Bem vindos à minha fábrica de sonhos!
Mostrando postagens com marcador Stella. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stella. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de junho de 2010

Stella, a Trilha Sonora



Stella pra mim foi um conto estranho, bucólico, descompromissado, passageiro e irresponsável. Foge totalmente ao meu estilo. Eu que gosto de retratar o fantástico, o absurdo, de repente resolvi contar a história de uma vadia que acaba virando modelo meio que sem querer. Não me canso de dizer a vocês que sinto uma inveja mortal da Stella. Stella é o tipo de garota "viva e deixe viver", ela está pouco se lixando pro que vai comer amanhã, está pouco se lixando se vive socada num apartamento sujo ou se gasta milhares de dólares numa pulseira de diamantes que no futuro vai colocar no pescoço de uma gata. Ela está dando uma banana pro mundo, está cagando e andando (desculpem a expressão), pra tudo, para emprego, pra escola, pras pessoas, pra sua imagem. E mesmo assim, a vida agracia esta mulher de todas as maneiras, a vida abre portas para ela, a vida derruba muros, derruba barreiras, o acaso alça ela pra cima, ela é uma puta duma sortuda. Eu invejo ela por isso. Invejo ela por não ter feito esforço nenhum para chegar onde chegou, enquanto eu, o criador dela, choro toda noite com medo de ficar reprovado em física e repetir o terceiro ano, passo quatro dias da semana socado dentro de uma sala de aula, de manhã e tarde, ouvindo coisas que entram por um ouvido e saem pelo outro, mesmo que eu faça um esforço GIGANTESCO pra que elas fiquem fixadas ali na parede da minha cabeça.


Ah, não, mas isso não importa pra Stella. Ela tem o mundo nas mãos, ela consegue tudo o que ela quer sem o mínimo dos esforços, ela é abençoada, ela é agraciada. Eu até tentei, eu prometi pra mim mesmo que não ia deixar barato, ia dar um jeito de fazer a Stella sofrer, mas de nada adiantou, ao Andrew e seu personagem Lucas que "não morreu! quem te deu o direito de matar o meu personagem de uma maneira tão pobre e vulgar?" , acabei deixando barato pra Stella e o amor da vida dela, afinal, está vivo e não morreu estuprado nos becos de Paris coisíssima nenhuma. Mas isso é uma coisa que o nosso amigo Andrew vai ter de dar um jeito de explicar, porque a primeira aparição de Lucas mostra a morte dele num beco! ENFIM, aqui vou eu e a trilha sonora desse conto que tem tanto em comum com a sua personagem principal: é vulgar, é simples, é irresponsável, é descompromissado e é sortudo. Enfim, um verdadeiro prostituto esse meu conto.






Stella, a Trilha Sonora:




1 - New York - Cat Power.


2 - You Know I'm No Good - Amy Winehouse.


3 - Trouble - Christina Aguilera.


4 - Can I Go Now - Jeniffer Love Hewitt.


5 - 22 - Lily Allen


6 - Picture Perfect - Nelly Furtado.


7 - Hurricane Drunk - Florence + The Machine.


8 - La Vie En Rose - Edith Piaf


9 - Venus As a Boy - Björk.


10 - Mansion Song - Kate Nash.


11 - Happy Up Here - Royksöpp.


12 - So Happy I Could Die - Lady GaGa.


13 - Stella - Ida Maria.

Epílogo - Pour Quelqu'un Très Spécial, Stella



A gata pulou da almofada e caiu de pé, é claro, com classe. Esticou seu felpudo rabo comprido e caminhou cheia de ginga até a porta que havia acabado de se abrir. Um caminhar único, um caminhar sexy, os passos de felino. Desviou dos móveis, pulou uma mesinha de centro e finalmente alcançou ao par de saltos em vinil de vermelho-neon. Sua dona voltara de viagem. Um mês não fora o bastante para apagar da curta memória daquele animal o rosto portador de rara beleza, o rosto estranho de Stella. Seus cabelos escuros e seu cheiro forte de álcool. Mas não álcool de bebida, álcool de perfume, um aroma que remetia à Índia e ao oriente. Cheiro de vadia humanizada, cheiro de Stella.


- Baby! Baby! Que linda que você está! - a mulher abaixou-se, jogou sua Louis-Vuitton para o lado como se fosse um mero saco de supermercado e catou a gata no colo. Uma gata gorda de cara, pés e rabo preto. Engana-se quem disser que talvez fosse uma siamesa. Aquela gata era filha de vagabunda, era uma miscigenação, a mais bela miscigenação existente. Baby, filha de Mariella.


Baby poderia perguntar a sua dona como fora de viagem. Baby poderia perguntar se a dona trouxera algum presente. Mas seus sentimentos estariam apaziguados e devidamente expressados com um longo misto de miado e ronronado.



- A Rita cuidou bem de você, meu amor? A Rita cuidou? - Stella transferiu sua pulseira de ouro cravejada de diamantes para o pescoço da felina - aqui, esse presentinho, só porque eu esqueci de comprar algo pra você. - desceu a gata no chão. - tomara que essa safada não vá perder a minha pulseira...


- STELLA! - Rita surgiu no corredor, ligando os abajures feito um vulto, uma visagem de máscara facial e touca, surgida das trevas para assombrar a recém-chegada. - minha filha!Porque não avisou que viria, meu amor?! Cadê o Ítalo?


Stella calou a boca da sua "mãe" com um abraço.


- Rita, Rita! Porque tanto nervosismo?! Tá com homem no quarto é? Sua danada!


Rita deu uma risadinha e em seguida um tapa de leve nas costas de Stella.


- Me respeita, menina! - alertou - sabe que eu teria arrumado tudo isso aqui e preparado uma janta! A viagem é longa, o estresse é muito!


- Eu sei, Rita, to de zueira... - Stella pegou um porta-retrato de dentro de um armário de vidro e deu um beijinho de leve, devolveu para o lugar. Na foto, uma gata rajada. Mariella, a bela Mariella, gata matreira, esperta, falecida há um ano e meio, logo depois do seu quarto parto de seis grandes filhotes, dos quais Stella preferiu a única semi-siamesa, Baby. - Só coloca o almoço no micro-ondas e põe à mesa, to morta de fome!


Rita correu para a cozinha. Stella puxou uma poltrona branca, abriu uma garrafa de vinho da adega, encheu uma taça pela metade, abriu as cortinas da vidraça por completo e se largou diante da vista infinita e luminosa da cidade de Nova York. Os prédios e suas luzes piscavam para Stella, os carros ali embaixo comemoravam seu retorno, e os helicópteros, tão receptivos, passavam pra lá e pra cá, desviando das torres de sinalização no alto dos edifícios. Nova York, Nova York, o celeiro da vaca Stella, em alta definição, se estendendo de um lado a outro no seu cinema particular, que só exibia filmes da vida real. Tão íntima era aquela vista, tão íntimas aquelas vidraças gigantescas da fachada de vidro da cobertura no último andar. Sempre com uma garrafa de vinho, de um bom vinho.


Outra poltrona pediu espaço.


- Sua mãe ligou mais cedo, pediu pra que eu avisasse que o dinheiro acabou e ela não tem como voltar de Dubai. - Rita encheu sua taça de vinho também. Baby pulou no colo da dona subitamente.


- Vamos deixar a velha um pouco desesperada... - Stella riu, abriu os primeiros botões do seu cardigã para ventilar - vamos fingir que eu ainda não voltei de Paris e que eu não estou em nenhum dos meus telefones.


Rita gargalhou e brindou com a filha de criação.


- Haroldo tem visitado?


- Vai sonhando... Desde que se meteu com aquele macho dele... o tal Ed...


- NÃO! Não diga o nome completo dele, podemos ser processadas! - ironizou Stella, lembrando-se da ameaça que o namorado de Haroldo fez a ela se caso seu nome tão conceituado acabasse sujo por um incidente de tal tipo. - ele é famoso demais, famoso demais para ser gay.


Rita gargalhou, e as duas vararam a noite gargalhando.


