Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Aproveitem enquanto podem...


Este blog está perto de seu fim :)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 17




- Não é possível – Ray caiu de joelhos, sua visão turva, turva pelas lágrimas que brotavam de baixo das pálpebras, fazendo o ambiente se dissolver em água ao redor, como se ela observasse o mundo de dentro da janela de um carro, parado debaixo de um aguaceiro.

Ela não sabia se por causa da chuva pesada que caía sobre a cidade naquele momento ou se por causa daquele mar que lhe brotava dos olhos em queda livre como cachoeira, mas algo lhe dava a sensação de fazer parte de um daqueles quadros caóticos que a professora de artes havia mostrado em suas aulas, Guernica talvez. Porém imagine a tinta fresca, secando na tela, e imagine uma alma maligna carregando um balde cheio de água, indo em direção à pintura que seca em toda a sua desgraça retratada de forma mais fiel. Imagine também que esta alma cruel lançou mão de todo o conteúdo do balde sobre a tela maldita, só pelo bel-prazer de ver todo o trabalho escorrendo pelas pernas do cavalete em forma de papa azul, cinza e preta, as cores do caos.

Era assim que os olhos de Ray Ann viam a Fortaleza de São José de Macapá em chamas naquele momento. Alguma mão repleta de unhas compridas parecia ter-lhe arrancado o coração do peito. Os Apocalípticos residentes naquela dimensão estavam parados no gramado molhado, observando a estrutura centenária arder em brasa vermelha e laranja debaixo do temporal que se abatia sobre a capital. Como estátuas inexpressivas.
Quem estaria vivo? Quem estaria morto? Quem teria sido carregado à força na carroceria das carretas feito animais, em direção aos campos de concentração, para a conversão em soldados-zumbis? Estas e muitas outras perguntas passavam por suas cabeças numa velocidade incrível. Poucas pessoas já sentiram a impressão de perder o chão por um momento. Poucas pessoas já tiveram a sensação de ter perdido todo o ar, de ter o coração feito em pedaços, de possuir um vazio repentino no peito, um buraco negro sugando todas as reações humanas possíveis para tal tipo de situação sórdida.

Fábia consolava a garota ensopada que comia terra, esmurrando o chão encharcado enquanto urrava de dor. Seus parentes? Seus amigos? Estariam lá ainda? Que não estivessem, por favor, ela pedia, por favor, que o exército os tenha levado. Ela sabia que aqueles que ficaram para trás seriam os inúteis, os mortos, os quais perderam um membro ou que estavam entre a vida e a morte. Ray Ann mordia o próprio punho, suas lágrimas se misturando à água da chuva, à lama, formado um caldo negro no chão onde ela se arrastava.
- Não pode ser... – Maxine permanecia inexpressiva – como eles chegaram até nós?! Como eles conseguiram invadir a Fortaleza?!
- Eu sinto muito... – Alexis, a ex-general, pôs sua mão sobre o ombro da mulher atordoada, suas madeixas ruivas de leoa, ensopadas, lembravam um gato molhado, de brilho platinado, a franja colada à testa na mistura de água e suor.
Lá dentro não havia restado nada além de dois ou três corpos e destruição. Comida espalhada pelo chão, pratos quebrados, roupas rasgadas, móveis partidos ao meio, colchonetes rasgados e colchões em chamas. Parecia mais o interior de um presídio após uma rebelião. Havia marca de tiros por todos os lados, e marcas escuras nas paredes onde o fogo tocou. Por aproximadamente meia hora, o grupo vasculhou cada canto daquele lugar em silêncio absoluto, procurando uma pista, algo que indicasse que todas aquelas pessoas inocentes estavam vivas e em segurança, algo que indicasse sua fuga. Nada foi encontrado exceto aqueles três corpos abatidos como frangos, estirados no meio da praça de armas, debaixo da chuva pesada. Dois homens e uma mulher, desconhecidos, refugiados. Suas famílias estavam vivas, na teoria.
- Eu sabia, eu sabia que ele tinha que vir conosco! Eu falei que ele tinha que vir conosco! – era a ladainha de Ray Ann, procurando sinais do namorado pelo lugar, completamente fora de si, não trocara uma palavra com outrem desde que entraram no esconderijo destruído, ignorara qualquer fala dirigida a ela, era como se estivesse sozinha e perdida entre sua mente e o mundo, para sempre.
- Eles foram levados para os estádios, temos que ir atrás deles, eles ainda podem estar vivos! – exclamou Haruno, passando seus dedos brancos pelas marcas dos tiros nas paredes. – talvez eles ainda não tenham sofrido a conversão, as marcas das balas estão quentes e o fogo ainda está alto, aconteceu agora pela manhã enquanto vínhamos para cá, quando começou a chover...
- Haruno tem razão. – Miguel quebrou seu silêncio – está tudo muito recente, ou então o fogo já teria sido apagado pelo vento e pela chuva que caiu de madrugada. Foi no intervalo entre as quatro e as sete da manhã. Vejam, o fogo está apagando agora! – apontou para os montes disformes de madeira e tecido que ardiam no meio da praça de armas ao lado dos corpos.
Algo se contorceu no escuro.
Todas as armas foram sacadas.
Estado de alerta máximo.
- Quem está aí?! – gritou Fernando.
- Pessoal... Eu estou viva... Pessoal... – algo gemeu ali perto. Havia alguém debaixo dos escombros do telhado desabado.
- Rápido! Ajudem aqui! É a Gabrielle! É a Gabi! – Maxine começou a cavar, a jogar telhas contra a parede, retirar tijolos e pedras enormes, puxar madeira para fora dos entulhos, abrindo caminho em busca da amiga, cavoucando como um animal desesperado em busca da sua cria perdida. Miguel e Fernando juntaram-se a ela de imediato, e depois Fábia e Alexis também desceram suas mãos sobre a pilha dos restos do teto da mesma sala onde Haruno havia revelado seu passado como general. Agora encharcada e completamente destruída.
Gabrielle teve sua vida conservada pela escrivaninha da sala, havia se escondido ali embaixo após levar um tiro na perna direita e quebrado um dos braços. Sem forças para lutar, escondeu-se embaixo da escrivaninha quando uma bomba explodiu e derrubou parte da construção usada como a “diretoria” do grupo de refugiados pelos Apocalípticos. E então ali ela ficou, e rezou pela sua vida e pediu piedade pelos seus pecados como jamais havia feito antes. Então duas horas depois, seus ouvidos captaram os sinais de passos e murmúrios em meio à chuva e a crepitação das fogueiras da pilhagem feita por 100 homens e um robô-gorila. Era também o sinal de que Deus havia lhe escutado, seus amigos estavam bem, e voltaram sãos e salvos, sua última esperança renovada, sua caixa de pandora particular aberta.
- Gabi! Gabi! Pra onde eles levaram o pessoal?! Pra onde foram?! – gritava Maxine, segurando o rosto da amiga entre as mãos, afastando os cabelos molhados da testa suja, abraçando e beijando-a como se faz a uma filha que estivera desaparecida durante anos.
- Glicério Marques... Eles vão iniciar a conversão ao meio-dia, e o horário estabelecido... – resmungava a mulher, cuspindo e tossindo, completamente desnorteada. Mal enxergava a amiga diante de si.
- Temos que levá-la a um hospital, ela perdeu muito sangue. – fez Fernando. – temos de engessar o braço dela.
- Levem-na. – disse, voltando-se para Miguel e Fernando. – eu e Haruno vamos até o estádio.
- NÃO! NEM PENSAR! VOCÊS NÃO VÃO LÁ SOZINHAS! – gritou o marido. – ESTÁ MALUCA?
- Maluca por justiça! – grunhiu Max por entre os dentes cerrados, de punho fechado. Seu cérebro fervia de ódio dentro da cabeça. – isso acaba hoje!
- Max, é suicídio! – exclamou Alexis, aproximando-se da cena, deixando Ray de lado por alguns instantes. – eu sei como é, deve haver pelo menos uns 50 homens do lado de fora em vigília, sem contar nos robôs que fazem a ronda! Vocês duas estarão mortas antes de avistarem os muros do estádio!
- Não, não estaremos coisa nenhuma! – Haruno intrometeu-se com um sorriso de orelha a orelha. Os presentes observaram-na confusos, porque tanta felicidade numa hora tão obscura? – você vai nos colocar lá dentro!
- EU?! – gritou a garota, levantando-se apavorada, tremendo dos pés à cabeça – MAS NEM PENSAR!
- Claro que sim, Alexis, você é a única que pode fazer isso por nós! – tornou a exclamar a jovem Haruno, segurando a garota pelos ombros e sacudindo-a – veja bem, eles não sabem que você não está mais hipnotizada! Eles não sabem que você deixou de ser general!
- GENIAL! – gritou Miguel. – JOGADA DE MESTRE! – deu um soco de leve na palma da mão. – Alexis vai levar vocês duas até lá como se fossem prisioneiras capturadas para a conversão, eles sequer vão suspeitar de vocês, são só zumbis e robôs, tudo o que há de humano nos hipnotizados não existe mais, e os robôs foram programados para obedecer aos generais da S.U.J.A.!
- S.U.J.A.?! – Alexis fez uma careta.
- Sapatões Unidas Jamais Arregarão... – gemeu Ray Ann, ali próxima, encostada na parede, ainda atordoada pela realidade cruel. Levantou seus olhos vermelhos para o grupo e pronunciou-se para espanto dos espectadores – eu vou com elas.
- Tem certeza disso Ray?
- Eu vou recuperar o meu amor, nem que tenha de morrer por isso... – deu três passos para frente e puxou sua arma do cinto. – não vou ficar aqui parada chorando, não sou mais esse tipo de garota. Algo mudou em mim hoje e eu não sei o que foi, mas pode ter certeza, assim que eu encontrar a tal da Alberta, vou chutar o traseiro dela como ninguém nunca chutou! – mirou na parede e atirou. O laser fez voar poeira e pequenas lascas de pedra para todos os lados. Sorrisos se estenderam nos rostos, as esperanças se renovando mais uma vez.
- Essa é a vovó que nós conhecemos! – riu Miguel, abraçando a Ray Ann com toda a força. A garota retribuiu o abraço com muita sinceridade. Dos dois netos, o que mais lembrava o seu querido amor era Miguel. Tinham praticamente os mesmos olhos. Era incrível a semelhança, apesar de o temperamento ser muito mais parecido com o dela, fisicamente ele lembrava o avô em tudo.
- Vou trazer o seu avô de lá, meu filho! – fez Ray, graciosa, usando uma voz de velhinha que arrancou gargalhadas de todos, até mesmo da pobre Gabrielle que se retorcia de dor no colo de Fernando. – nem que eu tenha que enfrentar a Alberta cara a cara!
- Elas estão voltando do interior hoje à tarde, também ao meio dia – afirmou Alexis, insegura. Sabia que levaria uma bronca por não ter dito aquilo antes, meio que encolheu os ombros para se proteger dos sorrisos que se desfizeram instantaneamente. Haruno correu até ela.
- Porque não nos disse isso antes?! – exclamou a jovem, nervosa. – teríamos nos preparado para ela!
- Não podem, ninguém está preparado para aquelas três... Na verdade... Aqueles quatro... – seus olhos culpados percorreram rosto a rosto, esperando alguma objeção que a impedisse de continuar a história. – elas três não agem sozinhas, são burras e ambiciosas demais, elas possuem um conselheiro que veio do futuro como vocês...
- Disso nós sabemos – fez Fernando com sua voz grossa de trovão. – é Robert, o capataz de Alberta. Ele roubou o cérebro artificial, pôs na boneca e veio para o passado.
- O problema não é esse. – continuou Alexis, tremendo dos pés à cabeça ao lembrar repentinamente de tudo o que passou até chegar ali – eles sozinhos são fáceis de enfrentar, unidos são razoáveis... Mas dentro do robô, eles são uma ameaça.
- Robô? Do que você está falando? Dos DK’s? – fez Haruno, temendo o pior. Sua memória como general de Alberta não ia tão longe a ponto de resgatar algo tão perigoso e letal quanto ao que Alexis estava se referindo.
- Não, o chefe deles, muito pior que toda a frota junta...
- Desembucha logo, garota! Precisamos agir rápido então! Temos menos de quatro horas para salvar nossas famílias! – gritou Ray Ann, nervosa.
- Mapinguari! Mapinguari! – Alexis iniciou um choro nervoso e copioso. – Este é o nome da arma principal deles, o robô gigante que atacou a escola no dia em que tudo isso começou! Foi ele que atirou os caminhões do exército contra o prédio! Ele é o último recurso deles! É o meio de transporte que eles usam, é nele que eles viajam para o interior, para fazer o controle geral, o Mapinguari não é usado na cidade, só no interior...
- Como nunca vimos ele antes?! – exclamou Fernando – como um robô gigante fica escondido numa cidade de prédios baixos como essa?!
- Isso não importa agora, Fernando – Max virou-se para o marido, séria. – o que importa é que ele é problema, e Alberta e suas amigas virão montadas nele!
- Tanto o Mapinguari quanto os DK’s eram parte de um projeto secreto do governo que ficava escondido na base secreta do Oiapoque, longe dos olhos dos curiosos e em estado de teste... – continuou Alexis. – Quando Alberta invadiu os computadores do exército, tomou controle de toda a frota de macacos-robôs, e dele também. Esse era o plano desde o começo. Ter o Mapinguari sobre controle para poder exercer o poder a pulso de ferro sobre a população do estado e estabelecer a ditadura a partir da força bruta e da violência.
- Está tudo explicado então... – Maxine puxou sua arma do cinto como Ray Ann – não podemos perder tempo então, se não quisermos topar com o rei dos macacos de metal, temos que fazer tudo rápido, vamos! Miguel, Fernando e Fábia vão para o hospital! Haruno, Ray e Alexis vem comigo... Vamos botar pra quebrar!
Os Apocalípticos levantaram seus punhos para o alto e uivaram como uma matilha de lobos pronta para o ataque à manada de bisões.
- Não antes que eu quebre cada um de vocês! – a comemoração foi interrompida bruscamente por uma voz que veio do além. Do outro lado da praça de armas, os encarando como uma assombração debaixo da chuva, havia um vulto de preto fantasmagórico de olhar malicioso e postura felina.
- Quem é esse agora? – perguntou Fernando. Sua intenção era atingir Alexis, que estava tão assustada e confusa quanto eles todos juntos, mas sua pergunta acabou sendo respondida por outra pessoa.
- É o Edvaldo, Edvaldo Lestrange. – fez Ray Ann, apontando a arma na direção do rapaz, que permaneceu lá, na chuva, parado, desarmado e confiante, confiante o bastante para sorrir em direção às armas mortais que o tinham sob mira certeira.



