este seu traseiro magrelo na cadeira agora e me contar o que você está me escondendo!
Ela gargalhou.
- Você gosta mesmo do meu nome, não é? É Russo, querido, herdei do meu marido, e agora estou indo, não tenho mais nada para falar aqui! – Gabriela levantou-se e praticamente correu em direção a porta, mas o detetive a deteve pelo braço.
- Ambos sabemos que você odiava Stella, então porque faria o favor de levar o vestido para ela? Porque não mandou uma empregada entregá-lo?!
Gabriela estava sem saída. Havia sido pega no pulo do gato mais uma vez. E dessa vez não havia escapatória.
- Eu estava seguindo o meu marido, tudo bem? – sentou-se outra vez.
- Por quê? – ele pôs a mão no queixo, interessado.
- Eu o estava vigiando... Eu suspeito que ele esteja tendo um caso com... Com a Veronica, é isso! – ela cobriu os olhos, envergonhada. O detetive gargalhou alto e quase deixou cair sua xícara de café, já fria e vazia. Seca.
- Com a Veronica?! Mas ela é uma empregadinha sem sal qualquer, perto de você, uma poderosa modelo atraente e... – ele foi interrompido de supetão por uma explosão revoltada de Gabriela.
- EU NÃO SOU MAIS JOVEM, TUDO BEM? – gritou – eu tenho noção de que estou ficando velha, e essa raposinha búlgara, toda jovenzinha saltitando pela casa, sempre com a sobrancelha franzida, nunca dá bola pra nenhum homem... Isso atrai os homens sabia?! Você deveria saber!
- Mas deve haver um motivo para você suspeitar desse caso... O que você sabe que nós não sabemos?
- Stefan tem passado mensagens para alguém toda noite. Dois dias antes do assassinato, eu chequei as últimas mensagens enviadas e vi o número de Veronica repetido várias vezes, todos os dias no mesmo horário... Você sabe do que estou falando, não sabe? – com um olhar sugestivo, ela debruçou-se sobre a mesa. – Eles estavam combinando de se encontrar no hotel...
- O que você está sugerindo?
- Que os dois estejam metidos nessa juntos! – deu um murro na mesa.
- Por favor, pare de socar essa mesa, estou começando a ficar levemente irritado – mentira, ele estava muito irritado com aquela família Vazjekovzka problemática, queria mesmo era mandar todos para o quinto dos infernos.
- Me desculpe, me desculpe! – ela ergueu os braços, em sinal de redenção.
- Vamos tratar disso exatamente como deve ser tratado.
No mesmo instante, tratou de colocar Veronica e Stefan cara a cara numa única sala. E ele nunca vira duas pessoas tão nervosas juntas quanto os dois. Veronica gastara quase uma caixa inteira de lenços chorando e fora acompanhada ao banheiro por Abner muito mais de três vezes. As veias da cabeça de Stefan saltavam como minhocas o comendo por debaixo da pele, aquilo era um tanto asqueroso... O que era, meu Deus, um astro fora das telas! O quão ordinário ele parecia agora.
- O que você sabe que eu não sei? – perguntou o detetive, dando passadas largas ao redor da mesa, como um leão cercando sua presa antes do bote.
- Do que você está falando? – gaguejou Stefan.
- Na verdade, eu estava falando com Veronica, Senhor Stefan. – ele inclinou a cabeça e estalou o canto da boca. Pena. Veronica deu um gritinho e abriu seus olhos enormes em direção ao detetive. Estava vermelhos e brilhantes como duas estrelas furiosas.
- Minha investigação empacou exatamente no triângulo amoroso formado por você – apontou para Veronica com o dedo em riste. – Stefan e sua mulher Gabriela, e espero do fundo do meu coração que vocês não estejam me fazendo de trouxa, porque acabei de saber pela boca de uma funcionária da revista que VOCÊ, VERONICA, não ficou no térreo. Subiu para entregar o par de sapatos Armani que seria usado por Lucas Lustat no primeiro photoshoot!
Do outro lado do vidro escuro, Stella se contorceu. Estava acompanhando o interrogatório desde que seu filho fora interrogado, permanecera calada até o momento, sofrendo internamente como a boa senhora de idade que era, mas com o avançar da noite, ela começava a dar seus primeiros gemidos e grunhidos. Talvez pelas dores na coluna, talvez pela dor de ver todos envolvidos desta maneira nesta história sem pé nem cabeça.
Veronica lançou um olhar furioso para Stefan.
- Eu falei! Eu falei pra você não me meter nessa! Seu imbecil! – e atirou-lhe a caixa de lenços vazia.
- O QUE? DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO? – gritou Stefan, nervoso.
O detetive começou a rir. Finalmente o fim estava próximo.
- A pergunta é... Qual o motivo? O que vocês dois ganhariam com esse assassinato?! – o detetive puxou uma liga de cabelo do bolso da blusa e amarrou o cabelo num rabo de cavalo no topo da cabeça. Estava sujo e cansado para ficar colocando aquele cabelo toda hora para trás da orelha. Há dois dias que ele não saía daquela delegacia.
- EU NÃO ESTOU ENTENDENDO O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI! – Stefan entrou em desespero outra vez. Já tinha estado mais calmo antes de ser colocado contra a parede mais uma vez.
- NÃO SE FAÇA DE SONSO, STEFAN! – gritou o detetive, foi sua vez de esmurrar a mesa, com força e vontade. Veronica deu um gritinho e cobriu os olhos. – sua esposa me contou das mensagens que você trocava com Veronica toda noite, no mesmo horário!
- Mas... O que?! – Stefan levantou-se, revoltado – como eu posso trocar mensagens com alguém se eu perdi o meu telefone há uma semana?!
O detetive pôs a mão na testa oleosa, fechou os olhos, suspirou e largou os ombros. Aquilo estava ficando realmente cansativo.
Foi quando a porta foi aberta de supetão, com um estrondo enorme. Parada no vão agora estava uma velha alta e magra, de olhos fundos e pele acinzentada, cabelos desgrenhados e chapéu na mão, forçando sua coluna já inválida, destruída, fraca e inútil, caminhando a passos forçados e pesados em direção a uma Veronica quase zumbi, morta por dentro.
- Senhora Vazjekovzka! Volte por favor! Volte! – o detetive Mimieux correu até ela, passou o braço fraco e idoso por cima de seus ombros e cruzou seu braço forte e jovial por trás da cintura de Stella, dando apoio a ela. Não podia dar mais um passo sequer. Havia corrido e empurrado os policiais que estavam em seu caminho com a força que lhe restava para chegar até ali.
- Me leve até ela, por favor! ME LEVE ATÉ ELA! – gritava a velha, entre caretas, indicando Veronica com o queixo. Mimieux fez sinal para que os grandalhões continuassem do lado de fora e levou-a com cuidado para perto da mesa, onde ela se apoiou e onde se abaixou com cuidado.
- Veronica, por favor, o que você sabe? Me diga! Por favor! – Stella ajoelhou-se ao lado da cadeira da mulher chorosa, de nariz vermelho e olhos inchados, segurou as mãozinhas búlgaras da pequenina com força e olhou fixo, no fundo de suas íris castanhas. – eu senti desde o primeiro momento em que a vi aqui, sentada, apavorada, que você não é a culpada disso, mas testemunha! Sei que você não é cúmplice nisso, e se realmente tiver parte nisso tudo, sua pena será diminuída se você entregar o seu mandante! Pense nisso, Veronica, por favor! Eu gosto tanto, tanto dos seus serviços, da sua companhia! – e desferiu vários beijos nos punhos macios e fechadinhos da mulher. As duas encostaram suas cabeças e choraram juntas, abraçadas.
- Ele... – gaguejou Veronica enquanto Stella limpava as lágrimas da jovem com um instinto materno nunca antes visto naquela senhora amarga e mal humorada.
- Ele?!... – repetiu Stella, com profunda dor no peito. Lancinante.
- Ele me telefonou hoje pela manhã!
- Ele quem, meu anjo? Ele quem? – perguntou Stella, com paixão e sede por justiça, por saber da verdade. Estava farta, cansada, morta. Fatigada.
- EU NÃO SEI QUEM ELE É, EU NÃO SEI! – gritava a búlgara minúscula entre lágrimas, saliva e tosse, ressonava, soluçando dolorosa e profundamente. – MAS ISSO TUDO É ARMAÇÃO DELE! ELE TRAMOU TUDO ISSO PARA PARECER QUE STEFAN ERA O CULPADO! ELE! ELE FEZ TUDO ISSO! ELE E A SENHORA GABRIELA! ELES DOIS ESTÃO JUNTOS NISSO! SE EU ABRISSE A BOCA ELE ME MATARIA, ELE MATARIA A TODOS NÓS, ELE! ELE MATARIA A TODOS!
Veronica revirou seus olhos e caiu por sobre Stella, que não teve forças para segurá-la e foi ao chão junto com ela, desmaiadas, as duas, por motivos diferentes. Imediatamente a sala foi inundada por homens de uniformes, pareciam ter surgido das sombras, acudindo, ajudando, algemando. Enquanto Stefan saíra da prisão provisória, sua esposa entrara.
E assim a história complica cada vez mais, detetive Frederico Mimieux.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vestido Versace, Mulher Versátil