- Vai assumir o relacionamento com o Ítalo de uma vez por todas, Stella, minha filha? - perguntou Rita, já bêbada - acho que está demorando demais, você está ficando velha e está mais do que na hora de se casar. Envelhecer solteira não é nada legal. Eu que o diga! Não dou uma rapidinha sequer desde que o Geraldo morreu!


- Não fale besteira, Rita! - Stella jogou uma almofada na mulher, que capotou pro lado de lá, rindo feito uma hiena. A queda de Rita acordou a gata dorminhoca que voou feito vento pra debaixo do armário, com medo. - pare de rir, sua tola, a Mariella até fugiu assustada! Eu não vou me casar com o Ítalo, ele é meu agente, meu empresário, e nas noites vagas, meu boneco inflável!


- A Mariella morreu, Stella! - disse Rita, se levantando - Você e o Ítalo são solteiros, desimpedidos e independentes, e aliás, bonecos infláveis furam, não duram pra sempre...


- Ai, não seja tão cruel! - Stella virou a poltrona pra parede.


- Mas é a verdade! O Ítalo não vai ficar aqui pra sempre e...


- NÃO, sua boba! Eu quis dizer com relação à Mariella! Eu sei que ela morreu! Eu sei eu sei eu sei!


Stella começou a chorar. Rita foi a seu encontro para consolar.


- Oh, meu anjo, desculpe... Vamos pra cama, vamos? Acho que já está tarde demais. Amanhã podemos ir ao MET de manhã cedo e depois passar na SAX para fazer umas compras, que tal?


Stella parou o choro e riu.


- Acho ótimo. Acho gay e ótimo! - ela se largou no chão, foi mais difícil assim para Rita levantá-la. - vamos chamar o Haroldo também.


- Tudo bem, tudo bem! Chamaremos o Haroldo então!


O relógio de pêndulo bateu as quatro da manhã. Stella estava no banheiro, fazendo xixi. As últimas lágrimas da noite caíram no piso do banheiro, junto à maquiagem e às suas unhas pintadas de vermelho. Ela tinha de retomar a vida. De uma maneira, ou de outra.


Batidas na porta.


A voz de Rita retumbava alguma coisa.


Voz negra, voz forte.


Voz afro.


- O que é Rita?! Eu to mijando!!


- Minha filha! Tem um Lucas no telefone! Já pensou? Uma hora dessas? É hora de ligar?! Pelo amor da Virgem Santíssima!


O coração de Stella praticamente explodiu dentro do peito. Ela levantou a calcinha e cambaleou até a porta do banheiro, correu até a sala, pegou o telefone e, tremendo dos pés à cabeça, colocou no ouvido.


- Alô? - fez Stella.


- Olá? Stella? Meu anjo, você me escuta? Me escuta?


Naquele momento, não se sabe exatamente o por quê, Stella lembrou-se exatamente do que havia escrito quando assinara o caderninho daquela frenética adolescente, há um dia apenas, em uma loja de conveniências qualquer de Paris. Talvez porque a cara que ela estava fazendo ao telefone era exatamente a mesma cara que a amiga tímida e descrente da jovem fazia naquele momento. Há controvérsias, sim há. Mas o fato foi que ela lembrou-se do aparelho saltado da boca do balconista, e talvez porque estivesse bêbada ou talvez grávida, vomitou no carpete. A remoção da mancha ia custar caro.


Havia apenas uma certeza em tudo isso: as surpresas de Stella só estavam começando. Daqui há uma semana, ela vai descobrir o que carrega no ventre. Daqui há uma semana, Ítalo vai morrer de overdose. Daqui há uma semana, Wanda vai se casar com uma fazendeira. Daqui há uma semana, Rita vai voltar pro Brasil.


Daqui há uma semana, seu amado Lucas vai bater à sua porta.


E ao que me cabe contar à vocês já foi contado, pois modelos tão famosas assim como Stella não autorizam a se aprofundar tanto assim em suas vidas particulares, são cheias de estória, cheias de não-me-toques, cheias de frescura, com seus advogados, seus agentes e seus Dolce&Gabbana. Quem te viu, quem te vê, Stella. Uma vadia das boates mais sujas de Nova York, às vezes brinquedinho das ricaças do Upper East Side, nas sextas e nos sábados. Eu tenho uma puta inveja de Stella, confesso a vocês pela segunda vez. Uma criatura tão simplória e sem profundidade alguma, sem ambição nenhuma, acaba assim, por um acaso, rica e famosa. Cheia de complicações, mas ainda assim, rica e famosa.


Ah, Stella, Stella...



Clique para conferir a OST deste conto.



sábado, 26 de junho de 2010

Stella, a Fortaleza Humana

- Uma carteira de cigarros por favor... - elaestendeu as moedas. O dia estava bem frio, tão frio a ponto de forçá-la a esconder seus cabelos, a esconder seu rosto atrás de óculos escuros totalmente dispensáveis. Pra falar a verdade, havia um tempo que Stella não tinha coragem de andar por aí tão largada quanto andava antes, se jogando pelas calçadas, batendo carteiras, virando uma garrafa de vodca, na vida. Agora Stella passava horas olhando para a cidade, a cidade com seus gigantes de concreto cinza, rústicos e selvagens, cortando a paisagem sem nenhum remorso, lutando para se sobressaírem. O comportamento dos prédios ali do alto era exatamente o mesmo dos humanos ali embaixo. A cobertura no último andar daquele hotel não era o bastante para Stella, era um mundo sofisticado demais para ela, mas ela agora estava presa àquilo, ela não podia mais ser a Stella que ela era, não mais.




- Oh, meu Deus! - exclamou uma daquelas duas adolescentes irritantes que entraram na loja falando alto, cataram as revistas adolescentes às gargalhadas, e deram gritinhos admirando as típicas fotos dos ricos e famosos. Stella gelou dos pés a cabeça, arrepio na espinha. Aquele "oh, meu Deus" com toda a certeza veio em sua direção, o sexto sentido de vadia estava bem alerta.



Passos às suas costas. Uma cutucada leve.



- Com licença... Por um acaso você seria...



Stella virou-se. Estava gelada, mesmo debaixo de toda aquela roupa.



- É sim, é ela! - gemeu a amiga que se aproximava tímida - é Stella Vazjekovzka! é Stella Vazjekovzka.



O cara do caixa, que fazia um tipo meio nerd com os cabelos na cara, caindo por sobre seus óculos de aros enormes arregalou os olhos e foi forçado a colocar a franja pra trás, levantou-se da cadeira e sorriu de orelha a orelha. Seu coração acelerou, ele estava sem palavras.



Uma das garotas puxou um bloquinho em formato de coração, um bloquinho felpudo, rosa-chiclete, bem nojento, asqueroso como diria Stella.



- Stella, você não sabe o quanto eu te amo! Não sabe o quanto eu esperei pra te conhecer! - exclamava a menina, vermelha, quase lagrimando. Aquilo fez com que Stella ficasse vermelha também, e um pouco constrangida. Fazia um tempo que aquilo não acontecia. Uns três meses talvez. - autografa pra mim, Stella? Autografa?



A amiga olhava ainda tímida por cima do ombro da suplicante, ainda não havia assimilado a situação completamente, era um verdadeiro sonho. Stella Vazjekovzka estava ali, perambulando pelas ruas do seu bairro!



Stella gaguejou um pouco, a frase criou vida própria e forçou saída pelos lábios como um pássaro que escapa da boca de um gato.



- É claro que eu autografo, querida, com todo o prazer! - ela riu sem graça, pegou o bloquinho e assinou. Ela não podia explodir agora, ela não podia começar a chorar justamente agora. Ela estava guardando tudo para si, estava entupindo sua alma até o gargalo com todo aquele sentimento, estava guardando tudo pra si. Entregou a assinatura. Foi surpreendida por um grito. Era o balconista nerd.



- STELLA! AUTOGRAFA MINHA BARRIGA!



