Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Abraão, O Coelho Steampunk

- Olá, sou Abraão, o Coelhinho Steampunk, e estarei por aqui dando um olho no blog e um oi pra vocês quando o preguiçoso do Louie decidir ficar de cu doce e não querer terminar as histórias, o que está acontecendo no momento! Então, curtam minha fofura e se iludam com ela enquanto nosso querido escritor descansa a cabeça um pouco!

~*~*~*~


OLÁ PESSOAS, então, enfim parece que vocês conheceram a peste do Abraão! Bem, ele vai ser o mascote do blog por um tempo porque ele é cult e fofo, só ouve Bat For Lashes e só assiste filmes do Allan Ball, esse danado. E o que ele falou é verdade, estou fazendo cu doce morrendo de preguiça de terminar Yellow, quando eu decidir terminar, eu aviso, talvez alguma coisa pinte por aqui nos próximos dias, ou não! Que se foda! Ninguém lê essa porra mesmo, posto o próximo capítulo quando eu quiser!


XXXO


Louie Mimieux


quarta-feira, 13 de abril de 2011

Capítulo XI – O Casamento Lunar


Puseram-no dentro de uma espécie de ninho, num luxuoso salão paralelo ao salão principal, onde os dervixes dançavam em círculos, levitando no ar, girando como peões. Arrancaram-lhe as roupas à força, entoando cânticos, orando, batendo palmas, rindo ou até mesmo chorando. Deram banho em seu corpo por inteiro, em águas quentes e perfumadas, cheias de sais de banho e ervas aromáticas das montanhas. Enquanto alguns monges lhe esfregavam dos pés à cabeça com folhas roxas e vermelhas, outros dois andavam em círculos ao redor da banheira, com incensários dourados sendo balançados pra lá e pra cá em suas mãos, purificando o ambiente.


Após isto, lhe esfregaram óleos na pele, e todo aquele aroma agridoce agressivo em excesso o fez espirrar muito, e a cada espirro que ele dava, os monges respondiam com “etek ruhu!”, batendo palmas acima da cabeça. Alguma crença particular, pensou. Então lhe vestiram, lhe puseram dentro de uma mortalha branca feita de fiapos e retalhos, muito lembrava as túnicas usadas pelas feiticeiras das montanhas, por fim coroaram o topo da sua cabeça com uma coroa de louros, o enfiaram numa liteira e iniciaram uma verdadeira passeata pelos corredores dourados do castelo, batendo palmas, gritando e cantando ao som dos tambores ritmados e dos sinos e das harpas, um verdadeiro cortejo que levaria a oferenda ao salão do sacrifício, no último andar do templo dourado, casa de Ousama. Frederico queria ter visto o restante do castelo, mas não pode porque sua liteira era completamente vedada, um único buraco no teto pontiagudo permitia que a luz entrasse de forma espectral, caindo sobre ele, seu cabelo escuro e suas vestes brancas de modo delicado, o transformando num pequeno imperador romano.

Enquanto isso, Amélia estava a caminho, cruzando os céus da cordilheira, cercada de montanhas por todos os lados, montada num pássaro cor de madeira, ela cortava os ares numa velocidade incrível, e por vezes batia o queixo de tanto frio. Lá embaixo, o único pedaço de terra visível era a fina estrada de seixo cinzento, o resto era mata fechada, cobrindo o pedregulho das montanhas, seu sopé e sua base. As últimas palavras de Kärla ribombavam em sua cabeça o tempo inteiro, a sua salvação, a salvação da sua família e do seu irmão.

“Apanhe as flores vermelhas que crescem na galhada cinzenta da Corça Magenta, a única raça de animais que ainda não foi devastada das montanhas, e que ainda vive no extremo norte das cordilheiras. Ousama é alérgico a elas, por isso não as devorou como fez com os outros animais que aqui habitavam. Faça-o engolir um único botão da flor, será o suficiente para ele contorcer-se em agonia. Será o momento da sua fuga”

Amélia soube que as grandes campinas se aproximavam quanta a mata foi tornando-se escassa, as árvores foram se tornando cada vez menores e mais separadas, revelando pequenos riachos e corredeiras que desciam dos picos gelados e cortavam a terra formando caminhos e até pequenas lagunas de águas cristalinas numa temperatura abaixo de zero. Mais ao longe, um campo enorme se abria entre duas grandes montanhas, e se estendia até o horizonte sendo fechado por dois picos escuros e íngremes levemente separados, quase gêmeos.

Naquele grande descampado cresciam ervas e flores de todos os aromas e sabores, salpicando o verde claro da relva aqui e ali, o vento batia delicado, acariciando a superfície frágil com cuidado, e as nuvens escuras nos céus tomavam forma e se contorciam, esbarrando umas nas outras. Perto daquele pequeno pedaço de paraíso, as montanhas que o cercavam pareciam mais ameaçadoras do que nunca. Amélia teve a impressão de já ter visto uma paisagem como aquela, e lembrou-se então dos livros de geografia: aquela era a aparência exata da tundra, a última zona antes dos polos terrestres. Começou a nevar fino. Pequenos flocos de neve caíam preguiçosos agora, dançando no ar ao sabor dos ventos, e não havia sinal algum de vida animal.

- Ali! – gritou para o pássaro, erguendo o dedo enluvado para um ponto mais ao longe, quase próximo dos picos gêmeos. Era uma manada, uma verdadeira manada de pequenos veadinhos de pelagem quase rosada, magenta, repletos de pintas brancas discretas que não tiravam o brilho de sua cor original. Alguns já possuíam seus chifres ramificados, verdadeiras galhadas imponentes retorcidas acima da cabeça, mãos abertas com cinco dedos contorcidos clamando para os céus. Outros ainda tinham a cabeça lisa, e a maioria já possuía botões daquela magnífica flor vermelha brotando das dobras e das extremidades de seus galhos, mas só o líder da manada possuía as flores completamente desabrochadas. Lindas, pensou Amélia, e arrepiou-se dos pés à cabeça com aquela visão divina. Aqueles seres não eram só animais, eram entidades místicas protetoras das florestas. Ela sentiu isso, e sentiu que se pedisse com a força de seu coração, eles lhe presenteariam com a flor vermelha que cresce em seus chifres com muita honra. E assim, a manada estancou seu galope e esperou que ela pousasse alguns metros mais ao longe.

A fêmea que guiava a manada observou cada movimento de Amélia e do pássaro cor de madeira que a transportava, desde o rasante até o pouso, parecia desconfiada e atenta ao mesmo tempo. Deu um saltinho para trás quando Mia pulou do pássaro para o chão, batendo com as botas no charco, ficando com aquela vegetação rasteira até a cintura. Ali naquele enorme descampado, o sol batia tímido por entre as nuvens enquanto a neve caía sonolenta, como se despertando, e aquilo coloria os céus de dourado, laranja e vermelho. Era mesmo um pedaço do paraíso.

A grande corça magenta líder do bando galopou até Amélia de modo magistral, quase cerimonial, parecia planar entre a relva e as pequenas flores que ali cresciam, o barulho de seus cascos no chão mal podiam ser ouvidos, eram como as cordas de uma harpa, cada salto seu era o dedilhar de uma bela harpa. Quanto mais próximo aquele ser ficava, mais o aroma doce de morango se intensificava, o sabor de frutas vermelhas encheu sua boca. E então a criatura estava tão próxima que a garota poderia tocá-la. E foi o que ela fez.

Um instante que pareceu horas passou-se enquanto ela admirava aquele ser emanando pureza diante dela, quando decidiu então estender o braço para tocá-lo com delicadeza, sentiu a textura de veludo do pescoço e a temperatura gelada de seu focinho. A criatura tinha olhos escuros e espertos, que a analisavam com muita atenção, como se olhassem lá no fundo da sua alma. Amélia acariciou cada centímetro da cabeça e do pescoço da corça, e por fim abraçou-a. Uma paz indescritível dominou-a por completo, acalmando sua alma e seu espírito em agonia pelo seu irmão, pelo seu pai, pela sua família. Por um instante ela sentiu que o mundo poderia parar de girar, que tudo estava bem e que nada mais importava se não aquele momento.

A corça afastou-se delicadamente e curvou-se para Amélia, deixando seus chifres prateados à altura da moça, numa reverência ao seu coração puro e à bondade contida nele, sentida através daquele abraço. Não houve um momento em que aquele ser parecesse tão lindo quanto naquele. Suas flores vermelhas reluziam como joias, e entre sua galhada fios cristalinos de teia entrelaçavam-se. Uma pequena aranha preta passeava por ali, gentil inquilina dos chifres da corça. Amélia estendeu a mão e apanhou um buquê, enfiou na bolsa de pano que levava à tiracolo e curvou-se também diante da criatura. O céu já escurecia e a neve já caía forte. As outras corças estavam agitadas, uma tempestade vinha por aí, mas Amélia jamais desistiria de salvar a vida de seu irmão.


•••


Houve um momento em que a liteira inclinou-se, e Frederico rolou para trás, batendo com a cabeça na parede traseira de seu transporte, esparramando-se entre as frutas e o vinho que lhe faziam companhia. A sensação era de estar subindo a escada mais longa do mundo, o declive nunca terminava. Por um instante, Fred lembrou-se de dias atrás, quando a subida e a descida do ônibus em ladeiras e colinas desconhecidas fizera o mesmo com ele e sua irmã, dois jovens com tanta vida pela frente, e em sua cabeça, cada mínimo detalhe daquele dia passou-se como um filme... Que vida simples e bela ele levava, uma vida humana tranquila como qualquer outra, e agora ali estava, vivendo tal pesadelo. Teve vontade de chorar, mas se segurou, o beiço inferior se pronunciou e ele tapou os olhos com o antebraço. Foi então que a liteira voltou à horizontal, e a porta foi aberta.

O rapaz lutou bravamente contra as mãos que o puxavam dali, chutou, socou, mordeu e estapeou cada um daqueles monges estranhos e vendados que tentavam tirá-lo de dentro do seu último esconderijo. Havia decidido, não sairia dali por nada nesse mundo, nem no céu nem na terra, não para morrer, jamais! Tentem me arrancar daqui de dentro, seus miseráveis, ele pensou. E manteve-se fixo àquela ideia enquanto o número de mãos dobrava e a força que ele fazia para prender-se a liteira ia se acabando, não era o suficiente. Agarrado à porta, ele já estava com metade do corpo pra fora. Chutou mais alguns monges, se debatendo como um peixe fora d’água, e caiu de barriga no chão. Era a chance, pensou.