- O que exatamente você estava fazendo no prédio do hotel naquela manhã? – o detetive tomou o último gole do seu café calmamente, enquanto a sedutora Gabriela cruzava e descruzava as pernas várias vezes. Não que estivesse provocando, longe disso, ela estava nervosa e desconfortável naquela cadeira dura de ferro. Ela que era tão elegante parecia uma joia perdida no esgoto, dentro daquela sala.
- Eu não sei do que você está falando, detetive, estive a manhã inteira em casa! Saí somente pela parte da tarde, para fazer um Cooper à beira mar, eu estava de folga e...
- Os empregados da mansão disseram que você saiu alguns minutos após a limusine deixar o pátio, acho melhor você falar a verdade. – sentou-se.
Ela permaneceu calada durante um tempo, sua testa estava cheia de ravinas de preocupação, piscava mais que o normal. Decidiu retirar as luvas, pois estava suando horrores debaixo delas, descruzou as pernas pela quinta vez.
- Tudo bem, olha, pra ser sincera, eu realmente saí de casa naquela manhã, eu saí sim, mas foi por um bom motivo... – ela respirou fundo. – Stella havia se esquecido do seu segundo vestido, a muda de roupa que Aline havia separado para ela, e eu como boa nora resolvi entregá-lo no hotel, foi isso! Nada demais! – cruzou os braços, estava mais tranquila agora. Aquela desculpa era realmente convincente, se não fossem os outros detalhes sórdidos.
- Mas, me diga, Gabriela, que motivos você teria para entrar sorrateiramente pelas escadas de emergência, como mostram as câmeras de segurança?
Gabriela finalmente descobrira o motivo daquele televisor mequetrefe e encardido que a encarava ameaçador com a sua tela escura, séria e julgadora. Ela tinha muitos motivos para entrar em desespero agora. Se eles filmaram a sua entrada no prédio, haviam filmado tudo. O detetive Mimieux puxou um pequeno controle do bolso e apertou alguns botões para dar play no vídeo. As imagens eram claras, claríssimas, nítidas como a água: Gabriela surge caminhando feito um gato, desconfiada, olha para todos os lados, checa a porta sem fazer muito barulho e verifica se está aberta ou fechada. Sobe em seguida. O vídeo permanece numa porta vermelha entreaberta que, após uma rápida acelerada pelo controle remoto, mostra uma Gabriela descabelada e visivelmente nervosa, capotando porta afora e caindo e joelhos, levantando-se logo em seguida e correndo desesperada.
Após alguns minutos seu marido sai pela mesma porta e vomita numa lixeira logo ao lado.
- Porque a fuga, Gabriela? E o que se fez do vestido que você estava carregando? – o detetive se fez de desentendido, debochando da cara de tacho de uma Gabriela pega no pulo do gato – ah! Esqueci! Você não poderia sair andando com um vestido ensangüentado na rua! Você o usou para limpar o sangue do homem que você matou! É muito claro não é?
- Ora, não seja idiota! – grunhiu a mulher – pra que eu iria matar aquele velho?! O que eu ia ganhar com isso?!
- Não sei, me diga você! – ele pôs os braços atrás da cabeça. Ela levantou-se.
- Me desculpe, mas não tenho de aturar esse tipo de acusação! É uma ofensa grave a minha integridade moral! – fez, estufando o peito e erguendo o queixo enquanto jogava os cabelos para trás dos ombros.
- Sente-se, ou vamos declarar prisão provisória assim como fizemos com o seu marido! Você não quer nos dar problemas, quer? – o detetive riu, simpático.
Gabriela bateu o pé três vezes fazendo careta e largou-se na cadeira, derrotada.
- Ai que ódio! Que ódio!
- Porque a fuga? Me explique!
- Eu fugi do tiroteio, tudo bem?! FUGI! Eu pensei que estava acontecendo algum tipo de assalto no hotel e saí correndo! Era isso o que você queria que eu dissesse?! – ela ergueu os braços, se rendendo, depois esmurrou a mesa, fazendo o detetive bufar outra vez – AH, NÃO! ESPERE! Você quer que eu diga que matei um velho que sequer conheço direito!
- E como você explica o vestido encontrado na cena do crime?! E o seu relógio que foi encontrado próximo à porta?! Você esteve naquele quarto, Gabriela! Eu sei que esteve e você está escondendo o jogo! Vamos! Confesse que você o matou!
- EU ENTREGUEI O VESTIDO PARA VERONICA! – gritou a mulher, desesperada, gelada, derramando rios de lágrimas.
- Não, não entregou! O depoimento de seu marido não fala de nenhum vestido nas mãos da empregada, que, aliás, desceu o elevador pouco antes de você subir! Vocês sequer se viram naquele dia, você sequer procurou o quarto de Stella Vazjekovzka! – o detetive assumiu um ar violento, dominador, era a adrenalina subindo ao cérebro, a adrenalina por estar próximo de resolver este grande mistério que o estava deixando maluco. Já eram praticamente sete da noite, e a família Vazjekovzka inteira na companhia de alguns empregados e metade do hotel estavam ocupando a delegacia de cabo à rabo. Era hora de dar fim àquilo de uma vez por todas!
- TUDO BEM, TUDO BEM, EU CONFESSO! EU CONFESSO!
Neste instante, trombetas soaram nos céus e os anjos cantaram em aleluia! Tudo isso no âmago do estômago daquele detetive fatigado de cortar as cabeças das Hidras daquele assassinato! Enfim ele conseguira uma confissão! Enfim alguém se entregou! O caso estava encerrado! Ele poderia voltar para casa, tomar aquele banho delicioso e voltar a assistir a última temporada lançada de Cold Case! Seus ombros relaxaram, ele juntou as palmas das mãos em clamor e ergueu-as para a lâmpada fluorescente de brilho branco espectral. O martírio havia chegado ao fim.
- EU ENTREI NAQUELE QUARTO SIM! EU ENTREI! TUDO BEM?! EU OUVI OS TIROS E ENTREI NO QUARTO! E AQUELE VELHO ESTAVA SE DEBATENDO NO CHÃO, EU ENTREI EM DESESPERO, VOU NESSA HORA QUE O RELÓGIO CAIU! ELE ESTAVA FROUXO, TUDO BEM?! MAS EU NÃO IRIA ME ABAIXAR PARA PEGÁ-LO ENQUANTO AQUELE HOMEM MORRIA NA MINHA FRENTE! EU TENTEI USAR O VESTIDO PARA ESTANCAR O SANGUE, MAS ELE JÁ ESTAVA PARANDO DE SE MEXER E ENTÃO EU CORRI, CORRI PARA LONGE DAQUILO TUDO!
A porta da sala do interrogatório abriu-se de supetão, espantando a mulher alterada que gritava feito uma condenada a sua confissão. O detetive já havia desistido de chegar ao final daquele caso, cada vez mais ele se complicava.
- Encontraram a arma do crime, senhor. – fez Abner, ajeitando o cinto.
- Não me diga! Mas isso é incrível! – e saiu da sala, direto para a galeria dos esgotos de Paris. Esgotos antigos, seculares, cheios de história e fezes de todas as eras. O lugar era lúgubre, fedido era apelido, escuridão era só um brinde à parte, os ratos pareciam fazer festa ali, felizes a cantar suas canções chiadas, as baratas pareciam tão inteligentes a ponto de fazerem verdadeiras aldeias nas paredes e conviverem em sociedade. Tudo isso logo abaixo de um dos hotéis mais luxuosos da capital. Paris, Paris, toda a sua podridão escondida no subsolo, que cidade maravilhosa. Mimieux adorava aquilo tudo.
- Nem tocamos nela, acabamos de encontrá-la – fez um dos oficiais, apontando a lanterna para um ponto distante no rio de imundície. Ali estava um revólver comum, sujo, não era possível identificar o calibre exato, mas lá estava ele, engatado num dos braços de um cabide de metal perdido nas galerias subterrâneas, jogado esgoto abaixo por algum pobre inquilino de um bairro de classe baixa.
- Pegue-o e leve para o exame... Vamos ver se as balas encontradas na vítima condizem com o calibre da arma... – e saiu caminhando, para fora daquele fedor agressivo, esmagando algumas baratas e chutando alguns ratos. Não resistiu, levou um lenço ao nariz, mas isso não adiantou muito. Seu corpo estava ali, caminhando para fora da porcaria, mas sua mente estava na bela Gabriela, que mulher versátil ela era... Prestativa, era tão boazinha com a sua sogra a ponto de sair do conforto da sua mansão para levar pessoalmente o vestido que a pobre velha havia esquecido! Tão prestativa a ponto de prestar os primeiros socorros para um corpo que se debatia ali próximo! Um corpo desconhecido e cheio de sangue!
Não, havia algo de podre naquela história, e não era aquele esgoto. Se bem que, as galerias subterrâneas de Paris também eram bem putrefatas, mas a podridão estava escancarada na história contada por Gabriela. Ela estava mentindo, era óbvio. Todos sabem o quanto ela odeia a sogra, pra que levaria o vestido pessoalmente para a velha?! E com aquele jeitinho cheio de “não-me-toques”, ela jamais poria a mão em sangue sem fazer um verdadeiro escândalo. Mulheres como ela gritariam horrores ao se depararem com um corpo se debatendo, agonizando. Ou talvez ele estivesse sendo um grande preconceituoso... Quem sabe...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Relógio Dolce&Gabbana


