Bem vindos à minha fábrica de sonhos!
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terça-feira, 10 de julho de 2012

Spectrum


Há algum tempo atrás, não muito, mas tampouco menos, existiu um mundo coberto por um manto de sombras. E embaixo de tal manto de sombras um tapete de neve infinito se estendia por sobre montanhas, planícies, cânions, escarpas, colinas, campos, pântanos e florestas de vidro puro e cristalino. Ventos fortes e gelados constantemente levantavam pesadas nuvens brancas com a facilidade de um sopro ao erguer plumas no ar, mas nada era visto por quaisquer que fossem os olhos, pois tudo estava encoberto em trevas puras e maciças.

Entre tais paisagens inóspitas, todo o tipo de criatura de sangue gelado se arrastava entre os rochedos pontiagudos e vales pedregosos, tão silenciosamente que era como se elas nem estivessem lá. Espíritos tristes e solitários que se alimentavam de tudo o que fosse capaz de produzir calor e luz própria, numa triste tentativa de tentar fazer o sangue congelado voltar a correr em suas veias empoeiradas.

E no centro deste mundo escuro e gelado encontrava-se um palácio, feito do mesmo vidro quebradiço das árvores mortas nos pântanos e vales, mas ninguém podia vê-lo, pois a escuridão era tanta que não se enxergava um palmo a um centímetro de distância do nariz. A ausência de luz era total, no céu e na terra, assim como atrás das paredes transparentes do palácio, entre seus labirintos de corredores e suas pesadas portas de cristal.


Dentro deste palácio morava uma deusa solitária, uma deusa silenciosa e sem nome. A si própria havia atribuído milhares de nomes em tantas línguas estrangeiras que já havia perdido a conta, nenhum deles havia vingado. Sentada em seu trono de vidro, a escuridão eterna que cobria o mundo desde o princípio dos tempos não lhe permitia ver nada além do negrume, do breu infinito e tenebroso onde as criaturas se arrastavam sem parar. Quando os fortes ventos e a neve constante cessavam, ela podia ouvi-las perfeitamente, lá fora. Podia sentir sua respiração leve, seus passos de inseto sobre a espessa camada de gelo sem fim. E ela os temia, ela os temia mais do que tudo, os temia até mais do que à escuridão eterna onde permanecia sentada, silenciosa a ruminar todo o tipo de pensamentos ruins e angustiantes que uma criatura pensante pudesse ter.

A dor era constante, mas a deusa não sabia de onde ela vinha e nem porque estava ali. Sempre estivera desde o princípio. Seria a solidão? Seria a escuridão? Seria o medo das coisas que se arrastavam do lado de lá dos muros titânicos do palácio? Ela não sabia dizer. Ela não podia dizer. Ela só podia fazer silêncio e permanecer sentada. Não havia para onde ir ou o que fazer, estava escuro demais para qualquer coisa. Sempre estivera.

Ah, mas se havia uma coisa que ela podia fazer era sentir. Sentia como ninguém, mas guardava todos os seus sentimentos para si por medo, medo de que eles produzissem calor e atraíssem as criaturas para dentro dos muros do palácio. Ela não poderia permitir que isso acontecesse, impotente que era, apenas sentava e esperava por algo. Algo que ela ainda não sabia o que era, mas que talvez um dia viesse enfim, e mudaria tudo para sempre.


Demorou muito tempo para que algo de realmente especial acontecesse, e quando aconteceu, aquele mundo gelado de eterna escuridão tremeu de uma ponta a outra. Os ventos que sopraram naquele dia varreram toda a neve da terra até a rocha, levantando-a em grandes tufos de nuvens de gelo que subiram aos céus escuros e engoliram o mundo inteiro durante horas intermináveis. Estes ventos foram poderosos o bastante para arrancar todas as árvores das suas raízes de vidro, levando-as ao chão onde se estilhaçaram e se desfizeram em milhares de pedaços minúsculos, pedaços estes que foram erguidos aos céus pelos ventos misturando-se às nuvens e ao gelo. As criaturas das sombras, cegas e surdas, apavoradas, cavaram tão fundo na rocha que desapareceram rumo ao infinito de pedras, usando suas garras afiadas como navalhas de diamante para abrirem fossos profundos onde se encolheram reclusas e humilhadas.

Então labaredas de fogo queimaram os sete horizontes, rasgando-os como espadas embebidas em magma incandescente, braços de luz maciça ondularam em direção aos céus, abraçando o mundo com violência num estupro à pureza das sombras que a partiu, liquefez e diluiu. Algo estava nascendo num rompante que foi acompanhado por uma explosão de cores, primeiro azul, depois violeta e então amarelo e vermelho e laranja e róseo. As estrelas que dormiam havia milênios despertaram, abrindo seus olhinhos brilhantes e piscando uma após a outra, pontilhando o céu de uma ponta a outra numa enxurrada de diamantes pulsantes e vigorosos. Por quanto tempo havíamos dormido, irmãs? Elas se perguntavam, e não havia resposta. A deusa silenciosa observava tudo de seu trono, imóvel e maravilhada com tamanho espetáculo, jamais pensara que algo tão bonito pudesse existir, palavras perdidas a éons como “esperança” passaram a fazer sentido no momento em que tentáculos de fogo puro romperam as cores vivas trazendo um deus.

A luz que tal divindade trouxe consigo foi tanta que pela primeira vez a deusa pode enxergar a si mesma como realmente era, e ela viu que não era só uma deusa como também era humana, e não só humana como também mulher, e não apenas mulher como também homem. As coisas nunca estiveram tão claras como naquele momento em que a luz atravessou as paredes transparentes do palácio, atingindo seu rosto e sua pele nua, desprotegida, expondo-a, revelando-a, descobrindo-a. Ela estava sendo violada, e aquilo não era tão ruim quanto pensava, muito pelo contrário, era tão bom de uma maneira que ela jamais poderia imaginar.
Uma cascata de sentimentos chovia e se espalhava através dos corredores solitários do palácio sob a forma de um brilho cálido e doce que se esticou e expandiu até atingir cada canto do reino. E de onde se estivesse, qualquer criatura vivente poderia vê-la em todo o seu esplendor a brilhar.

Era magnífico.

O deus luminoso que surgira no horizonte caminhou pacientemente até as muralhas do palácio, e com apenas um toque de seus viris dedos de fogo, cada uma das sete muralhas desfez-se sob seu imenso poder, e depois delas cada porta e cada parede foi abaixo ao longo da sua passagem. Na sala do trono a deusa o esperava, sentada, silenciosa como sempre, observadora, enormes olhos tão acostumados às trevas agora dilatados, ansiosos pelo que viria, e aquele deus que surgira no horizonte então aproximou-se e tomou-a nos braços, e lhe disse assim seu verdadeiro nome.


E ao dizer-lhe seu nome, o brilho de um embriagou ao outro, e juntos reluziram como só dois corpos celestes eram capazes. Suas labaredas alvas atingiram os minúsculos pedaços de vidro espalhados pelo céu e diluíram-se em bilhares de cores que atravessaram os cristais de gelo da neve erguida do solo e geraram matizes de cores resplandecentes que até o presente momento não existiam em nenhum dos mundos conhecidos.

E por um curto período de tempo aquele mundo de escuridão tornou-se um mundo de luz.

Tempo o suficiente para que a deusa se sentisse viva como nunca se sentira antes. Não havia mais silêncio ou escuro, tudo era luz, cor e som. Sons maravilhosos e incomparáveis ressoavam através dos sete horizontes.

Então isto é ser feliz? Perguntou-se a deusa no seu âmago em êxtase.

Aquele novo deus de luz a apertou forte contra seu corpo e juntos, os dois subiram rumo aos céus para conhecer de perto as estrelas, e elas eram tantas e tão engraçadas que pela primeira vez a deusa escutou o som da própria risada, para o deus aquele som era como música. Lá de cima  os dois puderam ver o mundo como um todo, a neve já havia coberto a rocha nua novamente com seu confortável manto branco, assim a deusa viu como o mundo no qual ela habitara fora tão lindo e branco esse tempo inteiro que passara envolto nas trevas. E ela sentiu-se orgulhosa por ter estado nele todo esse tempo, e amou cada pequeno cristal de gelo que cobria das montanhas aos pântanos. E daquele amor, compridas árvores pontiagudas de folhagem verde escura surgiram por todos os cantos do mundo, substituindo as árvores de vidro que haviam caído por terra e se desfeito. Agora havia vida ali.