Pôs-se de pé num salto e desceu o infinito lance dourado de escadas em desabalada carreira, tropeçando, escorregando, caindo e se levantando, estava quase nu por causa da luta, aquele seu manto branco feito uma mortalha estava rasgado em vários pontos, não havia resistido aos puxões. Faltava pouco para o final dos degraus, faltava pouquíssimo para o piso, para o tapete vermelho, ele precisaria correr como nunca havia corrido, procurar um lugar para se esconder, pensar num modo de sair daquele castelo, se é que havia saída daquele lugar. Seus planos foram arrancados pela raiz como capim quando a língua rosada e asquerosa de Ousama enroscou-se em sua cintura e o puxou para trás com força. A coisa coaxou alto e fez estremecer as paredes do lugar, estava furioso pela tentativa de fuga do rapaz.

Enquanto ele estava imobilizado pela língua musculosa do sapo gigante, os monges lhe amarraram os pés e as mãos, e após isto, ele foi erguido no alto pela língua da criatura enquanto entoava-se um cântico de consagração e louvores, o começo da cerimônia de casamento. Dali do alto, ele teve uma visão panorâmica do lugar. Paredes de madeira escura, um piso perolado e muito bem polido feito de ouro. No centro do salão havia um círculo vermelho pintado no chão, e dentro do círculo vermelho havia uma mão amarela espalmada, exatamente no meio da palma aberta havia um enorme olho, de olhar frio e profundo. A íris fitava o teto eternamente, o que instigou Fred a levantar os olhos para cima. A cobertura era de vidro, toda e completamente feita de vidro, revelando um céu tão limpo e claro que era impossível acreditar estar tão nítido com toda a claridade daquele lugar, proveniente de chamas potentes que ardiam em piras nos quatro cantos do salão.

Lá em cima as estrelas reluziam de forma sobrenatural, brilhavam tão próximas! A sensação era o poder de esticar a mão e tocá-las quando quisesse, ou a possibilidade de elas caírem do céu como frutas maduras caem de uma árvore, bem no meio da cabeça. Pareciam gigantescos diamantes encrustados numa espécie de ônix gigantesco, e isso estava espalhado pelo céu como um manto, entre elas havia um tipo de poeira como açúcar cristalizado derramado no veludo, e cada pontinho minúsculo daquela poeira sideral cintilava como vidro moído, toda aquela luz parecia vir delas e não das quatro fogueiras que ardiam nos quatro cantos do salão.

Frederico foi colocado gentilmente no centro do salão, exatamente em cima da íris do olho gigante. Um dos monges aproximou-se dele com uma adaga, lhe fez um rápido e superficial corte acima da clavícula, de onde o sangue jorrou acompanhado por um berro de dor. O sangue esguichou para dentro de uma taça dourada que foi consagrada pela fumaça do incenso e pelas orações dos monges, e em um cortejo, foi levada até Ousama, na outra extremidade do salão, com seu olhar estrábico sempre apático e amarelo, sem vida, monstruoso.

A ele a taça foi entregue com reverências, e para a surpresa do rapaz, o grande sapo gorduroso apanhou a taça com uma das suas patas dianteiras, exatamente como um ser humano apanha um copo de vinho oferecido por um companheiro de bebedeira. Sua boca em forma de caçapa abriu-se exalando um odor acre estonteante, e o sangue foi lançado lá dentro. O que aconteceu em seguida foi extremamente asqueroso.

Ousama estremeceu após alguns segundos, dos pés à cabeça, cada centímetro de seu corpo gelatinoso vibrou produzindo um estranho som de borbulho. A boca de caçapa abriu-se outra vez, e lá de dentro saiu algo horrendo. Frederico gritou outra vez, talvez pela dor na clavícula cortada, talvez pelo que estava presenciando, ele não sabia, mas aquilo ela extremamente asqueroso. O sapo havia vomitado suas entranhas, uma espécie de bolsa transparente coberta de veias pulsantes, enquanto seu corpo murchava aos poucos. O grande corpo esponjoso e coberto de verrugas estava encolhendo e diminuindo como uma bola furada, desaparecendo numa fumaça verde de odor forte enquanto aquela bolsa, aquela placenta, aquele útero vomitado se contorcia diante de todos. As orações iam mais e mais alto contra o teto de vidro, os monges já dançavam outra vez, girando em círculos pelo salão enquanto os tambores soavam e os mestres de cerimônia batiam palmas, era algo satânico e maligno.

Uma mão branca rasgou a placenta de dentro para fora, e um líquido verde jorrou de lá como muco fervente, caiu no chão com um chiado alto de ovo na frigideira, espalhando bolotas de gordura por todo o local. Mas que coisa horrorosa!

E então Frederico viu a si mesmo, rastejando nu na gosma na outra extremidade do salão, livrando-se da pelanca e do gel verde que o cobria. Ao erguer do rosto solene da criatura, viu-se um sorriso triunfante nele, e quando aqueles olhos fechados foram desobstruídos pelas mãos da cópia, eles abriram-se, revelando estranhas pupilas na horizontal, envoltas pela íris amarela. Os olhos de Ousama, os olhos do sapo. Sua boca abriu-se, e um ruído estranho veio de lá dentro, era a voz, ele podia falar. Ele ia falar.

- Eu... Eu... Eu sou humano!


•••


Houve momentos em que a jovem Amélia sentiu-se amortecer por completo, como se sua mente estivesse por um instante trancafiada num corpo sem vida, uma cápsula dura e congelada, se perdendo na escuridão. As asas marrons do pássaro lutavam bravamente contra o vento forte e o gelo afiado que caía do céu com violência, era uma tempestade dantesca, coisa que ela nunca havia visto na vida. Mas estava presa, estava segura, agarrada às suas últimas forças, presa contra o dorso do pássaro, segurando-se à vida, lutando para não se perder no mundo escuro que se formava ao redor dela. As montanhas ao seu redor haviam sumido, não havia céu e nem estrelas, muito menos chão, ela não poderia dizer o quão alto estava voando, mas podia sentir o beliscar incessante de seu pai em forma de pássaro, aninhado entre seus seios se aquecendo, bicando-a para mantê-la consciente, para que ela não desmaiasse ou mesmo morresse.

Tudo era um grande branco, um grande vazio branco de vento e gelo, vez ou outra, grandes pedras de gelo atingiam suas costas, seus braços, suas canelas, sua testa, com força, deixando o que restava de sua mente quase entorpecida. Ela se perguntava quando aquele inferno iria acabar, perguntava se iria congelar até morrer, perguntava-se se já estava morta. Perguntava-se quando o pesadelo teria fim com o despertar. E quem sabe ela estivesse pagando pelos seus pecados? Quem sabe ela estivesse no limbo? O gelo já cobria o seu corpo quase por completo, ela se sentia um boneco de neve, já nem conseguia abrir os olhos novamente, suas pálpebras estavam amortecidas.

E então a canção começou. Amélia não soube dizer se era fruto da sua imaginação ou se vinha de dentro da nevasca, mas entoava tão bela e doce, tão reconfortante! Por um minuto seu coração se aqueceu outra vez, e ela estava queimando de dentro pra fora, derretendo seu gelo interno, lutando contra a nevasca. Era algo indecifrável e inteligível, parecia estar sendo cantado debaixo d’água, como uma cantina de ninar das sereias, aquilo lhe impulsionava para fora do oceano da morte como uma catapulta de motivação, e em breve ela estaria sobrevoando a superfície. A superfície de seu próprio ser.

A neve parou de cair subitamente, e um enorme vale escarpado de grandes pedregulhos e montanhas pontiagudas abriu-se. Era o fim, o fim daquele mundo, um grande pedaço de terra flutuante, montanhosa, perdida no tempo e no espaço, um vale de rochas infinitas e gelo eterno. Aos fundos da paisagem, estrelas brilhavam tão gigantescas que assustavam a jovem Amélia, e os planetas estavam tão próximos que pareciam móbiles realistas pendurados no teto de um planetário. Cometas e estrelas cadentes cruzavam o horizonte o tempo inteiro, atravessando a névoa e as nuvens que ainda insistiam em vagar nos céus daquele lugar incompreensível e sem atmosfera, mas misteriosamente respirável. Olhar para cima era como observar uma colcha de retalhos toda rasgada, mostrando o colchão que estivera forrando, o colchão espacial do espaço sideral, a colcha de nuvens cinzentas e gordas que ainda expeliam pequenos flocos e cristais de neve.

Exatamente na outra extremidade daquele vale ficava uma montanha, uma montanha azul-perolada no meio daqueles picos cinzentos. Era envolta num brilho sobrenatural, e possuía tamanho e formato incomuns à natureza do planeta terra, era algo saído de algum filme antigo em preto e branco tendo como ambientação as paisagens do planeta Plutão, algo fruto de uma tela de Van Gogh ou coisa parecida, algo indescritivelmente grande. No topo daquela montanha havia um grande palácio, um palácio dourado que reluzia como uma joia coroando o monte, coroando a rainha das montanhas, Auriel.

- Kinkaku-ji! O Templo Dourado! – exclamou Amélia, lembrando-se do que havia visto em revistas, internet e panfletos sobre turismo no Japão. Aquela era uma versão do palácio de Kinkaku-ji em tamanho colossal, como se construído por ciclopes para abrigar monges gigantes. Aquela arquitetura japonesa fascinava Mia e a seduzia de um modo excepcional, ela sempre fora louca por tudo o que tinha origens no oriente, e o modo como casas, templos e palácios eram construídos não escapava a essa obsessão: o modo com as bordas dos telhados eram pontiagudas, o jeito como os dragões adornavam calhas e lajes, as paredes de papel arroz e bambu. Tudo aquilo despertava um fascínio tremendo na garota, e quanto mais o pássaro cor de madeira aproximava-se do templo, mais ela o via crescer diante dela e tornar-se algo de proporções Lovecraftianas.

Tudo aconteceu muito rápido, Mia ainda digeria a paisagem quando o pássaro deu uma guinada inesperada e lançou-se para cima como uma flecha, as asas juntas ao corpo e o bico esticado, pontiagudo, cortando o vendo como uma tesoura furiosa, ela teve de se segurar com força para não escorregar, ele estava subindo à encosta da montanha. E depois, quando deu por si, após à crise de histeria e berros que deu por causa do frio incômodo na barriga e o medo de cair e morrer esfacelada no escarpado do vale, estava praticamente dentro do templo, voando por entre as colunas do balcão de entrada, o pássaro estava dando a volta na construção gigantesca, indo de encontro ao último andar, ao teto de vidro do último andar, contra o qual se chocou com grande estardalhaço e lançou Amélia longe por cima dos pseudo-dervixes.

A reação dos ocupantes do grande salão de cerimônia invadido repentinamente por uma garota voadora e seu pássaro também foi instantânea, eles voaram em cima da bela criatura e imobilizaram-na enquanto os outros providenciavam cordas e amarras fortíssimas para prender a pobre ave. Amélia estava louca, confusa, em surto, mal enxergava direito, não sabia sequer onde estava, não vida nada nem ninguém, seus olhos só procuravam por um alguém, e esse alguém era seu irmão. Suas roupas de frio estavam rasgadas, seu cabelo despenteado e seu rosto sujo de filetes de sangue pelo choque contra a vidraça, mas ela teve força de vontade o suficiente para correr até o rapaz nu que estava de pé no meio de toda aquela gosma verde, ainda um pouco sujo.