- Você está blefando! Eu sei que está! Está com medo de ir preso! De ir parar no presídio! Quer sair como testemunha e não como vítima! Eu conheço seu tipo, Stefan, o milionário mimado! Conheço muito bem!
- Tudo bem! Tudo bem! Eu posso não ter visto quem o matou! Eu posso realmente estar blefando cara! – iniciou um choro copioso e triste, como uma criança que perdera os pais, estava entrando em desespero – mas você tem que me dar um voto de confiança! Tem que me dar um voto de confiança! Por favor! Tem que acreditar em mim! Eu não matei ninguém, eu juro!
- Como posso acreditar nisso se tenho provas de que você o matou?
- Vem cá, chega mais, chega mais – sibilou ele. O detetive aproximou-se, agachou-se do lado de seu suspeito mais problemático até o presente momento e olhou-o nos olhos. – eu vi como você se sentou em mim naquela hora, eu senti como você me tocou... Eu sei o que você está querendo, tudo bem? Olha, eu te dou o que você quer e você limpa a minha barra, tudo bem? Saímos ganhando os dois, que tal?! – riu baixinho, as lágrimas escorrendo por todos os orifícios. Ele não estava nada sexy, como era nos filmes. Mimieux gargalhou alto e levantou-se, levantando a cadeira também, caminhou para perto do vidro escuro e apoiou-se lá, voltando-se para o suspeito em seguida.
- Vai aceitar a minha proposta?! – Stefan parecia radiante.
O detetive fechou os olhos e sorriu, deu três passos até a porta, colocou a cabeça pra fora e comunicou-se com os dois enormes guardas que estavam parados do lado de fora. Os dois entraram um a um, ergueram a cadeira e iniciaram uma marcha em direção à porta.
- EI! EI! EI! O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?! SOLTEM-ME! ME LARGUEM AGORA! AGORA! PRA ONDE ESTÃO ME LEVANDO?! – gritava, se debatendo violentamente.
- Prisão provisória, babaca! – riu o detetive. – agora considere-se o nosso principal suspeito! E se não for preso pelo assassinato de Lucas Lustat, vai preso por desacato a autoridade! Onde já se viu?! Tentar me subornar com sexo! Que pessoa baixa e imunda que você é!
- NÃO, NÃO! TUDO BEM! EU CONTO! EU CONTO TUDO!
Os grandalhões interromperam a escolta da berlinda.
- Deixem-no. – fez, mandando baixá-lo. – espero que conte a verdade agora, se não, é daqui direto pra cela.
- Tudo bem, tudo bem – ele respirou fundo.

- Ei, Veronica, Veronica! – um jovem Apolo cruzava os corredores do hotel em toda a sua graça e sensualidade, correndo, saltando em direção ao vulto apagado, de preto, carregando uma bolsa maior que seu próprio corpo. – onde é o camarim da mamãe?
Veronica não falou, apenas apontou a direção. Stefan riu.
- Qual o número do quarto, sua boba?!
- 119 – grunhiu a búlgara anã.
- Dê-me a bolsa, eu entrego a ela, com certeza vai gostar da surpresa!
Veronica permaneceu séria, dura. Entrou no elevador e sumiu engolida pelas portas douradas logo em seguida. Stefan deu de ombros e virou-se para seguir seu caminho, porém, dois fortes estalos que ecoaram em alto e bom som como trovões furiosos cortaram os corredores do hotel, fazendo-lhe soltar um grito de pavor, lançando-se ao chão. Ele sabia o que aquilo era. Sabia o que era aquele som. Aquele som terrível. Tiros. Dois tiros e um grito de mulher, cortando seus tímpanos com violência.
Assim que lhe pareceu seguro, levantou-se e correu em direção de onde vieram os sons pavorosos, deparando-se após curta corrida com a porta da saída de emergência no final do corredor, escancarada. Olhou ao redor, procurou qualquer sinal de arrombamento em uma das portas dos apartamentos próximos, seu coração acelerado, sua cabeça latejando graças aos sons ensurdecedores dos tiros. Foi quando ele se deparou com um feixe de luz cortando o corredor escuro, uma fresta quase imperceptível de uma porta próxima, mais alguns passos e ele estaria lá.
Mais alguns passos nervosos e suados, ele estaria lá. Ele estava tremendo. Aquilo era realmente seguro? Estaria ele correndo perigo de vida? E se o assassino ainda estivesse com a arma em mãos? E se ele fosse morto no momento em que visse o rosto do matador, em que abrisse a porta? Ele tinha de arriscar, tinha de ver se tudo não passara de imaginação. Aquilo não poderia ser real, era impossível, era assustador. Ele recuou um passo atrás após ouvir algo se debater do outro lado da porta. Havia alguém agonizando. Uma voz grossa, gorgolejando, aquilo deixou seu coração minúsculo de medo.
Num impulso de adrenalina, seu pé encontrou a porta que escancarou-se, iluminando todo o corredor escuro. E então lá estava, um rio de sangue levando diretamente para um corpo, um corpo masculino, com o rosto coberto por um pano branco – já rubro pelo sangue – seus pés e suas mãos ainda se mexiam.
Stefan não aguentou nem mais um segundo naquela cena, ele não podia suportar tamanho horror, tamanha morbidez. A bolsa foi ao chão, e sua pulseira fora junto também, mas naquele momento ele não se importava com nada, não havia hotel, não havia quarto, corredor, portas, não, só havia ele e o corpo que agonizava, ele e aquela boca que abria e fechava, fazendo mexer de leve o pano que a cobria, como um pequeno animal tentando escapar da armadilha. Era nojento, ele iria vomitar.
E assim ele desceu as escadas de emergência, correndo como nunca havia corrido na vida, vomitando no primeiro lixeiro que lhe surgiu pela frente. Jamais iria revelar a alguém o que vira, o que presenciara, não, ele não passaria por suspeito! Não poderia! Que carreira brilhante ele tinha! Um escândalo como aquele acabaria com tudo! Pegou o primeiro táxi para fora da cidade, para casa, para um lugar onde ele pudesse se esconder de tudo e de todos, e esquecer o que havia visto.

- O pano que você viu cobrindo o rosto do cadáver era um vestido branco, Versace... Suspeitamos que o assassino usasse para tentar enxugar o sangue... Mas o que nos deixa intrigados é o fato de o vestido pertencer à sua mãe! Como ele foi parar lá?! Temos tantas pontas soltas! – se fosse dada certa atenção àquela cena, qualquer um poderia jurar que a cabeça do detetive estava soltando fumaça de tão duro que ela estava trabalhando para resolver aquele mistério, uma verdadeira Hidra de milhares de cabeças: quando uma era cortada, várias outras nasciam e ficavam ali, rosnando e mordendo. Era um pesadelo. Um pesadelo assinado com as marcas mais famosas do mundo da moda... Seria difícil para o detetive entrar numa loja cara dali por diante, era traumatizante!
- Mamãe não faria isso... Ela amava Lucas, amava muito, só não sabia conviver com esse amor porque o orgulho dela é muito grande, gigantesco, o ego dela sempre fala mais alto...
- Quem você acha que faria uma coisa dessas?
- Não faço ideia...
- E ainda temos o relógio de pulso, o maldito Dolce&Gabbana da história! Não fazemos ideia de quem está por trás deste relógio, quem é seu verdadeiro dono... É uma pedra no nosso caminho...
- Eu posso... ver o relógio?
O detetive fez que sim, fechou os olhos e levantou o braço, fazendo um sinal para os oficiais que assistiam à entrevista por detrás do vidro escuro. No mesmo instante, a porta abriu-se, e um dos grandalhões que tentaram carregar Stefan para a cela entrou com um pacote plástico transparente em mãos, contendo um relógio de pulseira amarela, analógico, com o visor grande e chamativo, cheio de pequenas pedrinhas de brilhante ao seu redor. Puro luxo.
- Não, não! Impossível! Impossível! Não! – ele virou o rosto, não queria olhar, ele jamais aceitaria aquilo. Era loucura demais
- O que houve, Stefan?! O que houve?! Fale! – o coração do detetive voltou a acelerar.
- Este relógio... Foi um presente...
- O que?!
- Foi um presente que dei a minha mulher no natal do ano passado!
- SUA MULHER? VOCÊ QUER DIZER... – Mimieux estava bestificado.
- Sim, Gabriela, ela é a dona desse relógio! – Stefan abaixou a cabeça e voltou a chorar, dessa vez mais baixo, mais doloroso do que antes.
O detetive voltou-se para o grande gorila vestido de policial, suspirou e disse:
- Eis mais um mistério... Corta-se uma das cabeças da Hidra, e outras duas crescem no lugar...
- Oi?! – grunhiu o homem.
- Ora, esqueça Abner, você não faz ideia do que seja mitologia grega, faz?
Abner abaixou a cabeça, triste.
- Tudo bem, não fique assim. – deu dois tapinhas em seu ombro – Pausa para um café!