Fim do Apocalipse Dezessete!





Fiquei com pena da Ray Ann ):

King Of Heartless


Estou prestes a fazer uma tatuagem
com o símbolo do rei dos Heartless de Kingdom Hearts,
já consegui convencer a mamãe,
falta agora o dinheiro... PAIÊ, VEM CÁ!

Enquanto isso, na Fábrica de Sonhos...


Então eis que se foi mais uma semana! E essa passou voando! O final de The Big Machine 3 se aproxima com toda a pompa e eu só estou começando a minha carreira de acadêmico na UNIFAP, olha só. Ainda por cima tenho de dar duas olhadas por dia na apostila e estudar para o concurso do Banco do Brasil enquanto leio a coleção dos Diários do Vampiro e escrevo o conto misterioso que começará a ser publicado nas páginas de The Fatcat House na segunda semana de março, e isso porque o último capítulo de The Big Machine 3 nem está escrito ainda! Vou deixar para escrevê-lo no dia de lançá-lo, para parecer mais emocionante ainda!


As crônicas e contos que você lê neste blog são como as novelas das 9 da Rede Globo, enquanto uma ainda está começando outra já está sendo produzida há meses! Tudo é calculado e agendado para que saia nos conformes, assim é o meu trabalho neste blog flopado que ninguém lê :)


Mas tudo bem, eu gosto de escrever e me sentir importante. Às vezes eu imagino como se isto aqui na verdade fosse uma emissora de televisão, e os meus trabalhos fossem seriados e minisséries que vão ao ar periodicamente e em temporadas, é bom sonhar de vez em quando.


E como virou costume de toda a sexta feira, haverá um Apocalipse Surpresa mais tarde, o que não é nenhuma surpresa, e talvez no decorrer da semana que vem (a última semana de The Big Machine), eu publique um especial na quarta feira com a trilha sonora, um resumo das três temporadas e mais um capítulo. É só esperar!


XXXO


Louie Mimieux

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A Vingança de Saturno


Esse post vai para aqueles que fazem muitas perguntas a si mesmo sobre os meus mistérios, como por exemplo o meu endereço de e-mail (saturn.revenge@hotmail.com). Todo mundo que me conhece e pede meu e-mail (ou MSN) e fica se perguntando "porque Saturn Revenge"? Se você leu The Big Machine/The Big Machine 3, pode perceber também que este é o codinome da versão alternativa de Christopher Umbrella no futuro alterado por Carmen Parafuso, Saturno Revenge.

A explicação vem de muito antes de eu me interessar por mitologia grega. Eu tinha apenas 6 ou 7 anos e passava 24 horas com os olhos da TV, já que naquela época não tinha internet, minha única diversão eram os canais de desenho na SKY e as revistas da Turma da Mônica. Também nunca fui uma criança muito sadia, de modo que sempre fiquei acordado até tarde desde pequeno, mas naquela idade meu horário máximo eram as uma e meia da manhã. Foi neste exato período que estreou Sailor Moon no Cartoon Network, à meia noite, e eu assistia todos os dias sem falta. Não lembro bem em qual temporada ela apareceu pela primeira vez, mas foi amor à primeira vista, Sailor Saturno com seu cajado representava o tempo e era uma sacerdotisa poderosa capaz de destruir e recriar mundos, apesar de ser a mais nova das Sailors (quer dizer, ela era mais velha que a irritante da Sailor Chibi Moon), e eu me encantei por ela.

Pouco mais tarde descobri que meu signo, capricórnio, era regido pelo planeta Saturno (olha que coincidência!), pai do tempo, o titã Chronos da mitologia grega. Pesquisando um pouco mais, conheci as histórias antigas do povo grego profundamente: Chronos era filho de Urano e Gaia, mas vivia preso no útero da sua mãe junto aos seus outros irmãos porque ela e seu pai viviam em constante ato sexual. Para sair de lá e se livrar daquela prisão eterna, ele castrou o pai e o destronou, tornando-se assim o maior de todos os titãs. Mais tarde ele casou-se com uma das suas irmãs, Réia, com quem frequentemente procriava, mas por medo de que a história de seu pai se repetisse consigo mesmo, ele matava e comia as crianças uma a uma após nascerem. Porém veio Zeus, o caçula, pelo qual a mãe se arriscou enrolando uma pedra em um pano e entregado a seu marido que devorou-a sem perceber a troca. Réia entregou Zeus ao cuidado das ninfas que o criaram e amamentaram até que ele fosse forte o bastante para se vingar de seu pai com a ajuda de Métis, filha do titã Oceano, que ofereceu a Chronos uma poção que o fez vomitar todos os filhos devorados. Estes se tornaram os deuses do Olimpo, e Zeus coroou-se seu rei. Após isso, Chronos foi derrotado e acorrentado para sempre no Tártaro, banido junto aos seus irmãos do reino dos céus.

Os romanos o chamavam de Saturno, e por isso, quando criei o meu endereço de e-mail decidi que seria dedicado à Saturno que até hoje está acorrentado ao Tártaro, esperando a hora da sua vingança! Saturn Revenge, a Vingança de Saturno, ou seja, a minha vingança. Isto é muito mais do que uma simples homenagem, é também uma metáfora, uma métafora de mim, um dia também me libertando das minhas correntes, poderoso o bastante para me vingar, por isso, cuidado comigo!

Tudo o que eu crio ou nomeio tem um significado, não faço nada por acaso, é tudo milimetricamente calculado, por isso preste bem atenção no nome de personagens, histórias e até mesmo no título do blog, que parece bobo e ao acaso, mas não é. Qualquer dia desses eu explico um pouco mais, da próxima vou falar do meu nome artístico, Louie Mimieux.
XXXO

L.M.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

Todos os dias...


Eu penso em parar de escrever e largar esse blog de mão, já que ninguém lê essa porra mesmo, nem sei porque me dou ao trabalho de atualizar isso aqui semanalmente sendo que dois ou três gatos pingados dão uma passada de olho nisso aqui, e só de vez em quando.
Quando eu tinha amigos eles costumavam ler isso aqui vez ou outra, agora que eles estão cuidando das suas próprias vidas (coisa que eu deveria estar fazendo), eles nem devem fazer ideia de que isso aqui ainda existe.

As Estatísticas no meu menu mostram que 99% das visitas no contador são do Google Images, gente procurando qualquer coisa, e os outros 0,1% são visitas minhas. Então eu fico tipo "foda-se, porque eu me dou ao trabalho de ficar escrevendo crônicas e minisséries enormes se ninguém lê?" eu nem recebo comentários!

Aí eu paro e penso de novo.

Eu faço isso porque eu gosto.