- Fred! Fred! – ela correu até ele e abraçou-o – o que fizeram contigo?! O que eles fizeram contigo?! Porque você está sem roupa?! – ela olhou ao redor, viu que pisava nos restos de algo como a placenta de uma cadela que havia acabado de parir uma ninhada de filhotes gigantes. Logo atrás daquele Frederico havia um monte de algo semelhante a estrume borbulhando, algo asqueroso. Ela não aguentou, vomitou por impulso, o voo havia causado esta sensibilidade repentina. Mas fora isso, que diabos estava acontecendo ali?

Os monges já partiam para cima dela, para imobilizá-la, ela agarrou-se ao irmão que gritou de dor. Estava segura aos ombros do rapaz, com as flores vermelho-sangue que cresciam nos chifres da Corça Magenta em mãos. E pela primeira vez desde que chegara ali, ela olhara nos olhos de Frederico. Aquele não era o seu irmão, de modo algum! A expressão não era a mesma, a aura não era a mesma, aquilo que ela abraçava e que se contorcia ao seu abraço tinha uma aura maligna, e estava reagindo ao seu abraço como se o amor fosse mortal, sua face estava retorcida numa careta de olhos fechados, e quando as pálpebras se abriram e as vistas se cruzaram, ela soltou-o de imediato e pulou para trás, apavorada. Os olhos de Fred estavam amarelo-ouro e suas pupilas escuras na horizontal, uma coisa hedionda. Ela gritou, e percebeu que o ombro esquerdo do rapaz – onde ela estivera segurando com força usando a mão direita, a mesma mão que portava o buquê de flores vermelhas – ardia e borbulhava. A queimadura se estendia pelas costas de Frederico, pelo braço, no peito e até no rosto, era alergia, alergia à flor, ele estava reagindo à toxina da flor, uma toxina que só afeta demônios. Aquele não era o seu irmão, definitivamente!

Eis a motivação que Amélia precisava. Ela franziu o cenho furiosa, cerrou os dentes e feito uma felina, voou na criatura que copiava a imagem de seu irmão, esfregando as flores vermelhas em seu rosto, em seu peito, em sua barriga, em seus braços, lavando-o no veneno. A criatura gritava de ódio, uma fumaça vermelha emanava das bolhas que a queimadura formava. Era uma cena assustadora. Os monges conseguiram pegá-la antes que ela o matasse, amarraram-na e amordaçaram-na, jogaram seu corpo junto ao do grande pássaro, e a cerimônia teve continuação, embora a cópia maligna de seu irmão gemesse de dor e a olhasse de modo cruel com aqueles olhos amarelos de pupilas horizontais demoníacas.

Enquanto o culto prosseguia no interior do palácio dourado, e Amélia contorcia-se como uma lagarta nas suas amarras, a lua vermelha surgia lá fora, vinda do vazio, um espectro sangrento que se erguia no horizonte estrelado inexistente. Era o olho maligno de um lobo albino nascendo, atravessando as nuvens, atravessando o espaço. A proximidade daquele enorme astro fez com que grandes pedaços de rocha presos ao chão e às montanhas pela gravidade desprendessem e começassem a flutuar, a levitar em direção aos céus. Os maiores pedregulhos soltavam-se da terra com um estrondo enorme que reverberava pelos cânions como trovão, o som de uma avalanche, um rasgar do que é indestrutível.

- Ela... Está... Surgindo! Ela está vindo! Ela está vindo! – a maligna cópia de olhos dourados balbuciava de braços abertos para o céu, completamente inexpressiva, mas sendo corroído pelo veneno da ansiedade aos poucos em seu interior. O verdadeiro Frederico estava prestes a perder a consciência, seu grito hipotético pelo nome de Amélia saía na forma de um fraco gemido, ele arrastava-se numa poça de sangue, o sangue que escorria do corte nas proximidades da sua clavícula, a mortalha branca agora estava tingida de rubi.

Foi então que uma farpa amadeirada escapou feito uma flecha de dentro do moletom da garota Amélia, voando em direção ao rosto da cópia maligna de Frederico, um tiro do além atingindo certeiro no olho da criatura. Era Dimitri em sua pequena forma de pássaro, lutando para salvar a vida de seus filhos. A criatura rugiu em agonia, e seu urro sobrenatural ecoou pelo templo fazendo tremer do telhado às bases, Fred reconheceu aquele urro, ele já o ouvira pelo menos duas vezes. Aquele era o ódio de Ousama manifestado num som grotesco e gutural. Porém o pequeno pássaro que um dia já fora homem sequer se intimidou, continuou ali voejando ao redor da cabeça de Ousama, bicando com força seu crânio, arranhando seu rosto com ferocidade, um pardal com o espírito e a bravura de uma harpia protegendo seu ninho, a sua cria. A cópia maligna de Frederico gritava, protegendo o rosto com uma mão enquanto usava a outra para espantar a pequena criatura que lhe agredia.

O décimo tapa foi certeiro, pegou o pássaro de mão cheia e lançou-o longe. Amélia gritou. A lua vermelha já estava surgindo através da claraboia destruída pela invasão da garota e da sua montaria marrom, e o aparecimento de seu espectro sangrento causou arrepios e espasmos nos corpos de todas as criaturas, homens, pássaros e demônios que ali estavam, cultuando ou lutando contra o culto demoníaco. A luz carmim da lua infernal banhou o salão dourado e transformou-o num mar vermelho. Um esboço de sorriso decompôs-se da inexpressão de Ousama em seu rosto recém-adquirido.

- VENHA! – gritou o mestre dos monges – VENHA A NÓS, LILITH, O SANGRENTO! DERRAMA SOBRE NÓS O TEU PODER TRANSCENDENTAL! VINDE A NÓS, CRIATURA MILENAR! VINDE A NÓS, SER SEM COMEÇO E NEM FIM, VINDE!


A lua vermelha agora ocupava totalmente o espaço da claraboia, tingiu o céu de vermelho, cada cratera do astro era tão visível e tão próxima quanto o foco de um telescópio em seu corpo antes pálido, agora da cor de um rubi. Um ponto negro surgiu exatamente no centro do astral olho de lobo albino, um grande tremor de terra fez rachar todas as paredes do templo. Os monges estavam em transe, em um êxtase incontrolável, gritando e entoando seus cânticos mais e mais alto, girando com mais velocidade, formando tornados pálidos no salão, peões girados por vontade própria. Os tambores retumbavam mais alto, as harpas estavam enlouquecidas, os gemidos tornavam-se berros.

Frederico já mal enxergava no momento, a sua visão estava tão baça que ele sequer distinguia formas, tudo era um mar tingido de vermelho ao seu redor, não havia rostos, só vozes, vozes que gritavam, riam, choravam e cantavam tão alto que seus tímpanos furiosos se retorciam de agonia dentro dos ouvidos. Fred sentia seu corpo arder em fogo, era o inferno o consumindo de dentro para fora, de fora para dentro. Dois monges aproximaram-se do rapaz agonizante e o ergueram à lua vermelha, consagrando-o e orando em cima dele. O mestre dos monges postou-se à sua frente e em seu rosto e seu peito esfregou o óleo para ungi-lo.

- Eu te declaro, o consorte lunar, pequena criança humana!

Uma ventania poderosa arrebentou o que restava da claraboia, o círculo negro que se formou no centro da esfera lunar tornou-se maior, agora mais do que nunca lembrava um enorme olho vermelho, com sua pupila escura dilatando conforme a força dos ventos tornava-se mais arrasadora. O que aconteceria a seguir seria tão estranho e perturbador que Frederico jamais saberia descrever o que vira, talvez sequer lembraria, mas teria pesadelos com aquilo para o resto das noites de sua vida: uma enorme serpente negra desceu do olho no céu, silvando com sua língua bifurcada. Ela veio em espiral e caiu no chão com a leveza de uma pena, diante de Frederico que estava tão tonto, tão perdido entre a realidade e a fantasia que a esta altura não possuía noção nenhuma do perigo que corria; ele simplesmente ficou ali, parado, ajoelhado diante da serpente negra que o observava tão profunda e analiticamente com seus olhos vermelhos mortais, e em sua situação ele a via tanto como um demônio quanto como um anjo, vindo do céu ou do inferno, para sua salvação ou danação. Ela abriu sua bocarra para ele e avançou contra seu corpo, atravessando-o como uma força invisível, um espasmo esporádico, um fantasma tentando atingir a carne, a existência.

Enquanto o longo corpo da serpente negra o atravessava, Frederico teve o vislumbre dos últimos minutos da vida de um deus, um deus tão antigo e tão poderoso que a simples consciência de sua existência fazia vibrar cada átomo de seu corpo. Na visão, ele era o próprio deus, e sentia a sua dor e a sua alegria, sentia sua existência vazia e sua busca eterna pela compreensão da existência própria, sentia o peso das eras sobre as costas e todo o poder e conhecimento acumulado fluindo pelos seus neurônios como rios poderosos. De onde vim? Para onde irei? Porque estou aqui? Estas questões perturbavam aquela criatura como um carrasco impiedoso, perfurando a sua alma com lanças e adagas, torturando-o e fazendo-o chorar internamente enquanto seu branco rosto de porcelana permanecia impassível e impiedoso. Vendado pela renda vermelha.

Na visão de Frederico, havia muita fumaça e muitos incensos acesos, havia tochas e pessoas dançando vestidas em estranhas roupas alegóricas orientais, remetendo à antiga china, ao antigo Japão, à antiga Pérsia, maquiagem pesada e grandes coroas floridas, quimonos estampados e cheiro forte de mirra. Havia uma grande janela triangular para um mundo em guerra, um mundo fantástico, uma pintura de Bosch viva, com sereias aladas voando pelos céus e animais descomunais lutando entre si enquanto figuras brancas semelhantes a humanos – mas que não o eram – corriam por entre as árvores e as pedras. Aquele deus iria destruir este mundo fantástico! Aquele círculo mágico riscado no chão, aquelas pessoas dançando em círculos ao redor dele, aquilo era um ritual de destruição. Porque eles estavam em guerra, numa guerra que havia durado tempo demais, e estava chegando às portas do palácio dos deuses! Sua criação, seus filhos, tomados por uma sede de poder, queriam dominar Babel. A MINHA BABEL, rugiu a voz em sua mente.

- O que você pensa que está fazendo, irmão?! – uma nova criatura surgia das sombras, reluzindo como o sol, cachos de um anjo e olhos de um diabo.