domingo, 28 de novembro de 2010

Uma Incógnita de Dior


- Estamos com Stella Vazjekovzka na sala do seu lado direito e a neta dela, Aline em seu lado esquerdo...
- E porque eu preciso saber disso?! – grunhiu Veronica, com um sotaque búlgaro pesado.
- Para que saiba que não adianta mentir, elas duas já contaram a história inteira, e sabemos que você estava com a bolsa pouco antes dela ser encontrada suja de sangue, no apartamento de Lucas Lustat. – o detetive Mimieux acendeu um charuto, cruzou os braços e encostou-se no vidro escuro outra vez.
No mesmo instante, Veronica começou a chorar e a tremer, a gritar feito uma condenada.
- O que ela está falando? – perguntou o chefe de polícia do outro lado do vidro.
- Eu não faço ideia! Não falo búlgaro! – respondeu um dos oficiais.
- Acalme-se Senhorita Petrova, acalme-se, por favor! – o detetive aproximou-se da mesa e empurrou-lhe o copo d’água que lhe era destinado. Ela esvaziou-o com voracidade como se tivesse caminhado um deserto inteiro, sozinha e sem uma gota do líquido tão precioso.
- Eu não estive naquele quarto! Não estive! Eu juro que não estive! A bolsa não estava comigo! – fez a mulher, ainda tremendo, seus olhos profundos e vermelhos.
- Mas você foi a última pessoa vista em posse da bolsa, Veronica!
- NÃO!
Esmurrou a mesa. O detetive Mimieux relaxou os ombros e jogou-os para trás, bufando e revirando os olhos. Muitos atos estavam se repetindo naquela manhã, estava virando costume vangloriar-se da sua riqueza ou esmurrar a mesa.
- Eu não estava com a bolsa! Eu não estava! Eu entreguei a bolsa para ele! Para ele!
- Ele quem?! – o detetive estava começando a se irritar profundamente com aquela búlgara nervosa. Ela era escandalosa demais, não parava de gritar. Era óbvio o seu nervosismo com relação ao caso, ela estava praticamente gritando “CULPADA!” para si própria.
- Para o Senhor Stefan! Foi para ele que eu entreguei a bolsa! – e voltou a chorar como uma criança. Chorava dolosamente, deixando o detetive cada vez mais aflito; a sala estaria inundada em poucos segundos se ela continuasse chorando nesse mesmo ritmo com a mesma intensidade.
- Espera um instante... Stefan Vazjekovzka estava no prédio?! Stefan estava no hotel?!
Veronica, tremendo, com as duas mãos na boca, fez que sim, meneando a cabeça para cima e para baixo com dificuldade. Ele virou-se para o vidro escuro com o olhar sério, como quem diz “você sabe o que fazer”.
- Traga-o para nós agora! – ordenou o chefe de polícia. No mesmo instante, todos os oficiais se mobilizaram. Stefan estaria dando seu depoimento em poucas horas, assim que o posto de polícia do aeroporto internacional de Paris localizasse sua posição com a ajuda das câmeras de segurança. Ele tentou correr, ele tentou esconder-se no banheiro feminino, chegou até a fingir que estavam lhe confundindo quando foi abordado na fila do despacho da bagagem.
“Estou indo para Miami, seu guarda! Ver a família! Já me disseram que eu era muito parecido com o Stefan, mas me chamo Michael e preciso mesmo fazer o despacho dessas malas!”
Os guardas se entreolharam.
“Nos acompanhe por favor.”
E correu, correu feito um condenado, deixou cair a peruca e os óculos escuros, tirou a jaqueta e os sapatos para ser mais rápido, mas ele estava cercado, por todos os lados, suando feito um porco. Nervoso como jamais estivera. Stefan Vazjekovzka, o neto criado como filho pela rainha das passarelas Stella agora era algemado, e todos ali presentes foram testemunhas da decadência de uma grande estrela. O terceiro homem mais bonito do mundo, flagrado fugindo da polícia, se escondendo num banheiro feminino e mergulhando numa fonte cheia de peixes, no meio de um aeroporto lotado de franceses, ingleses, americanos, espanhóis e turistas em geral. E os paparazzi, os fotógrafos? Voaram feito abutres famintos para cima da confusão. Para cima da carne putrefata. Aquilo era alimento de primeira para as revistas sensacionalistas carniceiras. Stefan havia assinado a sentença de morte da sua carreira naquele momento.
Na manhã seguinte, estaria em todas as revistas, ou até mesmo em edições extraordinárias impressas de última hora para serem distribuídas com urgência pela parte da tarde nas bancas de todo o país, quiçá do mundo todo: “Prenda-me se for capaz: Stefan Vazjekovzka flagrado numa fuga alucinante pelo aeroporto internacional de Paris! Confira com exclusividade aqui!”. E os noticiários já estavam exibindo as imagens amadoras filmadas por câmeras de celulares por turistas em menos de uma hora!
“Autógrafo aqui! Autógrafo!” gritava um brasileiro, tentando furar o bloqueio policial. Stefan deu um tapa na caderneta que voou longe, para dentro da fonte, e toda a tinta azul se desfez como a sua carreira e a sua reputação. Ele era aquele caderno, se desfazendo na água, para sempre.
- Agora a incógnita está resolvida! – riu o detetive Mimieux jogando o bracelete dourado assinado pela marca Dior sobre a mesa do interrogatório. – nós não fazíamos ideia de como esta pulseira fora parar na cena do crime, sendo que nenhuma das suspeitas interrogadas até agora estavam em posse do objeto naquela manhã... Mas graças à sua mamãe, sabemos que ela lhe fora presenteada há alguns anos e que nunca saíra de seu pulso... Até o exato momento do assassinato...
- ME SOLTE AGORA! EU EXIJO MEUS ADVOGADOS! SÓ ABRO A BOCA NA PRESENÇA DELES! – chutou a mesa uma dúzia de vezes, virando-a para cima do detetive ao mesmo tempo em que caía para trás com a cadeira, onde estava algemado.
O detetive empurrou a mesa de pernas para o ar com delicadeza para o lado, aproximou-se do indivíduo em questão que se debatia feito um peixe fora d’água, preso a uma cadeira de ferro caída de costas no chão. Agachou-se com calma e levantou-o num piscar de olhos usando um só braço. Abriu então suas pernas, sensual, e sentou-se no colo de seu interrogado, pegou o queixo de um acuado Stefan entre as mãos e aproximou seu rosto até os dois narizes suados e nervosos se encontrassem. Ambos tremiam. De raiva. De nervoso. De aflição.
- Mas o que ele está fazendo?! – mugiu o chefe de polícia.
- Você tentou fugir para outro país, é nosso principal suspeito e podemos decretar prisão provisória se você continuar bancando a criança mimada, e nem o advogado mais eficiente da França vai poder te tirar do xadrez, está me ouvindo?! – sibilou. Stefan fez que sim com a cabeça. Num pulo, ele levantou-se do colo do suspeito e com um leve impulso de seu pé, devolveu a cadeira ao chão. Stefan urrou de ódio.
- EU VOU TE PROCESSAR! VOU TE PROCESSAR! SEU DETETIVEZINHO DE MERDA! VOCÊ ESTÁ MORTO! MORTO! ACABADO!
- Acabada está a sua carreira, depois do escarcéu que todas as revistas e jornais do mundo inteiro fizerem!
- E ainda zomba de mim! Você está perdido!
- Calado, e agora me diga exatamente o que estava fazendo no prédio do hotel poucos minutos antes da morte de Lucas Lustat!
- Eu fui ver minha mãe, seu imbecil! Idiota! Babaca! Estúpido! Minha mãe estava dando o último voo da sua carreira brilhante, eu tinha que dar pelo menos os parabéns pra ela! Ou será que você é tão burro que não ligou A+B?! AGORA ME LEVANTE DO CHÃO IMUNDO DESSA SUA DELEGACIA DE ARAQUE!
- Mas segundo a própria, você tinha uma reunião importante com a equipe de produção do último “The Big Machine”, filme esse em que você terá o papel principal...
- EU DESMARQUEI A REUNIÃO, TUDO BEM?! NOSSA! VOCÊ É UM ÓTIMO DETETIVE! – e gargalhou alto, irônico. – SÓ PORQUE O FILHO DE UMA MODELO VELHA ESTEVE NO PRÉDIO ANTES DO AMANTE IDOSO DELA SER MORTO, ELE JÁ É CULPADO! SERÁ QUE NÃO PASSA PELA SUA CABEÇA EM NENHUM MINUTO QUE EU SÓ FUI LÁ DAR OS PARABÉNS?! – e começou a chorar, alto, quase um uivo.
O detetive Mimieux ficou sério e abalado. Estava ele sendo um babaca pela segunda vez naquela mesma manhã? Impossível. Ele não podia errar duas vezes. Errou, foi injusto com Stella, mas com Stefan ele não poderia ser injusto, nunca! O cara fora pego usando um disfarce, tentando fugir do país! Era praticamente culpado!
- Então porque você fugiu?! – gritou Mimieux, já confuso e aturdido com tudo aquilo – porque sua pulseira foi encontrada engatada na alça de uma bolsa ensanguentada?! POR QUÊ?!
- PORQUE EU SEI QUEM O MATOU! PORQUE EU VI! EU VI! EU VI TUDO!
Se o detetive Mimieux queria perder o chão e enlouquecer, essa era hora certa.