Mas, enfim, esse sou eu! Sempre fazendo papel de idiota!
XXXO
Louie Mimieux

The Big Machine 3 - Apocalipse 16


- Nós sabíamos que havia alguma coisa errada quando as tempestades elétricas no deserto se intensificaram... Quer dizer que... Se o mundo de vocês acabar... – aquele que era Christopher, mas ao mesmo tempo não era, tinha um ar de sofrimento, de amargura, de solidão, dureza e abandono. Sua imagem era de arrepiar. Cabelos muito compridos, porém ralos desciam por sobre o único uniforme amarelo da congregação ao redor da mesa composta por homens e mulheres vestidos de preto, usando a braçadeira vermelha com o símbolo do triângulo de três braços. Aquilo mais parecia uma convenção nazista do que qualquer outra coisa. Era assustador. Christopher Umbrella, ou Saturno Revenge, era um homem apavorante.
- O de vocês também acaba, e vocês nunca poderão vencer Carmen Parafuso, porque essa dimensão e tudo o que existe nela, inclusive vocês próprios, vai sumir. – Christopher estava pouco à vontade naquela mesa redonda, com todos os rostos, conhecidos ou não, voltados para ele, o observando hora com desconfiança, hora com assombro, hora com atenção. Seus olhos passearam pela sala branca, se maravilharam com o incrível holograma que girava acima das suas cabeças reproduzindo o mesmo esquema que Maxine havia desenhado no chão da casamata, há meses atrás, em mundo não tão distante dali. Seus olhos brilharam como duas estrelas distantes quando o holograma mudou para a forma humana, uma mulher, usando um belo vestido do século XVIII, rosto de porcelana, olhos enormes e boca pequena muito bem desenhada em forma de arco de cupido. Christopher sabia quem aquele holograma imitava, mas achou melhor ficar calado a respeito. – vai ser como se vocês nunca tivessem existido...
- Você não se lembra, Chris? – fez Pietro, do outro lado da mesa redonda flutuante, branca e lisa, gelada como um iceberg plano flutuando num mar invisível – nós já estivemos aqui antes! Nós já vivemos isso antes! Eu não lembrava, mas agora eu me lembro, eu lembro de tudo!
- Sim, eu também me lembro agora – respondeu Chris, um tanto nervoso, não sabia se podia ou não contar o desfecho verdadeiro daquela realidade alternativa, contar que Augusta e Pietro daquele mundo eram traidores, contar que eles estavam sendo controlados pelo Doutor Maurice Angel Lispector que era o verdadeiro mentor por trás de The Big Machine, a CPU do mundo. A Augusta original, por sua vez permanecia calada, quieta, seus olhos como duas luas espertas passando de um rosto para outro, atentos à conversa, mas assustados e perdidos, ela não devia ter sido mandada para aquela missão.
- É claro que vocês dois se lembram, acabamos de mandar vocês de volta para o passado! – exclamou a androide com o rosto de Ray Ann. Era mesmo, Christopher quase havia se esquecido de que Ray Ann fora convertida em máquina após o terrível acidente na trituradora interna de The Big Machine. De repente ele se sentiu nostálgico, tinha uma intimidade acima do comum com aquelas pessoas do futuro, sentia-se de certo modo parte daquela história, aquela história não teria fim sem a ajuda dele e de seus amigos, e isso era um fardo e tanto! Era quase um orgulho! Saudosismo puro fazendo seu coração acelerar. Por onde essas memórias andaram dentro de sua cabeça? Como ele permitiu-se olvidar? Com certeza a Ray Ann do passado lembrava, eles foram os dois únicos que não tiveram a memória afetada. Lembrava como sua versão androide entrou pela janela, de como o rolo compressor destruiu a casa onde ela vivia com as tias, de como eles foram levados outra vez para o futuro alternativo, pela última vez, para salvar o curso da história. Era bravo, era heroico, era histórico.
- Não, não somos os mesmos – fez Pietro, abanando um pensamento como se fosse mosquito. – nós temos 17 anos agora, os que vocês mandaram para o passado tinham 16, são outros Pietro e Chris, de outra época, 2009. Nós somos de 2010! Havíamos perdido a memória, mas voltar aqui nos fez lembrar de tudo...
- Faz sentido – a androide deu de ombros e sentou-se. Christopher a analisava, talvez fosse bom não ter de tomar banho, talvez fosse bom fazer uma revisão de peças a cada semestre, trocar o óleo e as engrenagens, ter força sobre-humana, e um design de matar qualquer modelo de inveja. – só que ela ainda não havia vindo aqui – indicou usando um movimento rápido do rosto a uma confusa Augusta que fitava o vazio agora, se balançando na cadeira pra frente e pra trás. Talvez estivesse ficando louca.
- Não mesmo – Saturno Revenge fez um muxoxo e voltou-se para sua versão mais nova outra vez. – e então, vocês precisam de ajuda? Precisam do meu exército para salvar a sua dimensão?
- Mais do que precisamos, necessitamos – cruzou os dedos por sobre as coxas. – como eu já falei, estamos em estado de calamidade. Alberta acha que morremos na explosão da escola, mas a essa altura ela já deve saber que estamos vivos, e se ela conseguir destruir o Apocalipse Club, a realidade alternativa em que vocês vivem estará liquidada, e vocês desaparecerão antes de conseguirem derrotar a Carminha...
- Espera aí, está querendo dizer que nós conseguimos derrotá-la?! – uma mulher loira levantou-se na outra extremidade, com um sorriso de orelha a orelha. Era Suzannah.
Christopher e Pietro se entreolharam divididos e ansiosos. Haviam assistido muitos filmes de ficção científica para saberem que nada a respeito do futuro poderia ser revelado no passado, para que a posteridade não se comprometesse e o curso da história não sofresse mudanças drásticas. E se eles revelassem o desfecho daquela realidade alternativa? Com certeza Saturno Revenge e seu exército chegariam sem nenhuma cautela e com toda pompa à cidade, confiante da vitória, acabariam derrotados pelas Células e pelos outros robôs-insetos, e o verdadeiro futuro, de onde seus netos vieram, jamais iria existir. Seus netos iriam desaparecer como se nunca houvessem existido, e eles estariam à mercê de Alberta, Velma e Úrsula. A linha temporal é muito delicada para ser manuseada por leigos e despreparados, uma palavra mal interpretada pode arruinar vidas para a eternidade. No caso, o futuro de Neon City jamais existirá se o Doutor Maurice não for derrotado e esta realidade desapareça no tempo certo, na hora certa.
- Nós entendemos a cautela de vocês, rapazes – fez a voz grossa do Pietro que os resgatou no deserto graças ao aviso de queda de meteoro. O De Lorean só conseguiu sair desta dimensão e ir para outra graças às descargas elétricas poderosas da clava de Lana Palafita, sem isso eles nunca teriam chegado até aqui, e foi tudo tão rápido que eles caíram feito uma estrela cadente naquele mundo. – temos de ajudá-los, saturno, para o nosso bem...
O homem, o único de pé, ainda ponderava, sério, braços cruzado sobre o peito, olhar vazio. Havia algo que ainda incomodava Christopher, algo que deixava o seu peito apertado, atordoado com a possibilidade de algo horrível acontecer, daquela história ter um fim trágico. E se? Seus olhos recaíram sobre a androide que o analisava como ele o fizera há poucos segundos atrás.
- Ray – chamou Chris, baixinho. A mulher tomou um susto e levou o dedo metálico ao peito, apontando para si mesma. Chris assentiu, ela não hesitou em se inclinar para frente na mesa, para ouvi-lo melhor. – Ray, daqui há um mês, por favor, vá até o ano de 2009 e resgate a mim e a você! Um rolo compressor irá destruir a sua casa, e se nós ainda estivermos lá dentro, não haverá nem você e nem aquele cara ali – apontou para a sua versão carrancuda daquela dimensão. Ray Ann permaneceu calada, séria, apenas assentiu e não pensou em questionar. Aquele rapaz viera do passado, porém de um ponto muito mais adiantado. Ele sabia do que estava falando, e ela sabia o que tinha que fazer. – eles irão lhe mandar ao passado para que aborte a missão de “impopularizar” a Carminha, e você já sabe o que fazer. Tire-nos daquela casa o quanto antes.
- Pode contar comigo! – sorriu ela, exibindo o polegar. Christopher riu, reconfortado. A voz alta de Saturno Revenge invadiu a sala de convenções outra vez, quebrando ao meio todas as conversas paralelas parasitas que haviam surgido a partir do seu silêncio.
- Pessoal, reúnam todo o Arsenal necessário, preparem nossos melhores homens e os uniformes especiais para a guerra! Vamos salvar o universo! – socou a mesa. – está decidido!
Augusta, pela primeira vez desde que chegara ali, demonstrou algum tipo de emoção, reagindo às perspectivas de que ela talvez houvesse enlouquecido, levantando-se de sobressalto, gritou:
- GRAÇAS A DEUS! – respirou aliviada e debulhou-se em lágrimas, sendo consolada pelos comemorativos Pietro e Christopher. Recebeu em troca uma salva de palmas dos conferentes, inclusive de si mesma! Na verdade, de sua versão mais velha, e muito mais séria. Era hora de se preparar para o confronto final ente os Apocalípticos e a S.U.J.A.! Chris mal podia conter-se de felicidade ao imaginar a cara que aquela gorda asquerosa da Úrsula iria fazer quando visse uma tropa de robôs extra-dimensionais invadindo o território dela sem mais nem menos! E a cara da Alberta então?! Seria impagável ver aqueles olhos inchados completamente abismados, impotentes perante a sua derrota. O império das generais malignas estava com os dias contados!




Fim do Apocalipse Dezesseis!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 15


