Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 7!

- Será que eles voltaram sozinhos pra casa? – Tifa ainda olhava desolada para as portas de ferro fechadas do prédio. Os robôs com cabeça de vaca faziam a segurança do lado de fora, com seus rostos serenos e amigáveis.
- Devem ter voltado sim, acho melhor não nos preocuparmos... – Miguel tentava disfarçar, mas estava morrendo de medo de voltar pra casa sozinho e acabar dando de cara com um daqueles ETs que andam por aí.
- Mas o Fernando nunca te faria voltar pra casa sozinho, ele é todo paizão e tal... – Tifa mordeu seu pirulito e guardou o cabinho branco.
- É, eu sei... – Miguel estava quase lagrimando. Era baixinho, todo turrão, metido a machão, fazia tipo de que não tinha medo de nada, que não precisava de ninguém, mas escondia uma criança dentro dele. Era precoce. Jovem e muito precoce. Com 15 anos parecia ter 19, era como a sua avó era. – e o pior é que se eu chegar sozinho em casa sem o Fernando, mamãe vai descer de pau nele quando ele chegar, e eu não quero ferrar pro cara...
- Eu te entendo... Ainda bem que eu sou filha única! – Tifa pegou sua mochila azul celeste, meteu nas costas e saiu andando, assoviando uma melodia.
- Ei! Ei! Pra onde você vai?! – Miguel correu até ela.
- Ora, eu vou pra minha casa! Já são quase 10 da noite, e meu pai me mata se eu chegar um pouco mais tarde que isso – Tifa parou para comprar mais pirulitos numa das lojas de conveniência em forma de ovo que ficam espalhadas pela praça.
- Mas e a Gabrielle? E a Max? Você não está preocupada com elas?! – Miguel gesticulava feito um louco para o prédio gigantesco que projetava sua sombra de neon vermelho e azul sobre a Warhol’s Square. Um grupo de bailarinas motorizadas girava no ar usando mochilas anti-gravitacionais ali perto. Mais ao longe, um desfile de grifes de rua ocorria sobre pernas mecânicas.
- Cara, relaxa, eles voltaram pra casa, querido! A mãe da Max é uma bruxa, ela deve ter corrido pra lá assim que o relógio bateu as oito... Os pais da Gabrielle são bem liberais, mas nem tanto, ela tem horários também... Seu irmão deve ter se encontrando com alguma gata por aí e deve de estar dando uns amassos num desses escurinhos, agora, RELAXA, por favor!
Miguel ficou estático após essa bronca.
- Se ele desaparecer eu vou ser totalmente responsabilizado, Tifa!
- GAROTO – gritou ela – por favor, você está me estressando! Vai ver ele até já está em casa a essa hora!
E assim, a gordinha saiu saltitando pelas ruas coloridas e psicodélicas de Neon City, para pegar o metrô e ir pra casa.
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- Não quero ouvir desculpas, Mariana, quero essa geringonça funcionando ainda hoje!
Na sala de controle do Grande Colisor de Hádrons, Alberta e Mariana tomavam chocolate quente enquanto discutiam o futuro.
- Mas é impossível, Alberta! Os nossos operários já disseram que com a ajuda dos robôs, o serviço acelerado, deixará tudo pronto para o primeiro teste em uma semana! E nós não temos certeza de que isso vai nos levar para outra dimensão!
- Você não entende, Mariana! Ele vai nos levar para outra dimensão SIM! Maurice Lispector trabalhou 10 anos aqui, ele fez as alterações necessárias e me mostrou do que isso era capaz! Você não viu o que eu vi! Você não viu a realidade alternativa de The Big Machine, onde o homem é o imperador supremo sobre as máquinas!
- Você está sendo utópica, Alberta, está ficando velha e voando alto demais! – Mariana cometeu o maior erro de toda a sua vida naquele momento.
- Do que... – Alberta virou-se vagarosamente, sua voz repentinamente rouca e amarga – você me chamou?!
Os olhos de Mariana saltaram das órbitas, seu coração acelerou e ela sorriu, amarela.
- O-oi? – fez-se de desentendida.
- DO QUE VOCÊ ME CHAMOU?! – gritou Alberta, dando um chute numa das cadeiras que ficavam diante da mesa de controle geral. Mariana protegeu o rosto com a prancheta e deu dois passos para trás, em direção à porta. Qualquer movimento em falso e ela correria feito uma louca.
- Eu disse que você está... está ficando...
- VOCÊ ME CHAMOU DE VELHA!
- E-eu?! ALBERTA?! – era hora de fazer-se de vítima. Mariana levou a mão ao peito e escancarou a boca – eu jamais te chamaria de velha, Alberta, eu tenho a mesma idade que você e não me considero velha!
- Eu sei que você me chamou de velha, Mariana! Eu não sou surda! – disse Alberta, aos berros, atirando sua xícara de chocolate quente longe. Ela se espatifou na parede. – Ah, mas eu vou te mostrar quem aqui que é velha!
Ela começou a retirar a lona de segurança do painel de controle.
- Alberta, o que você está fazendo?! – Mariana correu até ela, tentando impedi-la. Foi atirada longe.
- Vou ligar essa porcaria agora mesmo!
- Não! Não faça isso! Tem pessoas trabalhando lá embaixo! Uma pane no circuito elétrico pode matar todo e incendiar tudo isso aqui! Há elementos nucleares nisso, Alberta!
- Cale a boca e me diga onde fica o botão de ligar!
- Não! – Mariana pulou no pescoço da amiga e as duas entraram num embate corporal. Alberta levou suas mãos diretamente nos cabelos da amiga que deu um grito e chutou sua canela. A mulher gritou e deu-lhe um soco, as duas caíram no chão e rolaram de um lado para o outro. Mariana bateu com a cabeça de Alberta no chão três vezes antes de levar uma mordida no braço e guinchar feito um guaxinim. Foi quando o jogo virou e Alberta ergueu-a no ar usando apenas um braço.
- Se esqueceu de que lutei vale-tudo durante quase toda a minha vida?! Não é à toa que uso esse cinturão aqui! – e lançou-a sobre a mesa de controle. O baque do corpo de Mariana desmaiado sobre as três alavancas principais ligaram o monstro, causando uma enorme pane que matou tragicamente 20 funcionários e deixou 80 feridos em menos de um segundo. Quase todos os robôs foram perdidos por causa das grandes descargas elétricas expelidas pelo monstro metálico, foi um verdadeiro inferno catastrófico. Alberta desceu as escadas da sala de controle às gargalhadas – eu sabia! Eu sabia que isso funcionava!
No exato momento em que pôs seus dois pés minúsculos no chão, foi surpreendida por uma forte descarga elétrica que lhe pegou em cheio. Lançando-a contra a parede e torrando-a dos pés à cabeça. O que restou de Alberta Veronese naquela dimensão foi a sua marca registrada, agora derretida: o cinturão dourado.
- Senhora Mariana! Senhora Mariana! Você está bem?! – três oficiais da equipe de resgate ajudaram Mariana a levantar-se, uma hora depois do ocorrido, quando as buscas avançadas encontraram seu corpo caído embaixo da mesa de controle. O colisor de partículas havia se desligado automaticamente alguns minutos atrás por insuficiência de combustíveis, o que foi bandeira branca para que a equipe de resgate entrasse nos túneis em busca dos feridos e dos corpos dos que não resistiram às fortes descargas elétricas e aos resíduos químicos que vazaram da estrutura.
- Alberta! Alberta! – gritava Mariana, ainda grogue, chamuscada dos pés à cabeça, libertando-se dos braços dos bombeiros e em seguida correndo para fora da sala de controle. Deparou-se com o cinturão de ouro derretido no chão exatamente no centro de um círculo de fogo. – Não! Alberta! – algumas descargas fracas elétricas ainda percorriam os túneis pelo chão e pelo teto, escapando das rachaduras na estrutura colossal do grande colisor de partículas. Era altamente desaconselhável ficar passeando por ali. Desfazendo-se em lágrimas, Mariana Hesketh recolheu o artefato do chão. – o que você fez, minha amiga, o que você fez?!
- Temos que sair daqui, senhora! – alertou um dos bombeiros erguendo-a do chão à força – esse lugar corre o risco de explodir, e há um vazamento próximo de gás hélio...
- Mas e a Alberta?! A Alberta foi teletransportada!
- Eu sim em lhe dizer que não, minha senhora, ela foi desintegrada...
Mariana gritou e se contorceu. Os bombeiros precisaram contê-la.
- EU? DESINTEGRADA?! ALBERTA VERONESE NUNCA SE DESINTEGRA!
A irritante voz retumbou vinda de dentro do Colisor de Hádrons. Uma enorme placa de metal deslocou-se e caiu com estardalhaço no chão. A gargalhada ecoava por todo o local. Descargas elétricas ricocheteavam feito serpentes furiosas, queimando e destruindo tudo. E então, em meio à fumaça e ao fogo, a vaqueira surgiu, trajando um novo uniforme e um novo cinturão marcando sua chegada triunfal. Como uma “cowgirl” biônica, metal e couro vermelho cobriam seu corpo de cima à baixo. Na ponta de cada seio do sutiã de ferro, agulhas eletrizadas trocavam pequenas descargas elétricas, o resto do seu busto estava protegido por uma placa de ferro tão grossa que nem a bala mais potente atravessaria, ela sobreviveria a qualquer ataque terrorista, armada e perigosa. Sobre tudo isso, caía-lhe um pequeno colete vermelho de couro e botas de cano alto, estava vestida para matar.
- Prepare-se, Neon City, sua nova rainha está chegando!

