Bem vindos à minha fábrica de sonhos!
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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Draconius Nefastus 2 - Intro (Cena Perdida)



O trecho de relatos abaixo foi recuperado após um incêndio criminoso que ocorreu na noite de 29 de Abril de 2010 no prédio da Biblioteca Nacional Franco-Italiana.
Após uma análise minuciosa do documento encontrado, constatou-se que tal lauda tratava-se da página perdida pertencente ao dossiê Umbrella, parte da investigação histórica que possui como principal interesse desvendar a vida secreta e as vivências do Ex-Repórter e Antropólogo Christopher Umbrella, falecido em 30 de novembro de 1998.
Na seguinte lauda, Christopher Umbrella relata, já em seus últimos dias, os acontecimentos que sucederam no espaço de tempo entre o interior da barraca na aldeia dos nativos e a porta de entrada do templo no alto da pirâmide.



(...) O hediondo guincho que viera de fora parecia ter origem num tipo de atrito metálico, lembraria unhas arranhando um quadro negro se não parecesse tão orgânico e animalesco, como o grasnar territorial da coruja branca de igreja. Ficamos completamente apavorados e sem reação naquele momento, estávamos em terras desconhecidas, cercados por selvagens inconstantes que eram controlados por uma mulher branca contra quem eles poderiam se voltar a qualquer momento!
No tempo em que passamos ali, protegidos, dentro daquela oca feita de couro e madeira, ouvimos muitas coisas da boca de nossa anfitriã Rose, que parecia há muito não conversar de verdade com alguém que a entendesse. Ela nos contou sua história desde o princípio, nada do que vó Darcy não tinha nos referenciado anteriormente, exceto, é claro, pela riqueza nos detalhes e no modo sensacional como Rose nos passava o que lhe havia ocorrido.
O motivo de os nativos não a terem levado em oferenda a sua deusa-morcega anteriormente era o fato de ela não ser mais tão jovem e muito menos virgem, além, é claro da data em que ela chegara ali: estava muito longe do solstício do despertar da deusa, no dia 6 do mês 6 do ano 6 daquele louco calendário seguido por aquelas pessoas. Calendário este que me recusei a tentar compreender, embora tenha passado meus olhos por alguns desenhos daquele tablete de argila redondo monocromático que me lembrava muito os calendários astecas e maias. Quem se ateve a interpretá-lo foi Fábia, o tempo em que passou na cabana foi todo dedicado à leitura dos simbolismos ali contidos.
Após muita conversa, conseguimos convencer nossa anfitriã a nos guiar numa espécie de tour através das ruínas daquela cidade tão moderna para um lugar tão rústico quanto aquele. Sairíamos pela manhã, no dia seguinte e voltaríamos ao final da tarde com o pôr-do-sol, para que não nos tornássemos eventualmente, comida das feras que habitam aquelas matas.
Passamos a noite naquela cabana, lutando contra o sono e contra o frio enquanto os marinheiros do capitão Maurice bebiam algo nativo à beira da fogueira lá fora. Rose parecia ter se adaptado muito bem àquela vida, costumava dizer que perdera a noção do tempo em que estava vivendo ali entre os selvagens, e muito menos se lembrava do momento em que eles a escolheram como um tipo de “cacique”. Foi algo que aconteceu gradativamente. Segundo ela, primeiro eles aprenderam a respeitá-la e depois a ouvi-la, e quando a anciã morreu – a matriarca da tribo de quem Rose cuidava – ela entrou em seu lugar como líder.
Na manhã seguinte partimos muito cedo, o sol mal havia acabado de nascer. Pietro tinha sua câmera a postos com a ajuda de Don Hills que por gentileza era o portador dos rolos de filmes que o cineasta havia trazido, e do qual ele não desgrudava. Acabei me detendo tanto aos detalhes externos dos acontecimentos que esqueci de relatar as ações de Pietro quanto representante da sétima arte: ele estava filmando desde o interior do navio, havia filmado a conversa com vó Darcy e a travessia dos canais em direção a esta terra perdida selvagem. Segundo ele, estávamos fazendo parte de algo que entraria para a história, estávamos desbravando o desconhecido como nossos colonizadores e registrando esse momento crucial da linha temporal num documentário que renderia milhões de dólares e estatuetas douradas.
Foi debaixo desta ladainha que adentramos na avenida principal da cidade perdida. E devo dizer-lhes que fiquei espantadíssimo com o absurdo que aquele lugar era. Sua arquitetura era algo muito mais que contemporâneo, era totalmente futurística, o que aumentava as suspeitas de Ray Ann sobre aquele lugar ter sido construído por alienígenas. Os prédios cresciam a alturas inacreditáveis, as ruas pareciam já ter sido pavimentadas em algum período perdido da história. E ora, vejam só, haviam postes que formavam semi-arcos sobre nós, e no fim de cada um deles havia uma lâmpada, quase sempre quebrada ou já inexistente.
Apesar do modo como a tecnologia daquela cidade abandonada saltava aos nossos olhos e ia além do que já havíamos visto em qualquer outra parte do mundo, não havia tipo de veículo algum estacionado no que parecia ser um acostamento desenhado no chão próximo às calçadas milimetricamente calculadas. Tudo na arquitetura daquele lugar era muito aerodinâmico, as curvas quando não muito bruscas e redondas eram bastante quadradas e retas. Se lhes interessa saber, parecíamos estar caminhando por uma Nova Iorque de mil anos no futuro, que por algum motivo fora abandonada e engolida por uma selva Jurássica. Um contraste e tanto entre o futuro e o passado.
A câmera não captava muita coisa, tudo na nossa frente era neblina e brancura, o frio era intenso também, os cipós e as plantas trepadeiras que se enroscavam nos postes e nas construções pareciam serpentes malignas, e as plantas tropicais de um verde vivo quando não muito colorido e saltado aos olhos tinham as folhas espalmadas e tão grandes quanto um guarda chuva aberto, esticavam-se para fora do solo na ponta de caules rígidos e lustrosos. Após algum tempo de caminhada, grande parte daquele mundo branco foi espairecendo-se revelando a verdadeira selva que crescia entre os prédios e as casas, até mesmo no teto das construções. Palmeiras de quase trinta metros de altura estouravam as calçadas e faziam sombras enormes no chão. Sumaúmas e Imbaúbas arrebentavam o concreto entre as paredes e até mesmo no meio das avenidas. Era um mundo tecnologicamente avançado e planejado sendo engolido pela fúria da selva tropical.
E isso porque não me detive ainda a ressaltar a vida selvagem que ali habitava. Os animais saíam das suas tocas aos poucos; curiosos ou apenas de passagem. Bandos de aves coloridas de bico curvo passavam voando sobre as nossas cabeças fazendo algazarra tremenda. Araras, papagaios, periquitos coloridos. Eram poucas as aves desconhecidas aos meus olhos, mas quando elas surgiam me faziam ficar admirando-as durante longos minutos, faziam alguma alusão às aves do paraíso na Oceania. e imaginem vocês o susto que nossa equipe levou ao encontrar face a face um bando de aves colossais, quase três metros de altura, de uma forte cor azul anil cintilante, bico preto e olhos vermelhos, coroadas por um penacho cor de rosa que abriam e fechavam como as asas de uma borboleta.
Os nativos que nos guiavam apenas riram da nossa cara. Aquele bando de seres estranhos eram inofensivos. As feras mesmo não habitavam o centro da cidade (ou o que havia restado dele), elas habitavam as profundezas da mata atrás das pirâmides, depois dos grandes monólitos de pedra, quando os prédios e as construções já são escassos e a mata é mais fechada. Ali onde eles estavam era muito seguro, pelo menos enquanto não anoitecia.
Naquela manhã eu vi de perto tamanduás do tamanho de búfalos, Antas maiores ainda, porcos do mato gigantes e brancos (mas não albinos), aves de longos pescoços e caudas vistosas e brilhantes, vi também todo o tipo de serpente que você pode imaginar. Vi de perto a origem do mito de Quetzacoatl, realmente há uma serpente com bico de águia e parte do corpo emplumada, mas ela não é tão gigantesca quanto reza a lenda, parece um mini lagarto, um dragãozinho. E por falar em répteis, me apavoraram o tamanho dos crocodilos que habitavam duas enormes lagoas de águas verde-esmeralda localizadas não muito longe da entrada do vilarejo dos nativos, num enorme declive de terreno que mais lembrava a abertura de um fosso gigantesco.
Ray Ann perguntou à Rose se o povo do qual ela agora era líder chegara a viver naquela cidade tão grande. Segundo ela, havia pouco crédito, mas algumas lendas antigas falavam que os ancestrais de algumas famílias que viviam no vilarejo à beira do rio chegaram a morar na grande cidade antes da decadência, mas isso provavelmente acontecera há muitos milhares de anos. Rose arriscou a teoria de que talvez uma doença ou uma guerra tenha dizimado o povo que vivia na cidade, e os sobreviventes vieram a se tornar selvagens futuramente em meio à anarquia que havia se instaurado.
Continuamos andando, passamos o dia catalogando espécimes de plantas e animais nos cadernos, batendo fotos e analisando a base estrutural daquela cidade esquecida pelas eras e engolida pela floresta. Nossa curiosidade nos levou longe demais, então chegamos a um ponto em que os nativos recusaram-se a seguir adiante, o mesmo ponto citado anteriormente, onde surgem os monólitos de pedra incrustada de rostos demoníacos, onde a mata começa a fechar e onde não se sabe diferenciar noite de dia. Esse nosso erro tornou-se fatal quando por uma falha entre os ramos acima das nossas cabeças percebemos que a luz do sol já era escassa e o céu havia tomado uma tonalidade rosada, onde algumas estrelas já despontavam.
Acendemos tochas e lamparinas para seguir adiante escoltados por nossos bravos marujos tendo como guias a anfitriã Rose e mais dois homens de sua tribo que se dispuseram a nos levar mais adiante, para nos mostrar o que se escondia após o corredor de arcos de pedra naturais (algo incrível e sensacional). Mal sabíamos que tudo aquilo se tratava na verdade de uma armadilha: poucos passos adiante, feras enormes saltaram das sombras, nos surpreendendo em meio à escuridão pegando-nos completamente desprevenidos. Eram seres humanoides com toda a certeza, senti braços musculosos e mãos de macaco me puxarem pelos membros enquanto me debatia e esfaqueava o escuro com uma pequena adaga. Quase todas as tochas foram apagadas por um vento misterioso que abateu-se na expedição poucos momentos antes daqueles seres saltarem do alto das árvores, as lamparinas que restavam revelaram a pelagem dourada e as faces disformes das criaturas que urravam e grunhiam como porcos.
A luta foi intensa, mas ao que parecia eles não pretendiam nos devorar ou algo parecido, mas sim nos capturar! Eu não sabia quem continuava vivo ou quem havia morrido, mas ouvia muito bem a voz de meus companheiros de viagem gritando pelo meu nome enquanto eu respondia a eles. Fomos amarrados a um cipó firme e arrastados à força como escravos até os pés do que parecia a silhueta de uma montanha contra a luz do lusco-fusco.
“UM TEMPLO!” gritou Pietro. “É UMA PIRÂMIDE! UMA ENORME PIRÂMIDE!” gritou Fábia. E realmente o era. Minha vista foi desembaçando aos poucos e acostumando-se à claridade fora da mata fechada pela qual estávamos caminhando havia algumas horas. Puxei meus costumeiros óculos de aviador que estiveram aquele tempo todo pendurados no meu pescoço para os olhos; eles amansavam a fera do astigmatismo que reside em mim, de modo que agora podia ver muito bem do que se tratava aquela construção diante dos meus olhos.
Era uma pirâmide afinal, maior do que qualquer outra construída por mãos humanas, lembrava em sua estrutura as construções astecas e maias. Seus degraus eram colossais, como uma arquibancada, parecia terem sido feitos para a escalada de um gigante! As feras de pelagem dourada nos lançaram aos pés da pirâmide, puseram-se de quatro e começaram a uivar para nós. Completamente sem saída, não vimos alternativa senão guiar as pernas nervosas degraus acima na maior velocidade que poderíamos exprimir, enquanto desatávamos os nós frouxos do cipó que nos prendia uns aos outros, sempre olhando para trás, certificando-se de que os animais não mais nos seguiam.
A subida estava durando muito, a pirâmide realmente era muito alta, e a escuridão era a nossa rainha e também o manto que nos cobria, não enxergávamos um palmo diante dos nossos narizes. Poderíamos ser atacados a qualquer momento de qualquer direção! Para completar o desespero, os uivos, rugidos e gorgolejos que vinham da mata aos pés da pirâmide só nos deixava mais apavorados, alguns estavam em lágrimas orando e pedindo a Deus por misericórdia. Eu era um desses. Em silêncio, mas era um desses. Aquelas feras poderiam estar subindo naquele exato momento atrás de nós, atraindo a atenção de tantas outras que também estariam agora em nosso encalço! Nesse ritmo de espasmos de corrida, chegamos às portas do templo, e fomos recebidos por misteriosas tochas acesas na entrada (...)