- Ray! Ray! Olha pra trás! Olha pra trás! – os que foram enjaulados sacudiam sua gaiola e se debatiam feito macacos em um bando nervoso, teimando em derrubar sua prisão temporária, desarmados e desprotegidos, sob o olhar atento da 9ª General nomeada da S.U.J.A., completamente cercado por um exército de cidadãos amapaenses hipnotizados fortemente armados e uniformizados, em estado de prontidão caso a ordem de fuzilamento fosse dada. As chances de escaparem de uma situação crítica como aquela era remota, impossível, mesmo que um dos integrantes do grupo houvesse ficado de fora, o que era o caso. Ray Ann havia se escondido atrás das cortinas do auditório e lá se manteve agachada, calada, mesmo após a invasão dos dois gorilas de metal que resistiram a todo tipo de laser ou projétil lançado por qualquer uma das armas potentes dos Apocalípticos, nem a incrível arma de Miguel conseguiu paralisá-los. Ray não suportou ficar escondida por muito tempo, não vendo seus amigos na mira de fuzis, bazucas, lasers e outras pistolas que ela nunca havia visto em toda a sua vida, ela tinha de fazer alguma coisa, mesmo sabendo que qualquer atitude que ela tomasse seria suicida.
Então eis o que ela fez: pulou de trás das cortinas feito uma pantera negra soturna e rápida, derrubou quatro soldados-zumbis com pouco esforço e esquivou-se da saraivada de lasers e balas escondendo-se atrás de uma das colunas que ainda restavam de pé, sustentando o teto do auditório. Lá atrás montou campana, presa e sobre forte pressão psicológica, arriscava-se vez ou outra, mudando de esconderijo, passando de uma coluna para a outra, usando-as como escudo enquanto atirava, seus disparos nem sempre eram bem sucedidos, e um dos lasers acertou em cheio uma das volumosas e escuras mechas de seu sedoso cabelo. Corte perigoso, este.
- PAREM! – gritou uma voz vinda do além. Os tiros cessaram no mesmo instante. Montado numa prancha prateada voadora, um vulto esguio encapuzado surgiu a jato, numa velocidade incrível, desceu do enorme e disforme buraco no teto do auditório, levantando ainda mais poeira, misturando a partida do De Lorean à sua entrada triunfal. Ray Ann parou de atirar ao presenciar aquela cena absurda: do que se trataria tal criatura? Uma espécie de duende verde macapaense ou o surfista prateado marajoara? Tragicômico seria se seu coração não estivesse tão acelerado e seus olhos escuros banhados por rios salgados de lágrimas nervosas. Respirava com dificuldade e tremia seu laser nos pulsos, tremia como nunca havia tremido, jamais havia se sentido tão sozinha e desamparada, nua, sem proteção alguma. Aquela garota superprotegida pelas suas tias, agora era uma mulher de uniforme borrachudo branco, com uma arma pesada em mãos, toda suja de reboco, sem uma mecha do seu adorado cabelo, tremendo feito um bezerro recém-nascido.
- Então você se acha forte o bastante para enfrentar a minha frota, sozinha, garota?! – debochou a voz, feminina, mas grossa. Primeiramente Ray Ann caiu de joelhos, suas pernas não suportaram o peso do seu corpo, mas forte e persistente, levantou-se e franziu o cenho, fazendo cara de má, pronta pra enfrentar o que viesse como a mulher de pulso que era. Ela tinha quase certeza de que aquela mulher misteriosa era Alberta, e se realmente fosse, estava perdida, porque ela não vinha sozinha. – o prédio está cercado, galera, vocês perderam! PERDERAM! Não sei o que vocês planejaram invadindo o quartel general, e não consigo imaginar como derrotaram Lana e sua clava, mas dependendo de mim, vocês não escapam... Se bem que... – retirou seu capuz, revelando um rosto conhecido, mais uma pertencente à elite escolar, ao time de basquete do Centro de Ensino Cyclone – os meus meninos fizeram um bom trabalho capturando metade grande parte do grupo!
Como boa vilã, sua gargalhada ecoou pelas paredes, sem fugir às regras da escola de vilania e clicherismo. Talvez fosse o hipnotismo, ou talvez fosse a roupa, quem sabe ela mesma possuísse aquela personalidade asquerosa, nenhum deles a conhecia o bastante para defini-la ou julgá-la, na verdade o Apocalipse Club sequer prestou atenção à ela alguma vez. Alexis Suçuarana era uma moça alta, distinta e até feminina perto da última macho-fêmea enfrentada pelo grupo na batalha mortal que quase levou à morte de todos. Enfrentar uma clava daquele tamanho não é pra qualquer um.
- Vocês do terceiro ano acham que podem tudo! – estalou a língua duas vezes e desceu sua prancha voadora até a jaula onde Maxine, Fernando, Miguel, Haruno e Fábia estavam de mãos atadas, sem reação e completamente desprovidos de defesa, à mercê da própria sorte – ah! Então os rumores eram verdadeiros! Vocês são os viajantes do tempo! – apontou seu dedo comprido, suas unhas reluzindo, o esmalte perolado reagindo às luzes das lanternas dos guardas. O prédio estava completamente sem energia. – pensei que essa história fosse papo... Mas pelo visto... Tem mesmo como ir para... – aos poucos, voltou seus olhos para o palco do auditório, arregalou os olhos e ficou vermelha feito um tomate nervoso – O FUTURO! – gritou. – ONDE ESTÁ A MÁQUINA DO TEMPO?
Os Apocalípticos permaneceram calados. Alexis apertou um botão em seu controle remoto prateado, o mecanismo fez a gaiola descer uma descarga elétrica alta o suficiente para atordoá-los e deixá-los confusos. Ray Ann permanecia sem reação.
- ONDE ESTÁ? RESPONDAM?
- EI, SUA VADIA, EU AINDA ESTOU AQUI! – a voz trêmula, porém audaciosa de Ray Ann cortou o silêncio após os gritos de dor de seus amigos, e sem pensar duas vezes, puxou o “gatilho”, por assim dizer, da sua arma. O laser acertou as costas de Alexis em cheio, derrubando-a da prancha voadora, levando-a de testa ao chão. Uma saraivada de balas iniciou-se vinda dos soldados-zumbis, fazendo com que a nervosa Ray procurasse esconderijo outra vez atrás de uma das colunas.
- PAREM! – gritou Alexis, levantando-se do chão com dificuldade. – ELA QUER BRINCAR? ENTÃO NÓS VAMOS BRINCAR! – sua testa sangrava, mas isto parecia sequer fazer cócegas, o sangue descendo pelo seu rosto como lágrimas de vampiro nem mesmo a incomodava. – ISTO AQUI É UM DUELO, VESTIBULANDA, VOCÊ SABE O QUE É?
- Eu assisti muito filme de faroeste pra quê?! – riu a garota, nervosa, de trás da coluna.
- Trata-se da minha honra agora! Vamos! Saia de trás dessa coluna e me enfrente como mulher!
Uma velha música ecoou na cabeça da jovem, uma música típica de filmes do gênero, talvez uma gaita acompanhada de um assobio sonoro. Ela até poderia rir se quisesse, mas não o fez, mesmo sabendo que lembrar os velhos episódios do Pica-Pau nas tardes da Rede Record cruzando o deserto e enfrentando o Zeca Urubu montado no cavalo Pé-de-pano naquele momento crucial fosse no mínimo engraçado. Tinha que manter a cara de má, tinha que se mostrar durona, corajosa, osso duro de roer, mas não aguentou, soltou uma gargalhada daquelas que só ela sabia dar, jogando a cabeça para trás e mostrando os dentes com toda a graça.
- Do que você está rindo?! – gritou Alexis, nervosa.
- Nada que te interesse, sua intrometida! – pulou para fora do esconderijo com a arma em punho. A trilha sonora de Kill Bill inteira já havia passado pela sua cabeça. – agora vamos começar logo com isso.
- VOCÊS PRECISAM DE UM JUIZ! – gritou Fábia esticando seu bracinho gordinho pra fora da gaiola – precisam de um juiz!
- CALE A BOCA, GORDINHA, EU SOU A JUIZA AQUI! – urrou Alexis, apertando o botão azul no seu controle remoto outra vez, mais uma descarga elétrica desceu do teto pelas grades até o chão e subiu pelos uniformes, que apesar da aparência, não eram feitos de borracha como esperado, ou então não estariam recebendo tanta dor nos nervos.
- Você vai pagar por tudo isso, ah se vai! – grunhiu Ray por entre os dentes – até um dia desses você era só uma X-9 da Velma, e eu tenho certeza de que você continua a mesma! O hipnotismo não vai durar pra sempre!
- Eu não sei do que você está falando! – estavam cara a cara agora, misturando seus hálitos numa nuvem de bactérias. – agora vire-se! – segurou no ombro da garota e virou-a de frente para o palco – sete passos, vire e atire! Vamos ver quem é o gatilho mais rápido do Oeste!
- Nós estamos no norte! – gritou Fábia.
- CALA A BOCA GORDINHA! – mais descarga elétrica.
- PARE DE MACHUCAR OS MEUS AMIGOS! – rugiu Ray.
- Então mande-os calar a boca! – fez – ANDA! SETE PASSOS!
De costas uma para a outra, respiraram fundo, armas penduradas no cinto, passadas lentas e calculadas, arrastadas, pisadas fortes e seguras, mãos suadas, respiração ofegante. Ray Ann escorria, suava frio, tremia dos pés à cabeça enquanto sua rival permanecia fria e dura como um robô às ordens de Alberta. Alexis era apenas mais uma zumbi como o seu exército que assistia à cena, inexpressivo, o que a diferenciava deles era o uniforme, objeto das três generais principais, apenas uma boneca nas mãos do sistema, ela era uma garota boa fora de transe, aquela não era ela, não mesmo, o comportamento dela na escola não condizia com aquilo, nem o olhar era mais o mesmo. Ray Ann quase tinha pena dela.
- RAY! RAY! OLHE! VIRE-SE! VIRE PRA TRÁS! OLHE! – um coro de berros iniciou-se na jaula, num verdadeiro sacolejo, eles sacudiam as grades e pulavam aos gritos feito um bando de chimpanzés em surto, braços e pernas sacudindo para fora da gaiola, mas era tarde demais, a pobre Ray Ann fora enganada por sua rival, que não dera sequer dois passos e meio antes de virar e colocar a arma bem no meio das costas da garota.
- Quais as suas últimas palavras, vestibulanda?!
- Morra, vadia!
Numa velocidade incrível, como Drew Barrymore em as Panteras, Ray Ann foi ao chão repentinamente e girou feito um peão, aplicando uma rasteira surpresa na rival que caiu de costas com um baque surdo, feito uma jaca que desceu do último galho da árvore, caiu de pernas para o ar, com seu salto agulha para cima, parecia mais uma rã estirada no chão agora.
- Tão confiante de si que baixou a guarda, não é mesmo?! – num movimento mais rápido ainda, Ray virou Alexis de peito para baixo, prendendo a mão da general com muita facilidade às costas. – Quem é a mais rápida agora, hein?
A jovem ficou tão presa à situação que esqueceu-se de prestar atenção no mundo ao redor, de modo que não viu quando o exército fardado de cidadãos convertidos em robôs calculistas avançou, formando um círculo armado até os dentes a sua volta, com metralhadoras, fuzis e lasers apontados diretamente para a sua cabeça, e eles eram muitos, muitos mesmo. Os Apocalípticos estavam perdidos.
- Mas o que está acontecendo? – fez uma voz grogue, logo abaixo de Ray Ann, alguém parecia ter se acordado de uma ressaca pesada, ou talvez houvesse passado anos dormindo, quem sabe até estivesse sofrendo de alguma doença degenerativa, a voz era sôfrega e arrastada – você... Porque está em cima de mim?! Está me machucando! Ai! – gemeu a voz outra vez. Ray voltou seus olhos para baixo, tirando-os do cano duplo da espingarda enfiada bem no meio do seu nariz.
Era Alexis que vocalizava, aquela era sua voz verdadeira, a voz original da garota do nono ano que fora hipnotizada pelas três generais malignas da S.U.J.A.
- Ai, o que você fez comigo?! Minha cabeça está latejando! Anda, sai de cima de mim garota! – empurrou uma Ray Ann bestificada para o lado e grunhiu – eu hein! Onde já se viu um negócio desses? Quem esse povo de hoje em dia pensa que é?! – encarava feio àquela que há poucos segundos atrás a mantinha prisioneira numa chave de perna com os braços cruzados à força nas costas, sem prestar atenção no batalhão de homens e mulheres fortemente armados e inexpressivos que mirava exatamente na cabeça da garota que a prendera. Os Apocalípticos na gaiola se entreolharam confusos, o que estava acontecendo?!
- AI MEU DEUS! – gritou Alexis, jogando os braços pra cima e depois levando a mão ao coração, havia pegado o maior susto da sua vida e já começava a chorar, afinal, acima de tudo, ela era só uma criança usada para os propósitos bárbaros de Alberta. Caiu de joelhos no chão, as mãos juntas diante do peito, unidas como numa oração – POR FAVOR, NÃO ME MATEM, POR FAVOR! – ela implorava de olhos fechados, a cabeça rodando sem parar – EU NÃO SEI O QUE FOI QUE EU FIZ, MAS NÃO ME MATEM, POR FAVOR! NÃO ME MATEM! ABAIXEM AS ARMAS! ABAIXEM! EU NÃO FIZ...
No mesmo instante, o exército recuou, recolhendo todo o armamento para si, as armas maiores foram para os ombros, as menores foram para os cintos. Como o verdadeiro exército de robôs-humanos que eram, continuaram ali, parados, vazios, olhando para o nada enquanto uma desorientada Alexis rastejava na poeira pedindo clemência e rezando para todos os santos que conhecia, pedindo perdão por coisas que nem sequer fizera. Ray Ann, compadecida da pobre moça, rastejou até ela para consolá-la.
- Calma, calma – esfregou os ombros da ex-vilã desorientada – olhe, olhe, eles abaixaram as armas!
Apontou para os zumbis.
- O que?! Eles não vão me matar?! – seus olhos pareciam duas luas de cristal molhado, apavorada, ela tremia como Ray tremera há alguns minutos atrás, e ela sabia como era, por isso sentiu que tinha de ajudá-la, de confortá-la. Sentir-se sozinha e desamparada era a pior coisa do mundo.
- Não, não vão! Eles obedeciam a você, e agora que você saiu do transe, eu vou te contar tudo o que aconteceu, mas primeiro solte os meus amigos – indicou a gaiola prateada com o queixo.
Mais uma general convertida a Apocalíptica? A história de Haruno se repetindo?