sábado, 27 de novembro de 2010

Por trás de um Chanel


- Então, quer dizer que foi você quem passou aquelas mensagens do telefone da sua avó...
- Eu não vou repetir isso de novo, eu tenho cara, mas não sou nenhuma moleca. Eu peguei o telefone à força da mão da Veronica, eu precisava fazer isso.
- Sabe que estará muito encrencada se não disser o que foi fazer naquele apartamento, e porque a fivela do seu sapato foi encontrada embaixo da cama, não sabe?
- É claro que eu sei, mas eu não me importo – ela deu de ombros e cruzou as pernas, mostrando boa parte das suas coxas grossas e lisas, macias como a pele de um bebê. – sei que não vou presa, sou menor de idade ainda... Serviço comunitário é o máximo que você e sua turma poderão me infligir, e além do mais, eu sou rica! – deu uma risadinha graciosa e inclinou seu queixo para baixo. Jovial, sedutora e provocante. O detetive Mimieux já havia ouvido isso antes, no mesmo dia.
- Você é incrivelmente parecida com a sua avó, tanto em aparência quanto em personalidade... Já lhe falaram isso antes?
- Eu ouço isso desde que tinha quatro anos, quando tingi meu cabelo acidentalmente mexendo nas coisas da vovó... Fiquei com os braços e o rosto amarelados durante uma semana, foi ótimo! – gargalhou.
- Conte-me exatamente o porquê de se passar por sua avó para invadir o apartamento de Lucas... Mostre-me o que está escondido por trás desse seu Chanel...
Aline deu uma risadinha e ajeitou o cabelo curto, na altura do queixo. Ela amava aquele penteado, brilhava feito uma ônix em noite de lua cheia.
- Eu precisava ter uma conversinha com ele...
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- Pode entrar... – fez o velho. Sequer olhou para a porta, continuou a revirar a mesma gaveta, procurando sabe-se lá o que. Ouviu os passos com atenção, eram delicados, mas firmes, porém incapazes de estalar a madeira embaixo do carpete. – Ah! Encontrei! – retirou da gaveta um estojo, abriu-o e retirou seus óculos de leitura, só para checar se estavam em bom estado, não iria usá-los de imediato, precisava dar atenção à visita antes, a visita que ele nem sequer sabia quem era. Não sabia de quem se tratava, mas sabia que havia alguém parado logo ali atrás, ao pé da cama. Não continuaria a ler seu livro tão cedo.
Havia acabado de entrar no apartamento e passar as mensagens para sua amada, deixara o telefone de lado e partira em busca dos óculos de leitura, aquele livro estava durando mais do que o esperado.
- Oh! Aline, meu bem, que surpresa! Quase você mata esse velho de susto! – ele riu, suas sobrancelhas grossas e brancas como nuvens cobriram seus grandes olhos claros. Era um vovô meigo e adorável, cheirava a violetas e parecia exigir um abraço. Mas nem esta aparência meiga e dócil fez Aline recuar de seu objetivo. – estou esperando a sua avó, viu ela por aí?
- Não era a vovó. Era eu nas mensagens.
Ele riu. Confuso.
- Como assim, meu anjo?
- Eu precisava falar com você. – a expressão facial da garota era dura em seu rosto de porcelana, de olhar frio e penetrante.
- Então fale de uma vez! Você está me assustando! Aconteceu alguma coisa com a sua avó? – ele levantou-se com dificuldade da beira da cama e caminhou até a garota, para abraçá-la, só por cortesia, mas a garota recuou um passo.
- Não se aproxime.
- O que...
- O que você acha que está fazendo?! Hein?! Você pensa que abraços, cortesias e cavalheirismo vão apagar o que você fez para a vovó no passado?!
As nuvens brancas se uniram entre os olhos e a testa do velho, como se uma tempestade estivesse por vir. Aline poderia jurar que elas ficaram acinzentadas, mas talvez fosse o efeito da iluminação do quarto.
- Você não sabe do que está falando, Aline, não se meta nos assuntos dos adultos! O que Stella lhe contou só diz respeito a mim e a ela resolvermos, e estamos dispostos a deixar o passado para trás de uma vez por todas! – disse o velho, sua voz engrossando como uma trovoada.
- Ela está velha e fraca, está quase morrendo! Porque não a deixa em paz e vai viver o que resta da sua vida longe dela?! – o tom de voz da garota estava subindo cada vez mais, feito a lava quente de um vulcão – você a persegue desde que eu me entendo por gente, e eu não entendo porque ela nunca o denunciou, nunca o entregou para a polícia! Você é psicótico, obcecado, inconveniente! Sabe Deus o que você não faria com ela fosse ela a estar agora, aqui, neste quarto com você!
- Ora, Aline, não diga asneira! Você está sendo grossa e estúpida! O que você diz não tem sentido algum! Se ela não me entregou para a polícia é porque seu amor por mim é verdadeiro e significa que ela não me esqueceu! – Eles estavam muito próximos agora.
- Ela não te entregou pra polícia por pena! Porque você é um pobre coitado! Isso sim! Ela é rica e tem a mim e não precisa de mais ninguém! Eu cuido dela! Ela não precisa de você!
O velho gargalhou.
- Você está com ciúmes da sua avó, Aline?! – ele riu e colocou suas mãos sobre os ombros da garota, que se sacudiu com violência.
- Me larga! Não toca em mim! – foi neste momento que a fivela dourada, já frouxa, se soltou do sapato e deslizou para debaixo da cama. A garota sequer sentiu. – já estamos cansados, todos nós, de vê-la sofrer, gritar e quebrar copos na parede com a mínima pronúncia do seu nome! Ela acabou de passar mal lá no apartamento só pelo simples fato de ter lhe visto esta manhã! Ela tem problema de coração sabia?!
- Oh meu Deus, isso só pode ser mentira! Ela parecia tão calma e serena, feliz em me ver ainda há pouco! – ele levou a mão à boca e desviou os olhos para o lado.
- Agora você sabe da verdade! Trate de ficar longe dela! – os olhos felinos de Aline dançaram furiosos pelos cômodos do quarto em busca da bolsa Louis Vuitton da avó, até encontrá-la sobre uma poltrona, largada. Pegou-a com violência e enfiou-a debaixo do braço, saindo em seguida, a passos firmes e estalados. Agora eles atingiam a madeira embaixo do carpete com facilidade...
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- Depois eu encontrei a Veronica, tirei os remédios de dentro da bolsa e fui para o quarto, mas ao chegar, encontrei a vovó dormindo, então eu desci e...
- Espera um instante, espera! – sobressaltou-se o detetive, assustando a jovem Aline que quase caiu da cadeira de susto.
- Ai! Seu ignorante! Não sabe que é falta de educação interromper uma dama no seu discurso?! – ela levou a mão ao peito, irônica.
- Você disse que devolveu a bolsa para Veronica?!
- Sim, devolvi! – Aline franziu a sobrancelha e entortou a boca.
- Então porque meus homens encontraram a bolsa suja de sangue no chão do quarto?!
Os olhos de Aline saltaram das órbitas. Ela pulou da cadeira num único movimento.
- Oh, meu Deus! Veronica é a assassina!

Segredos de Prada


- Então você realmente esteve dormindo durante todo esse tempo, durante o decorrer do crime até a batida policial no seu camarim?
- Logicamente, pensei que isso estivesse óbvio detetive Mimieux, vocês me encontraram semi-morta, minha hérnia de disco quase me levou pro outro lado dessa vez – ela tentou cruzar as pernas para parecer mais irônica, porém sua coluna chiou alto, fazendo-a estremecer dos pés à cabeça. Ela gemeu baixinho. Havia se esquecido que estava na cadeira de rodas e que não tinha mais 20 anos. – mas dizem por aí que vaso ruim não quebra, então...
- Como você explica todos aqueles pertences que remetem a você, no apartamento de Lucas Lustat, espalhados por lá?
Ela gargalhou. Uma gargalhada seca e áspera como uma esponja de aço. Se esponjas de aço pudessem gargalhar, esta seria a gargalhada de uma.
- Ora, está mais do que na cara que há alguém por trás desse crime tentando me incriminar, e você, detetive Mimieux, está fazendo papel de idiota, pensei que fosse mais inteligente!
- A Senhora sabe que pode ir presa por desacato a autoridade, não sabe?
- Ora, lógico que sei! – ela respirou fundo, com seu sorriso sádico antes sedutor, agora enrugado e amassado pela idade, ela mais parecia uma múmia sem as ataduras na ausência da maquiagem pesada costumeira. Nem os cílios postiços, nem a sombra de glitter preto ou o blush cor-de-rosa ajudaram a esconder as marcas de uma vida inteira. – mas me diga detetive, quem vai jogar uma velha de quase oitenta anos no presídio feminino?! Olhe para mim, eu estou na cadeira de rodas! Sou uma inválida! Se eu realmente matei Lucas, seu esforço em me incriminar será todo em vão! Jamais vão me colocar junto da ralé, porque acima de tudo... – ela debruçou-se sobre a mesa, de olhos semicerrados, sibilando feito uma draga maquiada – eu sou rica! EU SOU RICA! – gritou, levantando os braços para o alto. A fera estava abrindo as asas para voar.
O detetive cruzou os braços e escorou-se na vidraça escura. Do outro lado, a polícia francesa inteira assistia ao interrogatório mais esperado do ano.
- Você sabe que agindo assim, está dando cada vez mais motivos para acharmos que você é a culpada.
Ela esmurrou a mesa. A unha do mindinho quebrou.
- Não seja imbecil! – gritou – Você está sendo estúpido, estúpido, estúpido! Está sendo um idiota! Babaca! BA-BA-CA! Sabe soletrar? Seu detetivezinho de merda! Só eu sei o inferno que passei naquela noite! Só eu sei as dores terríveis que senti por todo o meu corpo! Deus sabe como me contorci naquela cama até desmaiar! Você sabe o que é hérnia?! Você sabe o que é ter uma hérnia tão avançada que você não pode sequer abaixar para pegar um sabonete?! Não brinque comigo! Não brinque comigo! Não mesmo! – esmurrou a mesa de novo. As lágrimas já começavam a brotar. Por trás do sadismo, da grosseria, da agressividade e da arrogância, a dor da acusação injusta gritava. Stella tentara se controlar ao máximo. As dores estavam misturadas agora, ela não fazia ideia do que era a coluna e do que era o seu ego, os dois eram um só agora.
O detetive permanecia impassível, sério, até um pouco sereno, absolutamente controlado.
- Você sabe que não pode se estressar tanto assim, Senhora Vazjekovzka, sua saúde é frágil demais, é melhor controlar os ânimos.
- Se eu morrer aqui nesta sala escura, úmida e suja, será tudo culpa sua! É você quem está fazendo isso comigo! Você! – disse, apontando seu dedo indicador longo e ossudo para o homem, feito uma bruxa lançando uma maldição. – durma com a minha morte nas costas! Seu filho da mãe!
- A porta do apartamento aberta pode ser explicada facilmente pela entrada e saída constante de sua empregada e de sua neta, isso é algo que será interrogado mais tarde às duas... Mas como você explica isso? – jogou sobre a mesa um objeto retangular, preto, de aparência antiga e pesada, brilhava feito o casco de um besouro à luz daquela única lâmpada fluorescente pendurada no teto. Stella pegou-o com dificuldade e viu do que se tratava: um aparelho celular, semelhante a um IPhone, tendo a palavra “PRADA” em letras pequenas e douradas coroando o alto do visor, logo acima do alto falante. – dê uma olhada na caixa de entrada, nas mensagens.
Stella pôs seus óculos de grau no rosto. Seus dedos eram velhos e ossudos, mas eram rápidos quando se tratava de aparelhos celulares. Em seus tempos áureos, ela deveria ter uns cinco ou seis, um para cada rede social da qual ela fazia parte, um para cada alta roda da sociedade que havia lhe acolhido e acolhido a sua fama e fortuna também. Após alguns segundos, sua expressão facial fechada foi abrindo em uma máscara de surpresa, espanto, assombro, como se algo que há muito lhe havia fugido da memória houvesse voltado de repente. Seus olhos eram duas luas enormes agora, acentuadas pelas lentes grossas, estavam cheias.
- Eu não passei nenhuma destas mensagens! Eu não estava com meu celular naquela manhã! Ele estava nas mãos de Veronica! Eu o confiei a ela!
- A questão é por que...
- Isso mesmo! Por quê?! Veronica não faria algo desse tipo! Ela é uma pobre garota ingênua, ela é uma tola, uma tapada, às vezes eu tenho de dar uns gritos com ela porque ela é uma anta em todos os aspectos... Ela não teria a malícia necessária para se passar por mim! Não teria mesmo!
No viso do celular, as cinco últimas mensagens recebidas estavam empilhadas na caixa de entrada, acusando uma conversa que nunca acontecera, quarenta minutos antes do assassinato.
- Não, a pergunta que eu ia fazer se referia a outro ponto de vista... Se você não tinha contato algum com Lucas Lustat há anos como seus amigos e familiares afirmam, o que seu número estava fazendo no celular dele? A impressão que essa conversa nos dá é de que vocês andavam trocando mensagens há algum tempo, não é mesmo? – o detetive sentou-se para encarar uma Stella pega no pulo do gato. A expressão de culpada estampada no rosto da velha o divertia muito. Ele estava prestes a pegá-la de uma vez por todas.
- Tudo bem, tudo bem – ela baixou a guarda – vocês iriam descobrir isso mais cedo ou mais tarde – foi sua vez de cruzar os braços e recostar-se nas costas da cadeira de rodas – há um ano e meio, Lucas descobriu o número da casa onde nós vivemos, Veronica o atendeu mais de uma vez...
- Quantas exatamente? – Mimieux estava desconfiado.
- Umas três ou quatro vezes... Ele telefonava perguntando por mim, e eu pedi a ela que mantivesse estes telefonemas em segredo, pedi a ela que lhe desse o número do meu celular para que ele ligasse diretamente para mim. Eu tinha muitas coisas para dizer a ele, mas acontece que ele nunca telefonou, e nunca passou nenhuma mensagem... Até agora, pelo visto!
- Você acredita então que...
- Após me ver pessoalmente depois de tantos anos, ele finalmente havia criado coragem para mandar um sinal... – as lágrimas voltaram a escorrer pelos sulcos ancestrais de seu rosto enrugado, a maquiagem estava escorrendo novamente – e justamente quando eu havia criado coragem para perdoá-lo também... – ela abaixou a cabeça e puxou um lenço do bolso, escondeu o rosto atrás dele. Stella Vazjekovzka não chorava nunca, não na frente de estranhos, principalmente de inimigos, ela não daria o prazer da sua fraqueza àquele detetive audacioso de araque. Mas estava dando. – ele morre! Assim! De uma hora pra outra! Porque eu o mataria, detetive? Eu o amava com todas as minhas forças! Mas fui a grande idiota orgulhosa da história, e agora é tarde demais...
De repente, aquele homem acusador, impassível e inflexível pareceu tão injusto, tão tolo, tão infantil. De repente, aquela velha amarga e sádica pareceu tão frágil, tão agredida, tão invadida, injustiçada. Você está sendo um canalha, detetive, está coagindo a pessoa errada, Stella definitivamente não é a culpada, pensou consigo mesmo.
- Alguém se passou por você naquela manhã, Stella – fez ele, dando a volta na mesa para pousar suas mãos sobre os ombros frágeis da velha senhora – alguém usou seu telefone para trocar mensagens com Lucas Lustat e marcar um encontro... E eu lhe prometo que vamos achar o culpado...
“Você está linda hoje, uma rainha nunca perde a majestade” – de: Lucas Lustat.
“Toda rainha precisa de um rei... demorei um pouco para perceber isso...” – de: Stella.
“Estou no meu apartamento agora. Sua bolsa está aqui comigo” – de: Lucas Lustat.
“Não saia daí, precisamos conversar. Qual o número do seu quarto?” – de: Stella.
“107” – de: Lucas Lustat.
“Estou chegando” – de: Stella.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Uma Gucci Baleada