Finalizam aqui as descrições presentes na lauda encontrada.







domingo, 15 de novembro de 2009

Draconius Nefastus!

Finalmente, a ilustração que todos pediram!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Quinta e Última Parte de... DRACONIUS NEFASTUS!

Christopher Umbrella,



Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 18 de Novembro de 1996.


E aqui em meu leito de morte, contarei a vocês o que aconteceu a seguir...


Os vultos escuros que nos cercavam ficaram para fora, e nós ficamos ali dentro sem saber o porque de as feras não nos terem atacado e devorado. Se é que realmente eram feras, o que se mostrou mais tarde não o ser, tratavam-se de nativos locais usando roupas de palha e folhas de imbaúba da cabeça aos pés, nos fazendo reverências e recepcionando a oferenda, eles acreditam que a imbaúba tem propriedades mágicas capazes de afastar a fome sexual voraz de Abim’raso. Assim adentramos no templo e vimos todos aqueles símbolos nefastos e repugnantes desenhados na parede e descritos em uma linguagem de runas e hieróglifos nunca antes vista nem por Ray Ann nem por Fábia. Ray Ann disse que aquilo se assemelhava muito a uns escritos encontrados em chapas de metal desconhecido no gelo da Groenlândia. Não sei porque, aquilo me arrepiou.


Logo o teto começou a tremer, e fomos adentrando naquele túnel apertado e extenso até que a escuridão abriu-se numa câmara, um sarcófago repleto de morcegos que voavam em baderna para todos os lados. Colunas grossas sustentavam o teto invisível graças a altitude em que se encontrava. Ray Ann fez questão de parar a exploração para analisar os escritos das colunas macabras. Eram os mesmo do início do túnel, só que mais limpos e mais compreensíveis por ela. Havia muito de egípcio ali, e um pouco de escandinavo muitíssimo antigo. Havia simbologia israelita e árabe e hindu e uns traços poucos de sânscrito, aquilo dava dor de cabeça, segundo ela, era um bailado, uma batida, uma vitamina feita de todas as línguas mais antigas do nosso universo.


E havia mais desenhos surgindo, principalmente no chão. Havia círculos dentro de círculos e imagens humanas tocando tambores, havia cenas de sacrifício usando um facão sagrado em forma de meia lua e cenas de rituais sexuais que me recuso a descrever. O ato sexual representava algo grande e poderoso para aquele povo, algo capaz de repelir a fêmea maldita Abim’raso que causou a ruína daquele povo. Ahá! Gritou Ray Ann. Ela achara o que procurava: arte rupestre descrevendo a criação da cidade que fica aos pés da pirâmide!


E eis que ela confirmou o que vinha dizendo desde a primeira vez em que nos encontramos em Little Italy, e Don Hills, tão calado e quase invisível durante todo este tempo da expedição vibrou junto a ela iluminando a coluna que tinha gravada a chegada de seres alienígenas em naves espaciais muito estranhas, uma forma geométrica nunca antes vista nem no nosso mundo e nem em qualquer outro mundo existente, uma forma geométrica única e impossível, perturbadora e capaz de dobrar a vista daquele que tenta decifrar as suas linhas e os seus contornos, a coisa mais horrenda que já vira até o momento. Pasmem: a cidade já estava lá quando os extraterrestres chegaram! Aquilo era perturbador demais, alguns marujos já enlouqueciam e balbuciavam frases desconexas e misturadas, quase ditas em línguas mortas. Os olhos reviravam e as línguas caíam para fora da boca. Alguém teve uma convulsão próximo de mim e caiu aos meus pés se vomitando.Eu me afastei aturdido admirando as imagens enquanto o marinheiro morria rapidamente como se tivesse ingerido um forte veneno, os outros choravam e se benziam enquanto um deles levava as mãos aos ouvidos, tapando-os e gritando enquanto fazia uma dança louca e frenética com a cabeça. Olhávamos aquilo tudo sem reação alguma, estávamos pasmos demais para nos afetarmos com aquela crise momentânea da equipe.