Fim do Apocalipse Quinze!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 14


- Identificação exigida – repetia a voz, insistentemente. Uma luz do além iluminava seu rosto com uma potência sobrenatural distinta que o estava deixando tonto, até o escuro das suas pálpebras parecia um branco eterno graças àquela iluminação, bem em cima do rosto. Com detalhes, era possível enxergar cada veia da pele que recobre o globo ocular, cada mínimo detalhe da capa protetora da vista, das pálpebras, oscilando entre vermelho, laranja e amarelo, num carnaval de cores quentes e vivas. – Identificação exigida. – a voz insistiu. Christopher franziu o cenho e levou a mão sobre os olhos, que mesmo fechados, estavam sendo cegados. Teve vontade de dar um tapa naquela porcaria que estava produzindo barulho tão irritante, aquilo era um gravador? – Identificação de voz não confirmada pelo civil, iniciando scan facial...
A luz mudou repentinamente de branca para vermelha, num flash laser.
- Civil não catalogado no sistema, invasor alienígena! Código 4L13-N, ativar laser paralisador! – fez a voz metálica.
- Ah, mas você não vai ativar NADA! – aquela voz era humana, Christopher tinha certeza disso porque sabia que não era um aparelho que a estava reproduzindo, o que de certo modo era estranho porque ela ecoava numa frequência um pouco distante, talvez fosse a tontura do momento. O fato é que a voz precedeu a escuridão e uma série de tiros, alguns sons de metal sendo amassado e um tipo pequeno de explosão, alguns grunhidos e gemidos de luta corporal e por fim o som de sistemas elétricos entrando em colapso, o som do curto-circuito. Foi aí então que o rapaz sentiu-se, estava de cabeça pra baixo, e lembrava-se de quase nada, lembrava-se do momento em que saíra da sua dimensão, e lembrava-se do momento em que perdeu a consciência, quando teve a sensação interna de que estava esticando feito uma goma de mascar, e depois vieram as trevas.
- Você está bem rapaz? Está bem? – o homem o puxou pelo braço de mau jeito. Christopher gemeu. Era difícil abrir os olhos. – desculpa amigo, esqueci de soltar o cinto de segurança – deu uma risadinha e apertou o fecho, Christopher foi de cabeça ao teto do carro, que agora meio que havia se tornado o chão. Gritou. – Au! Meu Deus, desculpa! Ai, vem cá! – aos poucos, com jeitinho, ele foi saindo, sua vista ainda estava muito embaçada para poder enxergar alguma coisa, e o homem estranho mais o machucava que o ajudava. – ai, vocês são pesados! O que vocês andam comendo no passado hein?
- Nós... Não somos... Não viemos do passado... – gemeu a voz de Augusta em algum lugar ali próximo.
- Nós viemos de outra dimensão – a voz de Pietro parecia muito mais equilibrada e recomposta do que a dos dois restantes. Talvez ele fosse o que tivesse menos sofrido com a queda do De Lorean no outro mundo.
- Vamos ter que rebocar a máquina de vocês – ao abrir os olhos por completo, pela primeira vez, Christopher viu o homem apertar um botão ao lado do que parecia um relógio de pulso, e com o punho fechado, apontar o braço em direção ao carro capotado. Um laser azul escaneou o corpo do veículo, de forma extraordinária, aquela espécie de laser transformou cada parte do De Lorean em pixel, e como areia, eles foram sugados para dentro do relógio de pulso. Se é que aquilo poderia ser considerado um relógio. Pietro esfregou os olhos.
- Quem é você?! – exclamou Augusta.
- Eu? Me chamo Pietro Heinrich, muito prazer – ajeitou o cinto e estendeu um sorriso de orelha a orelha. O Pietro original entrou em estado catatônico naquele momento.
O De Lorean havia os levado para o meio do nada, o meio de um deserto, um deserto do outro mundo. Não havia sequer sinal de vida inteligente em quilômetros, exceto uma espécie de veículo policial num estranho formato oval, possuindo duas rodas, agora completamente destruído, com restos de robôs despedaçados ao redor. Pelo número de cabeças, eram dois... Mas espere... Havia algo de estranho naquelas cabeças, elas eram muito familiares aos três.
- Meu Deus! É a cabeça da Carminha! São as cabeças da Carminha! – exclamou Chris, arregalando os olhos e levando as mãos à boca, estava enjoado.
- Claro que não, seu besta, tá vendo que esses robôs tem a cara dela?! – fez Pietro, já revoltado, com uma bolsa de gel geladinho segura na testa, para aliviar a dor do baque. – ou tá pensando que a Carminha tem duas cabeças?!
Mesmo após aquele breve esclarecimento, tal visão ainda deixava Christopher Umbrella ojerizado, era repulsivo ver aquela cabeça de olhinhos apertados, queixo pontiagudo e dentes de catita longe de um corpo, era como se a própria Carmen tivesse sido decapitada a sangue frio, tal ideia o fazia tremer dos pés à cabeça e suar frio, era nauseante ver as partes daquele corpo franzino e magricelo – agora duplicado – todo espalhado pelo chão do deserto, num misto de metal, pele e couro rasgado, o couro sintéticos dos uniformes usados pelo que mais tarde o Pietro da outra dimensão descreveria como Células, os olhos e os ouvidos de The Big Machine, o cérebro do mundo.
O número de pessoas era superior ao número de transporte: havia um único veículo para a locomoção até o que aquele homônimo de Pietro, mais velho e mais magro chamou de “Fortaleza Digital de Asgard”, veículo este que para a surpresa dos três viajantes interdimensionais era exatamente igual aos que foram pilotados por Haruno de Lana na perseguição nos corredores dentro do que um dia fora o prédio da faculdade FAMA. Uma Planária, pouco maior do que as outras, bem mais robusta e aerodinâmica, quase ameaçadora, com a cabeça em forma de seta preservada, mais pontiaguda que a original, se é que a Planária do mundo de Christopher era mesmo a original. Seus ocelos usados como faróis eram bem maiores e iluminavam mais, suas laterais brilhava num azul noturno de neon incrível, era um banquete para os olhos, e o melhor de tudo: flutuava! Planava no ar!
- Vocês tiveram muita sorte, não podemos ficar aqui por mais tempo, já sabem que eu destruí aquelas duas – meneou o queixo em direção aos restos mortais dos androides-Carmen. – eles virão em um número muito maior, já devem estar a caminho.
- Mas eles são pequenos, você os quebrou praticamente com as mãos nas costas! – exclamou Augusta, chutando a cabeça robótica decepada.
- Porque eu sei qual o ponto fraco das Células, mas em quantidade superior a esta, elas são um problema. E põe problema nisso! – parecia preocupado, olhando para o horizonte, estava esperando os veículos ovais surgirem para o seu desespero – vai ser o jeito rebocar vocês até o posto avançado, eu não posso auto-rebocar, vou ter que fazer o percurso de Planária...
- Você está querendo dizer que vai fazer conosco o mesmo que fez com o De Lorean? – exclamou Christopher, levantando-se, ainda tonto. Não houve resposta, apenas ajustes no grande relógio negro de pulso.
- Ei! PELHA LHÁ! – fez Augusta, graciosa, levantando os braços para o alto – eu não vou ser teletransportada nem a pau! Vai que eu vou e minha cabeça fica! E aí? Como é que eu fico? Uma Augusta sem cabeça?! Vou ter que trabalhar de assombração e...
- Deixa de frescura menina, vai ser rápido e nem vai doer – fez Pietro, balançando a sacola de gel para ver melhor o conteúdo dela.
- E por um acaso você já foi teletransportado?! – retrucou.
- Não, mas viajei de uma dimensão para a outra, e se isso não me matou, o que vai me matar?!
- O Pietro tem razão Guta – intrometeu-se Chris, criando forças pra se levantar. – de setembro pra cá, nosso mundo e nós mesmos desobedecemos todas as leis da lógica e da física! O que mais pode dar errado?!
Os três voltaram suas cabeças para o Pietro mais velho, que fez uma careta e deu de ombros.
- Decidam, ou fiquem aqui ou vamos para o posto avançado, as Células devem estar chegando... – apontou para o horizonte iluminado por uma luz espectral misteriosa, que parecia ter origem há quilômetros de distância. A noite estava escura e fria, exceto por aquelas luzes alienígenas estranhas que dançavam no céu do deserto.
Poucos segundos depois, o som ameaçador de motores pneumáticos roncando há quilômetros de distância se fez ouvir através do eco que aquelas colinas áridas proporcionavam.
- Ô boca maldita hein! – esbravejou Augusta. – vamos, me desmembra logo! Prefiro morrer teletransportada do que morrer nas mãos de robôs interdimensionais com a cara da Carminha! Já pensou que sacanagem?!
O Pietro mais novo e mais gordinho soltou uma gargalhada alta que ecoou por quase todo o deserto. Em dois tempos os três não estavam mais lá, num piscar de olhos o mundo ao seu redor se transformou da noite escura e fria do deserto para um galpão escuro e abafado repleto de máquinas inutilizadas e empoeiradas. O enjoo veio logo em seguida, os três vomitaram quase que em sincronia. Foi tudo rápido demais, vultos negros segurando metralhadoras, lasers e outras armas potentes de grosso calibre amontoaram-se ao redor dos três, mantendo-os na mira, um movimento em falso e eles seriam fuzilados a sangue frio.
- Quem são vocês?! – urrou um dos vultos. A iluminação era parca e fraca, impossível distinguir quantos eles eram, podiam ser dezenas, centenas, o galpão era enorme, a única maneira de saber a quantidade de homens armados era conferindo os pontos vermelhos que se distribuíam dos pés à cabeça em Christopher, Augusta e Pietro, marcando os alvos: braços, pernas, barrigas, pés, porém nenhum deles possuía a paciência ou o tempo necessário para tal banalidade, estariam mortos antes de pronunciarem paralelepípedo em russo caso esticassem um dedo sequer para coçar o nariz. As mãos para o alto, as testas suadas, as bocas escorrendo o restinho do vômito do teletransporte, Augusta chorava copiosamente.
- Nós viemos de outra dimensão! Precisamos de ajuda! Precisamos de ajuda! – gritava Christopher para o nada, sua voz reverberando no metal, no ferro, no chumbo, ecoando e se multiplicando, aumentando e diminuindo conforme executava suas curvas sônicas através das trevas. Os soldados armados na escuridão mantinham-se imóveis, inexpressivos e impassíveis, era uma angustiante e desesperador, Pietro já havia fechado os olhos e entregado sua alma aos Orixás, entoava baixinho algum cântico que aprendera nas tradições da família. Por ironia do destino, haviam eles sido enviados para dentro do quartel inimigo? Para dentro daquilo que o povo daquela dimensão chama de The Big Machine? E se tudo aquilo que fora dito há alguns minutos atrás fizesse parte de um plano para encurralá-los e mata-los? Eles estavam perdidos, seu mundo estava perdido, afinal eles eram a última esperança de Macapá, talvez do mundo inteiro!
- Outra dimensão?! – urrou a voz outra vez – LIGUEM OS REFLETORES!
Jatos de luz acertaram os rostos sujos de terra e suor em cheio, retinas feridas, olhos lacrimosos e mãos levadas ao rosto, em reflexo, para proteção, feito criaturas vampiras expostas ao sol, ajoelharam-se e contorceram-se, talvez por susto, talvez por medo, talvez entregando-se à morte iminente.
Nas trevas, passos silenciosos, abafados por uma sola de material estranho, caminhando para a luz. Uma espada de samurai nos ombros, um uniforme amarelo colado ao corpo, óculos escuros e headphones no formato cômico de orelhas de gato, dando o último toque de excentricidade ao ser que parecia ter saído diretamente dos filmes de Quentin Tarantino para o mundo real. Cabelos escuros longos desciam até o meio das costas, um relâmpago negro pintado no rosto, abaixo do olho esquerdo, talvez para disfarçar alguma cicatriz de luta, ou talvez apenas por charme e vaidade pessoal. O que era aquele ser andrógino? De que mundo aquilo havia saído?
- Bem vindos, viajantes! – disse, jogando a espada para um dos soldados, que a apanhou numa demonstração de reflexo perfeito, direto no cabo, sem hesitar.
- Quem é você? – gaguejou Christopher.
- Eu? – a criatura gargalhou, retirou os óculos escuros e jogou os cabelos para trás. Christopher e seus amigos entraram em estado catatônico quase que instantaneamente. Seu anfitrião não precisava abrir a boca para dizer mais nada, tudo era muito claro. Claro como água, claro como um puro cristal, como um diamante, transparente como um fantasma, não eram necessárias explicações ou acréscimos, porque uma imagem vale mais do que mil palavras, e um único rosto vale por um universo inteiro delas. – EU SOU VOCÊ!