Foi tudo rápido demais, a língua era estranha e desconhecida, o que aconteceu a seguir o atingiu em cheio, literalmente. Uma adaga atravessou-lhe o estômago, o estômago do deus, e seu corpo naquele mundo esfarelou-se, e seus restos tornaram-se aquela enorme serpente negra. O espírito de Lilith, O Rei dos Monstros.






Meu Melhor Amigo Sou Eu!


"Para ter lábios atraentes, diga palavras doces; para ter olhos belos, procure ver o lado bom das pessoas; para ter um corpo esguio, divida sua comida com os famintos; para ter cabelos bonitos, deixe uma criança passar seus dedos por eles pelo menos uma vez por dia; para ter boa postura, caminhe com a certeza de que nunca andará sozinho; pessoas, muito mais que coisas, devem ser restauradas, revividas, resgatadas e redimidas;lembre-se que, se alguma vez precisar de uma mão amiga, você a encontrará no final do seu braço. Ao ficarmos mais velhos, descobrimos porque temos duas mãos, uma para ajudar a nós mesmos, a outra para ajudar o próximo; a beleza de uma mulher não está nas roupas que ela veste, nem no corpo que ela carrega, ou na forma como penteia o cabelo. A beleza de uma mulher deve ser vista nos seus olhos, porque esta é a porta para seu coração, o lugar onde o amor reside!"


Audrey Hepburn

Faz um bom tempo de minha vida em que tomei esta belíssima citação de Audrey Hepburn como filosofia de vida, mas não vinha colocando em prática, faltava segui-la com mais fidelidade e executá-la no dia a dia. A partir do momento em que você se torna uma pessoa doce e de boa convivência, as outras pessoas passarão a vê-lo com outros olhos e serão doces para com você também. E aquela velha história de que "pessoas doces só atraem formigas"? Pura mentira. Pessoas doces atraem compreensão, compaixão, sinceridade, companheirismo e acima de tudo, amizades verdadeiras.


Vou confessar a vocês que, na primeira vez em que li essa citação derramei algumas lágrimas, e prometi à mim que seria uma boa pessoa, que faria de tudo para ser alguém realmente bom para o mundo e para as outras pessoas, mesmo se elas fossem cruéis e mesquinhas para comigo. Bem, isso tudo foi por água abaixo no final do ano passado, quando eclodiu a quarta guerra mundial dentro da sala de aula Esquisitões Vs. Sapatões, e eu me tornei tudo o que eu prometi não ser após ler a citação da Audrey. Recentemente, eu venho sofrendo internamente por vários motivos, como já discuti e analisei em posts anteriores, e eu estava completamente perdido no meio de todos esses sentimentos ruins, até bater de frente com a mesma citação, revirando as páginas da internet pela madrugada alheia.


E então eu relembrei da minha promessa. E lembrei que não importava o quão cruel as pessoas estivessem sendo comigo, eu continuaria sendo uma pessoa doce e me esforçaria para fazê-las sentir-se bem. É o que me faz feliz no final do dia, saber que não fui mal educado com ninguém e fui o mesmo de sempre, sem deixar cair o sorriso do rosto nem uma única vez, sem nunca deixar de dizer coisas boas para ouvir coisas boas de volta, sem desviar dos meus princípios. Saber que tratei todos bem e com igualdade é o que me faz feliz. E se as pessoas não correspondem ao meu carinho e à minha compreensão, de que isso importa? Oras, o que importa é que você está fazendo a sua parte, não é mesmo? Que você está sendo realmente uma boa pessoa!


"Lembre-se que, se alguma vez precisar de uma mão amiga, você a encontrará no final do seu braço", acho que de todas as frases da citação, essa é a que me chama mais atenção. Fala sobre ser auto-suficiente, sobre fazer-se feliz, sobre manter a sua cabeça sempre erguida e ajudar a si mesmo, a ser o seu próprio porto seguro, e eu estava precisando MUITO botá-la em prática ultimamente, quando tenho me sentido tão só e pouco amado, me sentido como uma folha ao vento sem um porto seguro, sem amigos.


Oras, o meu melhor amigo sou eu mesmo!


Eu estava mesmo precisando erguer minha auto-estima, e reler a citação da Audrey fez isso por mim. Num resumo geral dela, você vê que o que importa não é o que os outros vão pensar ou achar, não importa o que parte dos outros, o que realmente importa é o que parte de você! E daí se as outras pessoas não lhe sorriem de volta? O sorriso mais bonito que você ganhou é o seu próprio. E daí se afastam-se os rostos para os seus beijos de despedida? Há muitas outras pessoas precisando de mais carinho no mundo do que aquele que te esnoba.


Então, nunca perca o sorriso, caminhe com a certeza de que você está fazendo a sua parte, de que pelo menos está tentando cativá-los e fazê-los felizes. Se eles não percebem isso, ora porra, o problema é deles! Eles não sabem o que estão perdendo!


xxxo


Louie Mimieux


terça-feira, 12 de abril de 2011

Olá, tudo bem?



Hoje, perguntaram-me como eu estava me sentindo.

Eis o que eu respondi:

"Me sinto bem, eu acho... Nunca sei como estou me sentindo em grande parte do tempo, sou uma caixinha de surpresas, até pra mim mesmo..."

E sorri. Porque as pessoas que lhe perguntam se você está bem nem sempre estão interessadas realmente em como você está se sentindo...






Louie Mimieux

domingo, 10 de abril de 2011

Theoria

Eu tenho uma sacola cheia de sonhos

E um baú repleto de fantasia

Eu tenho uma mente estranha

De noite e de dia

Mas meu coração é vazio


Eu tenho uma casa alaranjada

De janelas gradeadas e azulejos azuis

Nada nesse mundo me seduz

Nenhum ser humano me deduz


Você sabe quem eu sou?

Eu fui terra, eu fui céu

Eu fui água, eu fui fel

Amargo como semente de limão

E os cajus do quintal sequer florescerão


No meu mundo, as cigarras cantam de madrugada

À luz das estrelas, comemorando o luar

Os lobos saem de dia, usando chapéu

Foram passear

E o que há atrás daquela porta

Só a fechadura dirá


Eu tenho uma bagagem estranha

Ela tem o formato de uma palmeira

E está cheia, lotada de besteira

Nunca vi tanta bala

E nem tanto caviar

Caviar é coisa de rico

Cansei de fantasiar


A realidade é outra coisa

Mas prefiro ficar aqui dentro

Do que me vender ao relento

Falando em vender,

Jamais me dei fácil

Que nem certas vadias que conheço.

Pra falar a verdade, a mim mesmo desconheço


Carroça, carrapato, caipora

Alguma coisa nesse mundo me apavora

No Messenger eu nunca estou ausente

Eu só estou descontente

Por isso não venha dizer oi

Eu só respondo depois


Depois que os pássaros pararem de chorar

E os pedaços do meu coração

Eu consegui juntar

Já não tenho mais chão

Flutuando no céu

Sem conseguir atravessar o véu


Alguém furou a teoria

Que sustentava essa patifaria

Que eu chamo de vida

Vida minha,

Vida minha


Eu nunca sou eu mesmo

Estou sempre representando

Como uma espanhola dançando tango

Estou farto de estudar

Vestibular ficou pra lá


Meus amigos, onde estão?

Na padaria, comendo pão?

E o meu amor, que se perdeu

Esfacelou, evaporou

Nunca existiu.

Isso me apavorou.


E eu por acaso sou gente?

E eu por acaso sou humano?

Minha vida é uma grande mentira

Ora, quem diria


Eu finjo que te entendo

Eu finjo que te amo

Eu finjo que te sinto

Eu finjo que existo


Uma cópia barata

De alguém que já existiu

Foi assim

Que minha teoria faliu.

sábado, 9 de abril de 2011

Capítulo X - Amélia Mimieux e a Profecia da Lua Vermelha

Pouco antes de montar o pássaro gigante e voar rumo aos confins das Cordilheiras, Amélia recebeu a visita das Feiticeiras das Montanhas, em suas máscaras de crochê e seus mantos coloridos ou brancos. Elas surgiram como fantasmas alados, esvoaçantes por entre as árvores, macacos místicos de pele da cor do leite, saltando de galho em galho com a graça de bailarinas celestes, sem quebrá-los ou sequer provocar um leve farfalhar daquelas folhas dos pinheiros, das araucárias, dos bambus e dos ciprestes. Eram anjos mascarados.


Aquela que sabia a língua humana e que falara com Frederico há um dia atrás desceu de seu galho, enquanto as outras observavam das alturas, os olhos esbugalhados curiosos, outras desconfiadas, assustadas ou até mesmo desgostosas e reprovadoras. Kärla, como se chamava, aproximou-se sorrateiramente da jovem que a observava séria, fez uma reverência e se apresentou.

- Humana, eu me chamo Kärla, A Caçadora. – começou, tirando a sua máscara de samurai da cabeça. As outras feiticeiras estremeceram e soltaram exclamações em gemidos e murmúrios.


Era proibida a retirada da máscara fora dos limites da aldeia, que ficava há quilômetros de distância dali, quase no fim da floresta, longe o bastante do mundo humano para que as árvores ficassem escassas. – falo a tua língua porque já estive no teu mundo, já fui do teu mundo, e quando caí neste mundo por acaso, ainda pequena, fui acolhida pelas irmãs... – fez um gesto para os vultos nos galhos – estivemos observando vocês com atenção durante todos esses dias, sem saber como reagir ao que estaria por vir...


- Aonde você quer chegar com tudo isso? – perguntou uma irritadiça Amélia, com o pequeno pássaro que havia sido seu pai pousado no ombro.

- Há coisas que você precisa saber antes de partir até os limites das Cordilheiras...


A conversa durou certo tempo, elas sentaram-se no chão mesmo, de pernas cruzadas na posição do lótus, frente a frente uma da outra. O grande pássaro do tamanho de um pônei também arriou-se ao chão ao lado das duas, procurando proteger a jovem o máximo possível, como se a própria fosse seu filhote, e ali Kärla iniciou sua história...

Há muitas eras atrás, não havia nada no vácuo, ele era apenas um espaço vazio ocupado por névoa branca e espessa, onde os restos de um estranho mundo perdido flutuavam, eram grandes pedaços de terra sem vida. No vácuo havia moradores muito antigos, seres sem corpo, seres sem alma, feitos de sombra, que não tinham propósito algum, vagavam errantes, e por vezes caíam no mundo humano, onde causavam grandes desastres. Os Espectros, como são chamados, já tiveram um rei, um senhor de sombras, que sonhava em dominar o universo. Foi derrotado pelas cinco guerreiras lendárias, e após a derrocada de tal ser, o vácuo viu-se abandonado, e os Espectros voltaram às origens como seres errantes nas sombras.