Fim da Parte Sete!

PORRA! Lá vai eu escrever uma novela! - -’

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Às vezes assusta...

O nível de visitas desse blog sobe assustadoramente numa média de 60 pessoas por 4 dias... Fico me perguntando quem tanto visita isso aqui e não deixa nenhum comentário.


Realmente, é um pouco estressante e chato ficar deixando comentários. Demora muito, é verdade, e tem toda aquela burocracia da "conta google", não me admira que leitores anônimos leiam e não deixem comentário.

Mas, pra dar aquele incentivo, deixem pelo menos um "oi" na minha caixa do formspring né.

The Big Machine II - Parte 6

- Max, você está delirando! – disse a mãe
- Max, você está louca! – disse o pai.
- Deixem a menina falar! – gritou o avô – vão para o quarto, meninos! Vão! – ele sacudia o DiscoStick cintilante para os irmãos mais novos de Maxine, ordenando que subissem e ficassem lá em cima. A garota se derramava em lágrimas no colo do velho. – agora conte para o vovô, o que você viu? – fez Christopher Umbrella, doce e calmo, apaziguando o coração da jovem.
- Era terrível, vovô! Terrível! Terrível!
- A Tifa chegou a ver isso? – perguntou o velho, sério. Seu rosto cheio de rugas iluminado pelo brilho que emanava dos cristais na ponta da sua bengala, um DiscoStick como o da cantora vanguardista Lady GaGa, viva até os dias atuais através de aparelhos sofisticados que proporcionam-lhe o poder da fala e dos movimentos através de braços e pernas artificiais. Vez ou outra ela solta uma das suas pérolas, e continua compondo para quase todos os cantores conhecidos da década de 50 do século XXI, é como um Guru da Pop Music.
- Não, não deixei que ela visse, mandei ela correr!
- Alguém viu vocês?
- Não, não sei... As câmeras, talvez... Sei lá! – ela voltou a enterrar seu rosto no colo do avô.
- Havia mulheres penduradas como frangos... mesmo?! – gaguejou Dominick. Stéphanie lhe deu um tapinha na nuca.
- Não seja tolo, Dominick! Não está vendo que ela só está impressionada?! É o que eu sempre digo! Hoje em dia o sistema alivia muito pra esses meninos! – e a mãe de Maxine iniciou seu discurso rotineiro, dando voltas pela sala – no meu tempo havia guerra civil, assassinato em massa, homicídios planejados a sangue frio, tráfico de drogas, gangues...! Eu cheguei a contar pra você, Max, das favelas no Rio de Janeiro?! Das baixadas de Macapá?! Das facadas diárias e dos corpos que vez ou outra encontravam por aí?!
- Pare com isso, Stéphanie, sua tola! Você nem é desse tempo, sua estúpida! – ralhou o velho, eticando-lhe o brilhoso DiscoStick no meio da cara. – eu que vi tudo isso pela TV no meu tempo não fico fazendo pressão psicológica na menina! E você que só soube dessas coisas porque a Augusta te contou, fica falando besteira! Você é igualzinha à sua avó Misty, aquela velha hipócrita!
- Olha lá como você fala comigo! Seu velho! – ela abaixou o cajado com violência. – não mexa com a minha família!
- Não sei como uma mulher tão boa como a Augusta foi ter uma filha como você! – o velho mantinha sua vara psicodélica esticada em direção ao rosto da mulher, com o nariz em riste e os olhos julgadores, carregados pela idade e pela sabedoria. E então voltou-se para a pequena Maxine.
- Conte-me, meu anjo, o que você viu lá?
À meia luz daquela sombria sala de tempos remotos, Maxine iniciou seu relato.

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As luzes do laboratório foram ligadas, e 21km de extensão de túneis circulares acenderam como um aro subterrâneo resplandecente. A equipe técnica estava por toda a parte.
- Qual o diagnóstico? – perguntou Mariana, com a prancheta em mãos.
- Na verdade, não é nenhum milagre que este lugar e toda a parafernália nele contida estejam intactos, Senhora Hesketh. – começou o chefe de exploração. A caneta de Mariana fuzilava o papel – foi uma estrutura de milhões investidos, é um verdadeiro abrigo anti-nuclear! Temos 90% desses 21km de tecnologia em perfeito estado, mas vamos ter de fazer algumas substituições de peças e viemos preparados para isso, fique tranquila.
- Acho melhor você me tranqüilizar mesmo. Aquela mulher lá em cima tá que não se agüenta, ela quer ver essa coisa ligada até o final dessa semana... – Mariana suspirou.
- Não se preocupe, Senhora Hesketh, ela o terá sem dúvidas!
- E quanto tempo vai demorar esses reparos?
- Um ou dois dias, talvez, dependendo do desempenho dos robôs que trouxemos...
- Então, quer dizer que se os robôs executarem a tarefa melhor do que o esperado, podemos ter tudo pronto amanhã?
- É uma possibilidade, minha senhora.
- Quero essas máquinas ligadas já! – e virou as costas.
O homem arregalou os olhos.
- Mas, Senhora Mariana! Não podemos fazer isso! Os técnicos ainda estão terminando a análise, o diagnóstico vai demorar talvez a semana inteira! É uma máquina gigantesca, temos muito ainda que olhar!
- Então apressem-se, se ainda quiserem a cabeça sobre o pescoço. – disse Mariana, fria, olhando de cima. Deu as costas ao homem que tinha as duas mãos no pescoço, prevendo um final trágico para sua equipe e para si próprio.