Fim do Apocalipse Catorze!

















Mais um Apocalipse surpresa
Para os leitores deste blog
Eu adorei esse capítulo
O fim está próximo! Aguardem!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

9.20.19.13.5.723378


A imagem daquela pobre cadela atropelada não me deixou dormir. Me deitei às 3, mas às 6 eu já estava de pé. Não conseguia imaginar nossa protetora, nossa amiga, apodrecendo ao ar livre, lá fora no quintal, dentro de um saco preto, esperando alguém para enterrá-la.
Ele havia cavado o buraco, mas era eu quem tinha de fazer isso, era eu quem tinha de jogar a terra sobre ela. Não havia motivos para cavar mais fundo, estava perfeito, o buraco cobria metade das minhas pernas, e eu sou alto, alto demais. Era profundidade o suficiente para fazer o descanso final da vigia do lar.
As imagens do dia anterior me vinham à cabeça enquanto os pássaros cantavam e o sol terminava de nascer. Minha irmã havia acabado de ir para a aula. O vento gelado da manhã acariciava o capim com carinho, acordando a folhagem das árvores trazendo os raios de sol consigo, tornando amarelo o brilho azul espectral deixado para trás pela madrugada. Eu nunca vira mamãe sofrer daquele jeito, não por um animal. Trancou-se no quarto após ir até a porta de casa receber a notícia do vizinho. Não teve coragem de ir até a calçada para ver o corpo, oculto pelo velho Ford KA branco que costumávamos usar há algum tempo atrás. Agora uma carcaça sucateando.
Mas eu tive coragem.
E preferia não ter visto a boa e velha Gabi estirada daquele jeito.
Na mesma hora me veio à imagem à cabeça. Daquela raposa de pelos dourado-alaranjados que explodia e dava lugar a um monte de larvas, numa imagem acelerada de sua decomposição na abertura de True Blood. Seria esse o destino dela? As moscas já se acumulavam.
- Foi de manhã cedinho - disse o velho - o carro acertou ela em cheio, ela correu chorando pra cá e se jogou aqui atrás do carro...
Levei a mão à boca. Mamãe entrou.
- Quer que eu a enterre? Eu levo ela...
- Não, não, não precisa - fiz, perturbado - o rapaz tá vindo pegar ela já...
O velho foi-se. Entrei. Procurei o rumo do quarto, segurei a mão dela. Estivera chorando ao telefone há alguns segundos antes de eu entrar pela porta.
- Calma, não chora, isso é super normal. Eu sei o que a senhora tá passando, mas é assim mesmo e... - segurei na mão dela. Ela puxou a mão bruscamente para junto do corpo e levantou-se furiosa.
- Não quero mais saber de bicho nenhum aqui nessa casa! - disse, às lágrimas. - quero todos esses gatos fora daqui! Tudo eu! Tudo eu!
- Nenhum de nós teve culpa, mãe.
Ela ficou calada.
Me levantei e saí, fui me sentar na cadeira de balanço roxa do pátio. Cruzei os braços atrás da cabeça e fiquei admirando aquela tarde amarela e poeirenta, quente como o inferno. Um dia ensolarado e melancólico como aqueles dias de minha infância em que eu passava as tardes na casa da vovó, brincando sozinho enquanto as outras crianças estavam na escola. Meus pais haviam acabado de se separar.
Havia cheiro de chão recém-encerado e Laura Pausini tocando baixo no rádio da sala. Todas as luzes da casa desligadas, todos os adultos dormindo a sesta vespertina. Mas eu não, eu ficava andando pela casa, pra lá e pra cá, explorando cada canto dali. As moscas se acumulando em cima da mesa, cheiro de café recém-feito e pão quente com manteiga direto da padaria. Os raios de sol entravam fortes pela janela da cozinha onde minúsculos grãos de poeira dançavam no ar como mini universos num balé constante. Pó.
Havia também o som distante do sorveteiro e seu carrinho de mão, a buzina estridente de carros e o som irritante mas reconfortante da voz vinda dos auto-falantes no caminhão da Tropigás. Década de noventa. Cigarros baratos. Vento nos coqueiros do quintal. As folhas verdes lustrosas esfregando-se umas nas outras provocando aquele barulho delicioso que eu tanto adorava. Às vezes eu me deitava sozinho no chão sujo para olhar os pombos no telhado e as copas dos coqueiros dançando ao sabor do vento. Ficava imaginando o que havia do outro lado do muro, na casa do vizinho, e me divertia falando sozinho, brincando com uma velha cruz de metal da minha altura que há muito havia sido esquecida ali perto dos entulhos. Zerão, o cachorro dormia ali perto. Não se aproxime muito, ele morde.
Assim eram as minhas tardes na casa da vovó. Seis ou cinco anos de idade. Era sempre assim. E eu não sabia porque, mas aquela atmosfera daquela tarde fatídica onde encontramos o corpo da Gabi já sem vida me fez lembrar dessas doces e melancólicas tardes solitárias, onde eu me sentia muito bem acompanhado de mim mesmo. Eu era muito mais feliz quando não me relacionava com as pessoas. Ah! Se eu soubesse! Teria optado por se autista como alguns pais e professores estavam me qualificando!
- Ela trancou a porta - minha irmã surgiu no vão da porta da sala - e agora? Eu tenho que tomar banho e me arrumar pra ir pro balé, as coisas estão todas lá dentro!
Dei de ombros.
- Ela acha que a culpa é nossa.
Silêncio.
- Eu vinha avisando há séculos - continuei - essa cachorra tava solta desde o dia de ano novo. Eu vinha dizendo: "prende essa cachorra, prende essa cachorra" ou "vai acontecer uma merda, ou o carro vai bater ou ela vai morder alguém! prende essa cachorra!", agora mamãe finge que não me escuta.
- Não NOS escuta - corrigiu minha irmã - ela espera acontecer pra depois lamentar, precisa ouvir tudo de fora pra poder confirmar se é verdade ou não, nunca nos ouve. Nunca.
- Às vezes somos mais sábios que ela - terminei.

Entrei, peguei um livro, sentei-me no pátio. Daniel Molloy estava sendo transformado em vampiro dentro da cabine do avião em "A Rainha dos Condenados". Que livro fantástico. E nada do rapaz chegar. Aquele rapaz que já é homem agora e que eu conheço desde os doze anos. Que me viu crescer praticamente. Ele chegou já perto do anoitecer, restavam duas horas e meia de sol.
- Vai ajudar ele a cavar, por favor, tá?! - fez ela, abrindo a porta do quarto onde eu me estirava no chão, tentando ler o meu livro, escapar da realidade.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho - disse, frio.
- O QUÊ? - perguntou. Não tinha escutado.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho. - disse, gelado.
- COMO É QUE É? - de novo. Ela tinha ouvido. Estava só me desafiando a dizer de novo.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho. - nunca repito uma sentença tantas vezes quanto repito aqui dentro dessa casa.
- MUITO OBRIGADA! - fez, raivosa, bateu a porta do banheiro e se trancou lá dentro. Suspirei e fui lavar a louça. Às vezes sinto necessidade de ter minha própria casa, mas acabaria morrendo na sarjeta sem a ajuda dessa mulher. Isso me deixa decepcionado comigo mesmo. Olha o meu tamanho!
Me tranquei e comecei a escrever. Um capítulo inteiro da minha nova história fluiu como água, como um capítulo há muito tempo não fluía! Me senti em êxtase comigo mesmo! Era fantástico! Há quanto tempo eu não escrevia com tanta vivacidade, com tanta verossimilhança! Com tanta paixão! Eu estava realmente no interior da França ou era impressão minha? A resposta para a dificuldade em escrever nestes tempos difíceis é que agora eu tenho muitas coisas na cabeça ao mesmo tempo. Antes eu era oco, vazio, não tinha muita coisa no cérebro com o que me preocupar. Mas de repente me senti com 14 anos de novo, viajando em meu mundo interno outra vez! Que mágico!
Até que me cortaram a linha do pensamento, e lá fui eu comprar o lanche na padaria. Já era noite. Eu me sinto envergonhado em andar nas ruas com a blusa do meu antigo colégio agora, mas todas as de ficar em casa estão sujas.
Tornei a entrar em meu mundo. E assim fiquei durante um tempo até me informar do que havia acontecido aqui na vida real.
- Ele não enterrou ainda. Acha que tem que cavar mais fundo. - disse, chorosa para mim. Pobre mamãe! Eu sei muito bem o que ela está passando. A morte da Baby pra mim foi uma gota d'água e tanto. - Amanhã cedo talvez ele venha e... O que é isso que tu estás assistindo?
- É True Blood, mamãe.
E então até ela se rendeu ao cotidiano conturbado dos moradores de Bon Temps. Depois minha irmã entrou e elas assistiram por durante uns trinta minutos. Partiram. Terminei a noite assim, chocado pela vida real e pela ficção; a doce avó de Sookie, Adele Stackhouse fora morta, assassinada cruelmente, jazia sobre uma poça de sangue no meio da cozinha! Que horror! E eu me havia apegado tanto àquela senhora em tão poucos episódios! Ela era uma personagem tão carismática e encantadora!
Mas que crueldade, Allan Bal seu filho da mãe!
Mas que crueldade, vida! Sua filha da mãe!
Quer saber? Que todos se ferrem, eu vou enterrar aquela cachorra! Pensei. Deixei um episódio de The Vampire Diaries baixando e fui dormir. Às seis já estava completo o download. Assim que terminei de assistir, pulei da cama e fui para o quintal, empurrei o saco preto para dentro do buraco com a enxada, o cadáver duro e já fétido caiu com um baque surdo no fundo do pequeno poço. Ela era pesada! Então comecei a enterrar, puxar toda a terra a minha volta para dentro do buraco.
E então lembrei de Jonna Lee e sua iamamiwhoami, em seu concerto, cantando os versos desconexos de 9.20.19.13.5.723378 enquanto enterrava a bola de alumínio que continha as cinzas do garoto carbonizado. Ora, e porque não cantar também? Tornar isso ainda mais dramático?


A brisa me lambeu o rosto suado como uma vaca.


Carry my head

With this mengled body

It hurts

Like

Hell

Like

Hell

Lights are on

But there's nobody home

Long asleep

As hard as most...