Antes de mais nada, você precisa saber que o tempo varia muito entre o seu mundo e as Cordilheiras. Você pode passar um segundo aqui, mas não se espante se ao voltar para o seu mundo deparar-se com todos aqueles que você amava mortos. Assim como mil anos aqui neste lado podem ser um piscar de olhos lá do outro.

Mas um dia, as grandes massas de terra flutuante começaram a se unir e a formar enormes montanhas bem no meio do vazio, se reuniam formando verdadeiras trilhas, antes caminhos de pedra estreitos, depois estradas sólidas e em seguida blocos colossais e pontiagudos. As montanhas se reuniam aos poucos em uma linha errante que seguia em direção ao infinito, e com o passar dos anos, as massas de terra ficaram tão unidas que pareciam ter nascido grudadas, juntas, ali. Pensou-se que algo grandioso estava para acontecer, e foi exatamente isso o que aconteceu


Um grande cortejo de espectros passou por entre as montanhas pedregosas, e nossos primeiros antepassados presenciaram isto, porque chegaram junto ao cortejo vindos de mundos distantes. A caravana cortou os vales e a beirada dos penhascos, uma enorme caminhada que levava quatro luxuosas liteiras para o vazio mais adiante onde a linha montanhosa terminava. Lá, aquele a quem os espectros chamaram de Lilith, O Sanguinário, desceu de sua liteira, e seus outros três irmãos fizeram o mesmo.

Os quatro deuses deram as mãos e usando seus poderes demoníacos deram a luz a um novo mundo, isso demorou algum tempo, de modo que os deuses tiveram de construir uma morada temporária no cume da montanha mais alta, a última montanha das cordilheiras, aquela que eles chamaram de Auriel. Lá no topo foi erguido um enorme palácio de ouro, onde os quatro deuses meditaram durante muito tempo em silêncio, concentrando todos os seus poderes na criação de outro mundo, e no final, os espectros comemoraram porque tinham um novo rei e um mundo concreto para viver.


Mas logo se decepcionaram, pois Lilith e seus irmãos partiram para o novo mundo, agora já habitado por criaturas trazidas de outros universos ou criadas a partir da mente dos deuses. Os quatro deuses se foram para aquilo que chamaram de Oráculo, a fonte da sabedoria, sem sequer olhar para trás. Mas Lilith prometeu aos seus servos que voltaria quando chegasse a hora, e eles saberiam quando seria hora.

Um dos espectros perguntou como, e Lilith sorriu, esfregou as mãos com força e espalmou-as em forma de concha. Ali entre seus dedos havia um pequeno sapo de grandes olhos amarelos, e assim, foi profetizado que quando aquele sapo estivesse tão grande e gordo a ponto de explodir e a lua cheia no céu tornar-se vermelha como sangue, Lilith voltaria do Oráculo para governar.


O Sanguinário contou-lhes a profecia do fim das Cordilheiras e contou-lhes sobre o que aconteceria após a queda daquelas montanhas no abismo. Ensinou-lhes também o ritual necessário para que ele viesse a este mundo, e por fim partiu para o Oráculo junto de seus irmãos, deixando para trás de si um grande milagre, uma vasta e farta floresta que tinha origem no mundo humano.

E da curta estadia de Lilith neste pequeno mundo restou este palácio de ouro, resplandecente, coroando o alto da montanha mais alta de toda a Cordilheira, onde este mundo termina. E os espectros então consagraram aquele lugar como um templo, e ali fizeram oferendas e rituais de adoração a Lilith nas noites de lua cheia, esperando a noite da lua vermelha. Enquanto isso o pequeno sapo crescia, se alimentando no começo apenas dos insetos que aqui viviam... Foi ele quem deu fim a toda a fauna que habitava este lugar, ele devorou os insetos um a um, e depois os coelhos, os esquilos, os pássaros, os cervos, os veados e até a família de lobos, a família de panteras e os ursos. As criaturas que restaram esconderam-se nas entranhas das montanhas...


No final de seu banquete ele já estava tão grande e gordo que passou a ser adorado como rei no templo, e os espectros o chamaram de Ousama, O Poderoso. Ele havia criado consciência também, pensava como gente, e após ver o pequeno Frederico na clareira há alguns anos atrás, decidiu que se faria homem de um jeito ou de outro, seria gente. Em seu nome, porcos foram trazidos do mundo humano e sacrificados nas pedras, da carne do porco Ousama se alimentou, pensando que se faria gente, mas não se fez.

Não bastava querer ser gente, queria também ser rei. Reinar sobre os espectros, sobre os monstros e sobre os homens, queria ocupar o lugar de Lilith, aquele que o criou, e por isso ordenou aos espectros que trouxessem o humano da profecia, aquele que consagraria seu corpo na noite da lua vermelha. Mas os espectros erraram não só uma, mas duas vezes, trazendo primeiro o pai e por último o filho, na companhia da irmã, a qual sequer deveria ter vindo. Isso deixou Ousama furioso. Ele queria provar do sangue humano, se o sangue humano traria Lilith de volta, porque não o transformaria em gente?


Mas ele era grande e gordo demais, jamais poderia sair do palácio sem morrer esmagado pelo próprio peso, e os espectros não podiam sair à luz do dia porque desapareciam, tornavam-se invisíveis, e sequer podiam entrar na maldita casa amarela, que os repelia e os amedrontava. Havia um encanto nela, e eles sequer sabiam de onde ela havia saído. Certa vez Ousama criou um monstro feito da sua própria carne, mas a criatura, uma cópia menor sua, não sobreviveu. Após perseguir Dimitri, o pai, na floresta, desfez-se em muco e evaporou, e isso deixou Ousama muito frustrado, quem levaria o sangue humano até ele?

Eis então que no mundo humano, alguém se matou numa banheira, alguém próximo a Frederico. Era exatamente disso que Ousama precisava: alguém que não quisesse viver, alguém descartável para servi-lo somente naquele momento, alguém que não o atrapalhasse e que ele pudesse jogar fora. E então você se pergunta “porque ele não tomou do sangue dela?”. Ora, pelo simples motivo de ela não conter o sangue de monstro, o sangue da profecia, o sangue mágico. E assim, os espectros trouxeram Geraldine para as Cordilheiras, e possuíram seu corpo, mudando sua essência por dentro, transformando-a naquele corvo monstruoso que sequestrou Frederico.


“O que eles vão fazer a ele?” Você se pergunta.

E eu lhe respondo.


Vão ungi-lo nos óleos sagrados, perfumá-lo nas pétalas mágicas e uni-lo em matrimônio simbólico com a lua. Ele será o primeiro alimento de Lilith neste mundo. O seu coração saciará a sede do Rei dos Monstros por sangue, e assim que Lilith estiver de pé, Ousama o matará, assumindo então a coroa do reino das aberrações, tudo isso sob a luz maldita da lua vermelha, o crepúsculo das eras.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Reconstrução


Eu me postei debaixo daquela árvore debaixo do sol da tardinha, esperando por ela. Não demorou muito para que ela aparecesse, e assim que eu vi seu rosto, acredito que tudo o que eu vinha sentindo há algumas semanas veio pra fora. Quer dizer, não tudo, mas boa parte das coisas ruins que eu tenho guardadas no meu coração vieram pra fora num mar de lágrimas insistentes que levaram numa cachoeira o meu delineador, o meu lápis de olho, toda a minha beleza removível, o pouco que eu tenho. Se é que eu a tenho, afinal, "qualquer um é mais bonito que ela" disse Anna a respeito da garota desagradável da nossa turma "até o Antonio é mais bonito que ela".

Acho que isso foi a gota d'água dessa semana difícil que eu tenho passado. A última vez em que me senti tão mal, tão pra baixo, tão feio e tão mal-quisto foi quando Desirée reuniu uma horda de degenerados e desocupados para encher a minha página do formspring de xingamentos e ofensas, o cyberbullying. Sou uma pessoa de ego muito frágil, como já citei anteriormente na postagem a respeito da minha primeira visita à Junta Militar: eu sofri muito durante grande parte da minha infância e adolescência, não suportava sequer me olhar no espelho. Ora, eu nunca fui um menino bonito, mas eu precisava me amar de alguma forma, a saída foi o meu cabelo, mas isso já foi discutido antes.

O fato é que eu tenho me sentido muito, muito mal mesmo nesses últimos dias e sem nenhum motivo aparente, eu tenho me isolado das pessoas que me querem bem e procurado a presença de pessoas que me fazem sofrer de alguma forma (conscientemente ou não), tenho tido ataques de ansiedade frequentemente (falta de ar seguida de batimentos cardíacos acelerados, aumento da temperatura corporal e a sensação de que alguma coisa terrível vai acontecer ou está acontecendo), e o que a Anna disse naquele momento foi uma brincadeira, é lógico, mas caiu na minha cabeça como uma bomba que me devastou.

E ver a Bia ali na minha frente trouxe à tona a memória de um tempo em que eu me sentia amado, querido e... bonito, de bem com meu corpo e comigo mesmo. e então eu comecei a chorar e não conseguia parar de maneira alguma e deixei a pobre da menina completamente confusa porque ela não estava entendendo nada! Eu preferi não entrar muito em detalhes do porquê do choro. "Saudades" eu disse, e outras meias-verdades.

E aí eu fiquei remoendo um bocado de coisas, relembrando os meus tempos de Apocalipse Club - Rayanne, Fabíola, Pedro, Bia - todo mundo se preocupava comigo e me queria bem, assim como eu me preocupava com eles e também os queria tão tão bem. Eles gostavam de mim do jeito que sou e me compreendiam, e se não entendiam, se esforçavam para aceitar e respeitar qualquer atitude ou ponto de vista meu, acima de qualquer coisa, eles me admiravam e me protegiam e cuidavam de mim.

Eu nunca fui muito normal... Tá legal, sejamos sinceros, eu NÃO SOU normal de maneira ALGUMA, eu tenho uma cabeça confusa cheia pensamentos desconexos e avulsos, coisas que precisam ser ditas ou escritas para não serem perdidas no abismo de mim, e algumas pessoas não entendem isso, e também não dão a mínima para tentar entender. Tudo bem se forem desconhecidos ou não muito íntimos, mas pessoas que se dizem suas amigas deveriam se esforçar para compreender, não é mesmo? Não que eu esteja pedindo para que PAREM O MUNDO E TENTEM ME COMPREENDER POR FAVOR, EU PRECISO DE ATENÇÃO, não, longe disso, nada disso!