A deusa estava satisfeita, e junto de seu novo deus de luz, regressou ao palácio de vidro com o coração em chamas consumido pela paixão. Paixão pela vida, paixão por si própria, paixão por seu deus e paixão por seu mundo. Ela enfim estava satisfeita. E teve vontade de abraçá-lo e amá-lo com todas as forças, mas seu deus luminoso não o permitiu.

Estava na hora de ele voltar, voltar ao horizonte.

A deusa ficou desolada, mas se a missão de seu deus luminoso era permanecer no horizonte para que seu fogo não derretesse todo o gelo que cobre o mundo, ela nada poderia fazer a respeito disso. Era a vontade dele e a natureza das coisas.

Ela o compreendeu e continuou o amando da mesma forma.

Assim, o deus do horizonte de fogo voltou ao seu posto nos limites do mundo, longe o bastante para que as trevas pudessem respirar um pouco sobre o manto branco, e as criaturas sombrias de sangue gelado rastejassem para fora das suas tocas nas rochas e se arrastassem por entre os vales mais sombrios e cânions mais profundos onde seus raios não os atingiam. A deusa estava triste pela distância, mas satisfeita, ele havia deixado um pouco de seu brilho com ela, de forma que ela pudesse iluminar o caminho dos perdidos quando os períodos mais escuros chegassem. Afinal, ele não pretendia ficar no horizonte o tempo inteiro. Ele era um deus jovem e viril, e ela apenas uma deusa antiga e silenciosa.

Mas ela estava satisfeita. Ele havia ensinado-a a acreditar, a sonhar, a brilhar. Ela estava satisfeita. E seria eternamente grata ao seu deus luminoso, ao seu sol e às suas estrelas.


FIM

domingo, 6 de novembro de 2011

Deer Desire



Às vezes enquanto eu deito na grama e olho as nuvens se dissolverem no céu, com o fim da tarde desfiando-as como a uma bela colcha mal feita, revelando a resplandecente lua que surge tímida, eu penso que poderia ter nascido um animal. Um animal da floresta, selvagem, sem regras, indomável, arisco, instintivo, natural.


Eu poderia ter nascido um veado. Um veado com o lombo avelã salpicado de pintinhas de cor gergelim, saltar sobre os troncos caídos e rochas milenares em meio ao bosque, beber a água gelada dos riachos, comer os brotinhos de grama verde nos campos, rolar em meio às flores da primavera e observar os esquilos catando nozes, os pássaros fazendo seus ninhos e as frutas crescendo e ficando cada vez mais gordas nos seus galhos.


E então quando o inverno chegasse eu me enrodilharia na neve que cobriria os campos com seu manto branco, me acomodaria entre minha mãe e meus irmãozinhos e olharia para o céu todas as noites claras e esplendorosas, repletas de estrelas das constelações dos longos meses frios. E quando minha galhada começasse a crescer, ela seria a mais bela e lustrosa de todas, tão linda que os pássaros pousariam nela enquanto eu descansaria deitado em meio à relva, e então as aranhas fariam casas entre os meus chifres e eu não as expulsaria.


Sentiria o cheiro forte da madeira dos pinheiros, ouviria com atenção os gravetos e as folhas secas quebrando debaixo dos meus cascos e veria as aves migratórias cruzando os céus. E quando chegasse a hora de lutar pela minha vida, eu fugiria com destreza, doçura, agilidade e graça dos perigosos felinos, e quando os homens me apontassem suas armas eu os enganaria atrás dos arbustos.


E quando chegasse a minha hora de partir do mundo animal, eu me deitaria e sonharia.


Sonharia com as estrelas e as constelações, e respiraria fundo uma última vez. E então a neve cobriria meu corpo com sua manta piedosa, me pondo para dormir para sempre, e eu teria consciência de que vivi uma vida feliz, tranquila e calma, teria consciência de que aprendi tudo o que precisava aprender, aprendi aquilo que verdadeiramente importa: sentir a beleza das coisas pequenas, dos mínimos detalhes, do cricrilar dos grilos ao pio distante da coruja, e sentiria pena dos homens em suas cidades grandes e abafadas, com seus corações e almas carregadas, e sorriria. Sorriria até o último momento, quando o último floco de neve caísse sobre o meu focinho descoberto.






~






Antonio Fernandes

terça-feira, 19 de julho de 2011

As Sete Princesas Orientais


Hoje, contarei a vocês a história de um mundo distante, de um reino distante, de um país distante, que era governado por sete belas princesas. Elas eram conhecidas como As Sete Princesas Orientais, e governavam tudo o que havia após o Vasto Mar do Leste, incluindo um arquipélago de ilhas chamado Conjunto Vermelho e um continente montanhoso enorme chamado Espinha do Dragão.
As Sete Princesas Orientais eram conhecidas por sua beleza, pelo seu charme, pela sua riqueza e pela sua extravagância, eram elas: Yuuko, Fumiko, Mitiko, Sakurai, Yoona e Makoto. Dizia-se por aquelas bandas que as princesas eram as últimas descendentes restantes de uma linhagem ancestral de seres meio humano e meio deuses que estiveram ali na criação do mundo e ajudaram a moldar as montanhas da Espinha do Dragão.
Cada uma das sete princesas reinava no seu próprio castelo, no topo da sua própria montanha, de frente para seu próprio vale.


Yuuko era a Princesa de Fogo, e morava no topo da montanha mais alta do vale do fogo, montava um longo dragão vermelho com cabeça de lobo e chifres de veado. Yuuko era conhecida pelo seu temperamento explosivo e pela sua longa katana, a espada dos samurais, que estava sempre suja de sangue. Os homens que tiveram a chance de deitar-se no mesmo leito que ela acabaram mortos na manhã seguinte, ou então nunca mais puderam deitar-se com outras mulheres. Todos eles contavam a mesma coisa: Yuuko era um demônio sexual e nunca ficava satisfeita. Era cultuada pelo povo que morava nas montanhas do vale do fogo como a deusa da guerra e da vitória, em sua homenagem eram feitos grandiosos festivais e bailes.


Fumiko e Mitiko eram as Princesas Gêmeas dos Ventos, e juntas governavam o maior de todos os vales montanhosos, o Vale da Neblina. Dizia-se que elas possuíam o poder de controlar as tempestades e falar com os anjos, podiam ficar invisíveis e andar sobre as nuvens e a névoa como se as mesmas fossem o próprio solo pedregoso das montanhas. Porém, apesar de governarem o mesmo grande vale, moravam em palácios diferentes em lados opostos, ligados apenas por uma pinguela de madeira. Por viverem em constante pé de guerra, os ventos no Vale da Neblina sempre sopravam muito fortes: uma procurava derrubar o palácio da outra e governar sozinha toda a região. Tinham como montaria longos dragões azuis de escamas cintilantes com cabeça de carneiro, exímias lutadoras, eram cultuadas pelos guerreiros como as deusas das artes marciais, eram as governantes do povo do Vale da Neblina.


Sakurai era a Princesa da Terra, de modo que controlava as florestas, os animais e o movimento das montanhas. Era a controladora dos terremotos e das avalanches, e de todas as irmãs era a mais calma de todas. Porém, não tolerava injustiça ou deslealdade, o que castigava com o seu esmagador poder. Assentada de seu trono em seu luxuoso palácio controlava o Vale dos Gigantes, um lugar verde e paradisíaco onde chovia todas as tardes e onde as moitas sempre estavam floridas, onde as árvores davam os maiores frutos da face da terra e onde coelhos ficavam do tamanho de cachorros, e lobos do tamanho de cavalos. O seu povo lhe era muito grato, e lhe presenteava ao final de todas as colheitas. Sakurai montava um dragão esverdeado com cabeça de veado e chifres floridos, no lombo do qual passeava pelo vale visitando os vilarejos no topo das montanhas sempre úmidas e agradáveis.


Yoona era a Princesa da Lua, e portanto controladora das marés e das águas, habitava seu palácio no alto da montanha mais alta do Vale das Águas, onde haviam cachoeiras, pântanos, lagos, lagoas, riachos e córregos intercalados por ilhas de um verde esmeralda cintilante onde o povo daquele lugar costumava montar suas casas. O vale era habitado por sereias, sílfides, peixes e tartarugas gigantescos e monstros aquáticos de todos os tipos, uns bons, outros maus. Yoona era conhecida pela sua beleza ímpar e assombrosa, capaz de hipnotizar multidões inteiras, seu poder de sedução era tamanho que fazia cair de amores qualquer homem que porventura cruzasse seu caminho, tinha seios fartos e curvas sinuosas, lábios de rosa e olhos de gueixa. De longe era a mais extravagante das irmãs, seus adornos de cabelo eram verdadeiras alegorias e seus quimonos verdadeiros mantos infinitos. Ostentava muita riqueza e era a portadora da magia lunar, de modo que nas noites de lua cheia seu poder chegava ao ápice e ela se tornava a mais forte de todas as sete irmãs. Montava um longo dragão branco com cabeça e orelhas de lebre.