Em memória de Gabriela.

xxxo


Louie Mimieux

domingo, 6 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 13


Augusta meteu a mão na maçaneta, Miguel empurrou-a.
- Abre essa porta! Abre! Temos que salvar os outros! A Fábia tá aí do outro lado, a sua avó também! Os meninos... Nós temos...
- Eles estão seguros! A Max e o Fernando vão cuidar deles...
Outra marretada do bastão-clava fez tremer as estruturas do prédio por inteiro, poeira e até mesmo pedaços de reboco desceram aos montes do teto, uma coluna estourou ali próximo e uma parede inteira veio abaixo não muito longe.
- Mas...
- Não! A nossa prioridade é encontrar a Máquina do Tempo, encontrando-a, todos estarão a salvo!
Outra marretada fez a porta vir abaixo.
- VOCÊS NÃO VÃO FUGIR DE MIM, SEUS RATOS! – gargalhou Lana, derrubando metade do galpão. Descargas elétricas causavam pane no sistema elétrico, água jorrava da tubulação quebrada, os Apocalípticos fugiam, atiravam às cegas, procuravam abrigo, choravam.
Desabalada carreira iniciou-se às cegas pelos corredores do prédio, procurando uma porta, uma saída, um esconderijo, uma luz naquela escuridão. A única luz que havia era da qual eles deveriam fugir, correr, pois agora, logo atrás, montada numa motocicleta reluzente vinha uma furiosa Lana Palafita, sacudindo sua clava no alto enquanto mais raios azuis atingiam o caminho por onde passava.
- Rápido pulem aqui! – uma mão branca estendeu-se no escuro em direção ao grupo em correria. Era Haruno, também montada numa estranha moto. Christopher teve a sensação tão estranha quanto aquela situação de já ter visto aquele veículo flutuante em algum lugar. Lembrava muito um tipo de platelminto, sua fronte era a cabeça em forma de seta, e seu corpo aerodinâmico prateado esguio reluzia num azul quase branco, luzes alienígenas escapavam dos dois “olhos” da máquina, os faróis.
- Mas de onde estão saindo todos esses veículos?! – gritou Augusta.
- Não pergunte! Apenas suba! Eu sei onde a Máquina do Tempo está! – subir numa Planária em movimento era um desafio, Miguel seguiu metade do percurso pendurado ao lado feito um chaveiro, já que ele nunca fora muito alto, de modo a deixar o veículo empenado para a esquerda. A clava passava perigosamente perto dele a cada curva, a cada guinada, a cada subida e descida, o prédio vinha desabando logo atrás, formando uma corrente de perseguição perigosa. Os escombros vinham descendo atrás de Lana enquanto ela própria acelerava atrás dos invasores da sua fortaleza, o quartel general para o qual ela foi incumbida, o qual ela prometeu proteger como à própria vida no dia em que foi amarrada pelo capataz de Alberta e hipnotizada pela própria numa das salas escuras daquele prédio, do mesmo jeito que aconteceu aos outros seis generais espalhados por Macapá inteira, tocando o terror e representando a ditadura da forma mais ameaçadora e intimidadora o possível. Com mão de ferro eles representavam Alberta da melhor forma, conquistando e transformado pessoas em meros zumbis serviçais.
- ARGH! – um grito ecoou. Algo acertou Lana em cheio.
- É a Fábia! A Fábia pegou a Lana de jeito! – gargalhava Augusta – Dá-lhe gordinha doida!
- Vai Fábia! Acerta essa vagabunda! – urrava Christopher. – acerta o orangotango de calcinha! Acerta!
Haruno não sabia se guiava a Planária ou gargalhava, por pouco não perdeu a direção e levou todos para a morte, direto na parede. Há menos de dois metros de distância, Lana sufocava entre os seios anormais de Fábia enquanto a própria acertava várias coronhadas na cabeça da vilã que rugia feito um animal revoltado, um verdadeiro babuíno irado se debatendo em cima do que parecia ser uma Planária de cor negra, também flutuante como a prateada montada pelos Apocalípticos em fuga.
- HARUNO! – após o grito de Miguel, todos saltaram da moto flutuante, antes que ele pudesse terminar a frase. O corredor enfim havia acabado, e o que antes era uma moto voadora futurística em forma de platelminto agora era um monte de ferro fumegante e retorcido, estourado no meio do salão que havia atrás do fim do corredor. Havia fumaça branca por toda a parte, poeira, escombros, tijolos e madeira pareciam chover, vários corpos se retorciam e tossiam em meio ao reboco, foi tudo muito rápido, toda aquela densa nuvem de poeira os impediu de ver o momento em que Lana capotou por cima dos escombros da parede e foi ao chão de boca, estourando os dentes da fileira da frente. Seu bastão-clava voou longe, caindo feito um meteoro no meio do salão de conferências da faculdade, abrindo uma cratera enorme e digna da queda de um. A maior descarga elétrica de todas iluminou todo o auditório, indicando a posição da Máquina do Tempo, e ela era exatamente como Christopher imaginava: um DeLorean, como em “De Volta Para o Futuro”, magistral, prateado e tão quadrado quanto o original, aerodinâmico para a época em que foi lançado no mercado. Arrepios e espasmos percorriam seu corpo conforme a densa poeira branca no ar, os restos mortais da parede e do piso, se dissipava. As faíscas azuis resultantes do curto circuito na energia do prédio que o impacto do bastão-clava causara iluminavam o corpo da máquina de modo espectral e de certa forma um tanto caótico, icônico, mágico, de modo a endeusar aquela raridade, tanto automobilística quanto científica. As lâmpadas fluorescentes falhavam, piscando num ritmo frenético, acendiam e apagavam transformando o ambiente destruído numa verdadeira danceteria do Apocalipse, uma batida eletrônica retumbava ao fundo dos tímpanos do jovem Christopher, 17, quase 18, seu sangue fervia. Era a adrenalina do momento.
Correu, correu como nunca havia corrido, tirou forças do além para saltar por sobre as cadeiras de estofado vermelho, rasgadas, retorcidas, destruídas e inutilizadas, amontoadas umas sobre as outras ao redor da cratera formada pelo bastão-clava que fumegava no seu fundo escuro faiscante. O DeLorean parecia chamá-lo, parecia ter vida própria, mesmo estando parado no palco para palestrantes, tinha um tipo de áurea sobrenatural, como se tivesse saído diretamente dos filmes de ficção científica para a pacífica e atrasada Macapá, as cortinas azuis que o emolduravam no seu pequeno descanso o tornavam quase uma divindade, talvez fosse culpa da sua capacidade, de cruzar a linha temporal, a linha do possível, a linha do real, a linha das possibilidades tangíveis e lógicas. Miguel já estava lá perto, abrindo a porta com a mesma arma que deu fim às câmeras de vigilância, testando o painel e fazendo ligação direta.
- Vamos! Entrem, entrem! – gritava, fazendo sinal para aqueles que viajariam entre as dimensões. Augusta tentava acordar uma Fábia desmaiada enquanto Pietro certificava-se se Lana ainda estava viva realmente: parte do teto havia caído em cima dela e apenas uma das suas mãos eram visíveis para fora dos escombros. Aos poucos o restante do grupo foi aparecendo, Maxine e Fernando davam o ombro à Haruno que havia torcido o pé, enquanto Ray Ann apenas observava aquela situação impossível, catatônica.
- Precisamos sair daqui, os gorilas estão vindo... – sibilou Fernando para Maxine. – vamos acabar exatamente como ela – apontou para a mão retorcida de Lana Palafita, entre dois pedaços de concreto. O céu estrelado se estendia sobre a cabeça deles, invadindo através do rombo enorme que a batalha havia causado, resultado do choque da planária negra de Lana com uma das colunas que sustentavam o auditório. Um vento gelado entrava por ali, agora a poeira era praticamente invisível, dissipada por completo. O prédio estava prestes a cair, e o tremor de terra, sinal dos gorilas chegando, só aumentava os riscos de estar ali.
Christopher e Augusta observavam à cena com lágrimas nos olhos. Porque tudo aquilo estava acontecendo? O DeLorean alçou voo, levantando a poeira que já havia baixado, estavam deixando para trás os seus amigos, estavam deixando seus irmãos de coração à mercê do perigo, da morte, deixando-os por suas próprias contas. “Maxine e Fernando vão protegê-los”, disse Miguel antes de fechar a porta “não se preocupem, eles são o nosso futuro, a razão da nossa existência, só estamos vivos agora porque vocês estão à salvo”. Augusta levou as mãos ao rosto para limpar os pingos de cristal líquido e salgado que escorriam dos cantos de seus olhos, molhando suas bochechas fofas e macias, deixando o rosto da bonequinha quente e vermelho, como uma cachoeira de emoções. Miguel beijou suas faces. “vai ficar tudo bem, acreditem em mim... Olha só, já programei tudo, não mexam nesse painel em hipótese alguma! A não ser que queiram ir parar num mundo onde formigas mutantes gigantes vivem, e acabar virando almoço delas!” fez uma careta engraçada, Christopher riu. Miguel pegou a mão do rapaz e beijou-a “confio em você cara, vai lá”. E fechou a porta.
O DeLorean voou para a abertura no teto, atravessando-a. Do alto, os três viajantes dimensionais que em poucos segundos estariam partindo para o desconhecido viram o exército de gorilas-robôs que se formava ao redor do prédio semi-destruído. Augusta tapou os olhos, Christopher virou o rosto. Apenas Pietro aguentou a cena, talvez ele nem sequer estivesse entendendo o que estava acontecendo de verdade, ele era lento às vezes. Será que todos estariam vivos quando eles voltassem?



Fim do Apocalipse Treze!
vou confessar que...
eu tava guardando essa foto
pro último capítulo
não deu >:

sábado, 5 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 12


- Como você pode ter certeza de que podemos confiar nela? – Christopher levou um cutucão na costela que mais doía. Deu um gemidinho baixo e um empurrãozinho de leve em Ray Ann, acompanhada de uma preocupada Fábia.
- Ela é a Haruno! Simplesmente por isso! – exclamou Chris, como se isto fosse o óbvio. A mesma pergunta se repetia de bocas diferentes o tempo inteiro e isso estava ficando muito repetitivo.
- AI! AI! AI! UMA COBRA! UMA COBRA! – alguém gritou na escuridão. Arrepios e espasmos sequenciais consumiram o bando de cima abaixo.
- Isso não é uma cobra, Vó Guta, é um saco plástico! – Miguel começou a rir em algum lugar ali próximo.
- Pare de rir de mim! E eu não sou sua avó! – alguém foi afogado na Lagoa dos Índios logo em seguida por uma mão furiosa de uma garota enojada. Aquela água era turva e cheia de detritos, naturais ou não, um pouco de lixo e muito, muito mato. Havia alguns peixes e com toda a certeza, serpentes rastejavam por entre as plantas aquáticas ali próximas, era um lugar asqueroso e todo roçar de quaisquer folhas lodosas causava arrepios naqueles jovens burgueses de classe média, não acostumados a este tipo de situação. A única que parecia não reclamar daquilo era Ray Ann.
- Mas... – grasnou a voz afogada de Miguel, retornando para o fundo da lagoa logo em seguida, parecia mais que duas jiboias estavam brigando há poucos metros do grupo.
- Ei! Ei! Larga ele! Larga ele! – Ray se meteu na briga, livrando os cabelos de seu neto futurístico das mãos de Augusta.
- Ei digo eu! Parem com isso já! Parem! PAREM! – Maxine se jogou no meio dos três e acabou levando puxões de cabelo e algumas cotoveladas. Ela podia jurar que tinha mato dentro do uniforme branco borrachudo que usava. – eu sei que os ânimos estão um pouco exaltados e a situação é de risco, mas assim já é demais! Fiquemos unidos! E você, Miguel, se comporte! Pior que criança! – bufou e jogou o cunhado longe das duas.
- E se continuarem fazendo tanto barulho, os gorilas vão nos achar, estão olhando muito na nossa direção! – Fernando apontou por entre as moitas espaças e carregadas, abrindo uma fresta entre os galhos para que todos pudessem observar o prédio onde um dia funcionara a faculdade FAMA, há poucos metros de distância deles, erguendo-se na escuridão como um ponto de luz. Cercado de holofotes apontando em todas as direções, para o matagal da lagoa, para o céu estrelado e para o mundo ao redor ao mesmo tempo em que iluminavam a própria construção. Vasculhando a área, os enormes robôs símios observavam atentos à escuridão, como estátuas de metal, a aparência inanimada daquelas criaturas artificiais enganaria o mais atento dos observadores, em um grupo de cinco, eles observavam as quatro direções, Norte, Sul, Leste e Oeste, enquanto o quinto robô fazia a ronda no terraço. A imagem do prédio era esplendorosa e um tanto assustadora em meio àquilo tudo, amplamente iluminado, uma fortaleza branca. Lá dentro nos corredores os guardas humanos, zumbis fabricados pelos campos de concentração, faziam a ronda nos andares, olhares frios e objetivos, sem emoção alguma.
- Como vamos fazer para entrar nesse lugar? Vamos acabar esmagados por um desses gorilas! Se todos não resolverem nos explodir aqui mesmo, onde estamos! – exclamou Augusta, apontando para o ponto prateado que reluzia à luz dos holofotes que giravam entrecortando as nuvens lá no alto, no céu, cruzando o caminho do robô que brilhava feito uma joia coroando o alto da construção.
- Há uma maneira... Não se esqueçam de que logo ali fica a Choperia da Lagoa – ela apontou para o bloco do prédio que ficava oculto pelas árvores, um dos salões de eventos mais renomados e de prestígio da cidade, elegantíssimo por dentro, coisa de primeiro mundo, Los Angeles ou Hollywood, seu interior lembrava um verdadeiro cassino, e Christopher sabia do que se tratava porque a formatura da oitava série em 2007 fora ali. – mais pra lá, do outro lado, fica aquele galpão onde funcionou a Casa das Carnes e a Yamada... Na lateral deve haver uma entrada para os caminhões com as mercadorias, afinal aquilo era um supermercado antes...
- Haruno tem razão, mas vamos ter que dar a volta então?! – Pietro levou a mão à testa com um tapa, fez uma careta e esmurrou a água. – é muito longe!
- Mas vale o esforço, precisamos salvar o passado para que haja futuro. – fez Maxine, o vento sacudiu suas madeixas ruivas artificiais de leve, ela parecia uma sereia perdida dentro daquela lagoa. – o plano é o seguinte... Dois de nós ficarão do lado de fora, vigiando a entrada enquanto o restante entrará no prédio... Vamos vasculhar todo o lugar, e Deus queira que a Máquina do Tempo deles esteja aí dentro... Caso ela realmente esteja, Miguel vai operá-la, ele é o nosso especialista em tecnologia – ela riu para o cunhado que bateu continência. – o vovô, a vovó e o Pietro vão para a outra dimensão, nós vamos ficar por aqui para o caso de haverem problemas... Eu, Fernando, Miguel, Fábia, Ray Ann e Haruno vamos dar um jeito caso algo dê errado! – ela piscou para o marido, que sorriu. Uma forte emoção tomou conta de todos. Os corações ficaram acelerados e as veias ferveram o sangue instantaneamente, era a adrenalina do momento contagiando seus corpos, atingindo-os em cheio como um trem nos trilhos, Christopher queria gritar, estava com um sorriso de orelha a orelha e algo preso na garganta, um frio no estômago fez Fábia Paola dar um gritinho e levar os punhos fechados à boca, arrepiando-se dos pés à cabeça. De marias-chiquinhas, parecia ter saído de um anime. Parecia estar vivendo um anime, ver todo o Apocalipse Club ali, diante dela, usando aqueles uniformes brancos de látex, com o estranho símbolo do triângulo místico no lado esquerdo do peito causava uma sensação de união, de comunhão, de companheirismo e de heroísmo. Seria tudo aquilo um sonho?
- Câmeras! – Ray Ann apontou para as duas palmeiras que ladeavam uma das entradas laterais do prédio. Dois olhos biônicos tontos, vasculhado o ambiente com ferocidade.
- Não seja por isso! – Miguel fechou um olho, mirou e atirou. Nenhuma bala, nenhum laser, nem um raio, nada, apenas a fumaça e as faíscas escapando por entre as peças das duas câmeras. Queimadas. – prontinho!
- Pra moita! Rápido! – sibilou Haruno apontando para o vulto de metal que vinha pisando firme de longe, sacudindo o chão de pedra com força. Os gorilas estavam fazendo a ronda. Um dos holofotes focou exatamente sobre o lugar onde antes o grupo estava abaixado, uma moita de galhos compridos e quase sem folhas. Foi por muito pouco que sua posição não foi entregue de bandeja para o inimigo. Christopher engoliu em seco, tentando imaginar o que estaria os esperando depois daquela entrada escura que abria-se diante dele como uma boca de hálito gelado, um galpão obscuro e úmido do outro lado os esperava. Primeiro Miguel e Fernando correram e tomaram as laterais da entrada, depois foram engolidos pelas trevas do galpão, e assim de par em par cada um deles entrou. Lá dentro o silêncio imperava, e era assustador, frio e gelado. A porta azul no canto mais distante daquele galpão levava para o lugar onde antes funcionava o estoque do supermercado, agora mais uma sala fria onde as armas do esquadrão S.U.J.A. descansava, esperando pelo uso, motocicletas futurísticas, veículos estranhos e aerodinâmicos, canhões sônicos potentes e estantes intermináveis com pistolas, metralhadoras e bazucas. Armamento pesado recolhido do exército pelos zumbis. O teto era alto e distante, a iluminação era amarelada e parca, algumas lâmpadas piscavam, falhando, denunciando o mau contato, dando um ar de mistério e abandono àquela câmara secreta de armas. Lúgubre.
- Isso não tem saída? – exclamou Fábia.
- Ali está! A entrada para o supermercado! – Christopher abriu a porta de saída do depósito para deparar-se com um enorme laboratório tecnológico onde armas novas e experiências científicas eram testadas de dia, à noite, nas madrugadas, era um museu sombrio de prateleiras e balcões repletos de frascos, robôs de todos os tamanhos e suas peças, desligados, armamento e estranhos recipientes guardavam pequenas criaturas que mais pareciam fetos. Estaria a S.U.J.A. trabalhando com clonagem? Líquidos coloridos borbulhavam e tornavam-se fluorescentes na escuridão enquanto braços mecânicos controlados por computador estavam congelados no tempo sobre as peças biônicas onde faziam reparos há algumas outras atrás. As agulhas cirúrgicas ainda estavam quentes, aliás.
- Eu não sei porque, mas to achando isso meio estranho, vocês não acham? – Pietro estava vasculhando o lugar com os olhos. – estou achando isso aqui vazio demais... aqui estão as experiências delas... isso aqui é material secreto... deveria estar sendo vigiado...
- E ESTÁ SENDO VIGIADO! – bradou uma voz do além, ecoando pelas paredes do galpão. Apoiado na mureta do segundo andar, um vulto escuro os observava. As armas foram sacadas de imediato, postando-se de costas uns para os outros formando um círculo perfeito, os apocalípticos apontavam para o escuro esperando o assalto. Até então nada aconteceu, uma risadinha baixa ecoava pelas paredes e passos de um salto agulha furavam o chão produzindo um ruído de “troc” insuportável, causando apreensão e nervosismo. Fábia tremia segurando a sua arma.
- Quem está aí?! – gritou Maxine.
- Apareça! – urrou Christopher. As pistolas de laser estavam muito bem bombeadas e carregadas agora.
- Tolinhos... Acharam que passariam despercebidos pela segurança! – o vulto no segundo andar riu de novo, descendo às escadas com o seu salto barulhento irritante, estava se aproximando. Quando os passos pararam ao pé da escada, refletores potentes cegaram os apocalípticos repentinamente, pegos de surpresa, eles foram ao chão retorcendo-se e tapando a vista, os olhos agredidos pela luz forte, que queimava.
- Eu sou a General de Número 10 responsável pela administração do prédio da central! – um único refletor acendeu-se sobre o vulto na escuridão, revelando sua identidade vestida no uniforme preto, carregava um bastão na mão direita que terminava numa bola de ferro maciço coberta por espinhos pontiagudos, descarregando eletricidade no ambiente ao redor. Suas orelhas de abano e sua cara achatada de macaca revelaram a sua identidade, seu cabelo oleoso escorrido era sua marca registrada.
- Lana Palafita! – exclamou o grupo em uníssono. Quer dizer, parte dele, só aquela cota que vivia naquela cidade e naquela mesma época, e que estudava na mesma escola que as generais malignas da S.U.J.A., essa cota sabia que Lana Palafita e sua cara de ribeirinha eram figurinhas batidas no álbum das amiguinhas mais íntimas de Velma. Mas ali, como uma general e segurando aquela estranha arma, representava um novo tipo de figura, e bem mais ameaçadora. Seu olhar mau encarado costumeiro de bicho do mato agora tinha uma tonalidade elevada de maldade, objetivo, duro e fulgurante, hipnotizado e cego.
- CORRAM! – foi o que Fernando conseguiu gritar antes que Lana Palafita acertasse o chão em cheio com seu bastão-clava, abrindo uma cratera enorme no piso do galpão, fazendo descer poeira do teto enquanto as rachaduras nas paredes se entrecortavam e se cruzavam ferozes. O poder daquela arma era fenomenal, tratando-se de matéria densa concentrada, aquela pequena bola cheia de espinhos devia pesar quase uma tonelada, vinha acompanhada de uma luva biônica que aumentava a força do seu usuário com eficiência para que ele pudesse portar um equipamento tão pesado e potente. Descargas elétricas ricochetearam nas paredes como cobras azuis mortais, procurando um alvo para cravar suas presas. Por ser um material altamente concentrado, acumulava energia como nenhum outro material, seu simples atrito com outros materiais causava explosões eletroestáticas poderosíssimas. Christopher olhou de relance para trás antes de ser lançado para longe pela potência do bastão-clava, podia jurar que vira os músculos de Lana Palafita duplicarem de tamanho ao manipular da arma. Foi bizarro vê-los retornarem ao tamanho normal, secando feito um bolo ao contrário até encaixarem-se nos ossos para assumirem a forma franzina de sempre da garota.
- Como em Gantz! – gritou Christopher. Ele sabia o que era aquilo. Aquilo era o uniforme! O uniforme fazia aquilo! Aqueles músculos artificiais eram artifícios do uniforme!
- Vem! Vem! – Miguel sinalizava para Christopher de trás de uma prateleira. Havia uma porta ali, Augusta e Pietro já estavam do outro lado. O rapaz não pensou duas vezes antes de correr para lá. A porta fechou-se atrás dele com um baque surdo. – Vamos atrás da Máquina do Tempo!



Fim do Apocalipse Doze!