Foi a vez de Stella arregalar os olhos, de espanto. O aparelho verde do garoto, cravado em seus dentões de cavalo, estava praticamente saltando da sua boca, era uma coisa assustadora. Stella sorriu sem graça e assinou a barriga dele, que sentou-se tão cheio de emoção que não cabia em si. Stella estava se sentindo uma Megan Fox, uma Megan Fox triste, ferida e magoada.



A amiguinha tímida da garota do caderninho de coração pediu um abraço, e era tudo o que Stella precisava, foi a chave para que o choro descesse numa cachoeira infinita que manchou todo o veludo do casaco da garota. Ela apertou a jovem o mais forte que pôde, ela precisava de um colo urgentemente, aquilo a estava matando. Percebendo o choro de seu ídolo, a pobre moça também começou a chorar, e em pouco tempo o choro tornou-se coletivo, as únicas quatro almas vivas daquele pequeno mercadinho de poucos metros quadrados estavam chorando rios.



- Me desculpem! Me desculpem!



Stella livrou-se dos braços da garota bruscamente e saiu correndo da loja, com os gritos dos jovens ficando pra trás, pedindo calma, espera, chamando pelo seu nome. Ela correu, se escondeu, se fosse uma cobra teria engolido o próprio rabo até se acabar dentro da própria boca. Se fosse uma avestruz, esconderia a cabeça debaixo da terra, para fazer companhia às toupeiras. Ou, no caso de Paris, que era onde ela se encontrava no momento, faria companhia aos ratos do esgoto. O túmulo de um tal Lucas ainda estava muito nítido em sua cabeça, a imagem da cruz, do nome. É, dona Stella, quem procura, acha.



- Sim senhor, o comentário da semana ainda é o beijo lésbico trocado entre a modelo internacional Stella Vazjekovzka e a cantora Florence Welch na premiação das últimas semanas. As duas afirmam serem apenas amigas, e Stella jura que o beijo foi pura encenação, era atuação para as câmeras, mas nós aqui da redação do "Ora Vejam Só" achamos que tem muito coelho escondido nesse mato... Ou seriam caixas de sapato?



- Ora, não sejam tão maldosos, seus filhos da puta - exclamou Ítalo desligando a televisão direto no botão. - Stella meu amor, tem certeza de que não quer voltar pra Nova York? Podemos embarcar agora mesmo, é só guardar as coisas e estamos lá em poucas horas.



- Cale a boca Ítalo, me deixe em paz - fez ela, dura. - tenho uma sessão de fotos amanhã de manhã, depois eu volto pra Nova York. Sei que você está louco pra voltar pra lá por causa de alguma vagabunda, então trate de ficar calado!



- Mas...



Ela sentou-se na cama, furiosa.



- Ou se preferir pode ir tocar uma no banheiro, seu estúpido.



Stella levou um tapa.



- Não fale assim comigo. Eu não sou nenhum moleque.



Ítalo começou a catar as coisas espalhadas pelo chão, a meter todos os seus cosméticos, as roupas, os acessórios de fotografia, tudo o que era de sua propriedade, socados dentro de uma valise vermelha.



- Estou indo pra Nova York, pode ficar à vontade agora! SOZINHA, como você gosta de ficar. Foi assim que eu te encontrei, SOZINHA, no Brooklyn.



- Cale a boca! Cale a boca! CALE A BOCA! VOCÊ NÃO SABE NADA DO QUE ESTÁ SE PASSANDO COMIGO!



Ela gritava. Seus cabelos longos e escuros todos desgrenhados. Seu rosto magro, ressecado pelos anos de trabalho. Cansaço.



- PORQUE VOCÊ NÃO SE ABRE COMIGO! NÃO SE ABRE!



Ele largou a valise.



Ela largou-se na cama, tirou o roupão escuro e se abriu.



- Estou aberta agora! Era isso o que você queria?! - ela estava chorando.



Ele a abraçou também chorando, e assim eles ficaram por um minuto inteiro, abraçados na meia-luz da cobertura de luxo do hotel mais caro de Paris. Ali estava a torre Eiffel, do outro lado da janela, era só tocar. Viver em Paris era como tocar o céu. Era como caminhar entre as estrelas, dançar com os astros, respirar o pó cósmico das nebulosas, seus olhos sugam um brilho sem igual. Garrafas de vinho e vodca, pérolas negras e brancas, colares e joias raras, veludos e crânios de diamante. Abelhas de ouro preto e esmeralda. Seda da mais fina. Sexo toda noite. Essa era a Paris de Stella. A nova Paris de Stella.



- Um tio o enterrou, você diz?



- Sim, um tio que nem o conhecia. - a voz dela ainda estava um pouco chorosa - Paris é cruel, muito cruel.



- O que você descobriu sobre esse Lucas durante todo esse mês em que estivemos aqui?



- Descobri que ele veio a Paris por um acaso, com um ricaço, há muitos anos atrás. Descobri que ele viveu com esse ricaço num hotel por aqui durante uns cinco anos talvez, tempo em que eu já havia sido mandada de volta para Nova York...



- Depois daquela noite, vocês nunca mais se viram? - Ítalo tomou um gole audível de vinho tinto.



- Não, nunca mais, foi um caso de uma noite só que eu nunca esqueci... Lucas... - os olhos de Stella brilharam em refração junto ao lustre. Seus olhos pareciam uma extensão das pedras ali em cima. - naquela manhã, eu me levantei primeiro e o deixei pra trás, parti, eu era assim. Eu era como uma visão, como um fantasma. Eu estava ali, do lado de quem fosse, por uma noite apenas, e na manhã seguinte já havia sumido. Com a carteira do pobre coitado... Mas no caso do Lucas, foi muito diferente, foi algo incrível, foi mágico. Em poucas horas de uma madrugada fria, descobrimos tudo um sobre o outro, despimos nossas roupas e nossas histórias, uma a uma as peças do nosso passado... Mas eu era do mundo...



- E você teve de o deixar. - concluiu Ítalo, sendo compreensível e óbvio.



- Sim, eu tive. Mas não tive coragem de levar a carteira dele, depois de saber que ele dependia do dinheiro que o seu corpo rendia, assim como eu... Nos tempos da baixa Paris. - ela suspirou, tomou um pouco de vinho também, e depois levou seu colar de pérolas à boca. - eu não seria capaz de uma covardia daquelas. Pelo menos ele era sincero, ele se vendia sinceramente, ele não precisava enganar os caras e as mulheres que o contratavam. Eu não, eu escolhia quem eu queria, me fazia de amiga, fingia ser alguém que não era...



- Mas e como ele acabou... Como acabou? Foi Aids? - a voz de Ítalo falhou. Ele estava com medo de ferir os sentimentos de Stella.



- Não, ele foi estuprado. Pelo menos foi o que as "companheiras de trabalho" dele me disseram...



- Stella, meu amor - Ítalo puxou o queixo da mulher para mais perto e fez um carinho em seus cabelos - quantos cabarés você visitou aqui em Paris todas as noites em que você esteve fora?
Fez-se silêncio.
- Ínfimos, perdi as contas. Elas me disseram que num belo dia o ricaço não estava mais na cama com ele, tinha partido e o deixado pra trás. Viveu nas ruas por uns tempos, foi adotado por um cafetão que o fez de brinquedinho por um ano inteiro, que depois que enjoou dele, botou o cara pra trabalhar... Lucas estava economizando para voltar para os Estados Unidos e ficou três meses sem prestar contas... Acabou como acabou.
Ela contava a história trágica de Lucas sem nenhum tipo de remorso ou mágoa. Stella era uma fortaleza humana, que tinha seus momentos de fraqueza. Ela prometeu não chorar mais.
- Está pronta pra voltar pra Nova York agora? - perguntou Ítalo, tímido.
- Estou. Tenho que deixar essa cidade pra trás. A visão daquela torre me dá nos nervos, me faz querer chorar - ela apontou para o monumento do outro lado da janela.
- Então vamos...



(...)