A última e mais delicada das princesas é Makoto, a Dama de Lotus. Sua magia era fraquíssima, a mais baixa de todas, e seu maior poder era o de causar alucinações nos desavisados. Fora isso podia hipnotizar com o seu cheiro forte e a fumaça de seus incensos, além de curar com um simples toque. Ao contrário das outras irmãs, morava num palácio no centro do vale, entre as altas torres de pedra que circundavam seu território, abaixo até mesmo dos vilarejos do seu povo, que ficavam nas encostas e nos cumes. Seu vale era alagado como o anterior, por ser vizinho ao vale de Yoona, recebia grande parte da água que brotava de suas fontes, e isso alimentava as flores aquáticas daquele lugar. Sua montaria era um dragão de dorso prateado e peito verde, garras de falcão, cabeça de cachorro e chifres de veado. Por ser a Dama de Lotus propriamente dita, dispensa-se comentários a respeito da sua beleza, poucos admitiam por medo, mas chegava a ser até mesmo mais bela que sua artificial irmã Princesa da Lua, que roubava o brilho das outras como o astro noturno para brilhar à noite. Era de uma doçura angelical e sua voz era aguda como a de uma menina, tinha os cabelos da cor da avelã e grandes olhos castanhos.
Juntas, estas sete princesas administravam um reino tão grande, tão grande que nem elas tinham noção de onde começava e onde terminava, e foi este conhecimento parco a respeito das próprias terras governadas que deu início a uma guerra.
Aquele mundo era muito grande, de modo que vastos pedaços de terra selvagem ainda existiam e pouco se sabia a respeito deles. A Espinha do Dragão era um grande continente que possuía uma península mais ao norte. Esta península se estendia mar adentro e se pronunciava para o ocidente como um longo dedo indicador apontando para o Oeste. O grande problema aconteceu quando um terremoto causado pela fúria de Sakurai emendou a península ao Reino de Olen’. O Reino de Olen’ equivaleria à Rússia do nosso mundo, se ela fosse tão grande quanto Olen’!
Olen’ era conhecido ao redor do globo por ser uma terra fria, que estava constantemente coberta por neve em grande parte do ano. Os invernos eram longos e rigorosos, mas isso jamais era motivo para que o povo daquele reino perdesse o grande sorriso que levava no rosto: o povo de Olen’ era hospitaleiro, leal e muito alegre, as festas dadas pela família real eram as mais cobiçadas e comentadas, duravam meses inteiros e eram relembradas por décadas, séculos, milênios, e rendiam histórias de deixar os olhos brilhando, ansiando para que outra festa acontecesse!
Mas, voltando ao assunto em questão, um terremoto ocasional havia unido a costa sul de Olen’ com o extremo e desconhecido norte da Espinha do Dragão. Ambas as regiões eram pouco conhecidas por ambos os governos em atividade naquele momento: As Sete Princesas Orientas (que eram amigas íntimas da família real de Olen’ e sempre estavam presentes em todas as festas oficiais do reino vizinho) jamais haviam posto o pé na região norte de seu país, e o terremoto fora causado por Sakurai tentando fechar uma ravina que separava seu vale do vale de Yoona (a água que escorria de lá estava inundando as plantações do povo habitante de Vale dos Gigantes!), a energia mal canalizada acabou direcionando o terremoto que daria origem a uma nova montanha exatamente para o norte, o que empurrou a península rumo a costa sul de Olen’ (diz-se até hoje que um mosquito pousou no nariz de Sakurai naquele momento, e que este foi o motivo da sua má pontaria – diga-se de passagem).
Em contrapartida, Olen’ pouco ligava para as terras do sul. O povo daquele reino adorava o frio, a neve, as florestas fechadas, detestavam o calor, as praias, as palmeiras e as árvores tropicais tão espaçadas, de modo que a base do reino que ficava no sul ficou à mercê de um único duque e sua família – que coincidentemente eram os pais do atual rei de Olen’ que casara-se recentemente com a Rainha Solitária e lhe dera um filho – , duque este que viu-se sem saber o que fazer quando um pedaço enorme de terra pronunciou-se do oriente e derrubou parte de seu castelo num acidente que custou dois primos e um filho.
Aquele foi o estopim da guerra.
Pensou-se que o terremoto fora causado propositalmente, e para compensar os danos causados à família real, o rei sugeriu às Sete Princesas Orientais, suas grandes amigas, que cedessem aquele grande pedaço de terra – que antes era a península – para o território oficial de Olen’, de modo a perdoar a dívida do reino oriental para com a sua família.
Mas as princesas foram irredutíveis e negaram a culpa no acidente, defendendo a desastrada irmã Sakurai, e disseram mais: aquele pedaço de terra continuaria sendo parte da Espinha do Dragão porque assim o era desde o princípio dos tempos. O rei rebateu com o argumento de que aquela região sempre fora inabitada, e não custaria muita coisa a elas porque jamais fizeram questão daquele pedaço de terra. Aliás o terremoto destruíra um palácio milenar quase por completo e tirara a vida de três pessoas de sangue nobre! Era mais do que justo ceder a Olen’ aquele pedaço de terra desabitado, que ainda seria pouco perto do dano que fora causado ao reino.
O fato agora era que agora a Espinha do Dragão e o Reino de Olen’ estavam interligados por uma faixa enorme de terra firme que estava sendo disputada por ambos os governos. Assim a guerra começou.
O reino do oriente investiu em artilharia pesada: navios de guerra, dragões voadores, zepelins e feiticeiros poderosos trazidos dos cantos mais remotos do país.
Em contrapartida, Olen’ trouxe tecnologia do extremo ocidente para combater: os reinos que ficavam além do Vasto Mar do Oeste eram avançadíssimos nesse quesito, e possuíam máquinas extraordinárias criadas por exímios cientistas capazes de reviver até mesmo os mortos por meio de seus mecanismos semelhantes aos de um relógio comum. Estranhas naves voadoras movidas a vapor, tanques, canhões, catapultas e a boa e velha magia foram usadas pelos reinos do ocidente para defender a costa sul de Olen’. As Sete Princesas Orientais ficaram ultrajadas pelo que estava acontecendo: Olen’ estava sendo covarde aliando-se a outro reino para vencê-las, e como a própria Makoto vivia dizendo à Fumiko e Mitiko: “dois contra um não vale!”. Era hora de apelar.
Como foi dito no começo, pouco se sabia a respeito do que havia nas outras regiões inabitadas da Espinha do Dragão, mas Yuuko, geniosa como era, conhecia um pouco a respeito de tudo, e ouvira falar da terra perdida dos macacos, que ficava para além do gigantesco vale governado por Makoto. Este país desconhecido era habitado por macacos que haviam montado sua própria sociedade e viviam em verdadeiras metrópoles no meio da selva, mas com quem nunca houvera necessidade de contato anteriormente. Dizia-se que eles eram portadores de uma sabedoria a respeito da magia que excedia tudo o que era conhecido pela ciência e pela alquimia, logo Yoona ofereceu-se para as atividades diplomáticas.
Foi difícil achá-los no meio de toda aquela mata, mas assim que suas cidades e vilarejos foram encontradas, Yoona logo tratou de procurar pelo líder daquele estranho povo macaco. É claro que eles não resistiram ao poder de sedução da Princesa da Lua e se entregaram aos seus encantos. Quase instantaneamente, eles aliaram-se ao reino da Espinha do Dragão, e partiram rumo ao ocidente para lutar em defesa das sete belas jovens que estavam em apuros. O povo macaco era tão forte quanto rezavam as lendas, eles eram capazes de destruir os aparelhos sofisticados e vaporosos dos príncipes do ocidente com um único braço, e a magia deles era algo sensacional. As baixas foram muitas no exército de Olen’.
O rei até então não havia intervindo na guerra nenhuma única vez, e no momento em que ele decidiu botar o pé no campo de batalha, os príncipes do ocidente lhe ofereceram a última palavra no que se tratava de tecnologia de ponta para o apoio naquela batalha: o Gigante de Ferro! Uma criatura movida a vapor, totalmente artificial, humanoide, com poderosos e longos braços e pernas, um peitoral indestrutível equipado com todo o tipo de armas desde canhões até explosivos, que poderia ser controlada como um trator ou um carro qualquer!
O rei não hesitou e partiu para o campo de batalha montado em seu novo monstro de metal. Nem a magia nem os braços fortes do povo macaco eram páreos para a sua arma indestrutível, com ele à frente do batalhão, era muito mais fácil para os valentes combatentes que vinham logo atrás.
Mas tudo mudou no momento em que o Gigante de Ferro que soltava fogo pelas ventas e vapor pelas orelhas foi atingido pela chicotada da cauda de um dragão prateado. Era Makoto, a Dama de Lotus. Montada em seu dragão, ela havia vindo para defender o seu reino, e também ficara abismada ao dar-se conta de quem pilotava aquele monstro de metal, seu velho amigo de infância. O rei de Olen’ e a Dama de Lotus haviam se reencontrado após longos anos de distanciamento. Era verdade, os dois já se conheciam há muito tempo, costumavam brincar juntos correndo entre os convidados nas festas que eram dadas pelo pai do rei, o duque, naquelas mesmas areias das praias onde agora os exércitos se chocavam, quando os reinos rivais ainda eram aliados.
No mesmo instante, a guerra foi suspensa. Tratados foram feitos às escuras naquela noite e papéis foram assinados à luz das velas, a trégua durou uma semana inteira, e após aquele hiato, a guerra foi dada como vencida pelo ocidente, e o rei, como desaparecido. Ninguém soube o que havia acontecido de verdade, tudo ficara muito confuso após aquela tarde em que o dragão prateado e o monstro de metal bateram de frente, os dois líderes dos exércitos rivais cara a cara, pedindo por uma trégua mútua. No meio da confusão, com os batalhões retrocedendo, pessoas desapareceram. Entre elas, Makoto e o rei.
Dizem as más línguas que naquele momento de trégua o rei de Olen’ montou no lombo do dragão prateado e fugiu para muito além das terras dos homens-macaco com seu verdadeiro amor. Outros dizem que muitos acordos foram feitos durante uma semana inteira. Entre eles, foi decidido que o rei se casaria com a princesa Makoto em troca da paz entre os reinos, e para a família real ele seria dado como morto em campo de batalha. Alguns dizem que ele realmente morreu naquela tarde, que o dragão da princesa Makoto alimentou-se dele, mas isto pode ser apenas outro modo de interpretar mais uma metáfora, das muitas que são encontradas nestas estranhas histórias, sem pé nem cabeça...