Cada um tem a sua própria vida e as suas próprias questões para lidar, há coisas muito mais importantes do que eu, e como a Brena me disse sem meias palavras nessa segunda-feira e da forma mais dura o possível, "O MUNDO NÃO GIRA TODO AO TEU REDOR", pode ter soado como uma crueldade na hora aos meus ouvidos, mas era a verdade explícita, nua, despida e descarnada, fazendo sexo com a realidade bem diante dos meus olhos e, nossa, isso foi um pouco chocante no momento, mas ela fez o papel de uma boa amiga afinal de contas, à maneira dela, e é por isso que de todas as pessoas que eu conheci nesses poucos meses de Unifap, ela foi aquela com a qual eu mais me identifiquei em muitos aspectos.


E, nossa, foi tão bom encontrar a Bia depois de tanto tempo! Eu me senti encaixado de novo, senti como se uma pequena parte do pedaço que havia se desprendido de mim houvesse voltado, e eu me senti parcialmente revitalizado, eu estava MESMO precisando rir, e a Bia é especialista nisso, ela me faz rir desde a terceira série, não consigo encontrar minha existência antes dela, ela me ensinou a ser feliz rindo. Rindo da vida, rindo de si mesmo, rindo dos outros. Rindo. Foi como receber um raio de sol depois de muito tempo num quarto escuro, e por isso que eu chorei tanto, tanto quando a encontrei debaixo da árvore.

E depois eu me lembrei repentinamente que havia marcado cinema com o Andrew depois da faculdade - e mais uma vez o Andrew me ajuda a lidar com a depressão! Foi ele quem veio me visitar no dia seguinte ao cyberbullying, me dar apoio moral e me fazer sorrir. - e aí tive de subir num ônibus diferente do habitual para ir ao shopping, mas quando cheguei lá e telefonei para ele, descobri que o filme não estava sendo exibido no Cine Macapá e sim no Imperator! Morri de rir comigo mesmo e tive de andar mais algumas quadras pra chegar até lá (bondade minha, tive de atravessar um bairro pra falar a verdade!), mas valeu a pena porque, nossa, Sucker Punch é incrível, é visualmente maravilhoso e tem um enredo digno de um livro de Lemony Snicket! (é assim que escreve o pseudônimo do autor de Desventuras em Série?).

Eu me identifiquei tanto com a personagem principal! Babydoll, procurando fugir daquela realidade dolorosa transforma a sua vida trágica em metáforas internas, e se perde dentro delas, se perde em seus devaneios enquanto faz aquilo que sabe fazer de melhor: dançar. Só que, no meu caso, eu escrevo! Aquele filme na verdade foi só uma concretização e exposição por parte e terceiros daquilo que eu faço desde pequeno, desde o momento em que meus pais se separaram e o mundo inteiro começou a desabar sobre a minha cabeça: sonhar, me perder num mundo de sonhos, transformar as coisas ruins que me acontecem em história mirabolantes que se desenvolvem na minha cabeça, cheias de explosões, magia, robôs, dimensões desconhecidas e monstros abissais, enquanto aqui fora eu recebo golpes dolorosos da vida.

Vocês acham que a saga The Big Machine veio de onde, afinal de contas?! Desse meu desejo de liberdade, de fuga, e é por isso que eu me identifiquei tanto com Babydoll, ela é a personificação da minha alma: pequena, frágil, delicada, perdida num mundo interno tão grande. Acho que é por isso que eu sou meio autista... Nasci num corpo grande demais, talvez minha alma se perca por aqui por dentro às vezes e eu tenha esses pensamentos suicidas loucos!

Ai, são tantas coisas! E como a pipoca estava gostosa! Tantas coisas para dar atenção e eu só consigo lembrar do sabor da pipoca! Se o Andrew não tivesse me tirado desse fundo de poço e me levado para o cinema, acho que a esta altura eu estaria com os pulsos cortados ou algo pior! Sempre o Andrew pra me animar nessas horas... E depois, quando eu cheguei em casa, a Rayanne me ligou, e foi tão bom falar com a minha amiga!

Agora eu sei como ela se sente às vezes. Eu ralho tanto com ela quando ela começa com esses pensamentos pessimistas escrotos, e ela com toda a paciência do mundo me pede pra concentrar nos estudos quando estou a ponto de enlouquecer (è_é -s)!

E é nessas horas que nós caimos na real: no final das contas, amigos ainda são conferidos nos dedos das mãos!

Dizem que crianças que nascem em dias muito chuvosos tem propensão à desenvolver depressão... coisa de Feng Shui... Bom, enquanto houverem pessoas como estas na minha vida, eu duvido muito que o Feng Shui fará algum efeito.

Era isso. Um desabafo. Uma reconstrução.



XXXO


Louie Mimieux



Felicidade

Houve um dia pela manhã

Um simples dia pela manhã

Em que minha consciência abriu seus olhos

E sentiu que o sol já havia nascido

E cada pedaço de mim procurou a dor

Mas a dor não estava lá

Havia um grande buraco onde antes havia um parasita

Mas ele próprio não estava mais lá

A dor havia ido embora

Havia sumido

E no lugar dela havia uma grande nuvem branca

De paz, de harmonia.

Deus, como eu queria...

Que aquele momento houvesse durado para sempre

Quem sabe, um dia...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Capítulo IX – Frederico Mimieux e Ousama, O Poderoso


Por um tempo, Dimitri tentou entender o que havia acontecido. Ali, caído, logo abaixo da primeira janela da casa, a janela do quarto da frente, ele tentava organizar as ideias de modo a não enlouquecer ou fazer alguma besteira. Sua vista estava turva, tudo era borrão de luz e cor. Ele ainda sentia o bico do corvo gigante envolvendo sua cabeça e lançando-o para o lado como se seu corpo fosse feito de palha, um nada, um boneco de vento. Um brinquedo no bico do corvo. No bico de Geraldine. Era esse o nome da garota, não era? Ele podia sentir a dor lancinante atravessar suas têmporas para furar seu cérebro, isso causava pequenos choques ao mascar, respirar, falar. Teria ele quebrado a cabeça? O barulho do ruflar das asas da criatura ainda ventava em seu ouvido, aquele som pesado de cartas de baralho se espalhando sobre a mesa. E Frederico! Frederico, onde estava?

Levantou-se com dificuldade e lutou contra o escurecimento repentino da vista, que foi seguido por explosões de cores psicodélicas atrás das pálpebras, ele caiu de joelhos e tateou, procurando onde se apoiar. Encontrou pés, e subindo um pouco mais, pernas. Era Amélia.

- Ela o levou – disse Amélia, apática. – a coisa levou ele, voando. – sua voz começava a distorcer. Ela ia cair em prantos outra vez. Mas ela não estava desmaiada há pouco tempo atrás? Como ela se levantou tão depressa? A não ser que as horas passaram e ele nem percebera. Por certo, o dia já ia amanhecendo. O céu perdia sua escuridão aos poucos no raiar de uma nova aurora silenciosa e calada, uma aurora fria como tudo o mais naquele lugar o era. Até a luz do sol era fria como gelo. Os raios solares não tinham nenhum efeito naquelas montanhas verdes, azuis, cinzentas em seus topos, brancas no cume. Cordilheiras cortando um enorme vazio de névoa e nada, como um caminho, uma travessia de um mundo a outro.

- Precisamos... Segui-la... – balbuciou o pai, pondo-se de joelhos. – precisamos... encontrá-la...

- Eu falei que estávamos mortos. Ninguém me ouviu. Ninguém deu à mínima. – gaguejou a moça. Um movimento no céu fosco do amanhecer chamou sua atenção. Era um pássaro. Amélia gritou e se abaixou. Pássaros agora lhe causavam pavor. Vultos pretos nos céus mais ainda. Depois da experiência traumatizante da garota-corvo, Amélia nunca mais seria a mesma. Mas aquele pássaro era bem menor que o corvo gigante, antes Geraldine. Era uma espécie de pintassilgo ou algo parecido. Um pardal ou qualquer coisa com a pele na cor da madeira, ele descia em círculos, e conforme se aproximava do pátio destelhado, ficava maior, maior e maior, até se tornar tão grande a ponto de apavorá-la por completo e fazê-la soltar guinchos altos e estridentes de pavor. Arrastando o pai para dentro de casa com violência. As mãos geladas forçavam movimentos limitados pelo medo, e as pernas doloridas bambeavam tanto pela fraqueza quanto pelo temor. Aquela coisa não ia levar mais ninguém da família! Ninguém!

E então o pássaro pousou, com um rasante, foi parar do outro lado da clareira, perto da saída para a estrada. Ele tinha o tamanho de um pônei, tinha o bico fino e os olhinhos pretos como duas pérolas, as pernas finas como gravetos e seu corpo tão bem desenhado! Era uma graça em tamanho família!

- O que você quer?! – gritou Amélia para a criatura, há metros de distância dela. – Vocês já levaram o Fred, não levaram?! Não estão satisfeitos?!

- Esse... – balbuciou o pai, em sua agonia. A cabeça realmente havia rachado, ele botava sangue pelos olhos e pelo nariz e pelas orelhas. – é o pássaro que te salvou... filha... – e cuspiu uma bola de sangue.

- PAPAI! PAPAI! – guinchou a garota, segurando a cabeça do homem entre as mãos enquanto aninhava-o no colo. – PAPAI! O QUE ESTÁ HAVENDO?! PAPAI!

- Eu... Eu estou morrendo, Amélia! – ele riu, como se isso fosse algo de muito bom. E realmente o era, perante aquele inferno em que sua vida se transformara nesses últimos dois anos. Primeiro todo aquele isolamento, agora seus filhos à mercê de coisas que ele nunca havia visto por ali. Exceto pela grande fera verde que o havia perseguido no meio do mato, logo nos primeiros meses de estadia... Era isso o que ele ia contar a Frederico antes dos gritos começarem... Pobre Fred, nunca saberia o que havia perseguido o pai naquela mata silenciosa.

- PAAAI! – gemeu a garota, beijando a testa do homem entre lágrimas e caretas, seu nariz escorria, seus olhos escorriam, ela estava suja e suada, arrasada.

O pássaro gigante pulou do outro lado da clareira até a entrada da casa, como os passarinhos fazem, espalhando o seixo reclamão para todos os lados. Amélia gritou e tentou enxotá-lo com apenas um braço, enquanto o outro acariciava as ventas amassadas do pai.

- VÁ EMBORA! VÁ EMBORA! ME DEIXE SÓ! – chorava a garota. – ME DEIXE EM PAAAZ! – guinchou, a voz cada vez mais rouca e mais fina, o nariz cada vez mais entupido. Abaixou sua cabeça sobre o rosto do pai, e seus cabelos escuros cobriram as faces do velho com delicadeza, enquanto as duas testas se encontravam dentro da oca capilar que havia se formado pelas madeixas de Amélia ao redor dos dois. Aquele era o universo particular deles. O último momento. O derradeiro momento.