Sete longos anos se passaram desde que Stella conhecera Ítalo. Sete longos anos se passaram desde que Stella estava na capa de todas as revistas, em todos os out-doors pela cidade, nas laterais dos ônibus, na tela da tevê. Aquele rosto de beleza estranha, quase alienígena, estampava quase todos os cantos da cidade no final do ano de 2004, e mais tarde, em 2005, o mundo inteiro. Em 2006, após posar para várias câmeras, dentro e fora dos estúdios, Stella foi pega de surpresa por um contrato súbito para um filme, que a deixou conhecida como uma nova Audrey Hepburn.



- É claro que eu não estou à altura da Audrey, ela era uma respeitável atriz, uma profissional incrível, uma mulher respeitável, eu sou apenas mais uma vadia - foi a primeira declaração de Stella para uma revista sem a supervisão do seu agente, Ítalo Rivera. Isto gerou grande polêmica.
- Está despedida Stella, é impossível trabalhar nesse lugar tendo você como garota do caixa. - foi isso o que Mr. Side disse para ela, poucos meses depois de ter sido admitida como funcionária da cafeteria Side's. Ela simplesmente lotava o estabelecimento todo dia, e as pessoas estavam indo pra lá só para vê-la, não consumiam porcaria nenhuma. - pode continuar frequentando as nossas mesas como você faz desde os 15 anos de idade.
- Quem diria, hein! Stella! Uma verdadeira top model a nível de mundo! - gargalhava Wanda - você tem que me apresentar algumas amiguinhas suas, Stella, eu ando solteira e solitária...
- Não seja tão lésbica, Wanda! - gargalhou Stella de volta, brindando o uísque no copo da sapatão.
- E não me deixa de fora dessa, Stella, eu sei que 90% dos modelos do mundo são gays - fez Haroldo, capotando por cima do novo pufe dourado que agora enfeitava a sala de Stella.
- Vai dormir, viado, tu tá capotando! - foi a vez dela de capotar. Tropeçou em Mariella. Só Wanda continuou de pé, rindo sozinha até perceber que todo mundo estava dormindo.
- Stella! Stella, minha filha! - era a querida mamãe. - estou indo para Nova York essa semana! Eu sei que o seu namoradinho tirou um apartamento novo pra você bem no meio de Manhattan! Nós vamos sair da porcaria do Brooklyn de uma vez por todas!
- Mas, mamãe, e o seu marido? E o filho dele?
- Aqueles dois são uns trastes! Eles que fiquem nessa droga de fazenda! A minha filha agora é rica! Que se dane!
- Você precisa de responsabilidade mocinha, responsabilidade e disciplina! - foi a primeira frase das aulas de etiqueta com a garçonete Rita. - você agora é uma profissional de nível elevado a celebridade mundial e tem de comportar como tal!






- Stella!



- Stella!



Flash.



Fashion.



- Stella! Stella! Stella!



Maquiagem.



Glamour.



Pérolas.



Batom de cereja.



- Stella, Stella!



Rock.



Cultura Pop.



Jeans, couro.



Vinil.



E então a luz...




sexta-feira, 11 de junho de 2010

Stella Visita Ítalo

- Aqui estou eu, Bob, você venceu - ela tocou a campainha. - e onde está você agora, seu palhaço impertinente?



- Alô? - uma voz facilmente reconhecível, grave e máscula, a surpreendeu pulando de dentro do interfone feito uma Mariella raivosa e cheia de fome. Stella levou um susto e tanto.

- A-a-alô! Alô! Sou eu, Stella! - ela aproximou sua boca do interfone. - eu vim para a sessão de fotos...

- ISSO É INCRÍVEL!
A exclamação seguiu-se de sons pesados e apressados de pasos furiosos descendo as escadas laterais. O portãozinho estava trancado, mas a porta estava aberta. Stella foi rapidamente surpreendida pelo franzino Ítalo e sua voz de locutor de rádio.

- Isso é incrível! Incrível! Você veio mesmo! - ele estava ofegante, todo sem jeito, como um adolescente no seu primeiro encontro. Stella gargalhou por dentro.

- Eu vim, mas espero que isto realmente seja uma sessão de fotos e não uma roubada! - exclamou a jovem logo de primeira, pouco ligando se estava sendo totalmente grossa e mal-educada - se eu subir essas escadas e encontrar com um grupo de tarados com cordas e filmadoras em mão, juro que uso o que aprendi nas aulas de Muai-Thai no começo desse ano!

Ítalo riu nervoso e arregalou seus dois olhões castanhos. Era incrível como as feições dele lembravam as feições de Lucas.

- Oh meu Deus! - mugiu Stella - vai me dizer que tem mesmo um grupo de tarados me esperando aí em cima?!

Ela fez uma posição comum no karatê, posição de defesa.

- Isso aí é karatê, Stella, e não Muai-Thai! - foi o que ele conseguiu rir forçadamente. Estava catando alguma coisa nos bolsos.

- Está procurando por aquilo?

Ela apontou para uma bombinha para asma jogada dois degraus acima. Ítalo subiu correndo, inalou o gás, meteu o aparelho no bolso e desceu.

- Vamos, Stella, suba! O estúdio está pronto.

As escadas brancas sujas de terra dos sapatos imundos dos vizinhos eram apertadinhas, e os corredores também o eram, mas ao finalmente adentrar no apartamento de Ítalo, que era a primeira porta à esquerda, Stella foi surpreendida por um espaço amplo e relativamente confortável. A sala, é claro, estava quase vazia, exceto pelos utensílios comumente usados pelos fotógrafos, a iluminação adequada, a arara com os figurinos, o "camarim" da modelo, com a maquiagem necessária e o espelho rodeado de luzes fluorescentes brancas. De repente, ela sentiu-se "In a Breakfast at Tiffany's". "Bonequinha de Luxo feelings", como diria Haroldo.

Para Stella, era um lugar abafado e úmido, mas para Ítalo, tinha a iluminação perfeita e o espaço perfeito para suas melhores criações. Havia ali dois sofás que há algum tempo eram vermelho-vinho, e hoje em dia eram marrons e desbotados. Havia ali também duas poltronas brancas encardidas e algumas réplicas baratas dos quadros de Andy Warhol nas paredes. Marilyn Diptych estava lá, é óbvio, ao lado do ciclo de latas de sopa Campbell's e de algumas ilustrações da série sobre homoerotismo.

E então a jovem suspirou tranquila ao ver aqueles quadros. Ítalo e sua voz máscula provavelmente eram gays.

- Pode ficar à vontade, os figurinos são seus, a maquiagem é sua, é tudo seu.

Stella foi surpreendida.

- Tem certeza disso?! - ela exclamou, foi pega de surpresa, estava admirando os quadros. - Você não tem um tema para suas fotos? Não tem toda aquela coisa de preparação, maquiadores, essas coisas de fotógrafo fresco?

Ítalo riu, e quase derrubou um holofote. Estava descaradamente nervoso. Era a primeira vez que recebia uma garota ali, sozinho. Ele sempre pedia a ajuda da equipe, mas naquele dia, queria um trabalho totalmente pessoal.

- Não hoje. - disse - pedi a sua ajuda naquele dia no Side's porque você me chamou atenção, pelos traços diferentes do seu rosto, pela sua maquiagem, pelo figurino criativo...

- Como assim? Do que você está falando?

- Estou falando que você é autêntica Stella.

- Autêntica, tipo inovadora?

- Sim, é isso que eu estou querendo dizer.

- Bom, eu não vejo nada demais no modo como eu me visto...

Stella largou sua bolsa no sofá e se jogou na cadeira diante do "camarim". Estava até bem casual naquela manhã. Blusa branca bem solta e curta, calça de vinil vermelho apertada, um salto preto básico e uma bandana com um laço. O mais básico que ela conseguiu arranjar para não assustar Ítalo, para que o fotógrafo não pensasse que ela era algum tipo de maluca procurando desesperadamente alguma maneira de aparecer.

- Só acho que as pessoas deveriam ser um pouco mais criativas na hora de se vestir.

Ítalo bateu duas palmas.

- Está certíssima, Stella. Foi exatamente por esse motivo que resolvi escolhê-la para esta sessão de fotos, você caiu do céu para mim, e pelo que vejo, não escolhi errado.