~


Apenas mais um conto de fadas, que complementa a história que está na página secreta deste blog. Os mais sábios já perceberam!

xoxo

L.M.




sábado, 30 de abril de 2011

A Terceira Experiência - The Ultimate Chase Suite

Descer ali no meio daquele calor e daquela poeira foi um desafio. Um desafio enorme para alguém que havia acabado de almoçar, tomado banho e passado perfume, deitado-se numa cama confortável no ventinho gelado do ar-condicionado, curtindo os momentos de paz escrevendo uma postagem para o blog. Tirei forças de algum lugar do âmago do meu ser, para adentrar naquele cenário de videoclipe de rapper. Homens. Homens para todos os lados. Sujos e suados. Gente que não voltou pra casa, que estava lá, esperando desde as quatro da manhã.


- Qualquer coisa me passa um Me Liga - disse a mamãe.


- Eu não tenho mais telefone da vivo, mãe, ele quebrou. - fiz.


- Então...
- Tudo bem, eu dou um jeito, ligo lá pra casa, sei lá - beijei ela no rosto e lentamente desci do carro, fechei a porta preguiçosamente e virei-me debaixo do sol quente para os rostos que me encaravam.


"Psiu", "Ei", "Fiufiu", foram as onomatopeias que eu mais ouvi, o dia inteiro, de todos os lados. Todos os olhares eram para mim, nunca me senti tão exposto em toda a minha vida... Bem, na verdade, já me senti pior, mas a situação no momento só me parecia mais desagradável porque eu estava com muito sono, dor de cabeça, o calor era de 40º celsius e eu estava completamente perdido no meio de um bando de homens (ênfase no homens, odeio homens) desconhecidos. E suados.


Eu demorei para entender como as coisas funcionavam por ali pela parte da tarde, para quem já havia entregue seus documentos no balcão. Primeiramente eu fiquei parado ao lado da porta de entrada enquanto era devorado pelos olhos de um bando de mal encarados, isso levou um tempo. Havia um grupo de garotos liderados por um rapaz usando a camiseta do flamengo que estavam pouco à minha frente na enorme fila dobra-quarteirão pela parte da manhã, eles marcavam presença ali pela parte da tarde também e pareciam ter estabelecido um tipo de relação sociável e amigável com aquela tia estressada que havia gritado com todo mundo - menos comigo - de modo que, ao contrário daqueles mais rebeldes e mal encarados, eles podiam perambular pela sala de espera interna reservada apenas àqueles que foram chamados pela ordem na listagem dos documentos registrados sem problema algum.


Aqueles que não haviam sido chamados para a sala de espera eram obrigados a aguardar do lado de fora, numa espécie de pátio, algo semelhante a um curral, uma área concretada e coberta, com alguns bancos e cadeiras espalhados por ela nos quais aqueles que tinham muita sorte, se sentavam.


Passei a entender como as coisas funcionavam quando o grupo de garotos liderado pelo rapaz da camiseta do flamengo passou correndo por mim exclamando "vamo, vamo! já vai, já vai!". E foi um verdadeiro estouro da boiada. Esse era o Alerta. Todos os outros rapazes espalhados nas redondezas do prédio da Junta Militar correram para o curral (aquilo que eu chamei no Chase Suite I de "A Área", não sei porque, mas aquilo ali tem cara de que era pra ser uma garagem, possui a abertura perfeita pra entrada de um carro e portões baixos que ficaram o dia inteiro abertos, naturalmente), e o galopar da multidão de rapazes fez levantar toda a poeira do chão. Quem visse a cena ao longe poderia jurar de pés juntos que aquilo se tratava de uma manada de búfalos ou cavalos fora de contexto!


Eu fiquei completamente sem reação e saí do meio para não ser pisoteado, segui o rabo da multidão e dei de encontro com uma espécie da almôndega humana concentrada ao redor de um único ponto. Quando o vento bateu contra aquele monte de corpos suados amontoados, recebi no meio da cara o odor forte do suor masculino, entrou como agulhas perfurando meu olfato, cutucou meu cérebro com força. Comecei a sentir tonturas a partir daí.


Eles estavam reunidos ao redor de um foco como espermatozoides tentando perfurar um óvulo, esperavam por algo, ansiavam por algo perdido no meio deles, levantavam os braços para o alto, gritavam e xingavam, recebiam de volta as respostas ásperas e armadas de uma voz feminina irritadiça. Era a tia. A tia baixinha, mas invocada, com cara de poucos amigos e que gritava com todo mundo (você também ficaria assim se tivesse de dedicar seu dia inteiro a um bando de marmanjos abusados!), ela tinha uma lista em mãos, e chamava pelos nomes de quem estava na ordem.


Quando ela chegava, os que estavam sentados nos bancos ficavam de pé, com os ombros e as cabeças acima da multidão, foi assim que eu avistei o Anderson. Na verdade, foi assim que ele me avistou, se ele não tivesse levantado a mão e chamado a minha atenção, eu nunca teria reparado nele, mesmo de pé naquele banco. Ele estava na companhia do Luan, outro garoto que também havia estudado no Atual, mas que não era do terceiro ano como nós, ano passado. Talvez vocês se lembrem das citações que fiz a respeito do Anderson nas postagens anteriores, principalmente aquelas que dizem respeito à criação dos primeiros momentos da Mitologia Canavar, ele teve alguma participação nela, pra falar a verdade.


A manada dispersou após os próximos candidatos à saída do purgatório serem chamados, percebendo que seus nomes não sairiam na listagem tão cedo. Foi o momento em que aproveitei para sair do sol e me meter em algum lugar onde não houvesse tanta gente assim, fui para um canto distante daquela simulação de pátio de presídio e me escorei no muro, fiquei ali por um tempo até ver o Anderson chamar a minha atenção outra vez, agora me chamando até ele. Sorte! Alguém para conversar e me fazer companhia! Alguém em quem eu confio e que conheço a bastante tempo!


Eu atravessei o que restara da multidão para chegar até ele, e recebi mais onomatopeias abusivas "que gatinha eim" exclamou um esquisitão encostado na parede, eu franzi o cenho para ele e levantei a sobrancelha direita, num misto de dúvida e desprezo ao mesmo tempo, caminhei até o Anderson e de frente para ele fiquei durante pelo menos umas duas chamadas de nomes selecionados até que o cara que estava sentado do lado dele resolveu se levantar e eu pude descansar minhas pernas que estavam latejando: a manhã inteira de pé pegando vento, sol e fumaça ouvindo funk e fofoca não é pra qualquer um!