- Não era coisa da minha imaginação! Não era! Será que ninguém me escuta?!
- Maxine, pra ser sincera, acho que você está ficando maluca! – Gabrielle fazia o estilo retrô naquela manhã, usando franjinha curta sobre os olhos, cabelos compridos, calça apertada, salto alto e jaqueta de couro coberta de cristais. Os corredores daquela área da escola eram sempre vazios. O colégio em forma de disco ficava no alto do edifício mais alto de neon city, com vista panorâmica para toda a cidade, sempre girando a 2km/h, proporcionava uma visão ampla e mutável das paisagens exuberantes da selva de neon, agora uma selva de concreto e metal: era dia e toda a iluminação artificial estava apagada, a luz usada nos prédios era totalmente natural. Projetados com tetos e enormes fachadas de vidro, os edifícios e construções daqueles tempos visavam a sustentabilidade, a economia e a preservação das matrizes energéticas. A escola não fugia a esses padrões.
- Porque será que ninguém acredita em mim?! – Maxine chutou a parede. – eu juro que eu vi! A Tifa estava comigo, ela entrou lá! – a garota apontava para a amiga que olhava o céu, distraída e sonhadora enquanto chupava seu costumeiro pirulito azul.
- Sim, mas você me mandou correr depois que ficou pálida feito uma múmia – respondeu.
- Vocês querem uma prova? Então vocês a terão! Venham todos comigo após a aula, vou mostrar pra vocês que o que eu estou falando é verdade!
- Vamos ser pegos, com toda a certeza – pronunciou-se Fernando, soltando uma baforada do seu cigarro eletrônico. – o sistema não tem falhas, Max, se vocês entraram naquele lugar era porque alguém queria que vocês vissem algo. As câmeras teriam dado o alarme.
- Sei lá, ainda acho que as duas estão piradas, essa história está muito mal contada! – dessa vez foi Miguel a se pronunciar. – eu voto por irmos todos lá depois da aula.
- Sabe que não posso ir, tenho supletivo e vou ficar por aqui até as nove da noite – afirmou Fernando, o único dali que cursava o terceiro ano. Gabrielle estava no segundo juntamente com Maxine enquanto Tifa fazia o primeiro ano ao lado de Miguel.
- Então você que fique!
Dito e feito: sete da noite estavam todos usando seus chapéus de caubói, dando voltas por dentro do Shopping Center da comida, se divertindo com os robôs em forma de vaca que passeavam pelo local cantando uma bela canção e tirando fotos dos visitantes, comendo amostras grátis até enjoar e tentando a sorte no disputadíssimo touro mecânico. Primeiro foi Fernando, que conseguiu fugir do supletivo. mas acabou caindo de cara após três segundos em cima do touro...
- Vai Gabi! Vai! Você consegue! – gritava a torcida organizada. Gabrielle lutava contra a criatura de metal ferozmente, com toda a garra que a raça negra sempre teve, girando seu chapéu no ar e gargalhando alto. Ao final da sessão, seu recorde foi sete minutos em cima do touro mecânico.
- Parabéns menina, você tem espírito de vaqueira! – cumprimentou um dos funcionários.
- Meu avô tinha um sítio antes de tudo virar um deserto, acho que herdei dele o sangue de fazendeira!
A turma seguiu caminho rindo alto. Apenas Maxine fazia cara feia pra todo mundo. Eles estavam fugindo do foco, se perdendo do objetivo.
- Max, ajeita essa cara, por favor, você está estragando o passeio – Fernando segurou o queixo da garota. Ela afastou sua mão.
- Nós não viemos aqui a passeio, Fernando, você sabe muito bem!
Uma funcionária passou oferecendo espetinhos de carne. Miguel estendeu a mão.
- Eu se fosse você não comeria isso! – fez Max, apontando para a bandeja. A loira continuou sorrindo.
- E porque não, senhorita? È carne de alta qualidade feita nos laboratórios da Fazendinha da Tia Alberta, especialmente para vocês.
Gabrielle meteu a mão num dos espetos e mordeu com vontade a carne.
- Vocês não sabem do que isso é feito, vocês não sabem de que é essa carne, ou de QUEM.
Fernando começou a ficar sem graça.
- Me desculpe, moça... – fez, arrastando Maxine para uma conversa particular. – o que você está pensando?!
- VENHA COMIGO! – foi sua vez de arrastá-lo. – esperem aí, vocês! Nós já voltamos!
- Ah, não mesmo! – Gabrielle foi logo atrás. Sobraram Miguel e Tifa que logo se entretiveram numa sala de jogos. – eu também quero ver essa parada aí, não me deixem pra trás!
Encabeçado por Maxine, o grupo chegou a sessão de gelados logo em seguida, e para surpresa de todos, a porta estava interditada e guardada por dois seguranças robóticos. Maxine gelou dos pés à cabeça.
- Rápido, disfarcem!
Os três pegaram produtos das prateleiras e começaram a analisar em grupo. Os guardas de metal estavam ali, parados, com cara de pateta, mas estavam muito atentos a tudo o que estava acontecendo ao redor, e estavam de olho nos três suspeitos que conversavam ao lado da geladeira de iogurtes.
- Será que eles descobriram a nossa invasão?! – Max suava frio – não é possível! Ali não tem câmeras!
- Alguém deve ter visto vocês entrando lá ontem né – sussurrou Gabrielle – vocês duas são muitíssimo discretas, com toda a certeza – fez, sarcástica.
- Não enche o saco, Gabi, a coisa é séria. Se tem guardas reparando a entrada do frigorífico um dia depois que nós invadimos o lugar, é porque o que eu vi era real!
- Ou talvez eles estejam apenas tentando reparar uma falha de segurança, Max!
Os imponentes robôs-segurança com cabeça de vaca e cara de cavalo deram um passo à frente, dando um susto e tanto no trio. Gabrielle caiu sentada. Os olhos de brilho verde das máquinas mudaram para o vermelho. O robô com cabeça de vaca pronunciou-se:
- Maxine Fernandes, por favor, nos acompanhe!
Os garotos em desespero tentaram fuga, mas para cada um que tentou correr, outros pequenos robôs que imitavam cabritos fecharam seu caminho. Os dois maiores pegaram Maxine pelos braços e arrastaram-na para dentro do frigorífico, agora com a porta aberta. Os outros robôs menores agarraram Fernando e Gabrielle, levando-os para o escuro do depósito gelado logo em seguida. Os três gritavam, esperneavam, chamavam por socorro, tentavam apoio nas prateleiras e em tudo o que houvesse pelo caminho onde eles pudessem segurar, mas de nada adiantava, o mercado pareceu vazio e sem vida repentinamente, como se nunca aberto antes, um silêncio mortal imperava na ala dos frios sendo cortado por gritos de socorro.
- Nunca gostei de cabras! Nunca gostei dessas malditas cabras! – Gabrielle tentava se defender com o salto do sapato, inutilmente, o que lhe prendia era de metal reforçado.
Mal sabiam eles, fora tudo planejado. Outros robôs menores interditaram os corredores de aceso à ala de produtos congelados com a falsa afirmação de piso molhado, por isso ninguém os via os ouvia, no resto do prédio a festa rolava solta com música alta e diversão, ninguém jamais os escutaria.
Do lado de dentro do frigorífico, Robert, o capataz de Alberta esperava pelo grupo seqüestrado com um sorriso maligno no rosto oculto por uma cortina de lingüiças penduradas num varal, ladeado por um homem e uma mulher vestidos de branco dos pés à cabeça.
- Você! – gemeu Max, com ódio.
Robert tinha em mãos duas provas do crime, duas provas de que Maxine e Tifa estiveram lá: um pirulito azul dentro de um saco plástico conservante e um fio de cabelo escuro no outro.
- Sua idiota! Olha o que você fez! Você nos trouxe direto para a boca do lobo! – gritou Gabrielle.
- Sua amiga tem toda a razão, Max – riu Robert, sarcástico – você voltou à cena do crime, você voltou direto para a minha boca!
- Você não pode! Você não vai! Eles vão sentir a nossa falta! Vamos ser dados como desaparecidos! Eles vão nos procurar em todo o lugar! Você e a sua Alberta estão perdidos se não nos deixarem sair daqui!
Robert gargalhou alto, sua voz retumbando feito trovão pelos quatro cantos do galpão gelado.
- Tola! Você é uma tola! Assim que você virar carne e estiver nas prateleiras desse super mercado, todos os seus registros e o dos seus amiguinhos aqui serão apagados da ESFERA, será como se vocês nunca tivessem existido!
- Eu vou acabar com você! – Fernando lutava contra os braços mecânicos que o prendiam, se contorcia feito um animal capturado, violentamente, chutava e socava, sem obter efeito algum. A cabra que o segurava forte torceu seu braço e o fez gritar de dor, isso foi o bastante para fazê-lo parar. Gabrielle estava chocada demais para fazer alguma coisa, parecia tão robótica quanto a máquina que a prendia.
Os olhos de Maxine saltaram, seu grito sofrido cortou o mundo naquele momento, mas a música era alta demais para que alguém pudesse ouvi-la.


Fim da Parte Seis!