O pássaro ignorou os pedidos da moça e aproximou-se mais ainda. Chiou baixinho e bicou a mão do homem semimorto com delicadeza. O corpo do homem começou a encolher, e isso espantou Amélia, ela gritou e tentou agarrar-se ao pai, que simplesmente desaparecia entre as roupas pesadas de frio. Ela puxou as roupas vazias para si, procurando vestígios do corpo que antes as habitava, ainda havia um pouco de gente lá dentro, um pouco de ser humano, mas ele encolhia cada vez mais e se perdia dentro dos tecidos da calça, da blusa, da camiseta, da jaqueta, ia ficando cada vez menor, encolhendo até desaparecer, e quando Amélia achava que seu pai havia evaporado para todo o sempre, quando seu choro ficou mais forte e mais doloroso porque não haviam mais lágrimas em seu estoque, algo piou dentro do gorro vermelho que o pai usava.

Havia um passarinho ali em seu colo agora, no meio do ninho de tecidos que ela havia formado ao redor de si. E a pequena criatura batia asas e cantava com tanta graça e felicidade que ela não se segurou e começou a rir, rir como se tivesse quatro anos de idade novamente. Enxugou as lágrimas, assoou o nariz e pegou a criaturinha entre os dedos, formando uma concha de mãos ao redor do pequenino com todo cuidado. Esse era o seu pai. Ela beijou a cabecinha do pequeno e ficou ali, a admirá-lo cantar em suas mãos. Ele ensaiou voos, e quando finalmente conseguiu, pairou ao redor do pássaro gigante, sua versão tamanho família.

- Me leve até meu irmão, por favor. – pediu Amélia ao grande pássaro. Ele inclinou a cabeça para o lado, se fazendo de confuso, mas havia entendido muito bem o recado.

•••


Houve um espaço de tempo curtíssimo entre a realidade e o delírio, mas este espaço de tempo se estendeu de tal forma a parecer eras, milênios entre devaneios e visões do mundo ao seu redor e do mundo interior. Frederico viu-se outra vez na clareira, ainda muito pequeno, admirando o grande sapo parado próximo ao amontoado de capim, seu papo lustroso e pegajoso subindo e descendo num ritmo lento e preguiçoso, a íris na horizontal fixa nele, em Frederico, no pequeno Frederico. E então o sapo começou a crescer, a inchar feito um balão, até atingir proporções assustadoras. Então o garoto gritou, e a língua viscosa e rosada da criatura escapou-lhe da boca com o som de um chicote, enrolando-se nele e engolindo-o por completo.

E dentro do sapo havia um mundo, um mundo em forma de serpente cortando um vazio escuro e cinzento, nebuloso. Havia acima de sua cabeça várias estrelas e planetas tão próximos que ele poderia tocá-los, gigantes anelados ou gasosos dançando juntos a uma valsa milenar. E então ele estava caindo em direção àquele mundo, atravessando os planetas, as nuvens de poeira cósmica, as galáxias espiraladas e os aglomerados de pedras congeladas do espaço, as nebulosas coloridas espalhadas no veludo negro como areia preciosa feita de diamante em pó. E conforme ele se aproximava daquela serpente cinzenta que cortava o vazio, ele discernia cores e formas.

Aquilo ali abaixo era uma cadeia de montanhas. Uma cadeia de montanhas de pontiagudos picos brancos e gelados, cobertas por um denso manto verde que seguia em sua extensão até certo ponto, onde a mata começava a ficar escassa e a neve se fazia cada vez mais presente. Onde o ambiente começava a ficar mais escarpado e consequentemente mais perigoso. Frederico estava cada vez mais próximo da cordilheira, caindo no vazio cada vez mais rápido, feito um meteoro pego na armadilha da atmosfera terrestre, e quanto mais próximo ficava, melhor discernia o que havia ali embaixo. E ele percebeu que cortando caminho entre as montanhas havia uma estrada, ladeada pela floresta, uma estrada cinzenta que seguia até o infinito, desaparecendo logo após os montes mais escarpados e cinzentos da cordilheira, no horizonte distante de onde o sol nascia. Era uma paisagem surreal e delirante, completamente indescritível.

Ele entendeu instantaneamente o que era aquilo, era uma ponte entre dois mundos, um caminho cortando o vazio nebuloso abaixo dele, cortando o vácuo cinzento feito de fumaça e nada, a morada dos Espectros. Espectros de corpo disforme e olhos amarelos. Ele sabia que se virasse para trás veria o seu mundo girando no vazio, o planeta terra, o mundo humano, a origem da densa floresta mista que permeava a base e o corpo das montanhas, um eco da natureza real repetido várias vezes e reverberando ao longo da serpente cinzenta da cordilheira. E quanto mais distante as montanhas ficavam do mundo humano, mais escassa a mata ficava. O eco se tornava findo com a proximidade de outro mundo, um mundo distante habitado por seres estranhos, governado por feiticeiros tiranos e bruxas perversas, repleto de criaturas inimagináveis fruto de alguma mente doentia, em constante guerra pelo trono, pelo poder. O mundo de Oráculo.

E então ele alcançou o chão com um baque surdo, acordando do sonho.

Frederico gemeu. Sentia cada centímetro do seu corpo doer e latejar, pulsando como um enorme coração. Sentia muito frio, um frio que ele jamais imaginara sentir em toda a sua vida. Ele não sentia nem as pernas e nem os braços, suas extremidades estavam mortas, desconectadas do corpo, formigando como se milhares de cupins corressem por entre as suas veias, abrindo caminhos paralelos a elas. Espasmos e cãibras dolorosas foram despertando seus membros adormecidos aos poucos, mas a dor era tão lancinante, tão tortuosa, que o fazia ansiar pela morte como um doente em estado terminal. Sentia-se como um frango tirado do congelador, deitado na pia, descongelando para a refeição.

Ele tentou abrir os olhos, mas tudo o que via era um misto asqueroso e irritante de cor e luz que agredia a sua retina de uma forma que o impelia a gritar e se esconder nas trevas, se ele tivesse forças para se mover ao mínimo. Era terrível, terrível demais para suportar. Lágrimas começaram a escorrer do canto de seus olhos e a molhar o tapete vermelho onde ele jazia torto, do jeito que havia caído de encontro às montanhas que cortam o vazio. Ele uivava baixinho, babando, arfando, chamando pelo nome da mãe, do pai, da irmã... Do amor. E isso lhe deu forças para mexer os dedos e forçar a sensação da existência das extremidades pelo cérebro. Ao abrir os olhos de novo, a vista já estava mais clara e mais organizada, e ele pode distinguir cor de forma e se localizar.

Frederico encontrava-se no centro de um amplo salão, com o teto alto, tão alto e tão distante, sustentado por grossas colunas douradas e peroladas. Tudo ali tinha um brilho sobrenatural, um ar de inexistência onírica inacreditável, aquele lugar sequer parecia palpável. O chão era muito bem polido e lustrado, de uma madeira escura e forte, cheirava como recém-cortada. Ele podia sentir as árvores da mata rodeando-o naquele momento. O salão era extenso e retangular, como um corredor para gigantes, foi o que Frederico constatou ao forçar sentar-se e olhar para trás. Intercalando as colunas douradas havia vasos gigantescos, colossais, contando a história da humanidade em belas pinturas: os egípcios, os japoneses, os chineses, os assírios, os persas, os babilônios, os maias, os astecas, os russos, os mongóis, os gregos, os troianos, as tribos solitárias da Oceania. Tudo registrado com uma perfeição impecável. As paredes daquele local eram estranhas, pareciam feitas de papel arroz e bambu como as portas das casas do Japão, tiras de bambu na vertical e na horizontal formavam um gradeado que era coberto com o fino papel arroz.

E o teto? Havia teto? Havia sim, e era um grande espelho que refletia e repetia com perfeição tudo o que havia no chão.

O rapaz deu uma boa olhada ao redor. Aquele lugar tinha um quê de palácio oriental, mas havia também um ar russo na arquitetura e nas cores que dançavam numa sincronia perfeita entre o frio e o quente. Euroasiático, era essa a palavra para aquele salão, para aqueles enormes vasos intercalando as colunas, onde xoguns dividiam espaço com faraós e caciques, dinossauros, aves, florestas e cidades. Atlântida também estava retratada em um dos enormes vasos. E a origem da vida também. Os grandes mistérios explícitos, o delírio dos cientistas, o tesouro dos antropólogos, a loucura dos arqueólogos. Aquele lugar lembrava samurais, gueixas, bambu e incensos, seda, e mariposas de asas felpudas e pesadas.

Mais à sua frente, não muito longe, o salão terminava, a grande caixa de ouro retangular tinha fim em uma enorme porta dupla de correr, onde o luar havia sido perfeitamente representado em seu apogeu. O círculo lunar alvo aparecia completo semicoberto pelas nuvens, parecia iluminar de forma fantasmagórica os degraus de ouro que levavam até ele, um painel dividido no meio pelo limite das duas portas. Havia duas piras em forma de cuia sustentadas por correntes que pendiam do teto, nelas queimavam incensos de várias cores, de todos os sabores, exalando um perfume sobrenatural pelo lugar, uma mistura de aromas inebriante que deixou Frederico um pouco tonto.

As portas se abriram. Frederico sobressaltou-se e ficou a admirar o escuro com pavor. Do outro lado não havia nada se não trevas. E das trevas dois olhos amarelos brotaram, e ao redor deles formaram-se dois corpos opacos e disformes, sombras, cópias mal feitas da humanidade, com pernas, braços, mãos e troncos, mas sem feições ou vida alguma, eram só sombras e nada mais, poderiam ser transpassadas por espadas ou martelos e jamais seriam atingidas. Espectros. Eles deram um passo à frente, um passo para a luz, sincronizados, e a iluminação do local não fez com que os dois vultos desaparecessem, muito pelo contrário, eles afastaram para a esquerda e para a direita, abrindo espaço para a passagem de algo muito grande, algo que só aquele lugar poderia comportar, algo que só poderia passar por uma passagem daquela magnitude.

A coisa no escuro oscilou, e o som de um arrastar asqueroso invadiu os ouvidos de Frederico, que se arrepiou do dedão do pé até à nuca. O mínimo movimento da coisa fazia o chão tremer, era algo realmente muito grande, e parecia borbulhar, pois como plano de fundo ao barulho do arrastar vinha um gorgolejar gutural e o som do escorrer de algum tipo de gel. Ou gosma, pensou Fred, e a perspectiva daquilo o deixou enojado, os pelos de seus braços estavam completamente eriçados, ele era um verdadeiro porco espinho, arrepiado como nunca estivera antes. E ele nunca foi um menino de sentir nojo das coisas, exceto, é claro, de baratas.

Um odor fétido invadiu seu olfato através das narinas dilatadas, aquilo embrulhou seu estômago. Tinha cheiro de peixe e terra, ao mesmo tempo em que lembrava algo pantanoso. Metano ou butano? De qualquer modo, era um gás fétido de decomposição que deixou Frederico completamente tonto, e então aconteceu.