O Anderson foi uma boa companhia, não saiu de perto de mim um minuto (na verdade, EU não saí de perto dele), de modo que não houve espaço para aquela gente esquisita tentar se aproximar e tirar mais gracinhas. Juntos conversamos de tudo um pouco, o que se fez das nossas vidas após o fim do Ensino Médio, como estamos lidando com isso, se estamos gostando dos nossos cursos, enfim, trivialidades da vida alhei e críticas ao sistema à parte, falamos do meu assunto favorito: misticismo, gnostismo e alienígenas. Nos prendemos as teorias sobre Deus durante quase uma hora inteira, e na terceira vez em que nós nos pusemos de pé no banco para ter um panorama mais amplo da chamada, pisoteei um garoto que estava sentado do meu lado, perguntei a ele se eu havia machucado e se ele estava bem, e ele disse que tudo bem, mas tenho certeza de que lá no fundo ele estava me xingando de tudo o que ele podia me xingar.


- Isso aqui é o purgatório, depois dessa, qualquer um sai daqui santificado, beatificado e com os pecados todos pagos - comentei aleatoriamente. O garoto que eu havia pisoteado concordou, e o amigo que estava sentado ao lado dele riu. Foi assim que comecei a socializar. E me senti muito à vontade para puxar conversa com aqueles dois, que pareciam ter o mesmo o porte e classe deste que vos fala (nem sou metido, né não?), estavam bem arrumadinhos e de cabelos penteados, conversavam baixo e estavam encolhidos naquele banco tentando não se aproximar muito daquele bando de neandertais.


Passei a tarde toda sentada naquele banco, levantado só para ficar de pé nele, ansiando pela hora de chamarem meu nome, conversando trivialidades e pertinências com meus novos amigos e curtindo aquele momento terrível. A pior parte era quando a manada de búfalos se reunia para a chamada daqueles que estavam na ordem da listagem: o odor de suor, saliva e chulé subia a níveis insuportáveis, axilas que estavam sem um banho higiênico desde as sete da manhã chegavam a um ponto de asfixia do meu ser. E quando a manada debandava, um ou dois aproveitavam para acender um cigarro e deixar o ambiente mais abafado ainda! Sorte que ventilava, mas tudo o que é bom tem seu lado ruim: o vento trazia o odor fétido de um banheiro podre fedendo a urina pura acumulada, e eu me abanava com mais força ainda! Não havia uma única nuvem no céu, o cenário era desolador e desesperador. Por volta das quatro da tarde, chamaram um dos meus novos amigos, e só ali descobri que seu nome era Iago, aquele que mais falava dos dois. Quando ele disse "Sou eu! Aqui!", com aquela voz típica de moços bem criados e delicados como eu, foi motivo de uma salma de onomatopeias rudes e grosseiras como "hmmmms" e "uis" e "ains". Aquelas coisas.


A sensação que eu tinha ali dentro era da união dos malacos do Muca, com os marginais do Perpétuo Socorro, os bandidos do Marabaixo II e os manos do Cuba de Asfalto. Enfim, a Convenção Universal dos Brutamontes Sujos e Sem Educação (nada contra quem mora nesses bairros, conheço gente de bem que vive em pelo menos dois dos citados). Eu me sentia em algum tipo de presídio onde, numa estranha realidade distópica eu havia cometido algum tipo de crime hediondo que resultou em prisão perpétua no meio daquela cambada de homens das cavernas. O modo como aquela gente era tratada ali naquele curral me fez lembrar das aulas de histórias a respeito do transporte dos negros através do Altlântico para serem comercializados nas Américas, UMA COISA TERRÍVEL E DESUMANA! Fomos tratados com animais, pra falar a verdade, e quando o Sargento veio de lá de dentro pra avisar que haviam muitos registros para serem catalogados e que aquilo só teria fim lá pra meia noite, a vontade que me deu foi de chorar, eu e o Anderson saímos de lá arrasados (sim, porque o meu amigo restante que se apresentou como Junior, desistiu assim que o Sargento disse que aqueles que assim preferissem, poderiam ir embora e voltar apenas na segunda feira, porém com a certeza de que os problemas não seriam resolvidos tão cedo: eles teriam de se apresentar no 34º BIS só em 2012!).


Eu quase chorei. Fui lá fora, tomei uma coca, peguei um vento e olhei para o horizonte, já pensava em desistir e prolongar mais essa tortura. Se eu viesse na segunda feira, teria de esperar um ano para me apresentar e acabar de uma vez com tudo isso. Se eu ficasse até meia noite ali, perderia o que me restava do dia (da noite, na verdade, já era próximo de seis horas) e detonaria com o meu psicológico e as minhas pernas! Aqueles que estavam sendo chamados naquele momento ainda eram os que entregaram os documentos no balcão às sete da manhã, e eu só havia entregado os meus às dez horas! Em resumo: eu estava perdido. É, eu ia desistir. Voltar na segunda feira. Desistir. Desistir. Desistir.


Eu estava me despedindo do Anderson quando a cambada de marmanjos com cara de marinheiros desabalou em carreira para o curral, era mais uma chamada de nomes. Todos entraram, menos eu. Fiquei lá fora olhando aquela massa de gente exclamando enquanto a funcionária torturada gritava por silêncio. Levantei meus olhos pro céu e pedi a Deus que aquela tortura acabasse, que eu pudesse ir para casa tomar um banho, chamei por Jesus do fundo do meu coração, como eu só chamava em dias de prova final ou recuperação, juntei as minhas mãos e as ergui para o céu dizendo "é a minha última tentativa Senhor! Me ajuda! Não me deixa passar por isso! Eu te peço!". E me entreguei à multidão.


Ela chamou o primeiro nome. Algum "da Silva". Ele gritou "até que enfim!" e pulou de cima do muro.


O segundo nome, bem, se realmente creem em milagres, acreditem se quiserem, o segundo nome... FOI O MEU!


Dei dois pulinhos e disse baixinho, com medo de virar chacota como aconteceu com Iago "Aqui! Aqui! SOU EU!". Os que estavam na minha frente viraram pra trás e gritaram "tá aqui! tá aqui", mas a mulher continuou chamando, achando que era mais uma gracinha do grupo.


- Antonio Pantoja Fernandes Junior? Cadê o Antonio? Quem é Antonio?! - eu tive de gritar.


E foi aquela coisa, vocês já podem imaginar.
Começou como um deboche em massa, e terminou com vários uivos, clamores e uma salva de palmas, eu nem entendi! Cruzei a multidão dando cotoveladas e pedindo licença de cabeça baixa. Dois me arremendaram e 3 pediram meu telefone ou meu MSN, saí do meio daquela manada vermelho feito um tomate, e lá dentro, na sala de espera, sentado no banco, enfrentei mais um deboche quando chamaram meu nome para a entrevista pela segunda vez, a checagem para averiguar a presenção de todos "Aqui! Sou eu!" eu disse. "Aqui! Aqui! Aqui!" alguém me arremendou.


- AH, VOCÊS GOSTAM DE ARREMENDAR OS OUTROS É?! QUERO VER VOCÊS FAZEREM ESSAS GRACINHAS NA CARA DO GENERAL! VÃO ARREMENDAR O SARGENTO QUE TÁ ALI DENTRO, VÃO! - gritou a tia. E eu estendi um sorriso de orelha a orelha! Por algum motivo ela havia me defendido daqueles idiotas, aquela que gritava com todo mundo e distribuía patadas nos marmanjos havia saído em minha defesa! Mas que lisonja eu senti naquela hora! Entrei na sala e percebi a situação: o interior de uma repartição pública qualquer, com funcinários sentados em cabines de frente para os seus computadores onde faziam registros e cadastros, era como abrir uma conta no banco ou tirar o título de eleitor: você dá seus dados, responde umas perguntinhas e sai de lá feliz e serelepe dando um grande NÃO à alienação do exército.


Ou, como diria nossa querida Björk:


"DECLARE IDEPENDENCE! DON'T LET THEM DO THAT TO YOU!" e foi isso que eu fiz. Eu disse um não bem grande quando a moça me perguntou se eu queria servir o exército.


- Tu moras na Caramuru né? - ela perguntou.


- Sim, moro - disse.