Foi então que eu também ouvi a voz, baixa e sibilada como se dita por uma assombração, quase rouca, mas macia, falava português mas esquecia-se do plural das palavras e misturava dois ou mais verbos numa língua só dela. Era apavorante. Enquanto isso o teto continuava a tremer, as estruturas balançavam como se um exército inteiro estivesse marchando acima das nossas cabeças, as batidas eram ritmadas seguidas de uma batida unificada forte que fazia doer os tímpanos, como se batessem troncos no chão. Eu me arrepiava cada vez mais a cada segundo que passava. Continuamos em frente, ninguém tinha coragem o suficiente para voltar, e arrastando os dois mortos conosco chegamos ao fim da linha, uma parede gigantesca que segundo Ray Ann, de olhos brilhantes, vibrando com suas descobertas estarrecedoras e pertubadoras, tinha desenhada em arte rupestre toda a gênese daquele povo, como eles acreditavam que o mundo havia surgido. Ela quase gritava de emoção, felicidade, havia feito a descoberta do século, um povo totalmente diferente de tudo o que outros arqueólogos ou antropólogos já chegaram a descobrir e estudar, não se encaixava em nada conhecido nos dias atuais.


Ali dizia que o universo fora criado por três anciãs que viviam no vazio até que a cabeça de um alfinete pertencentes à elas estourou gerando o universo. Assim que criou a terra, veio, montada numa bolsa e tendo seu consorte às costas a deusa Abim'raso, para reinar por toda a eternidade. A primeira anciã desceu ao mundo e gerou mil feras, a maioria delas vive solta pelas florestas até hoje, e do deserto vieram as três múmias que tudo sabem e tudo veem: Yneéarj'sos, Svialon'tisos e Ailir'ema, marionetes da grande Klaàpacthu e suas servas leais. A segunda anciã casou-se com a múmia Svialon'tisos e juntos construíram um império no sul da América do Sul, um país chamado Ess'ébetë. Abim'raso e seu consorte Lo'ecdras criaram os primeiros humanos, que juntos construíram a Cidade Sagrada de C'maapã, fadada a viver coberta por um eterno véu que isola-a de tudo e de todos, deixando-a a parte das leis do tempo e da evolução.


Após isto, Abim'raso viajou para o oeste e de lá nunca voltou... Estas inscrições eram mil anos posteriores às inscrições nas paredes da entrada do templo. Minhas pernas já fraquejavam e minha boca já estava seca, foi quando eu senti o sangue descendo pelas rachaduras dos meus lábios. Não havia dúvidas que aquilo era ação demoníaca como nenhuma outra. Desmaiei então, e ao me acordar percebi que estava amarrado, e que todos os meus outros companheiros também estavam amarrados e toras de imbaúba também. Tochas enormes iluminavam totalmente aquele pátio circular interno da pirâmide sustentado por colunas tão grossas quanto as anteriormente vistas por nós na colossal câmara de entrada. A agora eu pudia ver a fonte dos tremores e das batidas que sacudiam a pirâmide de ponta a cabeça. Os nativos locais estavam dançando de braços dados em círculo enorme, completamente nus, batendo os pés com força no chão, sacudindo tudo. Dentro do grande círculo formado por eles havia outro menor, mas os escolhidos não tinham os braços dados, dançavam independentemente a uma certa distância uns dos outros, agarrados a grossos troncos de imbaúba que eram batidos no chão a cada três passos dados por eles. O círculo externo era formado só por mulheres enquanto o interno era formado só por homens.


No alto de um pedestal estavámos nós, agora completamente despertos, atrás de nós havia uma estátua, a maior estátua que eu já vira em toda a minha vida, nem se comparava com o buda asiático em tamanho, era realmente incrível e imensa, maior do que um prédio, o que me fez refletir sobre como aquilo fora parar dentro de uma pirâmide. Aquele era o ritual do despertar da besta, e nós éramos a oferenda! Me debati sem sucesso, os outros também lutavam para se desamarrar. Capitão Maurice estava morto em uma mesa de pedra, o sangue da sua jugular escorria para o jarro que uma garota branquela suja de cabelos escuros e compridos segurava logo embaixo. Assim que o jarro ficou cheio, ela escalou feito uma jia à escada que levava até o pedestal, e fez marcas estranhas com o sangue no chão ao pé da grande estátua às nossas costas, ou seja, aos nossos pés. Não podia ver muito da estátua, mas sabia que ela estava lá, atrás de mim pois via braços e pés do que talvez fosse uma criatura.


O barulho da dança se intensificou, e os tambores ribombaram mais fortes. A garota magricela nua fazia a dança mais frenética, estranha e nojenta que eu já vira até então, sacudindo o corpo todo como num ataque de epilepsia, um choque ou uma convulsão, seus olhos estavam completamente revirados, era assustador. Foi então que dois nativos deitaram os troncos em que nós estávamos amarrados, de modo a ficarmos diante da estátua, e agora eu pude ver do que se tratava. Era a imagem de Abim'raso de boca aberta, esculpida na rocha do modo mais fiel e grotesco que puderam fazer-lhe. O corpo raquítico e magricela. Os braços finos abertos esticando as membranas que a criatura utiliza para voos rasantes, seus olhinhos apertados de peteca e seu narizinho horripilante empinado. Estava de pernas cruzadas, seus pés pontudos e sem dedos cutucavam o vazio enquanto tochas ardiam em suas mãos. Sua boquinha dentuça estava aberta, como se rugisse, mas não deveríamos nos preocupar com o que saísse daquela caverna, e sim da caverna de baixo, que simbolizava a sua grotesca genitália.


Pasmem: a genitália da criatura (ou a gruta), tinha a mesma geometria doentia das naves espaciais desenhadas nas colunas da entrada! Eu me vomitei.


Foi então que a garota (supostamente uma virgem). Se lançou para dentro da gruta de boa vontade, e de lá vieram seus gritos e esguichos de sangue. A música e a batida pararam no mesmo instante. Os nativos se ajoelharam e abaixaram as cabeças. E ela surgiu.


Meu Deus, parece até que eu a estou vendo de novo, aqui, no meu escritório velho e sujo, surgindo das sombras toda aberta feito um gato raivoso, me atazanando outra vez com a sua imagem pavorosa! Meu coração até para de bater, e o meu ar se recusa a entrar! Tanto que é o pavor! Ai, que horror! Tenho até repulsa e medo em descrever o que nós vimos...


Era uma humana, uma mulher humana, uma menina humana normal aparentemente. Surgiu da gruta feito uma aranha tarântula horrível, se contorcendo toda, rodando a sua cabeça a 360º no pescoço. Sua pele era cor de terra, e seus cabelos eram da cor da palha, e era tão ridícula e pavorosa quanto a imagem construída em sua homenagem. Entre as suas pernas havia um vão, um espaço, uma falha enorme, que as fazia formar um verdadeiro arco. Era magra, apenas osso e pele, suas veias azuis saltavam para fora. Seus olhos estavam mais do que arregalados, havia acabado de acordar do seu sono de seis anos e ainda limpava os beiços da sua primeira refeição. Segundo as escrituras das paredes, ela iria se reproduzir após a sua primeira refeição, uma virgem, e assim que gerasse a próxima criatura, devoraria-nos como nutrição para a sua cria! Eu lutava contra as cordas violentamente, chorava feito uma criança e gritava feito um porco antes do abate.


A fera maligna soltou macabro grito antes de lançar-se aos ares sobre as nossas cabeças usando suas membranas pegajosas como asas para atracar-se ao tronco da imbaúba, um tronco especial, o mais grosso de todos, preparado unicamente para ela pela tribo. Nunca me esquecerei do som de seu grito, nem que eu viva mil anos. Foi algo que eu realmente não saberia descrever mesmo se fizesse todas as faculdades de letras e literatura existentes no nosso país, em outro país ou em outro mundo. Só sei dizer a vocês que lembra sucção, ou o gemido de mil demônios juntos.


Agarrada ao tronco ela dançou dentro do círculo formado pelos nativos, soltando gritos e mais gritos horrendos, seus olhos revirados e seus dentinhos de cavalo mordendo a madeira. Apesar de todo a maldição que representava, não chegava a um metro e meio (de pura maldade se vocês querem saber). Foi no tempo da dança da fertilidade que surgiu Don Hills, Ray Ann e, por incrível que pareça, Rose Nilde, que afirmou estar amarrada lá há tanto tempo que nem fazia ideia de como a levaram até ali. Don Hills usava um facão para cortar-me as cordas, e repetiu o procedimento em Pietro e em Fábia, e no único marujo sortudo restante, que revelou-se mais tarde uma garota chamada Augusta Decomté que embarcara disfarçada no cais. Aquilo me fez rir por um instante, mas só por um instante, que foi quando a besta fera voou em nossa direção de pernas abertas, atingido Pietro bem na testa, deixando ali a sua marca, de geometria complexa e infernal, a geometria das suas partes íntimas! XD.