The Big Machine II - Parte 5



- Isso é completamente insano, Maxine – vovó Augusta abriu o forno e retirou de lá uma bandeja cheia de suspiros, ali naquela fornada havia o bastante para alimentar toda a turma de Maxine, que naquele momento abarrotava a cozinha do apartamento da velha sem ter nem onde se sentar. Miguel e Fernando estavam de pé, Maxine e Tifa sentadas nas cadeiras e Gabrielle brincando com o cachorro, ajoelhada no chão quadriculado. – aquela mulher não recebe ninguém, absolutamente ninguém diretamente no escritório dela!
A velha largou a bandeja na mesa e colocou as mãos na cintura. Os adolescentes, netos de seus amigos de escola atacaram os quitutes na mesma hora.
- Mas ela vai me receber! Ela vai receber a todos nós! – Maxine foi a única que não levou o doce à boca. – ou eu não me chamo Maxine Fernandes! – deu um soco na mesa.
- Quebra essa mesa, sua moleca, que teu avô vai pagar! – vovó Augusta era mãe de Stéphanie, e era uma senhora de idade muito comum para aqueles tempos. Tinha algumas tatuagens nos braços, gostava de andar sempre maquiada e de cabelo feito, tingido de preto, as unhas sempre pintadas numa cor diferente a cada dia, era uma velha e tanto. Gostava de cozinhar às vezes. Nas raras vezes que a jovem Maxine a visitava.
- Desculpa vovó – Maxine recolheu as mãos para o colo e deu uma risadinha amarela.
- E vovó nada, pode me chamar de Guta, eu já disse! – ela ajeitou a franja. – assim você me faz sentir velha demais. E eu sou macaca do rabo pelado, mas nem tanto...
- Dona Guta, é verdade que você chegou a fazer colegial com a velha Alberta e o braço direito dela, a Miranda Hesketh? – Gabrielle levantou-se e encostou-se na parede, com as mãos nos bolsos. O cachorro continuava pulando na sua perna. Um cachorro biônico que tinha função de alarme contra assalto e incêndios e nas horas vagas servia de aspirador de pó.
- Não só eu fiz como os avôs de todos vocês fizeram! – a velha Augusta fez uma careta e virou-se para a porta da geladeira, espelhada, para dar uma olhada na aparência. Fez uma careta ao lembrar-se da intragável Alberta Veronese em seus tempos de adolescência – mas vocês não têm noção de quem era essa Alberta no colegial! – a velha vaidosa puxou uma cadeira e sentou-se – aquilo era metido à gente que vocês nem imaginam! Tinha o rabo desse tamanho, achava que era a dona do mundo, se achava melhor do que os outros, fazia pouco das pessoas por trás e pros adultos e professores fazia cara de santa com aquele cabelinho loiro enroladinho, aquela vagabunda... E o pior é que a safada era inteligente mesmo, não se podia negar, aquilo era um gênio... Mas um gênio do mal, com certeza – a mulher tomou um gole de chá verde e ofereceu xícaras pro resto do grupo, compenetrado na história. – ela era o tipo de pessoa, o estereótipo que vocês vão encontrar em qualquer escola do mundo! A garota loira, boa moça, inteligente e maligna, o tipo de pior espécie, aquilo que vai longe, sabe? – Augusta deu uma gargalhada – e o pior é que a safada era sapatão, e era hipócrita até o osso, E AI DE QUEM DISSESSE QUE ELA ERA ISSO! – disse, dando voltas com o dedo indicador no ar, fazendo pouco. Suas deslumbrantes argolas verdes sacudindo nas orelhas. Os garotos riram à beça da mulher, ninguém usava aquele termo depreciativo e pejorativo há muito tempo. Vovó Augusta tinha um ar adolescente tão aconchegante que os deixava muito à vontade para fazerem piadas e soltarem gargalhadas. – isso é o mínimo que eu posso adiantar dela, antes de todas as outras coisas. Ela tem algum tipo de síndrome do exclusivismo sabe? Se acha a poderosa. Nunca vai deixar vocês subirem ao escritório dela. Nunca.
Maxine arrastou a cadeira para trás.
- Isso porque ela ainda não me conheceu!
Augusta deu um tapa na mesa e se levantou.
- Ora, Maxine, meu poupe! Está sendo birrenta e mimada, menina! – fez a velha – era só uma boate! Só uma boate! Os pais de vocês têm dinheiro suficiente juntos para abrir outra, e aproveitem que o pagamento mensal da ESFERA está saindo esse final de semana!
- Não era só uma boate, vovó, era o ganha pão de muita gente, desde garçons à dançarinos e funcionários de limpeza, e inclusive o meu! Não parecia, mas eu ganhava pra ser DJ ali, e a senhora não sabe como é difícil hoje em dia arranjar um emprego nessa cidade, os bons cargos foram todos ocupados e a central de empregos computadorizada da ESFERA está mandando um bocado de gente de volta pra casa por falta de vagas todo dia...
- Deixa de besteira, menina! O que mais tem por aí é bar e boate abrindo, vocês encontram outro lugar pra brincar! – Augusta levou mais chá verde à boca.
- E aliás, acho que a empresa dessa mulher já tem prédios demais pela cidade! Já chega de laboratórios – Maxine estava quase ficando sem respostas.
- Isso, chega de laboratórios, com a cidade crescendo tanto, chega de laboratórios que produzem a nossa comida, vamos todos morrer de fome! – Augusta fez uma careta. – é por um bem maior, minha filha, vai por mim.



- Sabe, Max, acho que sua vovó está certa por um lado – disse Tifa, receosa, enquanto as duas caminhavam à noite para casa. A selva de neon povoada de tantas aberrações culturais nunca esteve tão radiante e colorida como naquela noite. Grupos de dança se apresentavam em plena via pública, artistas sobre pernas robóticas equivalentes às nossas pernas de pau dos dias atuais cuspiam labaredas de fogo, alienígenas de oito braços pintavam telas belíssimas à luz dos grandes prédios resplandecentes enquanto a batida frenética do Dark Disco retumbava nas células do metal, do couro, do vinil e do neon. Mulheres assustadoras desfilavam com sua maquiagem assombrosa e seus penteados insanos por toda a avenida, as lojas de departamentos apinhadas de gente, os shoppings daquela área lotados. Mistura maluca de Tóquio, Nova York e Índia.
- Acha mesmo que eu estou sendo infantil, Tifa? – apesar de toda a animação da Warhol’s Square, Maxine caminhava de cabeça baixa.
- Um pouco, na verdade... Existem um milhão de boates por aí, vamos arranjar um point novo, eu tenho certeza...
- Mas a Octopus era... a Octopus! – Maxine bateu com o pé no chão e olhou para cima. O prédio em forma de seta da “Fazendinha da Tia Alberta INC.” dividia a Warhol’s Square no meio, tendo em seu térreo um hiper mercado com tudo o que se tem direito. Os olhos de Maxine brilharam e ela agarrou o braço branco e gordo da amiga que derrubou seu querido pirulito azul no chão. – vamos, Tifa! Eu não vou ficar aqui zanzando pelas ruas sem fazer nada! Eu simplesmente não suportaria!
- Ei! Meu pirulito! – foi a única coisa que Tifa conseguiu gritar antes de ser arrastada pra dentro do mundo Texano que era o maior mercado do mundo. Aquele monstro fora projetado para ser um parque de diversões alimentícias, com direito a touro mecânico, fazendinha de animais-robôs super realistas, cascata gigante de leite desnatado e chapéu de caubói para os visitantes, sem contar as outras inúmeras atrações do parque e as infinitas opções de produtos para compra e consumo, todas sobre o carimbo tamanho 44 da Cinturão de Ouro. No hall central, uma vaca gigante balançava o rabo, soltava fumaça pelas ventas e mugia de verdade, e Tifa estava sendo arrastada em meio à tudo aquilo como um dos carrinhos de compras em alta velocidade, desgovernadas as duas adolescentes estavam.
- Onde será? Onde será? – Maxine estancou de repente, respirando com dificuldade, apoiou as mãos nos joelhos e abaixou a cabeça, seus cabelos escuros fora de moda grudados na nuca. As duas estavam na sessão de frigoríficos. – Onde está, onde está?!
- O que você está procurando hein?! – Tifa já chupava outro pirulito enquanto olhava as prateleiras térmicas lotadas de frangos assados na hora. Maxine não agüentou, teve de se sentar um instante no chão mesmo.
- A entrada para o depósito do frigorífico! – exclamou ela – todo super mercado tem uma porta escondida para os depósitos, e geralmente ficam perto da área dos congelados ou dos frigoríficos...
- Você é bem observadora hein? – a amiga esticou a mão para ajudar Maxine a levantar. As duas agora estavam de pé, de volta à caça.
- Não falei! Olha lá! – Maxine iniciou outra corrida desembestada, arrastando a pobre amiga de cabelos azuis junto com ela.
- Maxine, calma! Eu vou acabar vomitando meu lanche da tarde todinho!
Entre a sessão dos iogurtes e a sessão de carnes e peixes, Maxine e Tifa encontraram a porta para o freezer do país das maravilhas, e por sorte, sem nenhum funcionário ou cliente à vista para delatá-las. Se fossem pegas no ato, iam passar a noite numa sala de aula aprendendo a respeitar as leis do sistema operacional em prol de uma humanidade mais unida e respeitadora, o que era um saco, pra falar a verdade.
- E agora, qual o plano brilhante? – a voz da gordinha ecoava por entre as prateleiras acinzentadas do mundo gelado. O hálito das duas formava nuvens no ar daquele depósito. – olha só! Sorvete de uva! – Tifa largou o seu pirulito azul para atacar um dos potinhos que estavam dando sopa logo ali ao lado.
- Não toque em nada, Tifa! – Maxine deu um tapa na mão da amiga – Se não, atenderemos por roubo e vamos passar uma semana prestando serviços no jardim de infância da escola!
- Ahá! Eu sabia! Olha só! Outra porta! A porta para os laboratórios!
Aos fundos do galpão, uma porta de saída no canto esquerdo, escondida por uma arara cheia de lingüiças penduradas como casacos sobre a armação de ferro. Maxine hesitou: olhou para trás. Silêncio, frio, gelo e alimentos conservados.
- Vamos, Max, esse lugar me dá arrepios! – Tifa segurou no casaco da amiga. Mas e se por um acaso do outro lado houvesse guardas, seguranças ou funcionários esperando por elas? Como elas iriam lidar com isso? O que iria ser delas? Maxine fechou os olhos, prendeu a respiração e abriu a porta com toda a força. Do outro lado havia apenas um corredor deserto, um corredor redondo esterilizado com cheiro forte de hospital.
- Onde será que isso vai nos levar? – as duas prosseguiram a caminhada pelo sinistro corredor branco, sempre olhando para trás, atentas ao mínimo dos barulhos, pé ante pé, na surdina, sussurrando. Mas mesmo um sussurro ali soava feito trovão no teto côncavo.
- Você está ouvindo isso? – perguntou Tifa, tirando o pirulito da boca.
- O que? – Maxine estancou. Um arrepio lhe subiu a espinha.
- Parecem gritos! – Tifa fez uma careta de pavor e deu meia volta – não vou mais a fundo! Não vou! Vou pra casa porque tá quase na hora da vovó colocar a janta! – Maxine puxou a amiga de volta.
- Volta aqui!
- Eu não! Vai ver eles estão torturando os enxeridos que invadiram os depósitos como castigo! Eu é que não vou ficar pra saber de onde esses gritos estão vindo!
- Temos que ir adiante nisso! Agora a coisa ficou bem séria! – Maxine olhou para trás – temos que saber de onde estão vindo esses gritos e chamar a polícia! Vai ver eles estão fazendo algo fora da lei aqui!
- Não tem como, Max! A empresa da Alberta é um dos braços principais da ESFERA e do sistema dela! Se algo está sendo feito aqui é porque a central deu total permissão, e tenho certeza de que há uma explicação legal e lógica para todos esses...
Um grito feminino cortou o corredor. Até agora o mais alto de todos. As duas tremeram nas bases. Maxine correu em direção ao final do corredor, e ao ver duas sombras se projetando na parede da bifurcação onde o caminho se divide em dois, jogou-se no chão e pregou as costas na parede. Vozes ecoaram ali.
- Eu achei isso abominável! – disse uma voz feminina.
- Era apenas um clone, e defeituoso! Veio com câncer no útero! – explicou a voz masculina.
- Mas trata-se de uma vida, meu caro, uma vida HUMANA! Criada em laboratório, mas humana!
- Você só pode ser nova por essas bandas não é? Honre o seu contrato e fique calada, ou a central manda te matar assim que você sair daqui!
- Está ficando louco?! – a mulher ficou assustada.
- Não, doutora, são como as coisas funcionam. Se Alberta mandou, é porque a ESFERA mandou, e devemos obedecer bem calados.
- E o que acontece com os clones que são jogados aí, nessa sala?
- Você não vai querer saber...
Os passos caminharam pra longe. Maxine olhou para o lado direito. A amiga estava agachada feito uma sapinha ali ao lado.
- Fique aqui! Eu vou ver onde ele jogou o tal clone!
Max levantou-se e caminhou com o coração na mão, a passos lentos e calculados, os olhos do tamanho da lua, o peito quase criando vida própria. Uma porta dupla de metal encerrava o segredo. Estava entreaberta. Seus dedos morenos deslizaram para fora das longas mangas do casaco, tocaram no frio mineral gélido e opaco que refletia uma versão de seu rosto retorcida e mal formada. Os dedos deram o empurrãozinho que faltava para que ela pudesse ver uma multidão de mulheres penduradas de cabeça pra baixo naquele galpão, como frangos prontos para o abate, acorrentadas e amordaçadas, todas com o mesmo rosto de nariz de batata, cabelos loiros encaracolados e olhos quase fechados. Braços mecânicos as manuseavam para cima e para baixo, pendurando-as e desprendendo-as das altas araras para jogá-las em um monstro robótico incinerador ao qual os braços pertenciam. Maxine fechou a porta, virou para a amiga e sussurrou:
- Corra. Corra Agora.