“Estamos diante do maior escândalo da história das celebridades” – The New York Times.
“O mundo da moda parou” – The Sun.
“O tão esperado do ressurgimento da diva das passarelas, Stella Vazjekovzka, termina de forma trágica com o assassinato do veterano Lucas Lustat” – O Globo.
- Foram encontrados no aposento exatamente seis objetos confirmadamente não pertencentes à vítima: uma fivela de sapato sob a marca de Coco Chanel, uma pulseira em ouro assinada por Christian Dior, um relógio de pulso Dolce&Gabbana, um vestido Versace, e um par de sapatos sociais Armani. Os dois restantes, uma carteira porta cédulas da Gucci e um aparelho celular touch-screen assinado pela marca Prada também foram recolhidos e caracterizados como as principais pistas para o começo da nossa investigação. A vítima foi executada com dois tiros, um deles acertou a porta cédulas e o outro, a jugular de forma transversal, atravessando a língua e acertando o cérebro em cheio, Lucas Lustat morreu instantaneamente.
Fez-se silêncio. As canetas arranhavam ferozes seus blocos de anotações, mãos e dedos nervosos escreviam firmes e apressados, quase furando as folhas de papel, os flashes vindos das câmeras fotográficas eram separados por longos intervalos de tempo, como se esperando mais um pronunciamento, cautelosos, com medo de atrapalhar a coletiva de imprensa. Os burburinhos aparentavam o barulho de milhares de moscas zumbindo ao mesmo tempo sobre a carniça. Óculos de grau sendo ajeitados por dedos secos para cima de narizes oleosos. E então a gritaria recomeçou. O lounge da delegacia central de polícia de Paris estava lotado naquela manhã
- Detetive Mimieux! Detetive Mimieux! Eu tenho uma pergunta! Detetive Mimieux! – uma repórter baixinha loira e de terno vermelho pulava feito uma saúva nervosa escondida por óculos gigantescos de fundo de garrafa.
- Sim, fique à vontade – fez o Detetive Mimieux, maneando a cabeça com delicadeza.
Ela sorriu nervosa, pigarreou duas vezes e tirou o cabelo da cara. Estava respirando com dificuldade, pois um fotógrafo e um câmera estavam praticamente prensando-a contra a bancada dos chefes de polícia.
- Quem é a principal suspeita do assassinato do veterano das passarelas, Lucas Lustat? – arregalou os olhos com esperança. Ela ouviria o nome que queria ouvir? Teria sua matéria de capa? O Escândalo dos escândalos, com E maiúsculo, é claro, o caso mais intrigante e instigante da história da moda na face da terra.
- Temos nossos palpites, querida, pessoas não autorizadas estavam dentro do prédio no momento do assassinato, foram presas e estão sob custódia policial... Porém, não podemos descartar a hipótese de que Stella Vazjekovzka seja a culpada, tendo em vista que a porta do quarto estava destrancada no momento em da batida ao apartamento, contrariando o único álibi que ela tinha: sua neta que afirmara ter trancado a porta antes de sair.
A gritaria recomeçou ainda mais forte, os flashes agora vieram com mais intensidade, sem intervalos, um atrás do outro, cegando a bancada, transformando tudo em luz, luz branca incandescente e desnorteante, perturbadora como aquele caso pesado e de grande renome mundial que o detetive Mimieux tinha em mãos naquele momento. Era muita responsabilidade acusar a rainha das passarelas. E muita audácia também.
- Mas testemunhas afirmam que ela foi encontrada dormindo! – gritou um homem que estava ao fundo, pulando, tentando sobressair-se da multidão.
- Ela não estava dormindo, parecia estar em uma espécie de transe, surto, estava delirando até mais ou menos às oito da noite do mesmo dia. – ele riu para si mesmo, baixinho, como se sádico, um tanto sarcástico, levantou seu queixo outra vez para os repórteres que esperavam ansiosos pela continuação da réplica. Eles se inclinavam cada vez mais sobre a bancada, quase escalavam-na – os mais veteranos que aqui estão, acredito eu, acompanharam a vida de Stella Vazjekovzka no auge da sua juventude, também no auge da sua carreira, quando sua estrela mais brilhou, por tanto com certeza possuem ao menos uma pequena noção da relação amorosa complicada que os dois viviam e como pararam de se encontrar bruscamente alguns meses após se conhecerem, ou se reencontrarem, como dizem as más línguas. O fato é que ela tinha todos os motivos para matá-lo, para se vingar de uma possível traição sugerida pelas revistas sensacionalistas da época... Não posso ir além do que já disse aqui, sinto muito, tenham uma boa manhã.
Levantou-se da cadeira em meio aos flashes e aos gritos da multidão, pedindo para que ficasse, que explicasse, que lhes contasse, que desse mais detalhes, estavam famintos pelo caso, representantes das revistas mais sérias do mundo estavam ali, assim como também das principais revistas criadoras de caso de toda a Europa e das Américas também, os sensacionalistas, aqueles que aumentavam, que criavam, que repuxavam e distorciam as histórias até elas se tornarem verdadeiros “Godzillas” dos casos de polícia envolvendo celebridades. Mesmo assim, o Detetive Mimieux deu as costas para eles, ainda com o sorriso sarcástico no rosto. Faria de tudo para descobrir a verdade sobre Stella Vazjekovzka.