- És filho de uma professora? - tornou a perguntar, com os olhos na tela do computador. A aura dela me lembrava a aura familiar e materna que a tia Gláucia me passava. Me senti muito à vontade.


- Sim, sou sim! - respondi, feliz, vendo que ela estava sendo simpática e amigável.


- Eu sou nora da professora Cila! - se apresentou.


- Eu sou meio que... bem, ela é minha tia-avó! - de certo modo, sim, porque papai foi criado por ela.


- Olha só! E eu ainda pedi pra menina ver se tinha algum conhecido nosso lá fora, pra ver se agilizava mais esse negócio... - disse ela, ainda com os olhos no computador. - e teu pai, como é que tá?


Ela recolheu meus dados e informações, conversamos um pouco sobre as trivialidades da vida e então ela me passou para uma fila, onde eu receberia o carimbo e a data. A data da apresentação e juramento à bandeira. No final daquela fila, sentada em uma mesa, a mesma senhora que havia enxotado o excesso de marmanjos da porta dos fundos e sido gentil comigo me sugerindo ir para casa tomar um banho e almoçar enquanto acendia um cigarro estava fazendo seu serviço: carimbar. Ela me sorriu, simpática.


- Aceitou minha sugestão, foi? - ela perguntou.


- Sim, sim! Eu fui em casa. - sorri, aliviado por estar sendo tão bem tratado. A moça que havia me defendido lá fora entrou bufando e com um meio sorriso e sacudir de cabeça em desabafo, me cumprimentou, como quem diz "Esses moleques...". Eu sorri para ela e me sentei na cadeira de frente para a mesa da senhora.


- Esse dia acabou com a minha coluna! - exclamei, tentando me esticar.


- E agora tu imaginas a gente, que tá aqui desde seis da manhã! - riu ela. Tinha as mãos pequenas e delicadas apesar dos trejeitos. Havia uma garota muita entediada sentada ao lado dela.


- Mas não é?


Ela me carimbou e mandou que eu aguardasse do lado de fora da porta, onde a moça me devolveria o certificado de alistamento e a minha certidão de nascimento carimbado e marcado com a data em que eu deveria me apresentar.


- Antonio, quem é?


Me aproximei.


- Aqui, você escolhe uma data para se apresentar, entre agosto e setembro, entendeu? - fez ela, me mostrando onde havia sido marcado o dia da Independência. A minha independência.


- Entendi.


Saí de lá sob os olhares de todos.


Encontrei o Anderson lá fora e me despedi dele, expliquei que não era nada demais lá dentro, e desejei sorte para que ele fosse chamado logo, logo. Fui embora seguido por onomatopeias mais uma vez, sob a luz do crepúsculo, entrei no ônibus. Sujo, fedido, descabelado, mas de alma lavada. Havia pagado todos os meus pecados de 2010. "Depois dessa, nem preciso ir pro Círio, já to até quitado com a Virgem Maria" eu havia brincado com o Iago, mais cedo, à tarde.


Cheguei em casa e contei minha incrível desventura para mamãe e Iêda, e elas não sabiam se riam ou se choravam! Não aguentei. Tomei um banho, nem comi, enrolei uma toalha na cabeça, vesti uma cueca e uma blusa e me joguei debaixo das cobertas, de cabelo molhado mesmo, eu que detesto dormir de cabelo molhado. Mas o cansaço era tanto que eu não me importei com mais nada, só com o fato de que eu estava deitado entre as minhas cobertas, limpinho e cheiroso, a salvo de toda aquela gente asquerosa, daquele lugar sujo e fedido.


E eu refleti tudo o que me aconteceu naquele dia. Tudo.


No começo do dia, eu havia chiado de inveja após, grogue, ver o casamento real na televisão, me lamentando por contos de fadas serem reais... para pessoas ricas e bonitas. Cheguei até mesmo a dizer aqui, na Chase Suite anterior, que pessoas como eu não têm finais felizes.


Bom, tudo o que eu disse nesse dia inteiro não passou de merda quando tudo isso acabou, não significou nada quando eu finalmente percebi a verdade, e confesso que senti vergonha de ser tão ingrato.


Eu vivo sim, um conto de fadas diferente à cada dia. Porque contos de fadas são assim, o herói sofre a história inteira, para se dar bem no final e ainda tirar uma lição de moral. Essa é a base dos meus dias, essa é a base da minha vida. Nenhuma felicidade vem sem algum sofrimento ou alguma dor, muitas coisas são sacrificadas para que haja um sorriso e um suspiro de alívio.


E eu realmente me dei bem no final: todas as funcionárias foram amáveis e compreensivas comigo, chamei por Jesus e ele operou um milagre naquele momento. Foi algo inacreditável. Assim que eu desci meus olhos do céu, meu nome foi chamado! O nome de Deus é uma coisa poderosíssima <3 JESUS EU TE AMO S2


E tirei também uma lição de moral! Aprendi que não se pode deixar para depois o que se pode fazer hoje! Nunca mais deixo nenhum tipo de alistamento para última hora!


"E assim, o andróide Louie Mimieux, que decidiu ter vontade própria e não servir ao exército de robôs guerreiros de Metropolis escapou do Galpão de Armas, por onde todos os andróides devem passar antes de receberem a dispensa final... Por enquanto ele está à salvo do terrível governo autoritário de Metropolis... Mas só por enquanto..."


Continua em Setembro! Mas por enquanto...




FIM

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

9.20.19.13.5.723378


A imagem daquela pobre cadela atropelada não me deixou dormir. Me deitei às 3, mas às 6 eu já estava de pé. Não conseguia imaginar nossa protetora, nossa amiga, apodrecendo ao ar livre, lá fora no quintal, dentro de um saco preto, esperando alguém para enterrá-la.
Ele havia cavado o buraco, mas era eu quem tinha de fazer isso, era eu quem tinha de jogar a terra sobre ela. Não havia motivos para cavar mais fundo, estava perfeito, o buraco cobria metade das minhas pernas, e eu sou alto, alto demais. Era profundidade o suficiente para fazer o descanso final da vigia do lar.
As imagens do dia anterior me vinham à cabeça enquanto os pássaros cantavam e o sol terminava de nascer. Minha irmã havia acabado de ir para a aula. O vento gelado da manhã acariciava o capim com carinho, acordando a folhagem das árvores trazendo os raios de sol consigo, tornando amarelo o brilho azul espectral deixado para trás pela madrugada. Eu nunca vira mamãe sofrer daquele jeito, não por um animal. Trancou-se no quarto após ir até a porta de casa receber a notícia do vizinho. Não teve coragem de ir até a calçada para ver o corpo, oculto pelo velho Ford KA branco que costumávamos usar há algum tempo atrás. Agora uma carcaça sucateando.
Mas eu tive coragem.
E preferia não ter visto a boa e velha Gabi estirada daquele jeito.
Na mesma hora me veio à imagem à cabeça. Daquela raposa de pelos dourado-alaranjados que explodia e dava lugar a um monte de larvas, numa imagem acelerada de sua decomposição na abertura de True Blood. Seria esse o destino dela? As moscas já se acumulavam.
- Foi de manhã cedinho - disse o velho - o carro acertou ela em cheio, ela correu chorando pra cá e se jogou aqui atrás do carro...
Levei a mão à boca. Mamãe entrou.
- Quer que eu a enterre? Eu levo ela...
- Não, não, não precisa - fiz, perturbado - o rapaz tá vindo pegar ela já...
O velho foi-se. Entrei. Procurei o rumo do quarto, segurei a mão dela. Estivera chorando ao telefone há alguns segundos antes de eu entrar pela porta.
- Calma, não chora, isso é super normal. Eu sei o que a senhora tá passando, mas é assim mesmo e... - segurei na mão dela. Ela puxou a mão bruscamente para junto do corpo e levantou-se furiosa.
- Não quero mais saber de bicho nenhum aqui nessa casa! - disse, às lágrimas. - quero todos esses gatos fora daqui! Tudo eu! Tudo eu!
- Nenhum de nós teve culpa, mãe.
Ela ficou calada.
Me levantei e saí, fui me sentar na cadeira de balanço roxa do pátio. Cruzei os braços atrás da cabeça e fiquei admirando aquela tarde amarela e poeirenta, quente como o inferno. Um dia ensolarado e melancólico como aqueles dias de minha infância em que eu passava as tardes na casa da vovó, brincando sozinho enquanto as outras crianças estavam na escola. Meus pais haviam acabado de se separar.
Havia cheiro de chão recém-encerado e Laura Pausini tocando baixo no rádio da sala. Todas as luzes da casa desligadas, todos os adultos dormindo a sesta vespertina. Mas eu não, eu ficava andando pela casa, pra lá e pra cá, explorando cada canto dali. As moscas se acumulando em cima da mesa, cheiro de café recém-feito e pão quente com manteiga direto da padaria. Os raios de sol entravam fortes pela janela da cozinha onde minúsculos grãos de poeira dançavam no ar como mini universos num balé constante. Pó.
Havia também o som distante do sorveteiro e seu carrinho de mão, a buzina estridente de carros e o som irritante mas reconfortante da voz vinda dos auto-falantes no caminhão da Tropigás. Década de noventa. Cigarros baratos. Vento nos coqueiros do quintal. As folhas verdes lustrosas esfregando-se umas nas outras provocando aquele barulho delicioso que eu tanto adorava. Às vezes eu me deitava sozinho no chão sujo para olhar os pombos no telhado e as copas dos coqueiros dançando ao sabor do vento. Ficava imaginando o que havia do outro lado do muro, na casa do vizinho, e me divertia falando sozinho, brincando com uma velha cruz de metal da minha altura que há muito havia sido esquecida ali perto dos entulhos. Zerão, o cachorro dormia ali perto. Não se aproxime muito, ele morde.
Assim eram as minhas tardes na casa da vovó. Seis ou cinco anos de idade. Era sempre assim. E eu não sabia porque, mas aquela atmosfera daquela tarde fatídica onde encontramos o corpo da Gabi já sem vida me fez lembrar dessas doces e melancólicas tardes solitárias, onde eu me sentia muito bem acompanhado de mim mesmo. Eu era muito mais feliz quando não me relacionava com as pessoas. Ah! Se eu soubesse! Teria optado por se autista como alguns pais e professores estavam me qualificando!
- Ela trancou a porta - minha irmã surgiu no vão da porta da sala - e agora? Eu tenho que tomar banho e me arrumar pra ir pro balé, as coisas estão todas lá dentro!
Dei de ombros.
- Ela acha que a culpa é nossa.
Silêncio.
- Eu vinha avisando há séculos - continuei - essa cachorra tava solta desde o dia de ano novo. Eu vinha dizendo: "prende essa cachorra, prende essa cachorra" ou "vai acontecer uma merda, ou o carro vai bater ou ela vai morder alguém! prende essa cachorra!", agora mamãe finge que não me escuta.
- Não NOS escuta - corrigiu minha irmã - ela espera acontecer pra depois lamentar, precisa ouvir tudo de fora pra poder confirmar se é verdade ou não, nunca nos ouve. Nunca.
- Às vezes somos mais sábios que ela - terminei.