Ele parecia empolgado até demais.

Pegou a arara com o figurino sobre rodas e arrastou-a mais para perto do camarim.

- Fique à vontade, finja que está em casa, finja que está indo para um festa, para uma das festas que você costuma frequentar.

Ítalo afastou-se, indo em direção a uma grande porta vermelha do outro lado da sala, provavelmente o acesso ao quarto escuro onde as fotos são reveladas. E foi então que Stella caiu em si. Algo ali era suspeito demais. Um arrepio subiu pelas suas costas.

- Parado aí!

Ela se levantou. Ítalo parou e virou-se para ela.

- Como você sabe das festas que eu frequento?! Eu não entrei em detalhes a respeito da minha vida noturna na nossa conversa!

Pego no ato!

O cara parou, estático, procurando algo para dizer, mas nada encontrou. Stella correu até a sua bolsa, toda desconfiada e arisca como era, não ia ficar mais nem um minuto com um homem que andava espionando sua vida privada.

- Espera Stella! Espera! - Ítalo correu para a porta e trancou-a.

- O que você vai fazer comigo?! - Stella subiu numa mesinha de centro. - fique onde está! Vou pegar meu celular e vou ligar para a polícia.

- Calma, Stella, por favor! Você entendeu tudo errado! Tudo errado! - ele deu três passos lentos até a mesinha de centro. Stella pulou para o sofá.

- Eu estou entendendo tudo, isso sim!

Ele parou.

- Demorei muito tempo pra te encontrar, não vou deixar que você fuja agora!

Stella fez uma careta e tirou seu salto. Tinha de se defender daquele tarado de alguma maneira.

- Quem é você?!

Fez-se silêncio.

- Meu nome é Ítalo Rivera, fizemos o último ano do colegial juntos! - ele tentou se aproximar. Stella virou para trás junto com o sofá. Ítalo bem tentou segurá-la, mas não adiantou, Stella estava de pernas para o ar agora. - você está bem?! oh, meu Deus...
- Eu estou bem! Eu estou bem! Fique longe!

Mais desastres: Stella arrastou-se de costas pelo piso de madeira do apartamento, tentando ficar o mais longe possível do estranho que agora lhe reveleva um segredo íntimo seu, uma referência a ele da qual ela nem sequer lembrava. Quem era Ìtalo, por Deus? Foi então que o vaso com flores sobre o criado mudo virou assim que sua nuca deu de encontro no mogno. Stella agora estava encharcada.

- Venha, levante-se! Antes que você se machuque!

Aquilo realmente doeu, ela não tinha como negar ajuda.

E mesmo com todo aquele figurino ali do lado, pendurado na arara, esperando o corpinho de Stella para ser vestido, o latino-americano Ítalo Rivera preferiu tirar sua blusa preta de botões e oferecê-la para uma Stella sentada no sofá, que tinha a cabeça ainda girando, chamando palavrão como se este fosse o último momento da sua vida.

- Você está bem?

Quando Stella deu por si, já estava tirando a blusa molhada. E Ítalo estava tirando os sapatos. Peças de roupas masculinas e femininas nem estavam voando quando os dois se beijaram pela primeira vez naquela manhã, e então aconteceu. Aconteceu exatamente aquilo que Stella havia previsto, exatamente aquilo que ela havia alertado a Bob, o Palhaço. E lá estava, nos braços do "caliente" Ítalo, sentindo um pouco do calor mexicano...


Próximo >>

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Stella e Bob, O Palhaço



Madrugada alta, a sede é tanta, ela não vai aguentar ficar na cama por muito tempo, vai ter de se levantar e vai ser agora. Essa é uma noite rara em que este espécieme em extinção dos becos e bares de Nova York resolve passar a noite em casa, de preferência, dormindo, o que é absurdamente incrível tratando-se de Stella, uma porraloca qualquer num apartamento qualquer, no derradeiro horário de quatro da manhã.

Ela praticamente galopou até a cozinha, abriu a porta da geladeira quase vazia e puxou uma garrafa de água bem gelada, lá do fundo. Desenroscou a tampa e sequer procurou por um copo, bebeu ali no gargalo mesmo. Soltou uma expressão de alívio quando já estava satisfeita, feito um animal que percorreu o deserto há dias, fechou a porta da geladeira e deu de cara com quem ela menos esperava, olhando para ela, ali no escuro, fixamente, com seus estranhos olhos em cruz, sua boca pintada e seu cabelo ruivo, chapeuzinho verde e macacão de bolinhas amarelas.

- Olá Stella!

- Ah não, você de novo não! Eu precisei de três anos de terapia pra te esquecer da primeira vez, e não vou te aturar de novo! Não vou!

Stella tapou os ouvidos e começou a cantarolar uma cantiga tirada de "A Noviça Rebelde" enquanto o palhaço chegava mais perto.

- Ora, Stella! Vamos! Onde está toda a sua animação, menina?! Sorria! Vamos! Sorria! Deixa a tristeza de lado, vamos curtir a vida! Vamos sair e ver o mundo! Vamos dançar e cantar!


- Dóóó é pena de alguéééém, Rééé eu ando para trááás...

- É assim que eu gosto de ver! Mais animação nessa música! Vamos!

Aquela estranha criatura vestida para animar uma festa infantil estava realmente pulando de um lado para o outro na cozinha enquanto Stella cantava! Era aterrorizante! Ela então fechou os olhos e começou a cantar mais alto, tentando ignorar as gargalhadas do palhaço que subira na mesa para dançar folkstrot com um cabo de vassoura. Sua canção estava virando um quase chorar. E então ele desapareceu, e tudo se calou.

- Isso é bom, muito bom - suspirou, aliviada, relaxando os ombros. - eu não sou louca, repita comigo Stella, eu não sou louca... - caminhou vagarosa e pausadamente para o quarto, certificando-se de que não ia mais encontrar o medonho ser colorido pulando no escuro ali do lado, repetindo a mesma frase talvez umas trinta vezes, ela deitou-se na cama tremendo de medo, e começou a rezar. Talvez a mãe dela estivesse certa quando disse, há alguns anos atrás, que com relação a esta alucinação do palhaço, ela poderia estar sendo perseguida por espíritos malignos.

Então sua boca cansou e seus olhos também cansaram e foram fechando aos poucos.

- Steeeeeeeeeeeeeeeeeellaaaaaaaaaaaaaaaaaa... - sussurrou a voz.

- Steeeeeeeeeeeeeeeeeellaaaaaaaaaaaaaaaaaa... - sussurrou a voz outra vez.

- Estou dormindo, estou dormindo, estou dormindo - grunhiu a jovem, virando para o lado de lá.

- Steeeeeeeeeeeeeeeeeellaaaaaaaaaaaaaaaaa... - sussurrou a voz, de novo.

Stella abriu os olhos. Aquele rosto estava encarando-a próximo demais. Rolou assustada para fora da cama, bateu de cabeça no piso e se escondeu feito uma rata embaixo da cama.

- Tem certeza de que não quer conversar sobre o assunto, Stella? - ali estava o palhaço, embaixo da cama, com todas as suas bexigas coloridas, bem do seu ladinho.

Stella tapou os ouvidos.

- Olha Bob, você está cortado da minha lista de amizades, excluído da minha vida, apagado de todas as minhas lembranças, e quero que continue assim, tudo bem?! Estávamos indo muito bem sem você, estávamos sim! - esbravejou ela.

- Não seja tão grossa assim, Stella, minha melhor amiga! Somos Best Friends Forever, se lembra?!

- Não me venha com essa agora! Está tarde, você ERA, repito: ERA meu amigo imaginário, agora eu já sou uma mulher adulta e não preciso dividar as minhas frustrações com um cara de boné verde usando maquiagem!