Ele desmaiou na hora, enquanto a criatura voava sobre as nossas cabeças desferindo outros ataques, nós reagíamos com pedras e paus, que a atingiam mas não causavam dano sequer. Foi quando ela pousou outra vez, desta vez no alto da cabeça da estátua, e lá ela realizou o ato crucial. Arrancou a perna com um estalo poderoso que ecoou em todas as direções. Fábia Paola gritou. A criatura enfiou o seu membro arrancado dentro da bolsa de marsupial que tinha, e lá a coisa começou a tomar forma até que em poucos segundos uma cabecinha preta de grandes olhos inchados e tufos de cabelo de palha surgiu, guinchando. Ray Ann se vomitou. Era outra vez hora da besta se alimentar. Corremos em todas as direções, pela escuridão, procurando uma saída ao mesmo tempo em que tentávamos escapar da criatura, até que Ray Ann gritou: achara um túnel ali próximo. Corremos todos na direção dela, tendo a besta faminta em nosso encalço, coração a mil, o ar entrando e saindo numa velocidade impossível. Lançamo-nos túnel abaixo, para o desconhecido, e fomos desembocar exatamente ao pé da pirâmide, no primeiro degrau, não me pergunte como, pois eu perdi metade da ação quando estava de olho fechado.


Corremos a mata durante horas, fugindo de feras e monstros, reais ou imaginários, gritando e chorando por muito tempo, criando em nossas cabeças a imagem da coisa nos seguindo aonde quer que íamos. Imagens que por minutos pareciam muito reais, mas logo se dissipavam. Pela manhã, já cansados, não sabemos como, a cidade amaldiçoada surgiu ensolarada diante de nós, e dentro de uma loja abandonada dormimos o dia todo, sobre roupas empoeiradas e balcões velhos, usando sacolas como travesseiros e casacos como lençóis. Ao anoitecer, quando despertamos, ainda estávamos muito abalados, mas tomamos banho num banheiro aos fundos da loja abandonada, vestimos roupas limpas e voltamos para as ruas em busca do cais por onde chegamos àquele lugar. Nenhum de nós pronunciou única palavra até então, desde que escapamos da morte certa. Os nativos não estavam em suas barracas naquela manhã. Me arrepiei e chorei durante horas, imaginando que eles foram devorados noite passada, dentro da câmara redonda onde passamos momentos aterrorizantes de quase-morte.


Fizemos todo o percurso pelo estranho e extenso trapiche. Nosso barco ainda estava lá, e a maré estava cheia desta vez. Pietro foi quem conduziu o barco, sentado lá atrás, e dormimos mais um pouco após termos a certeza de que saímos finalmente do nevoeiro que cerca a Baía da Mortalha. Chegamos ao vilarejo ribeirinho e fomos recebidos com grande surpresa e festa por eles, voltamos vivos, mas não tivemos coragem de contar a eles o que acontecera nos dois dias em que estivemos desaparecidos. Vó Darcy sabia o que havia acontecido, e ficou feliz de rever Rose Nilde, a mesma estava devendo dois dobrões a ela desde a última vez em que as duas se viram. Não sabíamos como voltar, pois ninguém ali entendia de navegação, por isso passamos longos dois meses vegetando naquelas terras estranhas a nós, sofrendo e revendo em pesadelos mortíferos tudo o que nos aconteceu. As imagens dos mortos me atormentavam a cada noite, era maçante.


Até que surgiu em nosso caminho, enviada por Deus, uma embarcação comercial, e nela nós voltamos para o mundo. Combinamos então de não contar a ninguém o que havia nos acontecido naquele lugar maldito, e decidimos sequer mencionar a existência dele, de modo que escapamos por pouco e devíamos ao menos isso ao nosso bom Deus, esconder dos outros a existência da Baía da Mortalha. Prometemos também jamais nos revermos outra vez, para evitar sofrimentos futuros e lembranças indesejáveis. Jamais voltei para Nova Iorque, e até hoje todos os meus velhos amigos pensam que morri. Se já não estão mortos... Década de 20 já passou a muito tempo...


Vivi no Brasil por alguns anos, e descobri que a Baía da Mortalha fazia parte daquele país quando percorremos a costa... No final das contas acabei vindo parar na Franco-Itália, e aqui em Devian vivo no Palacete Theodoro construído por um conde há muitos anos. Esse lugar me dá arrepios agora que decidi escrever a minha história. Foi algo traumatizante de que jamais me esquecerei. Desde que voltei de lá, nunca tive um sonho feliz, todos são pesadelos horrorosos e já fiz todos os tratamentos que me eram cabíveis. Não era doença. Por sorte não enlouqueci, como Ray Ann que agora mora numa árvore do Central Park. Pietro morreu de doença desconhecida após dois meses de nossa volta, e Fábia Paola vive em Forks, no estado de Washington, EUA. Ela também está começando a pirar. Jura que moram vampiros por lá ;D. Don Hills continua navegando pelos mares, e já viu muita coisa, às vezes me escreve... Rose Nilde também morreu logo depois que voltamos, se atirou no mar e foi pega em cheio pela hélice quando atracávamos na Jamaica...


E assim a vida continua... Assombrada pelo espírito dos mortos em terras desconhecidas, que fomos incapazes de ajugar. Assombrada pelo espírito de Abim'raso, a maldita, que se reproduz a cada seis anos, e que reina eterna sobre a cidade sagrada dela, governando uma nação de homens-morcego... Isso me perturba...


Enquanto isso eu espero a morte vir.


E fico sonhando, sonhos desesperados.


De matas fechadas e pirâmides malditas...


FIM?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Draconius Nefastus - Parte 4 [o fim está próximo!]

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 16 de Novembro de 1996.

O dia amanheceu claro e ensolarado, e não mais parecia tão tenebroso quanto fora antes.
Mas tudo continuava deserto e silencioso por ali. Nosso capitão mandou preparar a canoa que iria nos atravessar até além do nevoeiro, e garantiu que um de seus homens iria remando ao seu lado, de modo a não arriscar a vida de nenhum morador local. As águas do mar eram amareladas à luz do dia, e ao provar o sabor, percebi que aquilo não era água de mar, e sim de rio! Seria aquilo um delta e não sabíamos?
Prosseguimos com roupas arejadas e sem nenhum complemento além de máquinas fotográficas, papéis e canetas, câmeras de filmagem e binóculos. Tínhamos tudo o que precisávamos: primeiros socorros, roupas limpas e comida básica numa sacola, e assim cruzamos canal após canal até desembocarmos numa baía enorme, tão ensolarada quanto os córregos que deixamos para trás, ladeados por pura mata virgem e verde vibrante de vida e harmonia.
Por volta de meio dia o tempo foi fechando, e um dos marujos disse que aquilo não era coisa da natureza, e sim da maldição que aquele lugar tinha. Após isto, mais adiante, já não se via um palmo na frente do nariz, porque o nevoeiro era quase palpável de tão grosso e pesado. O calor era intenso, e por várias vezes pensei em me refrescar com um pouco de água, mas os outros me repreenderam, disseram para não por um dedo para fora da embarcação. Isso me assustou. O nevoeiro durou meia hora, meia hora que pareceu a mim um século de inferno e calor. E quando eu jurei que esse martírio não teria mais fim e eu morreria cozido ao lado dos meus companheiros de expedição, um vento forte me pegou em cheio, e eu abri os olhos então.
Estávamos diante de uma praia de areia de rio tão extensa quanto uma praia de areia branquinha do mar. Era a frente da cidade maldita. Na beira da água cresciam muitas árvores e arbustos, plantas de várzea. Mais uma vez a atmosfera de pântano sombrio me pegou em cheio, e após remarmos todos juntos, encalhamos na praia suja de troncos, cocos, sementes, raízes e plantas aquáticas deixadas para trás pela maré, e caminhamos em direção à uma estranha estrutura de concreto e pedra que lembrava muito um cais, só que era muito estreito para cais e muito distante da costa também, era quase uma passarela para dentro do rio. Subimos por uma velha escada, moderna demais para pertencer àquelas bandas, e mais uma vez estávamos caminhando sobre tábuas de madeira, só que desta vez eram grossas e seguras, nem um pouco podres.
Acreditem se quiserem, havia até um trilho abandonado ali, como se antes houvesse andado um trem sobre o rio, aquilo deixou a todos nós confusos, aturdidos, espantados e cheios de expectativas e perguntas que fazíamos e resolvíamos para nós mesmos, pois ninguém se atrevia a falar. Havia bancos ao longo daquela ponte, e em cinco minutos já havíamos chegado ao vilarejo dos nativos refugiados. Ali haviam muitas e muitas árvores de todas as espécies, crescendo sobre a estranha e moderna cidade abandonada, tudo ali era caos e destruição. Ray Ann estava maravilhada, deslumbrada, fotografando tudo e identificando traços de arquitetura e tecnologia alienígena. Uma avenida tomada pelo mato levava em direção ao coração da cidade, mas antes de podermos passar desapercebidos, fomos surpreendidos por lanças, flechas e arpões.