Fim da Parte Cinco!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Explicações à parte...

Gente, me desculpem, sei que tá demorando um pouco pra chegar a parte da ação de verdade nesse novo The Big Machine, mas posso adiantar pra vocês que está faltando pouco para Alberta Veronese dar o seu golpe!

The Big Machine II - Parte 4


- Porcaria de frio! Porcaria de frio! – exclamava Alberta, passando pasta de cacau nos lábios em curtos intervalos de tempo. – se os idiotas do mundo tivessem dado ouvido aos avisos antes! Agora olhem pra isso! Olhem! “Não, vamos continuar jogando carbono na atmosfera! Estamos lucrando mesmo!” – fez ela, sarcástica – bando de filhos da mãe! Se eles soubessem o quanto é difícil e caro criar comida artificial em laboratório, tinham parado com a porcaria da poluição a tempo!
- Dê-me a sua mão, senhora, eu lhe ajudo a descer – ofereceu-se o co-piloto do helicóptero. Alberta Veronese deu-lhe um tapa na mão.
- Tá pensando o que? Que eu sou alguma velha acabada?! – gritou – eu sei muito bem descer sozinha! Com licença! – ela empurrou-o, bruta, e desceu pisando firme no chão de gelo, fincando pé na neve macia com o salto da sua bota. O uniforme era o mesmo, mas agora tratava-se de uma versão própria para o frio constante europeu. O aquecimento global e a inversão térmica tornaram grande parte do hemisfério norte do mundo uma grande calota de gelo. A Europa conserva hoje em dia apenas 15% da sua população anterior, o que ainda é muita gente. O frio em algumas áreas chega a -60º no inverno, o que torna insustentável a habitação constante daquele local. Grandes cidades como Paris e Londres viraram apenas ruínas de gelo, constantemente explorada por antropólogos, arqueólogos e sociólogos mundiais, vindos do hemisfério sul do globo, onde se encontra 80% da população mundial em grandes capitais como Dubhai, Neon City e outras.
- Onde está a maldita ruína?! – berrou Alberta. Ela era acostumada a dar berros constantemente, mas nunca imaginara que sua voz esganiçada fosse ser tão necessária. O vento forte e a nevasca faziam tudo virar um inferno, era impossível de ouvir alguma coisa dita a baixos decibéis.
- Você está pisando em cima dela, senhora! – gritou o co-piloto.
Alberta ergueu seus olhos para a paisagem. Não teve coragem de levantar seus óculos de proteção. Até porque era altamente desaconselhável, a não ser que você queira ter suas córneas congeladas. No horizonte, robôs gigantes trabalhavam retirando a terra e a neve na paisagem cinza. Homens e mais homens desciam e subiam da cratera gigantesca, 21 km de cratera, para ser mais exato.
- No momento eles estão procurando a entrada do laboratório, minha senhora. – esclareceu a chefe de exploração e cientista-chefe oficial de Alberta, Mariana Hesketh, era esta a mulher que estava no controle por aquelas bandas. Estudaram juntas praticamente a vida inteira, separando-se apenas com a chegada do período em que cursaram faculdade. Mariana resolveu fazer Farmácia, e acabou se tornando uma exímia manipuladora de compostos químicos e da ciência. Como grande amiga de Alberta, acabou sendo a primeira cotada para o cargo de braço direito da velha fazendeira quando a ESFERA deu-lhe o ofício logo quando chegou a Neon City. As duas costumavam ficar sempre em primeiro e segundo lugar com relação às notas na lista de melhores alunos da turma. Eram dois cérebros e tanto.
- Quero que encontrem essa entrada o quanto antes, Mariana, precisamos ligar essa máquina urgentemente!
- Você acredita mesmo que essa parafernália toda ainda funciona depois de 40 anos debaixo de nevasca constante? Eu duvido muito, amiga, vai por mim... – Mariana ajeitou seu penteado Chanel em V, o vento o estava destruindo completamente. Já era uma velha àquela altura, mas uma velha muito conservada, ao contrário da amiga. Ela costumava se cuidar bastante, sempre teve o rosto muito limpo, desde a adolescência, era uma das mais bonitas da turma. Agora estava magra, praticamente seca, seus cabelos lisos escuros agora curtos e brancos, o que reforçava seu ar de superioridade mais ainda.
- Sejamos otimistas, Mariana, isso não pode falhar, não agora! Estou a apenas um passo de encontrar com Maurice, apenas um passo e ele me dirá como assumir o controle da ESFERA!
- Você sabe que estamos enviando informações falsas para a central da ESFERA, tanto do laboratório central em Neon City quanto daqui das explorações, e isso é crime duplamente qualificado contra a Ordem e a Segurança Mundial.
- Somos inteligentes o bastante para driblar aquela sucata – Alberta tirou os olhos da paisagem e voltou-se para a amiga, que por trás dos óculos de proteção e dos cabelos brancos tinha um ar de descrença e desesperança. – ora, vamos, Mariana! – tentou animar – a ESFERA é só uma máquina, ela não é Deus!
- Mas é justamente disso que tenho medo, Alberta – Mariana pegou as mãos da amiga e apertou. Era um exercício de aquecimento, mas também era um exercício de compreensão. – a ESFERA não é Deus. Deus teria piedade de nós se pedíssemos perdão. A ESFERA não. Ela é uma máquina, ela é exata, ela não tem sentimentos.
- Não se esqueça que ela é metade humana!
- Mas quem é o humano por trás dela? De quem é a metade do cérebro que é humana naquilo? Qual a verdadeira forma da ESFERA? Nenhum de nós sabe Alberta, nenhum de nós...
- Senhora! Senhora! – o ambiente estava repleto de esferas de metal flutuantes através de onde os trabalhadores se comunicavam. Uma delas veio voando até Alberta. – Senhora Alberta! Senhora Alberta! – as esferas comunicadoras eram equipadas com telas holográficas e duas antenas receptoras de sinal. As imagens exibidas logo em seguida pela esfera que veio até Alberta aos berros deixaram-na completamente chocada. Como ela poderia ser tão sortuda assim? – Senhora Alberta! Nós a encontramos! Nós a encontramos!
- EU NÃO TE FALEI? EU NÃO TE FALEI?! – Alberta sacudiu a amiga e deu-lhe um abraço nervoso de estalar os ossos. Um rosto surgiu na tela do comunicador, tratava-se de um dos operários de confiança de Mariana Hesketh.
- Nós a encontramos, Senhora! A entrada para o laboratório do Grande Colisor de Hádrons foi encontrada! – o homem aparentava muito nervosismo. A tela em seguida mostrou a porta e alguns outros homens retirando a terra e a neve com a ajuda de pás e braços mecânicos. Um tatu robô fazia o trabalho mais pesado que era tirar as grandes pedras do caminho, mas grande parte da entrada já era bem visível.
A velha gargalhou, e sua risada cortou a nevasca como uma lança afiada.