- Poxa, assim você me magoa! - Bob fez um bico. Stella ficou com um peso enorme na consciência, afinal de contas, Bob pode ter perturbado bastante a paciência dela depois da morte do seu pai, e demorou um tempo considerável para que ele parasse de aparecer de madrugada no seu quarto cantando canções de programas infantis e oferecendo bexigas de animais para ela, mas ele realmente fora seu amigo num tempo remoto. A abraçara, a empurrara no balancinho, a ajudara a subir na árvore, ensinara a pequena Stella a andar de bicicleta, contara para a pequena Stella história e cantara canções animadíssimas que lhe tiravam todas as frustrações das brigas que aconteciam em casa naqueles tempos difíceis no interior, quando seus pais ainda eram juntos.

- Mas o psiquiatra me disse que você é apenas uma alucinação paranóica causada por grandes traumas, como as brigas em casa nos tempos de fazenda e a morte de papai por causa do tabaco!

- E por acaso o psiquiatra é especialista em amizades, Stella?!

A jovem rastejou para fora do esconderijo, o palhaço fez o mesmo.


- Então tudo bem, vamos pra cozinha que eu te faço um chá.

As luzes do apartamento foram acesas e a tigelinha de Mariella chei até o topo de ração. Bob sentou-se à mesa, Stella ofereceu-lhe a xícara, pegou a garrafa de chá gelado de dentro da geladeira e sentou-se para fazer companhia ao seu velho amigo.

- Você disse que ia ser chá, chá pra mim só serve se for quente!


- Não seja exigente Bob, você me acordou bem no meio de uma das minhas raras noites boas de sono. Tirei o dia hoje pra descansar e prometi não sair pra lugar nenhum, O QUE JÁ É BEM ESTRANHO, e aí você me aparece, ACHO QUE ESTOU REALMENTE FICANDO LOUCA.

Fez-se silêncio, o palhaço bebeu um gole.

- A propósito - fez Bob - não gostei do penteado novo.

- Ninguém pediu a sua opinião - retrucou Stella, tomando um gole de chá.

- Está grossa demais, Stella, onde estão os bons modos que nós ensaiamos?

- Enfiei no...

- POR DEUS! QUE BOCA SUJA! - Bob levantou-se da mesa com a mão na boca, uma das suas bexigas estourou.

- Está satisfeito? Acho que já conversamos o bastante, agora é hora de ir embora, Bob - fez Stella, levantando-se da mesa também e guardando a garrafa de chá.

- Ah, não mesmo! - o palhaço sentou-se de novo - não vou sair daqui enquanto não falarmos sobre o Ítalo!

- OH, MAS QUE... O QUE... COMO VOCÊ SABE SOBRE O ÍTALO? - berrou ela, assustada. Havia um palhaço espionando sua vida! - ah, esquece, você é uma alucinação minha, tem que saber tudo sobre mim mesmo... - deu de ombros e sentou-se - o que quer saber sobre ele? VAMOS, eu respondo! Estou disposta a encarar essa loucura toda! - deu um tapa na mesa.

- Você vai ou não, aceitar o pedido dele?


- Eu o conheci esta tarde, não posso revelar muita coisa a respeito disso - ela cruzou as perninhas.


- Mas a proposta que ele fez é irrecusável! Stella! É a sua chance final de mudar de vida para sempre!

- Eu não quero um homem me regulando

- Ele não vai lhe regular, ele só vai lhe mostrar as possibilidades de...


- Não, não me venha com essa, sou ativista feminista de carteirinha, não quero saber de homem!

- Então entra pro time da Wanda! - Bob deu um tapa na mesa.

- EU NÂO, DEUS ME LIVRE

- Então desencalhe!


- Também não quero, gosto de ser solteira e poder transar com um homem diferente toda noite sem compromisso. Sou totalmente independente!


- Você é uma pessoa carente, Stella, e aliás, ele não quer nada demais, ele só quer que você seja modelo por um dia, só isso, faça as fotos pro cara!


- Não, não e não! Eu sei muito bem o que ele vai querer depois!

- Vou te confessar uma coisa... - Bob se debruçou sobre a mesa e colocou a mão na frente da boca, olhou para um lado e para o outro antes de fazer sua declaração - eu acho que ele é gay!

- Não seja idiota, ele ficou de olho nos meus peitos! É só isso o que ele quer! Eu até posso dar, mas depois, é tchau e bença...


- Stella, não seja tão cabeça dura!

Stella pegou um garfo e estourou uma por uma das bexigas de Bob.


- Tem certeza que é isso o que você quer mesmo?

- Tenho sim, você bem sabe como eu sou!

E assim, Bob virou fumaça. Stella voltou correndo para a cama, um pouco assustada, rindo de si mesma, e pensando se realmente esta era a sua decisão, e sendo assim, rezou um pouco, caindo no sono logo em seguida.






Próximo >>

sábado, 22 de maio de 2010

Stella, Quatro Ratos e Uma Decisão Radical




- Stella, minha filha, você precisa de um marido.

- Ora mamãe, não me venha com essa pelo amor de DEUS!

- Querida, não blasfeme a esta hora da manhã, você precisa ir à igreja de vez em quando, tirar um pouco desses pecados...

Estava fazendo muito calor naquele dia.

- Mãe, dá pra ligar outra hora? EU ESTOU LIMPANDO A CASA.

Fez-se silêncio do outro lado da linha. A mulher devia estar em estado de choque, com certeza.

- Mamãe, está me ouvindo?

- Minha filha... Você... - fez-se silêncio e mais um pouco de respiração foi ouvida, uma respiração nervosa - IVAN! IVAN VAI BUSCAR UM COPO DE ÁGUA PRA MIM! PORCARIA! NINGUÉM ME ESCUTA NESSA CASA! - fez-se mais silêncio, a mulher engoliu em seco. - agora, repita pra mim pausadamente, Stella, o que você está fazendo?!

- EU-ESTOU-LIMPANDO-A-CASA!

Ouviu-se um sussurro do outro lado da linha, algo como "com a graça divina" ou "Ai meu Deus". Stella só não soube dizer se aquilo era uma expressão de alívio ou desespero, sua mãe sempre fora uma mulher indecifrável afinal. Continuava sendo então. Era bom ouvir a voz da mãe de vez em quando.

- Stella, meu anjo, vai receber visitas? - perguntou a mãe de Stella, forçadamente, segurando a emoção, ou talvez estivesse tentando engolir uma bolacha seca sem água.

- Claro que não! É que eu estive fora por dois dias e a louca da Mariella pariu BEM NO MEIO DA SALA, e isso aqui tá um nojo e... - ouviu-se agora, do lado de cá da linha, um tipo de som gutural como a provocação de um vômito, a mãe da garota tomou isso de sobressalto e fez uma careta do lado de lá.

- Stella! - gritou a mulher - Stella?! Você não está vomitando no bocal desse telefone está?!

- Não mamãe! Não! - respondeu a moça, ojeriza na voz, asco na ponta da língua. Se caretas fossem transmitidas pela linha telefônica, mãe e filha se poupariam desta conversa desnecessária para trocar caretas muito mais significativas do que tudo aquilo, ou qualquer outro tipo de comunicação que as duas tiveram. Desde que ela se lembra, a relação com a mãe era na base do grito. Com o pai eram só grunhidos, o pai de Stella vivia mascando tabaco, costumava abrir o cantinho da boca para gemer alguma coisa às vezes.

Alguém esmurrava a porta do apartamento aos gritos naquele momento.

- ABAIXE ESSA MALDITA MÚSICA! - urrava uma mulher estressada ao fundo. Talvez ela não gostasse tanto assim de Björk.

- VAI SE FERRAR SUA GORDA! - rugiu Stella de volta.

- STELLA! SUA VAGABUNDA, NÃO FALE ASSIM COMIGO, EU SOU SUA MÃE! - guinchou a criatura do outro lado da linha telefônica.

- MAMÃE! EU NÃO ESTAVA FALANDO COM VOCÊ OK? AI, EU ESTOU COM ALGUNS PROBLEMAS AQUI, EU LIGO MAIS TARDE TUDO BEM? BEIJOS!

E desligou.

