Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

domingo, 6 de novembro de 2011

Deer Desire



Às vezes enquanto eu deito na grama e olho as nuvens se dissolverem no céu, com o fim da tarde desfiando-as como a uma bela colcha mal feita, revelando a resplandecente lua que surge tímida, eu penso que poderia ter nascido um animal. Um animal da floresta, selvagem, sem regras, indomável, arisco, instintivo, natural.


Eu poderia ter nascido um veado. Um veado com o lombo avelã salpicado de pintinhas de cor gergelim, saltar sobre os troncos caídos e rochas milenares em meio ao bosque, beber a água gelada dos riachos, comer os brotinhos de grama verde nos campos, rolar em meio às flores da primavera e observar os esquilos catando nozes, os pássaros fazendo seus ninhos e as frutas crescendo e ficando cada vez mais gordas nos seus galhos.


E então quando o inverno chegasse eu me enrodilharia na neve que cobriria os campos com seu manto branco, me acomodaria entre minha mãe e meus irmãozinhos e olharia para o céu todas as noites claras e esplendorosas, repletas de estrelas das constelações dos longos meses frios. E quando minha galhada começasse a crescer, ela seria a mais bela e lustrosa de todas, tão linda que os pássaros pousariam nela enquanto eu descansaria deitado em meio à relva, e então as aranhas fariam casas entre os meus chifres e eu não as expulsaria.


Sentiria o cheiro forte da madeira dos pinheiros, ouviria com atenção os gravetos e as folhas secas quebrando debaixo dos meus cascos e veria as aves migratórias cruzando os céus. E quando chegasse a hora de lutar pela minha vida, eu fugiria com destreza, doçura, agilidade e graça dos perigosos felinos, e quando os homens me apontassem suas armas eu os enganaria atrás dos arbustos.


E quando chegasse a minha hora de partir do mundo animal, eu me deitaria e sonharia.


Sonharia com as estrelas e as constelações, e respiraria fundo uma última vez. E então a neve cobriria meu corpo com sua manta piedosa, me pondo para dormir para sempre, e eu teria consciência de que vivi uma vida feliz, tranquila e calma, teria consciência de que aprendi tudo o que precisava aprender, aprendi aquilo que verdadeiramente importa: sentir a beleza das coisas pequenas, dos mínimos detalhes, do cricrilar dos grilos ao pio distante da coruja, e sentiria pena dos homens em suas cidades grandes e abafadas, com seus corações e almas carregadas, e sorriria. Sorriria até o último momento, quando o último floco de neve caísse sobre o meu focinho descoberto.






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Antonio Fernandes

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