- Não tem muito o que fazer mesmo, Maxine, fica calma! – Miguel passava suas mãos nas costas da garota, isso costumava acalmá-la um pouco.
- Como eu vou ficar calma?! – gritou, cuspindo Ruffles pra todos os lados. Fernando, Miguel, Gabrielle e Tifa protegeram a cara. – a Octopus era a minha vida! Onde eu vou tocar agora? Na esquina da Warhol’s Square?! Olha bem pra minha cara!
- Maxine, por favor, você vai ter um infarto se continuar comendo tantas Ruffles assim! – Gabrielle recolhia do chão os outros três sacos de batatas consumidas pela amiga. Hoje Gabrielle estava mais chamativa do que nunca. Um conjunto violeta de couro com Strass por todo o corpo, um moicano vermelho e brincos gigantescos de miniaturas de saturno complementavam seu visual. Não era preciso nem citar a maquiagem. Sorte dela que nesses tempos é permitido quase qualquer coisa nas escolas.
- Tomara que eu tenha mesmo um infarto! Um infarto bem grande que me mate logo de uma vez!
- Não fala besteira, menina! Bate na madeira! – Tifa levou a mão ao peito, estarrecida, meteu seu pirulito azul na boca.
- Onde tem madeira? Onde? Nossos bisavós acabaram com tudo! – retrucou Maxine, revoltada – bando de leigos, isso o que eles eram!
- Não desconte sua raiva nos antepassados, Max – Miguel ainda tentava a tática de esfregar as costas. Maxine deu-lhe um tapa para que tirasse a mão dali.
- Eu tenho uma ideia – pela primeira vez após o fechamento da boate, Fernando se pronunciara, estava abalado demais para falar alguma coisa. Ele tragou mais um pouco do cigarro eletrônico à base de água e virou-se para o grupo. – vamos fazer um protesto, um protesto no prédio da empresa deles. Um grande e violento boicote.
- Acho que seríamos presos e passaríamos dois meses nas galerias subterrâneas – concluiu Tifa, que costumava piscar muito quando estava fazendo esforço pra pensar – e eu definitivamente não quero passar tanto tempo assim ali embaixo do estrume. Já pensou se algum cano estoura? Eu já ouvi uma história que...
- É tudo mentira, Tifa – interrompeu Gabrielle. – os canos do Sistema de Dejeto Ecológico não estouram nunca! O programa de TV falou sobre isso ontem. O nosso cocô desce pela tubulação, vai para os canais subterrâneos de tratamento, desce para as fossas e é transformado em energia, igual como algumas fazendas faziam no começo do século. Assim não esgotamos os últimos recursos naturais do planeta. – ela terminou com um sorriso.
- Nada de propaganda do governo aqui, Gabrielle, é por causa dele que estamos sem o nosso habitat natural. – disse Fernando, sério.
Maxine se levantou, catou o patinete e meteu a mochila nas costas. Olhou para todos os rostos de pé na calçada, todos desempregados e voltou-se para o grupo.
- Eu não sei vocês, mas eu vou fazer a Senhora Alberta Veronese ouvir algumas coisas hoje!

Fim da Parte Quatro! (tomara que não fique tão grande quanto o outro ‘-‘)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 3


Calculando Informações...
Checando database...
Checando dados recebidos...
Inicializando Protocolo...
Dados Comprovadamente Seguros.
Arquivando na central ESFERA...
Arquivado.
- NÃO! ISSO É FLOODING! ISSO É INFORMAÇÃO FALSA!
Olhos abertos, olhos castanhos enormes abertos, constatando a sua localização atual, sentindo o despertar para a realidade. E a realidade é: um quarto comum, sem muitos luxos, mas muitos livros, muitos pôsteres e muitos bichos de pelúcia. Uma cama, um guarda-roupa e infinitas prateleiras.
- Acorde Senhorita Maxine! Já é dia Senhorita Maxine! Seu horário deve ser cumprido Senhorita Maxine! Está atrasada Senhorita Maxine!
- Eu já entendi, Edwiges! Agora pare de ficar repetindo Senhorita Maxine se não eu vou acabar te reprogramando! – Maxine atirou uma almofada na coruja de metal com olhos verdes que batia suas asas em cima do guarda-roupa. Uma coruja-robô, biônica, inteligência artificial básica e antiquada.
- Não faça isso comigo, Senhorita Maxine! Eu executo o mesmo sistema operacional desde 2020 Senhorita Maxine, seu pai lhe mataria Senhorita Maxine! – a coruja-robô desceu do guarda-roupa batendo suas asas metálicas e dando voltas completas em seu pescoço de metal, produzindo ruídos de ferrugem e maquinaria.
- Você está muito antiquada, Edwiges. Acho que está na hora do papai te trocar... – Maxine abriu o guarda-roupa, e aquilo que parecia ser um simples armário de madeira revelou ser na verdade a porta de entrada para um mundo que a garota chamava de closet. As gavetas de baixo abriram-se formando degraus, pelos quais Maxine subiu.
- Ele não o fará, Senhorita Maxine, eu sou relíquia de família, Senhorita Maxine! – a coruja foi logo atrás, com todos os seus ruídos e seus estalos pneumáticos de tecnologia ultrapassada. Maxine parou e virou-se.
- Edwiges, por favor, eu te peço – a garota juntou as mãos – vá procurar o que fazer! – gritou.
- Só executo uma tarefa se ela me for ordenada, Senhorita Maxine, especifique o que você quer que eu faça, Senhorita Maxine!
- Tudo bem! Tudo bem! – Maxine levantou as mãos pro alto em sinal de redenção – eu quero que você vá perturbar o Gustavo!
- Com todo o prazer, Senhorita Maxine! – Edwiges voou pra longe, saindo pela porta entreaberta, cantando algo como “senhor Gustavo, senhor Gustavo! Eu vim lhe perturbar, Senhor Gustavo”. Alguns segundos depois, Maxine ouviu os gritos do irmão aos fundos do canto da coruja, correu até a porta do quartinho e trancou-a antes que o garoto viesse socá-la como costumava fazer, e voltou para o seu mundo infinito de roupas, sapatos e acessórios, escondidos por um humilde guarda-roupa de madeira. Com o controle remoto nas mãos, Maxine apertou no mínimo uns seis botões, e eis o que aconteceu:
Um figurino vermelho completo com macacão vermelho de vinil, óculos Rayban SkyDrive, lançados recentemente com um design incrivelmente aerodinâmico e botas pretas. Maxine esticou os braços na direção das roupas e então as cores das suas unhas mudaram automaticamente de prata para vermelho ao reconhecerem o figurino de mesma coloração que estava diante delas. As mulheres da década de 50 do século XXI não se preocupam mais com fazer as unhas, elas são substituídas cirurgicamente por placas holográficas que mudam de cor conforme o figurino escolhido.
- Isso sempre é o máximo. Nunca vou me acostumar com a ideia – Maxine suspirou, vestiu suas roupas, catou uma bota preta qualquer jogada debaixo da cama e saiu para o café. A família inteira estava reunida lá embaixo, numa mesa redonda: os pais de Maxine, Dominick e Stéphanie, os dois irmãos de Maxine, Gustavo e Alexandre e o vovô Umbrella, que estava sempre olhando para o vazio com cara de sono e fazendo anotações aqui e acolá. A coruja Edwiges ainda perturbava Gustavo.
- Maxine, eu vou te matar! – ameaçou o garoto.
- Nem vem com essa pro meu lado, a coruja é sua, arque com as conseqüências. E se eu encontrar ela no meu quarto de novo eu vou reprogramá-la!
- Sabe que se fizer isso o papai te mata! – disse o pequeno Alexandre, comendo um biscoito.
- É, sabe que o papai te mata! – imitou Dominick apertando a bochecha da criança mais nova.
- Bom dia vovô! – Maxine pulou no velho e deu um abraço apertado daqueles, como ela costumava fazer toda manhã. O vovô Umbrella sorriu. 64 anos de idade, tinha uma fortuna em seu nome, e uma mansão em algum lugar, mas pouco gastava agora, já fora muito famoso, e nos dias atuais apenas recebe os louros da vitória.
- Bom dia minha filha! – o velho retribuiu o abraço – e aí? Como vão as coisas na Octopus?
- Renovaram meu contrato para mais dois anos, acredita?! – Maxine vibrou.
- Nossa! Mas isso é incrível meu anjo! É incrível! – ele abraçou-a de novo – nós precisamos fazer outro remix como aquele então! Se eu soubesse que isso ia te ajudar tanto assim, teria feito melhor para que você fosse contratada por mais cinco ou dez anos!
Maxine deu um beijo estalado na bochecha do velho.
- Não seja bobo, vovô! O que você fez por mim já está de bom tamanho! Agora basta que eu mantenha o contrato e a qualidade do eletrônico experimental.
- Vamos lá pra cima quando você voltar da escola para dar uma olhada nos meus CDs, meu bem! Tenho uma música que vai ficar ótima nos seus remixes... – os olhos cansados do velho Christopher Umbrella bateram sobre o pingente triangular no pescoço de sua neta, e de animados e eufóricos seus olhos passaram para um meigo saudosismo em satisfação. Ele pegou a joia tecnológica entre seus dedos enrugados com delicadeza e beijou-a.
- Cuida bem disso, minha filha, cuida muito bem. Isso ainda vai te ajudar muito! – ele ergueu as sobrancelhas e o dedo indicador.
- Acha que já não está ajudando?! Toda a minha vida está aqui!
- A vida de todos nós está – vovô Umbrella fechou os olhos e voltou-se para o livro velho que lia. Sempre gostou de livros antigos, desde que era muito jovem. Maxine deu-lhe outro beijo.
- Vou indo, nem vou tomar café! Vou dar uma passadinha na Octopus antes de ir pra aula, esqueci meu arranjo de cabelo lá ontem à noite...
- Então corra, corra! – o velho fez um gesto para que ela seguisse caminho. Maxine correu para a porta da cozinha.
- Use a porta da frente, Max! Que péssimo costume esse de ficar saindo pelos fundos! – ralhou a mãe – os vizinhos estão reclamando que você anda pulando as cercas das redondezas pelo menos três vezes por dia!
- Tomara que o cachorro da Dona Valéria te arranque um pedaço da bunda! – praguejou Gustavo.
- Gustavo! – fez Dominick.
- BUNDA! BUNDA! ELE DISSE BUNDA PAPAI! – gargalhou Alexandre jogando comida no irmão e no pai.
- E você não fique repetindo o que ele diz! – Stéphanie deu um tapinha na cabeça do filho.
- Não faça isso com ele Steph, ele é só uma criança!
Aproveitando a confusão, Maxine saiu pela porta dos fundos mesmo, fazendo o velho Umbrella que a tudo observava silencioso dar risadinhas baixas de prazer, voltando seus olhos para o livro.
A casa de Maxine imitava as velhas casas coloniais alemãs. Seu teto era pontiagudo, o último quarto no último andar era o dela, o da janela redonda. Apenas uma coisa fugia ao padrão da arquitetura: a torre prateada onde ficava o observatório do seu avô, lá onde havia tanta velharia e tanta relíquia. O terreno da família de Maxine era estranho, era circular, ficava no centro do quarteirão, seu acesso se dava por quatro vias, quatro corredores de arcos ornamentados com trepadeiras que começavam nas calçadas das quatro ruas que formavam o quarteirão. Cercada de arquitetura aerodinâmica por todos os lados e prédios altos fazendo sombra, aquela casa parecia simplória, fraca e medieval. O gramado era verde e cheiroso, quase não parecia sintético.
Sua mãe era muito ocupada, empresária freqüentadora assídua da sua firma, advogada muito eficiente, estava de contrato assinado com a empresa de uma conhecida milionária chamada Alberta Veronese, que fornece produtos alimentícios de fazenda para quase todo o país. Stéphanie costumava reclamar todo dia de como Alberta era truculenta e hipócrita, muito longe da imagem de velha senhora meiga que aparece na televisão. Mesmo assim, Steph tirava pelo menos uma hora do dia para cuidar do jardim encantado que ela havia construído com tanto amor logo que o marido comprara a casa, a única do bairro que mantinha a arquitetura original. O pai de Maxine era astrônomo. Ou melhor dizendo, astronauta mesmo. Estava de férias por enquanto, acabara de voltar de uma viagem de 6 anos que fizera às ruínas de Marte, onde os antropólogos e os arqueólogos analisam os resquícios de uma civilização antiga que ali habitou. Maxine não o via desde os 10 anos.