- Maldita, maldita seja essa gata e todos esses quatro ratos que ela pariu aqui no meio da minha sala... Meu pufe rosa já era! - ela deu um chute numa lata de refrigerante, mas logo correu atrás, ia fazer algo com aquilo. Em menos de cinco minutos, estava usando uma lata de alumínio como bobe de cabelo. - vou pintar essa porcaria hoje, cansei desse amarelo.

É engraçado, peculiar e engraçado como as coisas mudam de uma hora para outra assim, num piscar de olhos, é engraçado como pessoas tão fúteis e sem propósitos na vida como Stella chegam a lugares onde pessoas dão duro durante praticamente a vida inteira para chegar, e no final das contas acabam chegando a lugar nenhum. Peculiaridades, ironias do mundo, ironias da vida, alguém lá em cima parece brincar com a cara dos outros de vez em quando, mas não que eu esteja fazendo acusações desnecessárias aqui, a esta hora da manhã. Mas, enfim, acontece que Stella pintou realmente aqueles cabelos cor-de-ovo cacheados, pintou do preto mais preto que poderia pintar, cortou curto, tão curto quanto sua coragem deixou, e acabou que no final das contas ela parecia uma espécie de garota indie com a cara da Amy Winehouse, e foi bem engraçada a expressão nos rostos de Wanda e Haroldo quando a viram no Side's naquele fim de tarde.



A cara que Rita fez também não foi muito boa. A mulher deixou quebrar um conjunto relativamente caro de pires e xícara bem ali, na frente do gerente. Só não foi demitida porque trabalhava lá há uns vinte anos mais ou menos. E foi naquele comecinho de noite que Stella conheceu Ítalo. E Ítalo foi o começo e o fim de tudo aquilo o que ela chamou de vida, pelo menos até o momento. Um novo mundo estava se abrindo para Stella quando ela própria abriu a porta do Side's naquela hora exata. A vadia suja Stella encontraria então um propósito desproposital. Garota estúpida. Sinto inveja, muita inveja dela, confesso mesmo. Mas o Ítalo vai ter de esperar um pouco.



segunda-feira, 10 de maio de 2010

Stella Vai à França




Uma das poucas coisas que Stella lembra-se muito bem em toda a sua vida, tendo a memória de peixe que tem, é daquela sua viagem à França. Talvez o período mais estranho e mais atribulado de toda a sua frívola e promíscua existência. Foi mandada para lá meio que de castigo por causa de todos os acontecimentos envolvendo a vizinhança e essas coisas. Sua nova casa seria o apartamento minúsculo abarrotado de livros velhos de uma tia que ela mal conhecia e que mal parava em casa. Segundo sua mãe, a irmã mais velha do pai de Stella, Florência, morava em Paris, numa rua apertadinha muito próxima a centros movimentados de bares e cafeterias repletos de baderneiros, prostitutas, bêbados, filósofos e poetas do novo século. Os becos ali fediam e quase sempre estavam cheios de lixo, mas o vento fresco que vinha diretamente do Sena e ali desembocava como um rio de deleite e prazer fazia compensar tudo aquilo. Era o lugar mais procurado pelos mendigos no verão e menos frequentado pelos cachorros no inverno. Aquilo ali poderia ser um paraíso ou um inferno quando era preciso.

Stella gostava de passear por ali com a sua nova vespa, uma lambretinha vermelha barulhenta e razoavelmente rápida que costumava cortar aqueles becos como uma abelha vermelha furiosa zunindo com uma loira cor-de-ovo montada na garupa. Aquela lambreta era nova só na técnica, porque na prática estava encostada num quarto qualquer há mais de 20 anos.

- Lucas... O que será que se fez daquele garoto? - resmungou Stella enquanto bebericava alguma coisa depois do banho gelado que ela havia tomado. Com a ajuda, é claro, de Wanda e de Haroldo na madrugada que acabara de ficar para trás. Os dois guardiões da vadia suja dormiam nos pufes, jogados de sono de qualquer jeito. A posição de Haroldo renderia uma boa dor na coluna poucos instantes depois que ele acordasse. Stella estava resistindo bem demais. Assim que ela caísse na cama, desmaiaria e se acordaria talvez dois dias depois, e encontraria aquele apartamento todo revirado. No bom sentido é claro, Wanda iria chamar um multirão se fosse preciso, para limpar aquela zona infernal que Stella havia criado.

- Essa sapatão tola... - riu-se Stella, perguntando-se como alguém poderia se preocupar tanto com ela...

Vez ou outra, Lucas vinha à sua mente, um garoto ímpar, de olhos esbugalhados, encarando-a ali, parado na calçada, pouco tempo depois que ela fora lançada para fora de um bar numa briga por causa de uma rolha da garrafa de vinho de um velho barrigudo e mal encarado que bebia sozinho numa mesa.

- Onde está a maldita rolha?! - ele perguntou a Stella, implicando com a garota, ainda magrela, que bebia e mexia com alguns rapazes motoqueiros bem animadinhos. O velho a encarava há horas, a encarava desde o exato momento em que ela havia metido seus malditos pés naquela espelunca de teto baixo que fedia aos piores tipos de fungos. Ela se perguntava consequentemente o que estava fazendo ali, mas não o suficiente para se levantar e ir embora, porque o moreno que havia lhe pagado um copo de uísque era tudo o que ela precisava na cama naquele final de noite. Sua vida de vadia começou oficialmente nos becos sujos francesas. Poderia até dizer-se que Stella era uma vadia de luxo, e não uma vadia suja qualquer que começou a vida nas pontes do seu bairro de palafitas numa cidadezinha de interior qualquer.

- Eu a enfiei no...

O resto de uma das frases favoritas de Stella, vocês provavelmente devem conhecer. Talvez aquele gordo estivesse despeitado porque ela não havia dado um pingo de moral para a tentativa frustrada dele de a seduzir, ou talvez ele quisesse ser tão sexy quanto ela e não conseguisse nem em mil anos com aquela barriga toda. O que aconteceu a seguir foi que uma mão enorme pegou Stella de surpresa quando ela voltou sua atenção para o grupo de rapazes fedorentos que a enchiam de galanteios baratos. A mão agarrou nos seus cabelos e a atirou por cima de uma mesa, seu corpo quebrou uma vidraça já meio emendada e rolou para uma vala. Sorte dela que estava de jaqueta, se não os cortes seriam feios. Por sorte, sofreu apenas um arranhão de nada na testa. Foi quando a troca de tiros começou lá dentro. Seus parceiros a estavam defendendo. E ela saíra correndo em desabalada carreira, até a "motoca" ficara para trás.

Foi então que ela encontrou Lucas.

E foi então que muita coisa mudou na vida de Stella.

Lucas.

Ela nunca vai esquecer de Lucas.

O que se fez afinal de Lucas?

Seu romance de uma noite só?

Talvez o único homem que ela amara de verdade em toda a sua vida?














Para saber o final desta história, leia:






quarta-feira, 31 de março de 2010

Stella e a Segunda Feira

- Diga a verdade Mariella, você está grávida?
A acusada ficou muda.
- Mariella, não faça essa carinha fofa para mim, eu não caio nos seus truques covardes! Essa barriga toda não quer dizer comida!
A acusada continuou olhando para ela, com aquele olhar suplicante, infantil, de quem se pergunta o que está realmente acontecendo, boquinha pintada de preto, um biquinho macio e adorável. Duas esferas azuis, agora quase totalmente tomadas pelo negro das pupilas dilatas. Que criatura incrível e graciosa era Mariella, tão cheia de maldade, mas ao mesmo tempo tão delicada, inocente.
- Mariella! Se você continuar calada, vai admitir que é verdade! Você fez sexo e não usou preservativos! Que cara de pau!
Haroldo apareceu segurando uma caneca com suco de laranja de caixinha, parado no vão entre a cozinha e a sala de estar, em desordem e caos constantes. Colchões se misturam à mesinhas de centro cujos bibelôs jazem quase todos quebrados, sofás estão tortos e cortinas de miçangas nas janelas já estão quase totalmente destruídas pelas ações terroristas de Mariella.
- Senso de organização é igual a zero, Falta de Noção está em alta nesta casa, você sabe... - resmungou Haroldo por debaixo do seu bigodinho saliente da cor das avelãs.
- Cale a boca Haroldo, estou tentando fazer Mariella confessar seu crime! Ela transou sem proteção e agora tem de sofrer as consequências! - retrucou Stella, irritada.
- Não seja idiota Stella, Mariella é uma gata, uma felina, o que ela pode fazer? É necessidade animal fazer a cópula, abortar os filhotes ela não vai...
Stella desistiu e soltou a gata siamesa ao chão. A bichana miou alto e saiu correndo para o banheiro, era hora das necessidades fisiológicas, caixinha de areia grita por urgência.
- É, gatos não tem tanta sorte quanto eu imaginava... - mugiu Stella, preguiçosa, estalando a coluna, imaginando a sorte que seus únicos dois abortos tiveram em não vir ao mundo em meio àquela bagunça que ela chamava de apartamento.
- Você estava na delegacia? Wanda me ligou hoje cedo fazendo um pedido expresso de correr para cá, só pra certificar de que você não ia se meter em outra encrenca...
- Você acaba de responder à sua pergunta, Haroldo, seu viado intrometido.
- Não seja tão desbocada Stella, sabe que eu e a Wanda só queremos o seu bem, e você não se esforça nem um pouquinho assim que seja para sair dessa vida de vadia! - ia começar o discurso, ele largou a caneca, chutou umas caixas de pizza e algumas latinhas para dar voz ao seu bom senso - veja só, você está morando sozinha no meio de uma lixeira particular com uma gata que está prestes a parir e não procura arranjar um emprego! Onde você quer chegar com isso?!
- Na #$%¨*& que pariu... - ela disse, naturalmente, quase de modo poético e orgulhoso, como se o lugar asqueroso que ela havia citado quase fosse destino para se almejar com todas as forças. Usando calças apertadíssimas, um Converse que não é lavado há quase um ano, um top preto e uma jaqueta de couro dourado que reluzia como um sol, ela não se preocupou em prender o cabelo, pegou a bolsa e as chaves e partiu para o elevador de serviços. Stella morava no último andar de um hotel decadente, de modo que sua porta de entrada e saída era um elevador velho e carcomido, usado para transporte de lixo e roupas sujas. Mesmo nestas condições, Stella nunca perdia o rebolado, de peito pra cima, ela cruzava o saguão lotado de velhos fumantes viciados em café e crianças filhas de mexicanos clandestinos no país.
- Quer dar uma passada no Side's, Haroldo? Peguei uma boa quantia na delegacia esta manhã - gabou-se ela, cuspindo seu chiclete no chão em frente ao hotel.
- Menina mal educada! - resmungou uma velha.
- Ora, e tem como recusar? Tenho que ficar de olho em você Stella, esses últimos tempos você está impossível, e Wanda está ficando irritada - ele se esforçava para acompanhar a serelepe Stella, que sempre parecia uma garotinha saltitando até a loja de doces da esquina, mesmo na pior das situações, nunca perdia o seu ar juvenil e inocente.
- E quem liga para o que aquele sapatão pensa? Vamos bater umas carteiras hoje para darmos uma voltinha nas boates do Upper East Side, quem sabe eu encontre Isabela e as meninas...
- É, meninas que te largam numa boate qualquer bem no meio da madrugada sem ter como voltar pra casa.
- Pode ficar caladinho, ou então não vai ter café da manhã para o senhor Haroldo, nem hoje nem nunca mais!
- Não seja tão malvada, Stella - Haroldo deu um tropeção para dentro da lanchonete, estava quase vazia naquela manhã. Havia mais velhos ali do que no hotel. - sabe que eu te amo, só não gosto dessas suas amizades, que te alugam de noite só pra fazer barraco nas boates e ter do que rir no dia seguinte...
Stella ficou calada, sentou-se feito um cowboy num dos bancos de frente para o balcão e imitou um grosseirão do Oeste, até entortou a boca e fez a voz carregada dos antigos figurões do deserto.
- Aí! Gostosa! Uma garrafa de urina de vaca!
Rita veio preparada, como sempre: uma bandeja com ovos mexidos, duas fatias de salsicha, bacon e panquecas fresquinhas com um pouco de mel.
- Aqui está seu café da manhã, Stella - riu a senhora negra de batom vermelho berrante, usando um coque no topo do cocoruto, era tão gorda quanto Wanda, a lésbica, mas era bem mais delicada e materna do que o sapatão. Aquela era Rita, e Rita costumava ser a melhor amiga de Stella às vezes, quando Mariella fugia pela escada de incêndio para fazer a cópula com os gatos da vizinhança. - como foi esta noite?
- Uma bosta, é claro - sorriu Stella, sarcástica, atacando as panquecas de primeira.
- Não estava na delegacia, estava minha filha? - Rita puxou um prendedor de cabelos, pulou o balco com a ajuda de um banquinho e pôs-se a prender os cabelos desgrenhados de Stella como uma avó prende os cabelos da netinha desleixada.
- Ai, vai me dizer você também que a Wanda te ligou?! - Stella revirou os olhos e tomou de um só gole quase meia caneca de suco de uva.
- É claro que ligou, ela é tão preocupada com você quanto eu e o Haroldo, não é meu filho? - ela olhou para o rapaz de dezoito anos, magricelo e de regata suja, usando calças surradas e tão largas que o faziam parecer um palhaço. Haroldo só balançou a cabeça.
- Não seja tola Rita, a Wanda é afim de você já faz um tempão! - debochou Stella, toda malandra. Rita arregalou os olhos e se benzeu várias vezes.
- Deus me livre, menina! Não fique dizendo essas coisas assim! Ora! - os cabelos de Stella estavam presos, e assim Rita pôde voltar para trás do balcão, não sem antes dar um tapão na cabeça de George, seu filho e garçom da lanchonete, que ria como uma mula da piada de Stella. O riso cessou imediatamente.
Haroldo e George namoravam há um bom tempo, mas disso só Stella sabia. Rita mataria os três se soubesse.
Depois do café da manhã, Stella passou o resto do dia andando de lá pra cá na rua, com Haroldo na sua cola, batendo carteiras loucamente e correndo depois. À tarde, Stella trancou-se em seu quarto para jogar um pouco de video game, e à noite, recebeu três telefonemas de Isabela, que fez questão de ir buscá-la no moquifo fedorento onde ela morava para levá-la à um clube particular de riquinhos feios, como de costume. Ali, Stella beijou três, mas não transou. Acabou espancando uma garota que derramou martini na sua tão conhecida jaqueta dourada, e foi arrastada para fora pelo restante da turma. Mais uma vez, Stella estava vagando sozinha pelo Upper East Side, com um pouco de cecê, como ela pôde constatar mais tarde, enquanto estendia o braço para os táxis, tentando fazê-los parar para uma garota vestida feito uma prostituta. Estava na hora de tomar um banho, pensou. E está na hora de arranjar uma caixa de papelão para Mariella, que teria filhotes logo em breve.
E estava também em cima da hora de se ajeitar na vida.
Stella chorou dentro do táxi, no caminho pra casa. Chorou o caminho todo praticamente, lágrimas roxas de maquiagem. Tropeçou para fora do táxi e foi levantada por ninguém menos que Wanda e Haroldo, eram cinco da manhã, ou quatro talvez.
- Você não tem jeito mesmo - cacarejou Wanda.
Stella mugiu alguma coisa inaudível antes de ser jogada para debaixo da ducha fria. Já amanhecia na verdade.
Assim começava uma terça-feira na vida de Stella.
E por algum motivo, ela se lembrava da vez que sua tia Fúlvia lhe dera um banho daqueles, em tempos remotos, tempos franceses, tempos de pão quentinho e de saias curtíssimas. De boinas e de lambretinhas cor-de-rosa. Stella na França. Ela gargalhou antes de pegar no sono, e dormiu praticamente o dia inteiro, não havia dormido durante quase 48 horas.
Stella, o que eu vou fazer com você?