Os nativos nos viram.
Fomos levados até a tal chefe deles, e realmente, ela tinha todos os traços europeus que a velha Cyvalda nos havia avisado existirem. Por isso nem nos subtraímos diante do cocar de penas, folhas e pedras preciosas que ela usava, e nem mesmo diante do trono de couro e ossos em que ela estava sentada com seus cabelos loiros e com seu rosto de trinta e pouco. Ela tinha todo o jeito, toda a atitude de uma dama da sociedade, e se portava como aquelas madames de butique evitando ao máximo, contatos com o povo que agora governava.
- Ivi’ka, strohn’hem, darylehn farrast! – ela cacarejou, Os nativos pularam gritando, alegres em suas roupas tão modernas quanto a de Rose. Vai ver ela havia as costurado para eles, e ensinado sua língua a eles também, porque alguns deles falavam um português de sotaque angolano. – preparem a festa da oferenda! Abim’raso, a Grande Klaàpacthu finalmente terá uma refeição à altura, que trará energia e vitalidade nova ao seu corpo apodrecido que desperta em busca da cópula de a cada 6 anos, no dia 6 do mês 6! E este dia é hoje, enfim!
Os nativos iniciaram a baderna e a gritaria de “vivas!” outra vez.
- Pois Abim’raso me deu o poder e a majestade para lhes governar, e eu lhes digo: alimentem-na! Em nome de Klaàpacthu!
Eu ergui a minha voz, finalmente tive coragem para isso.
- Alto lá, Rose Nilde, sua farsante! Nós sabemos quem você é, afinal de contas, e de realeza não tem nada! Só se aproveitou da ignorância desses nativos para se fazer autoridade!
Os nativos olharam-se confusos depois olharam duvidosos para Rose Nilde. A mulher arregalou seus olhões assustados, de modo a parecer mais um bicho do que uma gente, e aquilo me apavorou por completo. Ela colocou o dedo diante do rosto e fez um “shhh” nervoso, cochichou alguma coisa no ouvido de um dos seus “guarda-costas” que transmitiu a mensagem aos nossos carcereiros, e esse troca-troca de informações nos direcionou imediatamente a uma das cabanas de couro.
Após um tempo nos cozinhando naquele calor infernal da selva acentuado pelo abafamento das nuvens pesadas no céu do lado de fora, transformava a barraca de couro numa verdadeira fornalha, viraríamos pernil se ficássemos ali mais do que o necessário. Assim, após repararmos no interior estranho que aquela barraca tinha, Rose Nilde entrou, com os seus olhões mais esbugalhados do que o normal, ela parecia transbordar de felicidade e euforia, como um andarilho que, perdido no deserto, estava vendo a água pela primeira vez em semanas. Ou talvez um náufrago que tivesse passado tempo demais preso numa ilha desconhecida.
Ela nos explicou aos sussurros chiados e mal-compreendidos por nós, havia dado de cara com esta “ilha” que mais tarde revelou ser parte do continente. Enfim, nos disse a mesma estória que a Vó Darcy nos contara em seu vilarejo sombrio. Disse que seus amigos desertaram e deixaram-na para trás para morrer no lugar deles, pois os nativos queriam oferecer todo mundo ao seu deus com asas de morcego. Ray Ann sorriu e sacudiu a cabeça dizendo para a pobre Rose Nilde que seus amigos foram pegos por algo dentro do nevoeiro assim que deixaram a costa.
A velha só faltou pular de felicidade ao saber que fora vingada pelas feras do local. Mas agora ela precisava da nossa ajuda, precisava escapar dali. Peter perguntou o porque de ela tanto querer fugir se ali era uma rainha, e ela disse que odiava e temia tudo naquele lugar, pois previa o momento em que seus súditos se virariam contra ela e a entregariam para a besta alada. Capitão Maurice começou a bolar um plano imediatamente, mas mandamos que ele parasse, pois nosso objetivo era, acima de tudo, filmar o interior da cidade maldita e mostrar para o mundo o que havia naquela mata.
Rose gargalhou, assustando a todos nós. Fábia quase caiu dentro de um balde de tripas secas. A mulher disse com um sorriso sombrio que ninguém jamais voltava de lá. Foi então que um grito nos surpreendeu, vindo de longe, um grito descomunal e apavorante que deixou a todos alarmados. Um grito impossível de ter sido produzido por qualquer criatura viva deste mundo, um grito de alma penada, de demônio, macabro e agourento como nunca antes fora ouvido um grito antes.
Abim’raso. Os sussurros, sibilos, choros e gemidos que vieram do lado de fora pareciam uma maré maligna de agouro e sofrimento vindo de fora. Até a fria Ray Ann arrepiou-se toda. Fábia Paola e eu já estávamos fraquejando naquele momento. Era hora de desistir e fugir...

Fim da Terceira Parte!

Draconius Nefastus - Parte 3

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 16 de Novembro de 1996.