O som reverberou pelas paredes, rachou o espelho do teto e fez chover pequenas lascas sobre o tapete vermelho que levava aos degraus de ouro, Frederico abaixou a cara e cobriu o rosto para proteger do vidro procurando também tapar os ouvidos para aquele som infernal. Aquele som fez vibrar as colunas de ouro e tremer os grandes vasos, provocou forte farfalhar no papel arroz que protegia o interior do salão cobrindo o gradeado de bambu, como se atingido por uma forte ventania. Mas não, aquilo era o som, era o puro som de um coaxar.

E a coisa veio para fora das sombras com um pulinho, e o baque daquela massa de carne verrugosa e suja no chão fez tremer tudo ao redor. Frederico repreendeu o berro que ia dar, tapou a boca com as duas mãos geladas de pavor, estava suando frio, sua testa estava molhada e suas axilas escorriam, seu coração estava tão acelerado que os batimentos pareciam tê-lo dilatado, como se o mesmo tivesse vida própria e naquele exato momento estivesse se arrastando à força para fora do peito. Suas orelhas esquentaram de uma forma que ardiam como se pegassem fogo. Aquilo era o desespero.

Diante dele havia um sapo. Um enorme sapo verde, talvez maior do que um carro, muito maior do que um carro, grande e gordo, com uma coroa de ouro no topo da cabeça, tão mórbido que mal podia se mexer.

Seus olhos eram duas grandes bolas de basquete amarelas reluzentes como duas lâmpadas, entrecortados por uma pupila retangular horizontal negra como ônix, suas pernas grossas e tronchas terminavam em patas atarracadas de cinco dedos finos e desproporcionais ao seu tamanho, dedos longos que mais pareciam garras. Seu corpo parecia uma gelatina de terra, grama e estrume, era uma grande bola, uma massa disforme de verrugas e cistos que fora mal modelada por algum demônio sapeca e jogada à terra para trazer desgraça, aquela coisa fedia a morte e perigo, apesar de seus olhos apáticos e carentes de emoção, ele sequer olhava para alguma coisa, era estrábico, olhar para frente era o mesmo que olhar para duas direções diferentes. Sua pele era verde e muito úmida, viscosa, dava a impressão de aderência adesiva caso fosse tocada, e nela alguns pequenos parasitas se reproduziam. Aqui e ali, bolhas enchiam e estouravam, nas suas pernas, nas suas costas, na sua cara enorme. E seu papo era um grande atrativo: uma bolsa pulmonar gigantesca que inchava revelando filetes de veias roxas grossas e depois diminuía, virando uma massa flácida de pele asquerosa, subindo e descendo feito um balão, fazendo pingar o muco que o recobria por todo o lugar, sujando os degraus dourados e o tapete vermelho abaixo dele.

As duas sombras de olhos amarelos se recurvaram reverenciando-o, e tambores encheram os ouvidos de Frederico. Frederico nunca sentira tanto medo em toda a sua vida, enfim estava chorando, derramando rios de água salgada pelos olhos, cachoeiras que brotavam de dentro de seu coração, de trás da sua retina, fontes cristalinas de emoção eclodindo da montanha de pedra sem sentimentos que Frederico era. Que tipo de ser humano ele era afinal? Sempre dizia-se que a vida toda passa diante dos olhos antes de morrer, e era exatamente isto o que estava acontecendo ao rapaz naquele momento. E a pergunta sempre voltava, era a mesma: que tipo de ser humano ele era? Que tipo de criatura medíocre ele pensava que era?

Nunca acreditara em toda a sua vida no sobrenatural, nunca creu que tais coisas existissem, que tais atrocidades e aberrações povoassem lugares afora da mente doentia humana. E agora ele estava ali, diante da criatura mais feia e mais aterrorizante que ele já vira, dentro do que parecia ser um palácio imperial Euroasiático. E aí a pergunta voltava, sempre a mesma: que tipo de ser humano ele era? Que tipo de criatura medíocre e insignificante ele era? Um homem preso à rotina do dia a dia, preocupado com coisas mundanas, retido aos mínimos detalhes da futilidade, coisas efêmeras e passageiras, coisas totalmente relevantes, nunca teve a mente aberta, nenhuma ambição, nenhuma imaginação, sequer iniciativa ou forças para crer na existência de tais seres, de tais mundos. Como ele pode limitar-se tanto à vida mundana? Como ele pode prender-se dessa forma ao mundo humano? Porque ele não se permitiu viajar, viajar nas possibilidades, dar asas à imaginação, crer, acreditar?

E agora ali estava ele. Diante da última coisa que ele esperava ver em toda a sua vida. Lutando contra o seu raciocínio lógico, lutando contra o que via naquele momento e o que havia aprendido na sala de aula, vivendo a vida pacata do morador de uma cidade esquecida do resto do mundo, uma cidade como qualquer outra. E então Frederico percebeu que essa luta interna estava acontecendo há muito tempo, na verdade, desde o momento em que subiu naquele ônibus. Em que desceu na clareira, em que encontrou as feiticeiras. Aquela era a luta do ser humano, a luta diária da humanidade, dividida para sempre entre o crer e o ver. Mediocridade. Limitação. Era hora de abrir o coração.

E então a boca da criatura pavorosa abriu-se, e filetes de muco e gosma ligaram aquelas abas que eram seus lábios rachados e asquerosos enquanto eles se afastavam. De lá de dentro da sua caçapa bucal, um gás verde escapou, e língua rosada do monstro veio para fora como um verme, uma minhoca gigante. Ela dançou como uma naja ao som de uma flauta, ao redor da cara do sapo inexpressivo, e esticou-se até Frederico, pingando gosma no tapete vermelho impecável. Fred gritou e arrastou-se para trás, fugindo da língua extensível do monstro, ainda toda arrepiado, suado, suas roupas rasgadas, ainda sujas de piche e sangue proveniente das garras do corvo que o trouxera àquele lugar. Geraldine.

Que horror! Que pavor! Que horrenda era aquela língua cor de rosa, que parecia ter vida própria, alcançando-o, tocando-o. E então ele desistiu, jogou-se de costas para o chão, e a coisa entrou por debaixo da sua blusa, e rasgou-a com força. E então o sapo provou da sua pele branca, do seu suor, das suas bactérias humanas, brincou com os seus mamilos rosados, brincou com o seu pescoço, desceu para suas axilas e para os seus braços, lambendo-o, sujando-o de muco verde e fedorento. O rapaz não reagiu, permaneceu deitado enquanto o verme rosado que era a língua do sapo o analisava e o descobria. Para seu espanto repentino, a coisa retrocedeu e afastou-se. O sapo gigante coaxou outra vez.

E os tambores recomeçaram mais altos, acompanhados de gritos e palmas, numa estranha língua desconhecida aos ouvidos de Frederico, que percebeu a origem dos sons: eles vinham de dentro dos vasos! Sim, os tambores, as palmas e os gritos de louvor vinham de dentro dos vasos, como se bruxas estivessem executando algum ritual macabro e proibido ali dentro. Algo lhe dizia que aquela linguagem provinha do árabe, não era o turco das feiticeiras das montanhas, lembrava algo muçulmano, algo do deserto, um misto de africâner e beduíno, ao mesmo tempo em que as entonações pendiam para o hindu. Que coisa bizarra e ao mesmo tempo curiosa! Os vasos cantavam como se tivessem vida!

Mas na verdade não eram os vasos, e sim o que havia dentro dos vasos.

Despontaram de seus gargalhos escuros e perfeitamente redondos chapéus cônicos, com suas pontas levemente arredondadas. Eram pretos, alguns baixos, quase toucas, outros tão compridos e altos que pareciam postes pendendo nas cabeças que se seguiram após o seu surgimento. E quando Frederico deu por sim, viu que homens estavam brotando dos vasos como flores crescem da terra, vestidos em mortalhas brancas, tinham as faces pintadas de branco e os lábios inferiores pintados de vermelho. Seus olhos estavam vendados por rendas vermelhas de onde pendiam sementinhas vermelhas presas delicadamente por fios nas bordas das vendas. Vinham fazendo estranhos movimentos e formando estranhos símbolos com os dedos, com as mãos: triângulos, círculos, estrelas e pássaros.

E viu-se então que eles estavam levitando para fora dos vasos, pousando delicadamente no piso do salão em seguida. Um a um, eles desceram como se por mágica, postando-se um ao lado do outro, de costas para os vasos de onde haviam saído, às margens do tapete onde Frederico jazia imóvel. Homens, de todos os tamanhos, vindos de vários mundos diferentes, sequestrados pelos espectros em noites tempestuosas para servirem ao seu deus misterioso dentro daquele templo, vestidos como os dervixes sufistas do oriente médio, eles começaram a bater palmas ritmadas enquanto os tambores recomeçavam. Um deles – aquele que possuía a mão com o olho no centro desenhada no chapéu. – deu um passo à frente, fez o estranho gesto com as mãos – um triângulo diante do peito, um círculo ao redor do olho direito e um pássaro entrelaçando os polegares – e falou, para espanto do rapaz, em português.

- Saudamos a nossa alteza real, Rei Ousama, O Poderoso, senhor das Terras Proibidas e das Montanhas Cinzentas, senhor dos Espectros e soberano das Cordilheiras, que ungiu e consagrou a oferenda em nome de Lilith, O Sanguinário!

Os outros homens produziram sons estridentes semelhantes aos sons que as muçulmanas fazem quando expressam alegria. Fez-se silêncio. O grande sapo desceu os degraus dourados de forma preguiçosa e sedentária, ofegando e produzindo ruídos de cansaço com a garganta, liberando no ar mais do seu gás verde, e então coaxou mais alto do que nunca, arrebentando as paredes do templo.

- Que comece o Matrimônio Lunar! – gritou o homem.

E as palmas recomeçaram, acompanhando os tambores. Um cântico assustador cheio de sons arrastados, agudos e arrepiantes iniciou-se naquela estranha língua árabe. E eis que eles, que pareciam dervixes, mas não o eram, começaram então a dançar, a girar em círculos no próprio eixo, de braços para o ar, cortando o salão enquanto outros batiam palmas e os tambores do além ribombavam furiosos. Girando como planetas brancos, seus saiões alçavam voo e formavam círculos perfeitos no ar ao redor das suas cinturas, acertando Frederico no rosto por diversas vezes.

O rapaz enfim viu-se perdido no meio daqueles dançarinos giratórios, estando tão tonto quanto eles em sua tentativa de se conectar ao divino, tão confuso, tão desamparado. Pétalas de flores estranhas o atingiram no rosto e óleos aromáticos ungiram a sua pele. Estavam temperando-o, preparando-o para o casamento, preparando o corpo para a oferenda.