E eis então as ruas movimentadas de Neon City. As ruas repletas de robôs, repletas de gente, repleta de alienígenas também. Turistas de outras galáxias passando as férias, gente com cabeça de cavalo e gente com cara de peixe. Maquiagens pesadas, acessórios exuberantes, bizarrices do dia-a-dia, anomalias da moda. Roupas gritantes, figurinos berrantes, penteados malucos e impossíveis, era isso do que Neon City era, em base, feita. Ali a festa nunca parava, e nem o trabalho também. Enquanto uns se divertiam outros davam duro na manutenção dos computadores que aquilo tudo controlavam. Maxine ia tranquila em seu patinete motorizado, ornamentado por ela mesma, era coberto por um adesivo especial que tornava sua aparência vítrea, uma caveira coberta de strass descansava grudada no guidão do veículo, fazendo par com o capacete que tinha uma versão deste crânio em menor escala.
- Mas o que é aquilo? – Maxine freou uma rua antes da boate. Em frente a Octopus, dois enormes carros-tanque cor-de-rosa com os dizeres “Fazendinha da Tia Alberta INC.” nas laterais, em vermelho, utilizando de uma foto da dita-cuja fantasiada de vovozinha fechavam completamente a frente do estabelecimento. O dono da boate, Fernando, irmão mais velho de Miguel, estava esbravejando com Deus e mundo na calçada. Dois policiais usando os uniformes brancos com a cruz vermelha, o símbolo da ESFERA, estavam parados um de cada lado, fazendo escolta a um homem de rosto conhecido. Maxine acelerou.
- O que está acontecendo aqui?! – a garota largou o patinete no chão e correu até Fernando, abraçando-o pela cintura e voltando seus olhos para o grupo suspeito formado por dois policiais e três homens trajando os uniformes de caubói das empresas da velha Alberta Veronese.
- O que está acontecendo, Maxine? O que está acontecendo? Esses idiotas têm um documento que comprova que a empresa deles comprou o prédio da boate! É isso!
Os olhos de Maxine se esbugalharam, aterrorizados pelo futuro. Os dançarinos e os garçons (incluindo Miguel, ainda sem blusa e de gravatinha), até mesmo os freqüentadores da boate, começaram a sair e a se amontoar ao redor da cena, confusos, assustados, decepcionados. “a boate vai fechar?” eles perguntavam. Os passantes e pedestres também começaram a parar para ver o que estava acontecendo. Maxine, por reflexo, correu até o homem de preto que carregava a prancheta com o documento, pegou-o pelo colarinho e mandou as seguintes palavras:
- VOCÊ NÃO VAI FECHAR ESSA BOATE, NEM POR CIMA DO MEU CADÁVER!
Robert sorriu, sarcástico.

Fim da Terceira Parte!

domingo, 4 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 2




- No ano de 2012, o cérebro humano uniu-se ao cérebro eletrônico, formando assim, algo totalmente novo, nunca antes visto na face da terra – a voz grossa como um trovão ribombava nas paredes côncavas de metal. O trono negro flutuava no centro da gigantesca esfera oca que era a sala de controle, erguida no ar por puro magnetismo como as Montanhas Aleluia de Pandora. – nos 20 anos seguintes, o mundo foi falecendo aos poucos até tornar-se 60% inabitável, quase tudo estava perdido. Mas os cálculos nunca param, e o grande cérebro, a ESFERA, chegou ao seu denominador comum: para que as máquinas e os homens pudessem coexistir em harmonia, eram necessárias condições sustentáveis para que a vida no planeta não se extinguisse por completo. Neste meio-tempo, Neon City não passava de mera base de controle no meio do deserto que antes era a floresta amazônica, e a partir daí ela foi se desenvolvendo solitária, até tornar-se um oásis tecnológico no meio do nada. Aos poucos os homens começaram a chegar e a se abrigar nas unidades a eles destinadas, baseadas em tudo o que já fora feito pelos próprios para proporcionar as condições e o conforto necessário para a perpetuação da espécie humana. E desde então, homem e máquina coexistem em equilíbrio, como Yin e Yang ajudando um ao outro, um não poderia existir sem a ajuda do outro. A explicação para esta cooperação é que a grande ESFERA tem sua consciência sendo metade humana e metade cibernética, sempre pensando em harmonia pelo bem das duas faces da moeda...

Placas de metal desprenderam-se das paredes e formaram degraus diante do trono, levando a uma plataforma sustentada por cordas de cobre logo abaixo. O ser que ali estava sentado iniciou sua trajetória de descida em direção ao móbile gigantesco que levava à saída.

- Mas quem está no comando? Quem controla a ESFERA? Ninguém sabe, não fazemos ideia! Somos apenas marionetes da ESFERA, um cérebro semi-artificial trancado a sete chaves há níveis absurdamente inferiores no subsolo desta cidade. – a capa vermelha esvoaçou, puro charme. O salto alto vermelho das botas estalando no metal; As unhas compridas afiadas sugeriam perigosa mulher trajando vestes tão estranhas. Suas calças eram de couro puro, ainda cheiravam a boi fresquinho mesmo depois de tantos anos em uso. A blusa quadriculada de mangas compridas e estranhos detalhes remetiam ao Texas, arrematando-a estava o chapéu de caubói, bege, uma cor feia, mas que deixava seus cachos encaracolados louro-escuros mais realçados.