Aquele porto mais parecia um pântano. Campânulas se enroscavam nas pilastras das palafitas e capim crescia no telhado capenga da maioria das casas. Sapos coachavam alto, era quase impossível ouvir o som da voz da falante Fábia, que não parava quieta um minuto, gargalhava alto a cada piadinha nervosa que fazia, e todos os marinheiros mal-encarados a olhavam feio quando isso acontecia, e por várias vezes vi o nosso capitão Maurice repreender dois ou três moços que puxavam os facões da bainha da calça. A cada sinal de que eles levavam a mão à cintura, eu me preparava para pular na ressaca e afundar na lama negra e barrenta se fosse necessário. Eles eram temerosos e ficavam muito nervosos com as risadas histéricas de Fábia que poderiam atrair qualquer coisa vinda da mata ou mesmo um nativo local com os ânimos mais agitados.Pietro ia à frente, registrando tudo com a sua parca câmera da época, que gravava filmes em preto e branco capturados com a ajuda de uma manivela. Haviam casas com teto de palha, casas pendendo para cair no lago, casas quase cobertas pelo mato e muitos animais selvagens. Uma família de javalis passeava abaixo da ponte aos nossos pés, e uma arara vermelha grasnava palavras estranhas e disconexas como "hort", "crapatu" e "horest". Aquilo me deixou muito mais nervoso que Fábia Paola, e eu estava pensando seriamente em me lançar na lama escura junto aos javalis, mas mudei de ideia ao ver uma enorme sucuri enroscada numa pernamanca que sustentava uma das casas. Algumas crianças e um velho cutucavam a cobra para que ela desenroscasse. Quanto mais andávamos adiante, mais coisas estranhas víamos, e cada vez mais o tempo fechava e escurecia. Anunciava chuva e o ar estava parado demais. Eram aproximadamente sete da noite quando chegamos a mais uma cabana simples onde morava uma velha curandeira.
O teto da cabana estava repleto de itens bizarros e peculiares, até assustadores pendurados por fios de cipó ou barbantes. Tudo lá dentro era uma bagunça só. Lixo se misturava a pertences pessoais e se espalhava por cima de velhas mesas de pau improvisadas e estantes raríssimas de ébano, mas que agora estavam puídas e velhas, pois pertenceram a gerações passadas de colonizadores daquela região. Haviam cabeças encolhidas, havia sapos mortos dentro de jarros, cabeças de macaco, cobras, patas de animais, olhos, asas, penas, lagartos, pássaros empalhados e outras coisas inóspitas e esquisitas, de causar repulsa e medo. A velha era branca, contrário da população local, e fumava tranquila seu cachimbo. Seus olhos eram quase fechados pelas rugas, e sua boca já era quase só um buraco escuro. Alguns mais velhos diziam que ela tinha mais de 300 anos, e que seus avós já a conheciam quando eram pequeninos. Aquilo me deixou deslumbrado, e fiz questão de anotar cada detalhe do que se passou na casa dela.
A velha era conhecida do capitão Maurice, sábia e conhecedora da floresta e das forças ocultas, conversou com ele em particular durante aproximadamente meia hora, e após isso nos mandou entrar para ter com ela. A velha deu um trago no cachimbo, bateu a cinza, olhou o pôr-do-sol pela janela, colocou a dentadura, botou a chaleira no fogo a lenha e disse a nós que atenderia pelo nome de Vó Darcy, apelido dado pelos moradores ao seu nome de batismo Dariana Cyvalda. Muito simpática e carinhosa, contou a nós um pouco da história da vila e um pouco da sua própria história enquanto misturava as ervas noturnas, acendia as velas, fazia as oferendas para os seus estranhos deuses da floresta e enchia alguns potes com água para colocar na janela. Disse a nós que isso era para dar de beber às almas, e o que ela me disse causou arrepio na espinha, o que me fez aproximar mais de Ray Ann, que estava tão vislumbrada e espantada quanto eu. Nossos corações batiam sincronizados, em ritmo de pavor e aventura. Após contar que havia vindo parar ali de barco ainda aos seis anos, quando fora capturada por piratas em um porto na Escandinávia e rodara o mundo na embarcação deles, contou para nós que ali só haviam duas ou três casas na época, e tudo por ali era muito calmo. Mas já, desde aqueles tempos, o além das águas turvas, para lá das bandas do nevoeiro, foi sempre inspiração de temor e atenção. Disse que na sua juventude, fora criada por uma velha enrugada que nem ela, e que quando o nevoeiro de além-águas alcançava a vila, todo mundo apagava o lampião, para não atrair a atenção das criaturas malignas que vinham junto dele.
Quando o nevoeiro vem, ouvem-se gritos, ouvem-se assovios, cochichos nas sombras bem ao pé do nosso ouvido, ouvem-se gargalhadas, grasnados e conversas macabras de vozes corrompidas, grossas de mais ou finas de mais que parecem amaldiçoar a alma daquele que estiver escutando, por isso é necessário que se tape os ouvidos e que se feche as portas. Aquilo me arrepiou mais ainda, eu já tremia dos pés à cabeça e procurava apoio para minha sanidade, certificando-me de que estava cercado pelos meus amigos e por fortes marinheiros que estavam à espreita no segundo cômodo e na entrada. Já era noite quando essa parte assombrosa da história começou, e quando pus-me a imaginar aquelas situações apavorantes de gelar a espinha e enlouquecer a sanidade. Era terrificante.
A velha contou que só atravessou para além do nevoeiro uma única vez, mas lá não seu ouve voz de espírito algum, porque ali eles descansam de barriga cheia. Porém, mais adiante, vê-se vultos brancos redondos na água e vultos negros voando pelo céu. Para mais além há uma cidade em ruínas, na costa do continente. Esta cidade está sempre coberta pelo nevoeiro, e há casas e prédios e templos e ruas e praças e postes e avenidas e hotéis, tudo coberto por mato e musgo e limo, mas ninguém mora lá, porque é amaldiçoado.
Os nativos da tribo kahaphatu vivem no cais, em cabanas improvisadas de lona, folhas e peles de animais, e são um povo muito hostil e amedrontado, por viver à mercê dos espíritos e das criaturas malignas da floresta às suas costas. A chefe da tribo de refugiados atende pelo nome de Rose Nilde, e vou já avisando. Disse a velha. Ela gosta de cantar de galo e se vangloriar por tudo, mas nem nativa é, pois foi abandonada por um grupo de exploradores franceses que não tiveram coragem de ir mais adiante e entregaram-na de oferenda quando fugiram... Pena, disse Vó Darcy, que o barco deles foi engolido metros antes de sair do nevoeiro. Pelo quê, não se sabe.
Aquela declaração fez meu coração saltar feito um touro brabo de testículos amarrados. Eu estava desesperado para voltar ao barco e esperar até a hora da próxima partida, mas Fábia Paola levantou-se e disse que estava disposta a enfrentar o que fosse para descobrir o que há escondido na cidade secreta. A velha Vó Darcy fez uma cara séria e repreensiva antes de dar um sorrisinho sarcástico e sacudir o cachimbo indígena para Fábia dizendo "vá em frente então, menina bonitona, vá! Mas eu já avisei". Assim a chaleira apitou, e a nossa hora acabou. Quando dei por mim já estava caminhando pelas pontes bambas e apodrecidas mais uma vez, correndo risco de escorregar para o negrume abaixo dos meus pés ou fazer desabar toda a estrutura frágil de madeira podre abaixo de mim. Não podíamos mais ver as casas, só os lampiões e os rostos ao lado deles, olhos escuros nos encarando. Dormimos no barco naquela noite. E foi uma noite repleta de pesadelos apavorantes e capciosos que me deixaram tão nervoso a ponto de ter disenteria. Foi uma noite difícil...

Fim da Terceira Parte!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Draconius Nefastus - Parte 2

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 15 de Novembro de 1996.


Estávamos nós ali, diante do cais de Nova Iorque, eu havia vindo de táxi, e a jovem louca Ray Ann havia vindo no carro de seu irmão Don. Acompanhando-me no táxi vieram a paleontóloga Fábia Paola e meu amigo de longa data Pietro Heinrich. Eu não sabia o que aconteceria dali por diante, mas meu coração batia em ritmo acelerado, pulsando forte e gritando para que eu corresse da morte certa, mas eu era inexperiente, como já disse, e curioso repórter nunca sacia sua sede por conhecimento. Estava diante de mim uma importante oportunidade de me tornar famoso, de finalmente brilhar, de ter o meu nome estampado no topo de colunas famosas de importantes jornais do país e do mundo. O homem que desbravou o desconhecido. O homem que encarou a morte. Aquele que seria o primeiro repórter do mundo a presenciar coisas que nenhum outro olho jamais viu antes. Coisas nefastas que na verdade nunca deveriam ter sido descobertas. Mas na época a minha sede por poder borbulhava meu sangue, e a possibilidade da fama subia à minha cabeça feito o vapor enfurecido de uma chaleira, como o vapor que aquela embarcação cuspia da sua chaminé suja e puída. Era minha chance de brilhar como jornalista, e deixar para trás os tempos das vacas magras, deixar para trás os jornais periféricos. Era a minha chance... Quão bobo fui... Quão ambicioso fui. Ao finalmente dar-me conta da loucura que estava fazendo, do lugar onde estava, das pessoas desconhecidas e malucas que estavam me acompanhando nesta empreitada sem volta, do oceano altântico todo ao meu redor, me envolvendo numa dança de ondas azuis e negras, acariciando o casco do navio como se o barco e a água fizessem amor, já era tarde demais. Nova Iorque estava distante, suas luzes estavam fracas e ficando opacas por causa do nevoeiro. O barulho da música alta e das buzinas parecia miragem no meio da escuridão tenebrosa do mar. Tudo estava calmo naquela noite, calmo demais, mas uma calmaria nervosa e maligna, a calmaria que precede a morte.


Por dias a fio o navio seguiu, e eu já impaciente, enlouquecendo ali dentro, como um rato preso dentro de um domo de vidro. Era terrível aquilo. Enquanto não fazíamos a primeira para então, pusemos a conversar durante horas a fio, acabando com metade do estoque de chá que iria para os grandes senhores das ilhas do Caribe, que ficavam no caminho da terra desconhecida. E entre uma e outra xícara de chá, beberica daqui beberica de lá, começamos a nos soltar mais uns com os outros, e quando finalmente deu-se a primeira parada em um porto pequeno numa ilha pouco conhecida, eu já estava incrivelmente íntimo de Ray Ann e de Fábia Paola, já éramos mais do que amigos, andávamos como três irmãos, colados um no outro pra cima e pra baixo, e eu fascinado, ouvia as histórias sem pé nem cabeça que antes o ex-repórter que vos fala nem sonhava em acreditar um dia, histórias bizarras, cheias de sangue e horror, de feras terríveis, de pessoas selvagens que comem carne humana, de tribos milenares que fazem rituais macabros de bacanal e sacrifício, elas contaram-me de florestas verdes como a esmeralda, que transbordavam de vida desde o solo rico em flores e folhas até os últimos ramos das árvores de copas que chegam a sumir no espaço estrelado de tão altas que são. Algumas são maiores que os prédios de Nova Iorque! Disse Fábia Paola.