Entrei, peguei um livro, sentei-me no pátio. Daniel Molloy estava sendo transformado em vampiro dentro da cabine do avião em "A Rainha dos Condenados". Que livro fantástico. E nada do rapaz chegar. Aquele rapaz que já é homem agora e que eu conheço desde os doze anos. Que me viu crescer praticamente. Ele chegou já perto do anoitecer, restavam duas horas e meia de sol.
- Vai ajudar ele a cavar, por favor, tá?! - fez ela, abrindo a porta do quarto onde eu me estirava no chão, tentando ler o meu livro, escapar da realidade.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho - disse, frio.
- O QUÊ? - perguntou. Não tinha escutado.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho. - disse, gelado.
- COMO É QUE É? - de novo. Ela tinha ouvido. Estava só me desafiando a dizer de novo.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho. - nunca repito uma sentença tantas vezes quanto repito aqui dentro dessa casa.
- MUITO OBRIGADA! - fez, raivosa, bateu a porta do banheiro e se trancou lá dentro. Suspirei e fui lavar a louça. Às vezes sinto necessidade de ter minha própria casa, mas acabaria morrendo na sarjeta sem a ajuda dessa mulher. Isso me deixa decepcionado comigo mesmo. Olha o meu tamanho!
Me tranquei e comecei a escrever. Um capítulo inteiro da minha nova história fluiu como água, como um capítulo há muito tempo não fluía! Me senti em êxtase comigo mesmo! Era fantástico! Há quanto tempo eu não escrevia com tanta vivacidade, com tanta verossimilhança! Com tanta paixão! Eu estava realmente no interior da França ou era impressão minha? A resposta para a dificuldade em escrever nestes tempos difíceis é que agora eu tenho muitas coisas na cabeça ao mesmo tempo. Antes eu era oco, vazio, não tinha muita coisa no cérebro com o que me preocupar. Mas de repente me senti com 14 anos de novo, viajando em meu mundo interno outra vez! Que mágico!
Até que me cortaram a linha do pensamento, e lá fui eu comprar o lanche na padaria. Já era noite. Eu me sinto envergonhado em andar nas ruas com a blusa do meu antigo colégio agora, mas todas as de ficar em casa estão sujas.
Tornei a entrar em meu mundo. E assim fiquei durante um tempo até me informar do que havia acontecido aqui na vida real.
- Ele não enterrou ainda. Acha que tem que cavar mais fundo. - disse, chorosa para mim. Pobre mamãe! Eu sei muito bem o que ela está passando. A morte da Baby pra mim foi uma gota d'água e tanto. - Amanhã cedo talvez ele venha e... O que é isso que tu estás assistindo?
- É True Blood, mamãe.
E então até ela se rendeu ao cotidiano conturbado dos moradores de Bon Temps. Depois minha irmã entrou e elas assistiram por durante uns trinta minutos. Partiram. Terminei a noite assim, chocado pela vida real e pela ficção; a doce avó de Sookie, Adele Stackhouse fora morta, assassinada cruelmente, jazia sobre uma poça de sangue no meio da cozinha! Que horror! E eu me havia apegado tanto àquela senhora em tão poucos episódios! Ela era uma personagem tão carismática e encantadora!
Mas que crueldade, Allan Bal seu filho da mãe!
Mas que crueldade, vida! Sua filha da mãe!
Quer saber? Que todos se ferrem, eu vou enterrar aquela cachorra! Pensei. Deixei um episódio de The Vampire Diaries baixando e fui dormir. Às seis já estava completo o download. Assim que terminei de assistir, pulei da cama e fui para o quintal, empurrei o saco preto para dentro do buraco com a enxada, o cadáver duro e já fétido caiu com um baque surdo no fundo do pequeno poço. Ela era pesada! Então comecei a enterrar, puxar toda a terra a minha volta para dentro do buraco.
E então lembrei de Jonna Lee e sua iamamiwhoami, em seu concerto, cantando os versos desconexos de 9.20.19.13.5.723378 enquanto enterrava a bola de alumínio que continha as cinzas do garoto carbonizado. Ora, e porque não cantar também? Tornar isso ainda mais dramático?


A brisa me lambeu o rosto suado como uma vaca.


Carry my head

With this mengled body

It hurts

Like

Hell

Like

Hell

Lights are on

But there's nobody home

Long asleep

As hard as most...














Em memória de Gabriela.