- Aline, você está sendo injusta com a sua avó, e sendo desrespeitosa para comigo! Cale-se, ou vou ser forçado a levantar a mão para você! Coisa que eu jamais fiz alguma vez! – o tom de voz de Stefan estava ficando cada vez mais alto. A Mansão Vazjekovzka estava em completa penumbra, escuridão total, até as luzes da propriedade foram apagadas para despistar os paparazzi inconvenientes, para enganar os repórteres que se esparramavam aos montes nos pés do portão da chácara, montando guarda, acampamento, como um exército esperando a hora certa de atacar.
O mar francês abaixo do penhasco lá fora estava calmo, sereno, e a lua cheia com a eterna luz azul, nervosa. A propriedade sob o nome de Vazjekovzka era gigantesca para ser uma chácara, era mais uma fazenda, porém raramente era chamada assim. Ao norte da França, próxima a uma cidadezinha calma e serena, era compreendida por campos verdes intermináveis onde os cavalos da família corriam livres e pastavam, um pomar de maçãs e outro de uvas, uma pequena granja onde Stefan criava aves raras, uma pocilga para os porcos e um curral para algumas vacas leiteiras.
- Mas a porta do apartamento estava destrancada! – Aline aumentou uma oitava na voz, mas logo corrigiu o erro e diminui a voz, chegando a ponto de rosnar bem baixinho – Deixei-a trancada e quando a polícia foi fazer a vistoria e a evacuação, estava simplesmente aberta, encostada! Ninguém mais tinha a chave exceto...
- Veronica – Stefan pronunciou o nome com acidez.
Iluminados apenas pela luz do abajur noturno voltaram seus rostos pálidos para uma velha senhora de 87 anos deitada numa luxuosa e suntuosa cama, embrulhada por dezenas de cobertas, com sua cabeça cinzenta perdida entre almofadas, travesseiros e algumas pelúcias. Um gato persa branco de cara cinza dormia sob o peito da figura semi-morta. Era Alejandro, o velho gato tataraneto de Mariella, estava quase para morrer também, como a sua dona, suas noites de sono costumavam durar muito mais que o normal, ambas as animações estavam se suspendendo pouco a pouco. O leve subir e baixar do peito rijo e liso da velha, levantando e baixando o gato, dava a certeza de que ela estava viva.
- Está preparada para o seu depoimento, Aline? – a voz de Stefan cortou a madrugada de novo – porque a polícia está interessadíssima em saber como a fivela do seu sapato foi parar no camarim de Lucas Lustat... Duvido que vocês só tenham discutido! Duvido muito!
- Maldita hora em que entrei naquele quarto... – cruzou os braços e fechou os olhos, franzindo a testa. Era puro estresse.
Mas Stella estava ali, deitada na cama, perdida entre lençóis, realidade e sonho. Suas noites de sono eram assim, perdidas; enquanto ouvia as vozes de filho e neta, a realidade se misturava com o mundo onírico e a deixava desnorteada, entre o sono e o despertar, sempre perdida. A palavra Gucci ecoava dentro de sua cabeça, martelando sem parar, lembranças incontáveis. Lembranças. Lembranças do dia em que Ivan Vazjekovzka e sua mulher sofreram o acidente de carro. O dia em que seu filho morreu. Seu neto era muito jovem ainda, muito pequenino, de modo que passou a tratá-la como “mãe” em menos de três anos.
A perda do filho único daquela mulher fora uma grande tragédia. Mas porque ela estava sonhando com aquilo? Porque ela estava vendo o rosto fino e andrógino de seu único filho enrijecido, duro, petrificado e inexpressivo pela morte outra vez, dentro daquele maldito caixão? Stefan estava no colo da mulher de 54 anos. Ah, como Stefan estava sorridente naquele dia. Dois aninhos ainda, pensou. Nem sabe se está no mundo. Brincava com as flores do véu negro que Armani desenhara exclusivamente para ela, um anjinho, o Cupido em carne e osso. O deus Eros recém-nascido.
E então os olhos. Sempre aqueles olhos, fixamente presos a ela, um olhar profundo e piedoso, ao mesmo tempo em que implorava, necessitava do perdão dela, do abraço dela. Mas não, aquele olhar jamais teria coragem de trazer seu dono até sua amada. Ela estava num momento difícil, jamais a abordaria daquela maneira, jamais se aproveitaria daquela fragilidade. Lucas, sempre Lucas. Nos eventos de moda, nas comitivas de imprensa, nos coquetéis de cortesia, nos lançamentos de livros, de CDs, DVDs, nas grandes estréias de cinema. Lá estava Lucas, sempre tão bonito e charmoso, a admirá-la de longe. Ela fingia que não o via, e ele, tolo, acreditava que estava sendo o mais discreto possível. Acreditava realmente que ela não o percebia, não o via planando feito uma pomba inoportuna por todo o lugar, batendo suas asas. Idiota, pensava Stella. Grande idiota. Nunca, nunca voltarei atrás. Você me feriu, não esperou por mim, você se entregou para o primeiro que lhe sorriu e lhe ofereceu a cama, você nunca valeu nada. Você é volúvel, não serve para mim. Não serve.
E Gucci. Aquela porta cédulas maldita. Stella havia perdido aquilo no teatro. Na verdade, fora roubada. Roubada descaradamente, de cima da pia do luxuoso banheiro do prédio centenário em São Paulo. E o mais engraçado de tudo: fora esvaziada! Seus pertences estavam espalhados pelo mármore; cartões de crédito, dinheiro, documentos, tudo. Aquilo a deixou indignada, mas ela calou-se. Calou-se diante daquilo porque ela sabia quem o fizera, sabia quem o fizera com certeza porque o vira de relance, passeando por lá com cara de paisagem. Lucas pensa que me engana, pensa que é invisível. Eu o reconheceria até em Marte!
Mas não, ela não o denunciaria, não daria queixa à polícia. Não era necessário. Não agora, que ele havia sumido, para ressurgir agora, tanto tempo depois, e morrer desse jeito, com a porta cédulas da Gucci que lhe fora roubada há anos atrás, agora baleada.
- Está pronta, Senhora Stella Vazjekovzka, para dizer a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade? – perguntou o detetive Mimieux.
Ela tirou seu véu preto. Armani de novo. O mesmo vestido, o mesmo véu, o mesmo pássaro preto empalhado no alto da cabeça, exatamente como estava vestida no dia em que Ivan morreu. Os olhos marejados, inchados e pesadamente maquiados.
- Eu sempre digo a verdade, Detetive Mimieux, sempre.

sábado, 23 de outubro de 2010

Querem Uma Dica?

Em Stella Para Sempre, tentem imaginar Stella como uma Meryl Streep BEEM mais velha e Aline como Mayana Moura, só pra ficar mais fácil de lidar com essas duas personagens intrigantes!