Ela disse nunca ter ido até nenhuma vez na vida, e nem sonhara antes em transpassar as águas turvas do mar marrom que cerca aquelas terras, por puro pavor do que poderia haver ali, e que estava pensando seriamente se ia mesmo prosseguir com esta aventura imprudente após o último porto antes da parada final. Antes de chegarmos até lá, passaremos por um arquipélago de grandes ilhas. Disse Ray Ann. Ela disse a mim que as ilhas são pouco habitadas, e que a mata nativa é tão bela e exuberante quanto a que encontraremos mais adiante do mar de águas turvas. A maior parte da população vive no litoral em pequeninas vilas isoladas do resto da humanidade. Eles raramente veem outras pessoas, por isso ficam muito desconfiados com a chegada de uma embarcação grande como aquela, vindas de fora. Poucas passam por ali, por medo dos nativos, pois diz-se nos portos do mundo todo que já são selvagens e agressivos os habitantes das vilas ribeirinhas do Arquipélago do Búfalo. Ray Ann também nunca foi até a terra desconhecida, nem mesmo passou próxima aos portos minúsculos e esquecidos das ilhas quase inabitadas. Disse ter ouvido falar pela primeira vez do caso num manicômio, onde um louco que ela costumava tratar na época em que era psiquiatra delirava constantemente sobre uma criatura hibrida chamada Klaàpacthu pelos nativos locais. As tribos afro-americanas da região chamam a criatura de Exúbia, e os índios do Amazonas, terra da borracha, dizem que a criatura descendo de uma raça antiga de seres humanos alados, com asas de morcego que antigamente habitavam o interior de uma rocha apelidada de Pedra do Morcego.


Os índios dizem ser o único membro restante da tribo que foi dizimada há séculos, e que esta criatura diabólica foi acolhida como uma deusa pelos nativos daquelas terras. Há até uma pirâmide construída em sua homenagem, deixada para trás na cidade secreta pelo estranho povo que habitava ali. Há sim uma cidade construída a milênios, oculta pela mata, e agora é lugar que representa perigo e morte para os ribeirinhos e para os nativos. Explicou-me Ray Ann. Aquilo estava me amedrontando por demais, e cada vez que a noite caía e nos reuníamos com a tripulação para um chá e um jantar, eu já imaginava as horas em claro que passaria em minha cama, imaginando o que me encontraria e me agarraria pelo caminho.


Assim seguimos viagem por infidáveis dias que eu já nem contava mais, e que já estavam virando rotina, me inserindo no ambiente do mar. A cada dia um novo detalhe me era iserido, e aos poucos fui sabendo que Ray Ann estava lá porque acreditava piamente que a cidade fora construída por uma raça alienígena que a deixou para trás após uma tentativa de colonização mal-sucedida. A própria criatura citada era um alienígena em sua opinião, e eu já estava começando a acreditar naquilo tudo. Após isto Fábia Paola contou-me sua história. Disse-me que sua família sempre fora pegada com Deus, desde que ela nascera sempre fora assim. Seus pais eram missionários e andarilhos que pregavam em lugares distantes da civilização, assim ela acabou atracando por aquelas bandas pela primeira vez, levada por seus pais, que haviam sido guiados por boatos de possessões demoníacas e aparições de feras infernais naquelas ilhas, vindas do nevoeiro, ou véu, que cercava as terras ocultas e amaldiçoadas do Klaàpacthu. Ao desembarcar os apetrechos e as malas, eles logo deram de cara com um caso misterioso, de uma mulher que estava grávida a apenas uma semana, mas que já tinha barriga, porém esta estava cheia de veias e roxa como uma beringela.


Após cuidar durante dias da mulher doente, a mãe de Fábia Paola foi testemunha do nascimento de um monstro metade homem, metade morcego, que foi abatido por um velho pescador com um tiro de espingarda quando a criatura tentou fugir pela janela do casebre de madeira. Foi uma cena macabra. A mãe da ferinha morreu no parto, pois sua barriga estourou feito um ovo de rã.


Aquilo me deixou completamente enojado, e o balanço da embarcação me fez correr para a proa e vomitar cachoeiras inteiras. O asco era muito grande. Após isto Pietro contou-me sobre como a história das terras amaldiçoadas chegou aos seus ouvidos. Sua mãe era professora num velho bairro de negros, e lá ele conheceu a Madame Saravá, macumbeira e feiticeira de primeira que conhecia de tudo um pouco, e era muito amiga de seus pais. Certa vez, como era pequeno, perambulando e xeretando pela casa de Madame Saravá, Pietro deu-se com um armário escuro e mórbido, iluminado apenas por uma fraca luz verde e repleto de dentes de alho pendurados ao lado de cordões feitos de ervas, sementes, fitilhos, estatuetas de orixás e balangandãs africanos dos mais variados. Curioso, abriu o armário sem pensar que aquilo significaria grande coisa para a dona da casa. Aquilo foi crucial para que sua mente já fértil o levasse para o ramo do cinema: lá dentro havia um ser empalhado, o ser mais estranho que ele já vira, e após levar grande susto com aquilo, chorou durante horas. Quando cresceu um pouco mais, Madame Saraiva mandou chamá-lo, e a ele contou tudo o que sabia sobre aquela fera mumificada, pois ele já havia visto a criatura e agora estava tão envolvido nisso quanto ela, de modo que os espíritos ficariam muito zangados se ela deixasse-o ir sem dar as instruções de como guardar aquele segredo.


A criatura era exatamente idêntica ao ícone de madeira que Fábia carregava consigo.


E assim aportamos no último porto.


Na ilha das fechaduras.



Fim da Segunda Parte!

sábado, 10 de outubro de 2009

Draconius Nefastus - Primeira Parte.

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 15 de Novembro de 1996.