xxxo


Louie Mimieux

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O 18º Manifesto

Há um momento na vida em que o jogo muda, em que os olhos se abrem e o mundo já não é mais o mesmo, há um momento na vida em que você percebe que o tempo passou tão rápido pra você, e os seus olhos marejam ao lembrar de alguns momentos da infância. Acho que não sou o único que tem essa sensação no mundo inteiro, alguém a mais deve sentir o mesmo, aquela velha sensação de que "eu era feliz e não sabia". E quando você abre os olhos, você cresceu e nunca mais voltará a ser o mesmo, nunca mais, a vida já te torceu, dobrou, te fez de origami e depois de devolveu pra onde você estava antes de tudo começar, agora todo amassado, um pouco rasgado em alguns pontos, mas calmo, conformado, pacífico. A sensação é de estar flutuando no oceano, sendo levado pela maré enquanto todos os tipos de pensamentos te assolam. E que coisa estranha é isso que chamam de "Epifania"... Essa palavra possui algum acento? Não sei, sempre tive medo de usá-la temendo assassinar cruelmente a língua portuguesa, como certa vez fiz em "Stella" colocando viagem com J e não G, fui avisado do meu erro da pior forma possível, e me senti muito envergonhado. Um incidente à parte nessa minha estranha vida.
Mas voltemos a falar dela, a epifania. Parece o nome de alguma vizinha, daquelas que ficam no jiral lavando a louça e descamado o peixe! Realmente, pode até ser, dependendo do modo como você a enxerga. Mas eu a vejo de uma forma diferente, eu a vejo do outro lado do espelho, com o meu rosto emprestado, me falando coisas para as quais fui preparado a um dia ouvir. Coisas que sempre ficaram subentendidas a cada episódio de minha vida, a cada epopeia, a cada passo que dei rumo ao desconhecido, mas que nunca tive coragem de assumir para mim mesmo. É como conversar consigo mesmo num momento tão íntimo que você é capaz de se sentir narrador do seu próprio seriado.
Há um momento na vida em que você acorda e vê que secou, a sua fonte de sonhos secaram. Não que a esperança tenha acabado, não, ela é a última que morre e estará para sempre no fundo da sua caixa de pandora interna, esperando o momento em que você estiver se sentindo nas últimas, esperando a hora certa pra sair e dizer "ei, eu ainda estou aqui, acredite em mim". Não é como se sentir desesperançado, não, é como cair na real, é como enxergar o mundo ao seu redor como ele realmente é, tirar as vendas da infância e acordar para as responsabilidades de uma vida adulta, ou como eu dizia até um ano atrás "alienar-se pela sociedade". Isso é crescer, é se tornar um adulto conformado. No meu caso, um jovem adulto conformado, mas feliz. Para alguns isso demora a acontecer, muitos persistem em enfrentar o seu próprio fardo, tentam mudar a história com a mesma garra e força de vontade que possuíam desde a infância, sem sucesso. Força de vontade, falaremos dela já, já!
Mas é isso que acontece, você vê que há contas para pagar, e que você está crescendo, se tornando um homem adulto, e que está na hora de assumir certas responsabilidades, administrar a casa, a família que até alguns meses atrás te administrava. Agora é com você. Esse é o pensamento, ou pelo menos a linha que leva a ele. Contas a pagar, serviços a realizar, trabalhos para terminar. A faculdade está bem aí, e não vai ser nada fácil, com certeza, nada é fácil na vida de ninguém, muito menos na minha, que por si só já é um tanto novelesca, imagine agora então!
E então, com este turbilhão de pensamentos na minha cabeça eu me pus no meu lugar, finquei meus pés no chão enquanto fazia a barba, que teima em crescer e manchar o meu rosto de roxo e cinza, destruindo o que um dia já foi a face de um querubim. Destruindo toda a beleza da juventude. E eu percebi onde estou, olhei para mim mesmo.
Veja bem, olhe bem para o lugar onde você vive, analise suas condições financeiras e a sua popularidade. Há alguma chance de alguém algum dia publicar algum livro seu? Ou chegar a compensar o seu talento? Elas são praticamente nulas, mas eu me prendi a esse sonho bobo desde que me disseram "você tem um talento", me prendi a esse sonho de ser famoso e ser reconhecido pelo que faço, planejei um futuro me embasando naquilo, mas por sorte acordei antes que fosse tarde demais. Eu vivo no Amapá, moro em Macapá, longe dos grandes pólos culturais do país, longe dos olhos importantes da mídia, dos "caçadores de talento" por assim dizer, nossa conexão com o mundo via-internet é no mínimo PÉSSIMA, às vezes o blogger nem abre, não estamos conectados ao resto do país por terra, estamos praticamente isolados aqui. Quer dizer, eu estou. As pessoas daqui se acostumaram a isso, se conformaram, e é o que está acontecendo comigo nesse exato momento! Meus sonhos não condizem com a minha realidade! Minha realidade é outra! É totalmente diferente do mundo de faz-de-contas que eu havia criado em torno de mim e do meu futuro "brilhante". Quem vai dar atenção pra um escritor amapaense indigente que nem eu? Ninguém. Isso mesmo. Ninguém, e esta é a realidade.
Parece um pouco cruel e um tanto dura, fria, mas eu até que aceitei isso bem, afinal de contas. Talvez por sempre saber inconscientemente de que isso era verdade, mas nunca ter admitido para mim mesmo. É como se eu viesse sendo, ao longo desses três últimos anos, preparado para aceitar isso. Acho que isso faz parte de crescer, de seguir em frente, de tocar a vida a partir da realidade em que se vive. No final das contas, acho que fui destinado a isso, a seguir uma vida simples, sem fama, sem glamour, sem reconhecimento, apenas o anonimato, apenas mais um. Talvez eu tenha nascido para ser como qualquer um, e Deus tenha me colocado nesse mundo, nessa cidade, nessa realidade para aprender a aceitar isso, a aceitar humildemente meu destino despretensioso. Para aprender a ser gente, a ser humano.
Uns nascem para brilhar, enquanto outros brilham só na teoria. Teoria, isso faz parte de ser um capricorniano. Certa vez li em uma comunidade do orkut as verdades sobre os doze signos do zodíaco. Os capricornianos são assim, são muita teoria e pouca prática, não tem força de vontade o suficiente para se realizarem, para fazerem os grandes feitos de que tanto se gabam um dia fazer. São mesquinhos e um tanto antipáticos, por isso nunca vão muito longe, por se acharem melhor do que os outros. É, acho que isso é bem eu mesmo. Não que eu me ache melhor do que os outros, na verdade, um dia cheguei a achar isso, mas faz realmente muito, muito, muito tempo, antes de eu me tocar que faço parte da base da sociedade, marginalizado por ser diferente dos outros, e na visão deles, ser inferior a eles. Eu tenho uma boa noção disso.
Mas isso pouco me importa, o que importa é o que eu tenho aqui dentro, e mais nada. E eu tenho conteúdo, sim senhor! No mais, acho que persistir em sonhos impossíveis é como buscar o amor, só serve para quem tem força de vontade e dinheiro (no caso do amor, a beleza também está incluída nos quesitos, coisa que eu definitivamente não possuo), e são duas coisas que eu não tenho em grande quantidade. E afinal, o que há de errado em terminar uma faculdade dignamente? O que há de mais em conseguir um emprego qualquer e receber um salário razoável para poder pagar uma diarista ou comprar alguns livros de vez em quando? Fazer uma viajem, conhecer lugares diferentes usando as economias de final de ano. Ser um adulto como qualquer outro. Não, não há nada demais nisso, é até bem satisfatório, quantas pessoas no mundo não desejam isso?
E eu aqui sonhando com a fama!
É até cômico o modo como eu via este tipo de futuro há alguns meses atrás, achava deprimente, medíocre, ridículo. Aquele estilo de vida não era pra mim. Mas quando não se tem dinheiro e nem reconhecimento, qualquer estilo de vida para a sobrevivência está de bom tamanho, você vai perceber isso quando crescer.
Mas isso não quer dizer que vou parar de escrever, de criar, de inventar! Não! Mas nem em pesadelos! Nunca! Eu adoro escrever, escrever e criar, desenhar, me faz sentir importante, me faz sentir parte de algo, me faz sentir um deus pequeno, uma entidade menor e mais baixa, mas ainda assim poderosa o suficiente por controlar o destino de personagens fictícios! Escrever me faz sentir especial, me faz sentir parte de algo! Pode-se dizer que continuarei criando por vaidade própria, quiçá. Não sei distinguir. Mas criar é uma terapia para mim, assim como ler e ouvir música. Adoro música, meus ouvidos estão tão apurados agora que eu quase posso tocar e sentir o gosto de algodão doce das batidas da Robyn, ou a acidez dos ruídos eletrônicos da iamamiwhoami, flutuar nas canções da Alison Goldfrapp ou me sentir um rei coroado ouvindo os gritos da Björk (sim, minha vida agora não é só Britney Spears e Lady GaGa, apesar de as duas possuirem lugares especiais no meu coração por fazerem parte da minha história, sendo a última uma verdadeira artista do pop como nenhuma outra). Nossa, como eu mudei! Como eu cresci! Quase sinto orgulho de mim mesmo! Bom, só quase... Ainda falta muito para sentir orgulho próprio, um emprego talvez.
Amanhã estou partindo para Laranjal do Jarí, passar uns dias por lá, arejar de Macapá um pouco como costumo fazer em todas as férias, deixar o escuro do meu quarto para nadar nas águas da cachoeira de Santo Antônio. Talvez eu passe meu aniversário por lá. Faltam menos de 10 dias para os meus 18 anos... 18 ANOS! CARA! UMA VIDA INTEIRA! *O*
Uma vida inteira cheia de história para contar. Sinto quase como se fosse fazer 80. Isso é estranho. Enfim, vou curtir os últimos minutos do segundo tempo da minha adolescência, curtir o ócio e a falta de ocupação, quando voltar de lá, virão a quitação com o exército (MEDO MORTAL), a conta no banco e a passagem das contas a pagar para a minha administração. Será que eu vou conseguir tocar isso pra frente? Será que eu vou conseguir fazer o trabalho da minha mãe com a mesma eficácia? Quem sabe.




XXXO

Louie Mimieux