Sangue na Louis Vuitton


- Lucas – sussurrou Stella por entre seus lábios, repentinamente secos, formando um verdadeiro buraco escuro de espanto e nervosismo.
- Stella – sua voz rouca era embalada pelo ópio macio e vicioso de uma espécie de nostalgia melódica que soava como música para os ouvidos da velha senhora que lhe estendeu sua mão.
Por um minuto, iluminados pelo lustre dourado e cheio de cristais em forma de gota, entre os móveis elegantes do hall do hotel, em meio à veludo vermelho, arabescos e sofisticação, um conto de fadas se realizou de forma metafórica ali mesmo, em meio a homens carregando cenários e mulheres arrastando araras cheias de roupas, fotógrafos e iluminadores cuidando da ambientação e diretores de fotografia gritando ordens por entre os holofotes, como nos bastidores de um cinema. A princesa havia encontrado seu príncipe, e a sua espera de longos anos havia terminado ali naquele hall, em meio ao caos.
Ele levantou Stella com muito cuidado, os dois estavam muito próximos então, olhares invasivos para dentro, para as cachoeiras dos olhos que levavam para o âmago da alma. Respirações e batimentos cardíacos sincronizados, braços e pernas bambas, e as mãos, as duas mãos idosas, masculino e feminino unidos. Ainda surpresa, tentou esboçar um sorriso. Um misto memórias e lembranças, momentos e recordações, brotavam em erupção de dentro do mais profundo de Stella para fora, se espalhando pelo chão. Ela era um verdadeiro vulcão de sentimentos naquele instante. Eles formavam uma pasta disforme que aos poucos se espalhava pelo carpete abaixo dos seus pés.
- Você continua a mesma, é uma aparição onde quer que esteja, é deslumbrante! – ele ria. Ela continuava muda, séria, tentando esboçar sorriso ou cólera. Não sabia como reagir. Sabia que o encontraria, mas não sabia como reagir, não tinha ensaiado sua reação, aquilo não era o cinema, era a vida real, aquele momento não seria registrado em fotografia. Não ficaria congelado para ser revivido. Ela tinha que dizer alguma coisa.
- Vovó quem é esse homem? – Aline surgiu, como se das sombras, surpreendendo aos dois. Stella quase caiu de volta à poltrona, tirada à força de seu sonho enquanto acordada, trazida de volta a realidade pela voz aguda da neta, que tinha um toque de dúvida e reprovação como tempero salpicado por cima. Era o tom de voz que um filho usaria com a mãe ao descobri-la em intimidade com algum outro homem que não era o pai. Era o tom dos ciúmes.
- Oh, meu Deus... Querida, este é Lucas... Seu tio Lucas, de quem tanto ouviu falar, mas nunca viu de perto... – ela sequer tirou os olhos do velho.
Aline olhou de um para o outro com sua fina testa franzida em desconfiança. O velho sorria para ela de um modo encantador, mas isto não foi o suficiente para quebrar seu escudo.
- Vamos vovó – tomou a mão dela das mãos do homem de forma brusca e repentina – o camarim já está pronto para recebê-la – fez um gesto com a cabeça para o velho e saiu levando a avó a tiracolo.
- Está é Lucas, querida – continuou repetindo Stella, com o olhar vazio e a boca ainda entreaberta – este é Lucas. – o som dela se perdendo a cada vez que o repetia. Como se desperta pela segunda vez, procurou por algo a tiracolo – espere um instante! Minha bolsa! Minha bolsa ficou na poltrona!
- Depois eu peço a Veronica que a traga até o camarim – Aline tinha a voz dura e inflexível, parecia um robô falando. Ou um soldado.
- Mas é uma Louis Vuitton! Eu...
Tarde demais, já haviam entrado no elevador.
Enquanto subiam, o papel se invertia: Stella agora era a neta e Aline mais parecia a avó. Com a expressão marmórea e dura por trás dos óculos escuros redondos gigantescos que escondiam seu rosto, Aline permanecia parada feito uma estátua com as mãos cruzadas sobre a saia enquanto Stella, a rainha da noite tinha o rosto espremido contra o vidro, com todas as palavras prontas, saída direto do forno de seu cérebro para serem despejadas sobre Lucas em alta temperatura. Porém agora os dois estavam distantes, separados por metros de altitude, comunicando-se pelo olhar. Stella com os olhos esbugalhados e cintilantes. Lucas com um sorriso encantador, o seu sorriso encantador por trás dos óculos meia-lua que agora usava. Parecia um príncipe. Ele era o seu príncipe.
- PORQUE ALINE, POR QUÊ? – berrava Stella. – PORQUE EU MESMA ME PRIVEI DE SER FELIZ? PORQUE EU TIVE DE DISPENSÁ-LO QUANDO EU MAIS PRECISAVA DELE? PORQUE FUI TÃO ORGULHOSA E PURITANA? E DAÍ SE ELE ANDOU SE ESFREGANDO COM O VIADO DO BLACK CHERRY?! ELE AINDA ERA O MEU LUCAS E PERTENCIA SÓ A MIM!
- Acalme-se vovó, por favor, o hotel inteiro deve estar ouvindo você a esta altura. – Aline havia retirado seus óculos escuros, revelando uma maquiagem preta pesada por detrás deles. Parecia mais séria e mais adulta do que nunca.
- EU SOU A MAIOR PUTA DA HISTÓRIA DAS CELEBRIDADES, MEU PASSADO É PODRE COMO UM RATO MORTO, E EU TIVE A HIPOCRISIA AUDACIOSA DE MANDAR PASTAR O AMOR DA MINHA VIDA PORQUE ELE TEVE UM ROMANCE HOMOSSEXUAL?! EU FUI UMA GRANDE IDIOTA!
- Pare de gritar vovó! Pare de gritar! – rosnou Aline por entre seus dentes de tubarão, afiados e pontiagudos, tão brancos quanto pérolas – o hotel está cheio de assistentes de fotografia e jornalistas autorizados! Eles vão ouvir tudo o que você está dizendo!
- QUE OUÇAM! QUE OUÇAM! – retirou o casaco e lançou-o com violência por sobre a neta, quase a atingindo. Retirou seus sapatos e atirou contra a parede do quarto com muita força, derrubando um quadro, puxou a barra do vestido e amarrou na altura dos joelhos, caminhando a passos firmes e decididos em direção à porta. Aline meteu-se em sua frente, impedindo a passagem.
- Aonde você vai?!
- Vou buscar a minha bolsa!
- Não, nada disso! Fique aqui! Eu mando Veronica buscar! – fez Aline, empurrando sua avó para trás com delicadeza, tentando afastá-la da porta.
- Mas EU quero ir lá! A bolsa é minha! – rugiu a velha.
- Você não quer a bolsa! Você quer falar com o Lucas! Eu sei que quer! Você não vai falar com ele! Você o odiava até alguns dias atrás! – ela trancou a porta e escorou-se nela.
- Porque ele havia se entregado sem pensar duas vezes para aquele maldito Black Cherry! – rosnou a velha avançando para cima da neta tentando alcançar as chaves nas suas costas.
- Então! Ora vejam só! Ele lhe traiu, ele não esperou por você! Ele não lhe ama de verdade!
- É, mas EU o amo e não tenho tempo a perder! Não importa o que ele tenha feito! – fez Stella, iniciando um choro doloroso e soluçado, agudo e intenso, poderoso, como se toda a sua tristeza estivesse escorrendo para fora com toda a força. Caiu sentada no chão, feito uma velha de asilo, desamparada, sozinha, sem família. Aline imediatamente a abraçou, mas foi empurrada para trás – saia de perto de mim! Sua ingrata! Você não sabe o que esse homem representa para mim! Eu passei anos e anos tentando digeri-lo, ruminando a existência dele, o que ele tinha representado para mim e o que ele fizera, como ele havia me traído! Mas só agora, vendo-o de perto percebi que estou velha! Praticamente morta! Meu brilho todo está se apagando, eu preciso de muita maquiagem para sair em público, antes eu não precisava nem de lápis de olho, meus cílios sempre foram grossos! Não posso mais me privar de ser feliz, não posso! Eu me recuso!
Ela se debateu feito uma criança no chão, privada de seu brinquedo.
- Vovó! A sua coluna! A sua coluna! Pare com isso! – Aline tentava segurar os pés da velha. Levantou-se. – fique aqui! Você não está em condições de ver ninguém, sequer de sair daqui! Vou buscar seu remédio para o coração. – puxou o celular e discou – Veronica, me encontre no elevador com a bolsa em mãos. – e desligou. Saiu do quarto às pressas e trancou a porta atrás de si, deixando sua velha e frágil avó, ferida emocionalmente, jogada no chão, afogando-se nas próprias lágrimas enquanto chamava por Lucas e chutava a porta. Não, ela não ligava para as dores agudas da sua hérnia, sua coluna gritando, seu coração oscilando, ela poderia morrer ali naquele chão, jogada e sem amparo. Mas naquele momento ela teve forças para levantar-se e deitar-se. Seu amor por Lucas a manteria viva até Aline voltar com os remédios.
Ela não soube exatamente o tempo em que passou jogada na cama, em um estado profundo de letargia, entre a realidade e o sonho, as dores agudas dando pontadas ferinas de cima abaixo por toda a extensão da sua coluna, fazendo-a tremer, estremecer de dentro pra fora. Enquanto as agulhadas a faziam gemer, enquanto seu coração descompassava e depois entrava em ritmo de novo, a visão de seu Lucas, eternamente jovem em sua memória lhe voltava, o passado e o presente se misturavam, ela o via como há anos atrás, deitado nu sobre a cama.
Mas não era a cama do hotel vagabundo onde eles passaram sua primeira noite, não, era a cama do hotel de luxo onde ela se encontrava agora, em um dos majestosos quartos assinados por Christian Lacroix, no Petit Moulin. Hotel onde a Vogue Paris estava organizando o seu ensaio fotográfico, talvez o mais comentado da história da revista. As curvas delicadas do corpo jovem de Lucas se misturavam às curvas desenhadas nos papéis de parede antigos, aos brocados, a textura da pele deliciosa e jovial se misturava ao toque do couro e do veludo ali utilizado, com um dedo lúgubre do barroco. Visões de um Lucas novo e um Lucas velho, lado a lado no hall, de braços dados, esperando por duas Stellas, uma nova e uma velha, que vinham feito rainha e princesa para o encontro. Uma dança. E depois a cama, e então vozes.
Ela abriu os olhos devagarzinho, ainda entre o sonho e a realidade. Viu uma Veronica chorosa e nervosa, viu uma Aline desesperada cheia de lágrimas nos olhos, viu homens de capa preta com lanternas em punho, viu cães invadindo seu camarim, mas não podia se mexer, não queria se mexer mesmo que pudesse, não queria acordar.
“Encontramos uma bolsa Louis Vuitton ensangüentada no local, chefe” gritou um aparelho na cintura de um dos homens. “Policiais”, pensou Stella. “Sangue na Louis Vuitton”, pensou ela de novo. “Não toquem em nada! Os detetives já estão subindo!” respondeu o homem, após tirar o aparelho da cintura e apertar no botão que fez a luz vermelha de transmissão acender.
- Não toquem nela! Ela precisa tomar os remédios! Ela estava passando mal há meia hora atrás! – berrava Aline, se debatendo feito um animal no braço de um policial gigantesco.
Um homem abaixou-se ao lado da cama, abriu um dos olhos da velha com o auxilio de uma luva e iluminou a pupila com uma pequena lanterna de pulso. Ela retraiu-se, e tudo voltou com um choque agudo para o mundo real. O baque. Stella levantou-se sobressaltada.
- O QUE É ISSO? O QUE ESTÁ ACONTECENDO? – a dor na hérnia voltou mais forte. Ela gritou.
- Senhora Stella Vazjekovzka, sou o Detetive Mimieux, da Polícia Francesa – apertou sua mão – estamos esvaziando o prédio e precisamos que venha conosco.
- Por quê? O que aconteceu?! O que está acontecendo?! – ela ainda gritava nervosa, atordoada pela surpresa, pelas dores.
- Houve um assassinato, Senhora. Infelizmente devo informar que Lucas Lustat está morto, e precisamos do seu depoimento, assim como o da sua neta e o da sua empregada.
Os olhos da velha percorreram o quarto em um milésimo de segundo, dando de encontro com o rosto de porcelana de Gabriela estático do outro lado da porta aberta onde outros policiais esperavam.
- Mas o que você está fazendo aqui?! O que vocês estão fazendo no meu quarto?! – ela ainda não estava entendendo, era uma informação difícil de ser processada – não toquem no meu casaco! Não toquem! Tirem as mãos das minhas coisas! Tirem as mãos de mim! – ela estava sendo carregada para fora de seus aposentos, não sentia mais as pernas, mal se sentia viva. A inconsciência veio muito rápido, as coisas foram sumindo na velocidade da luz até que Lucas ressurgiu, e o baile do passado e do presente recomeçou, outra vez.