O nosso mundo é estranho, o nosso mundo é bizarro, o nosso mundo é cruel, o nosso mundo é macabro, mas de todas as visões infernais que já tive, aquela visão foi a pior. Eu e minha equipe presenciamos coisas horrendas, dignas de um filme de terror dos mais mórbidos e repulsivos de todos os tempos, bem do tipo que arqueóloga e ufóloga Ray Ann aprecia, estivemos na presença do mal e de suas raízes, sob as asas malignas e putrefatas do asco, sob a foice certeira da morte, da qual por pouco escapamos. O que será relatado a seguir jamais deverá sair destas linhas, é um segredo entre mim e você, um segredo que deve ser guardado a sete chaves, pois o mundo jamais estará preparado para tanta estranheza e deformidade.
Há lugares em nosso mundo em que o mal é cultuado e alimentado fartamente por mentes vazias e hipnotizadas pelo medo. Templos antigos astecas e maias se erguem aos céus, mais altos do que qualquer outra pirâmide que já tenha sido construída pelo povo antigo que habitou as mesmas terras que tu pisas. Estátuas colossais que têm as mãos em chamas clamam pelo mal alado que grita agarrado ao tronco da árvore-mãe. A floresta tropical cerca este lugar, e esconde do mundo todo o horror que, em nome de Deus e de todas as Santidades, deve sempre ficar escondido para nunca ser visto por outros fracos e covardes olhos humanos...
Eu era jovem, e inexperiente, um repórter da década de 20, revolução industrial, a chegada tímida do cinema e da automobilística badalava Nova Iorque e a moda regia os costumes da época. O rádio estava em alta e a tevê ainda nem tinha chegado. Pelos trilhos do bondinho, aquela moça corria desesperada com um embrulho em mãos, e maldita seja a hora em que Fábia Paola, a paleontóloga estudiosa, cruzou o meu caminho naquela manhã de primavera cercada pelas abelhas e pelas borboletas que voejavam e zuniam nas avenidas floridas de Little Italy, Nova Iorque. O melão cheirava na venda da esquina, e uma música suave tocava no rádio, eu acabara de sair de um beco onde morava, escondida, velho amigo meu, e com ela topei, esbaforida, correndo pelos trilhos do bondinho.
Assim que aqueles homens mal-encarados e tão negros quanto a noite me viram, estancaram e correram na direção oposta. Sem motivo algum aparente, pois um golpe de qualquer um deles havia de ter me derrubado em dois tempos.
Naquele momento eu não a conhecia, mas seu rosto oriental carregado de desespero me comoveu imediatamente, pois ela era tão pequena e rechonchudinha que inspirava cuidados ao primeiro que a visse. Ofereci a ela minha companhia e a levei até a pizzaria mais próxima onde ela disse seu nome e sua profissão. Após muitas fatias de pizza, fiquei por demasiado curioso para aguentar aquele suspense todo, por isto finalmente tomei as rédeas da conversa e perguntei a ela o porque da fuga desabalada e atrapalhada pelos trilhos do bondinho. Fábia Paola engasgou na hora com o peperoni e eu tive de dar dois ou três tapinhas nas suas costas. Meu Deus, e como os seios dela eram grandes! Nunca havia visto nada igual em minha vida!
Ela finalmente puxou o embrulho que esteve em seu colo o tempo todo e revelou a mim o que havia naquele velho pacote de papel de padaria. Havia a estatueta do que a primeira vista me pareceu um grande e horrendo morcego, de modo que quase pedi à boa dama que o guardasse de volta antes que alguém que ali estava almoçando cuspisse a comida mal-digerida no prato, mas em uma segunda olhada percebi que a coisa tinha rosto humano e dentes encavalados macabros, e o que parecia a asa na verdade não era uma asa, e sim uma membrana que ligava seu dedo mindinho ao dedinho do pé, esticada de modo a parecer um daqueles estranhos esquilos das distantes ilhas da Oceania.
Era uma visão dos infernos, pois além disso tudo, havia um vácuo maligno entre uma nádega e a outra, além de um rosto puramente humano, de olhinhos apertados. O cabelo do ícone era feito de cabelo verdadeiro, o que me fez imaginar de que gruta fétida e cheia de corpos decomposto aquilo havia vindo. Parecia mais uma boneca vudu do que um ícone de barro. Foi então que ela revelou-me que aquilo na verdade não era uma estatueta como eu afinal havia chegado a pensar, mas sim um exemplar morto da estranha criatura que crescia por estaquia como as plantas!
Aquilo me repugnou por completo e eu pedi a ela que guardasse antes que eu fosse expulso do restaurante italiano por causa de atitudes “indigestas”, mas logo comecei a achar que a pobre Fábia Paola na verdade era uma jovem mulher louca que estava apegada a algo criado pela sua própria cabeça. Eu a orientei que voltasse para casa antes que fosse muito tarde para uma dama andar por aí sozinha, e então ela caiu em prantos, clamando pela minha ajuda nesta sua empreitada maluca e sem fundamento algum senão lendas caboclas e haitianas do arquipélago do Caribe.
Ela contou-me sobre selvas virgens nunca antes tocadas pelo homem, contou-me sobre céus tão azuis e cristalinos quanto o mar, contou-me de criaturas apavorantes, hediondas, carnívoras, assassinas, e criaturas meigas, dóceis, felpudas, esplendidas e divinas que ali habitavam. Contou-me sobre tribos indígenas que cultuavam feras da floresta, contou-me sobre pirâmides construídas no tempo antes do tempo e contou-me sobre portas para outros mundos. Eu gargalhei dentro do restaurante, e por isso nos botaram para fora, e a moça assim me seguiu. No caminho, tive a ideia brilhante de apresentá-la ao meu velho amigo que havia ido visitar naquela manhã em Little Italy, seu nome era Pietro Heinrich, e na época tinha um nome de peso no ramo do cinema e do teatro, sendo responsável pela maior parte das grandes produções atuais e por roteiros impecáveis de Hollywood. Vi naquela paleontóloga maluca um roteiro incrível que eu mesmo poderia escrever e editar para o cinema, e com certeza Pietro iria adora toda aquela história de selvas malditas e feras horrendas, seria um clássico instantâneo! Uma febre nas telas! Contei à ela sobre este meu plano e disse-lhe que meu amigo era de muita confiança, mas a mulher ficou enfurecida de uma forma tão violenta que explodiu em gritos e berros em sua defesa e defesa da sua sanidade em plena rua movimentada, o que não ajudou muito da parte da sanidade.
Disse a ela que minhas intenções eram as melhores e disse a ela que poderia lhe oferecer toda a ajuda possível se por acaso não estivesse interessada em vender sua incrível história para o mundo de glamour de Hollywood, mas ela negou tudo por completo e xingou feito um marinheiro, dizendo que nada daquilo era brincadeira e que devia ser levado urgentemente a sério porque todos nós corríamos perigo se por um acaso o relato da existência daquele lugar chegasse aos ouvidos errados, e eu estava começando a ficar seriamente preocupado com o estado mental da moça, o que me fez pensar seriamente em levá-la a força a um psiquiatra, o mais rápido possível, antes que ela começasse a revirar o lixo em busca das suas feras amazônicas infernais. Ela estava se mostrando realmente louca com toda aquela estória, e não parecia estar brincando em nenhuma palavra que dizia, parecia muito preocupada e afligida por seus temores, em desespero total, sem casa, sem comida, sem ninguém, perdida no mundo, estava sendo caçada por capangas de gente poderosa de todo canto do planeta, pois todos eles estavam interessados na sua selva secreta, oculta por um véu místico. Ela disse tratar-se de uma cidade sagrada oculta por neblina bem no meio de um mar de águas turvas, disse haver um templo tão grande e tão imponente que meteria medo até no mais valente dos homens, e toda aquela loucura estava me irritando por completa, já não sabia mais o que fazer quando topamos com Heinrich, que ouviu a estória sem pé nem cabeça de Fábia Paola sem sequer piscar.
Foi por um acaso (e por má sorte provida dos meus problemas cármicos da roda de samsara), que Pietro conhecia a existência deste lugar, pela metade, e sabia que lá era o lar de uma criatura única no mundo todo, os olhos dele cintilaram feito duas ônix e ele ficou tão empolgado e louco quanto a paleontóloga (seu maior sonho era filmar a criatura em ação e provar a existência da mesma em um filme único no mundo todo). Esta mostrou a ele a estátua e contou a ele coisas estranhas e desconexas que eu me recuso a escrever por falta de tempo e por já me pesarem os olhos. O fato era: eu estava duplamente perdido na mão daqueles dois malucos que acreditavam piamente na existência de uma terra desconhecida cujos frutos poderiam causar a destruição da pobre e fraca raça humana se por um acaso fosse invadida por pessoas de coração ambicioso e mal-intencionado. Não acreditei quando me vi diante do prédio antigo em que morava minha prima Ray Ann, a ufóloga-arqueóloga e o seu irmão Don Hills, que era o chefe culto da dita-cuja e sem quem ela não era capaz de dar um passo sequer. Os dois ouviram a estória muito interessados e relataram saber também sobre algo mistamente parecido, que chegou aos seus ouvidos num boca-a-boca que deturpou por completo a história.
Eu continuava não acreditando em nada daquilo, parecia que o mundo ao meu redor estava enlouquecendo! Digo, Ray Ann já não era lá muito boa das suas ideias com aquela estória de extraterrestres e galáxias distantes, mas Don Hills era homem sábio, gentil, rico e muito espirituoso, cheio de presença e inteligência, como ele podia estar se deixando levar pelas estórias contadas por aqueles três? Sim, Ray Ann agora estava contando a sua versão do fato, de que modo a estória havia chegado aos seus ouvidos. Eis que eu, já revoltado com tudo aquilo, levantei-me derrubando uma cadeira sem querer, e perguntei a eles o motivo de não terem me contado sobre o que sabiam antes, pois até o presente momento eu não fazia ideia que esses boatos corriam soltos pelas periferias feito água clandestina tirada dos canos da prefeitura, e era um ignorante perante a situação, de modo que me senti injustiçado, pois era repórter na época. Eles disseram que também estavam muito surpresos de eu não saber algo sobre isso, pois do jeito que sou abelhudo e bisbilhoteiro, já deveria ter escutado algo semelhante antes, e disseram também que estavam tão surpresos quanto eu em saber que outras pessoas de classe mais alta, além deles, sabiam.
Ray Ann até contou-me sobre os artefatos como o que Fábia Paola tinha em mãos naquele momento, estarem sendo vendidos em cabanas de mãe-de-santo na indonésia e no haiti, aquilo era realmente bem maior do que eu imaginava, e tornou-se tão grande a ponto de me ver após três dias, parado diante de uma embarcação, com toda a minha bagagem ao lado, na companhia de Fábia Paola, Pietro Heinrich, Ray Ann e Don Hills. O barco sairia à meia-noite, e exatamente àquela hora eu ouvia o pio agourento de uma ave noturna nas redondezas do porto de Nova-Iorque. Não que eu fosse supersticioso. Mas a coruja me estava avisando. Da desgraça que viria a seguir. E do que meus olhos, pobres olhos, testemunhariam naquela mata sórdida e macabra.

Fim da Primeira Parte!