- EU DEVERIA ESTAR NO COMANDO! ALBERTA VERONESE! – rasgou-se a capa vermelha, caindo em farrapos sobre o chão gelado. – quem vai me garantir que estas malditas máquinas não vão se rebelar? Quem vai me garantir que essas malditas máquinas não estão armando contra nós enquanto estamos aqui, levando vidas pacatas iludidos pelas cores vibrantes do neon?! – pés pequenos, quadris largos, cabeça minúscula. Essa era Alberta. Mais conhecida como “O Cinturão Dourado” por causa de seu ilustre cinto de ouro, relíquia dos tempos em que ela fora lutadora de vale-tudo nas caravanas do deserto há 30 anos atrás. Nele lia-se a temida duplicação seguida do número quatro. 44 era o número. O número de Alberta. O número de vezes que ela fora campeã do deserto!

- Tens toda razão, minha senhora – surgiu das sombras este homem, trajando praticamente a mesma roupa que a de sua ama, porém em cores mais pesadas e escuras. Ajoelhou-se perante ela. – apoio totalmente a tua ascensão – e beijou suas mãos brancas. As mãos brancas da velha de 64 anos.

- Levanta-te, Robert, temos muitos contratos para assinar ainda com as transportadoras contratadas! Neon City produz hortaliças, aves, bovinos e peixes para as outras cidades menos desenvolvidas desse deserto infinito, não podemos dormir em serviço... – ela puxou-o pela gola da blusa – e as escavações na Europa? Como vão indo?! – os olhos apertados da velha Alberta brilharam. Olhos de Heath Ledger envelhecido.

- Foi bom ter me lembrado, chefe! – Robert deu risadinhas e balançou seu cabelo encaracolado de leve – pois foi justamente por esse motivo que aqui vim ter com a senhora!

- Então desembucha, homem, que não tenho tempo!

- Os nossos subordinados infiltrados na empreiteira que patrocina as escavações já encontraram o que a senhora procurava! O Acelerador de Partículas já foi localizado nas ruínas próximas à Genebra, e se os rumores dos ciganos estiverem corretos, a coisa ainda funciona!

Alberta pulou no pescoço de seu subordinado e distribuiu beijinhos em seu rosto, abraçou-o tão forte que foi possível ouvir seus ossos estalando em eco pelo local.

- Eu sabia que você não me decepcionaria, Robert! Seu avô acertou em cheio ao me indicar os seus serviços! – ela seguiu caminho em direção à saída. A porta circular abriu-se como fosse o mecanismo interno da lente de uma máquina fotográfica. – se o que eu vi há dois anos no laboratório do Doutor Maurice Lispector for realmente verdade, há uma realidade alternativa onde ele controla uma máquina gigantesca em forma de torre chamada “The Big Machine”, utilizando do cérebro de um ser humano! No caso, aquela menina magrela que estudava com a gente... Como era mesmo o nome dela? Carmen! Carminha Parafuso! E só poderemos acessar a esta realidade com o Acelerador de Partículas, que com as coordenadas certas será capaz de criar uma falha no tempo e no espaço que vai me mandar direto para lá!

Ela parou subitamente, estendeu a mão pro alto e voltou-se para o seu servo.

- Ou melhor dizendo, controlava... – ela jogou os ombros pra trás e a barriga pra frente – ele já morreu mesmo! – e gargalhou em seguida. Robert gargalhou junto a ela.

- Eu não entendi patavinas do que a Senhora disse, mas me parece ótimo! – e tornou a rir. Alberta endureceu seu rosto velho e rústico, dando-lhe um tapão nas costas. Robert calou a boca assustado.

- Então não ria, sua mula! Me acompanhe!

E os dois saíram da sala.

- É absolutamente fatigante usar a “Fazendinha da Tia Alberta S.A.” para esconder esse laboratório de experiências clandestinas! – ela e seu fiel servo atravessavam um enorme salão naquele momento, repleto de balcões de ponta a ponta. Bioquímica, Mecânica, Física Quântica, Eletricidade, Robótica, ali tudo era separado por alas imensas e exclusivas, experiências ali eram realizadas, experiências completamente proibidas pelo tratado de paz entre homem e máquina, pois visavam unicamente e exclusivamente a ascensão pessoal de Alberta Veronese e seus objetivos, que sempre estava a procurar uma maneira de ultrapassar as máquinas e assumir o poder de Neon City, o olho do mundo.

- Opa, Opa! Cuidado com isso aí, Yukari, vai acabar tirando o olho de alguém! – Robert jogou-se no chão ao perceber um braço mecânico descontrolado girando uma broca de diamante em sua direção. Mais à frente, cinco grandes tanques erguidos numa plataforma e alimentados por imensa tubulação continham clones de Alberta flutuando em placentas artificiais. Ela correu até eles e acariciou o vidro.
- São perfeitos, perfeitos! – e beijou cada um dos tanques – continue assim, Elídio, está indo muito bem! Assim não morrerei nunca! Sempre haverá uma cópia a me substituir. Basta transferir minha consciência para elas...
- Através de impulsos eletromagnéticos! – completou o cientista, piscando para a mulher que imitou um revolver com os dedos.
- Vai nessa, caubói! – e fingiu disparo.
A dupla saiu do laboratório conjunto e adentrou num corredor prateado infinito, sem portas, sem quadros, sem nada, liso e brilhante, refletindo a luz das lâmpadas fluorescentes.
- Prepare meu jato particular esta noite, Robert! Parto para a Europa amanhã mesmo, quero acompanhar de perto as alterações que devem ser feitas no Acelerador... – e seguiu caminho, peito pra cima, nariz empinado, voz grave e controladora. A temida fazendeira, Alberta Veronese.
Fim da Segunda Parte!

A Pedra Que Rolou


Era uma vez um pedra. Ela era cinza e gorda e vivia no alto de uma montanha, lá no topo, toda pomposa, toda pedregosa, toda bruta e mal-amada.

Um dia uma águia pousou bem em cima dela, e então ela iniciou uma queda longa e duradoura, que foi ficando cada vez mais rápida e violenta com o tempo. No caminho, a pedra ia levando junto consigo árvores, animais e até mesmo outras pedras. Levava casebres também até que a neve também acabou sendo levada junto, e todo aquele bolo de coisas ruins virou uma avalanche que desceu a montanha com bruta violência e espatifou tudo lá em baixo.

A Pedra foi a primeira que se destruiu, bateu contra uma parede de pedra e virou areia, que foi carregada pelo vento e misturada às impurezas, e ficou espalhada pelo mundo e esquecida pra sempre...

Às vezes por impulso dos outros nós acabamos fazendo coisas que podem destruir tudo e magoar as pessoas que estão ao nosso redor, a grande verdade é que devemos estar nos policiando o tempo todo para não sermos inconvenientes, intragáveis, abusados e às vezes até violento que nem a Pedra. Ninguém gosta de gente abusada, nem de gente metida e nem de gente inconveniente, por isso meça suas atitudes antes de fazer alguma coisa e pense duas vezes antes de magoar alguém.


/dica

sábado, 3 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 1!



A grande fusão cultural de 2012 deu origem a uma geração de seres humanos totalmente evoluídos, todas as culturas e todas as religiões do mundo sofreram uma convergência harmônica que tornou o ser humano mais globalizado e menos individualizado, estabelecendo o verdadeiro significado de cooperação, coletividade e respeito. Surge então a sociedade perfeita, onde crimes são punidos de acordo com o seu grau de gravidade e justamente, onde há realmente direitos iguais para todos.
O mundo sofreu um “boom” cultural e artístico, os jovens da década de 50 do século XXI são influenciados pela cultura do exagero e do exibicionismo da década de 80 do século XX. O dito “glam rock” fundiu-se com o synth-pop, o indie, o Punk e o Dark, dando origem ao estilo de vida (e musical) Dark-Pop, que dita às regras neste não tão distante futuro.
A capital mundial da arte e da cultura, sendo consequentemente o olho industrial do mundo, chama-se NEON CITY, uma cidade que levou 40 anos para se auto-construir a partir dos destroços do Apocalipse Social do final da primeira década do século XXI, atingindo o seu grau de perfeição tendo como base a infraestrutura auto-sustentável perfeitamente calculada pelo cérebro gigante chamado ESFERA em 2050.
Isso tudo só foi possível após a fusão do cérebro humano ao cérebro da máquina, a união do útil ao agradável, uma convergência evolutiva que uniu todo o mundo numa super rede cerebral que interliga a todos por meio de impulsos eletromagnéticos. NEON CITY como o nome já diz, é a cidade de neon, onde todos os prédios, os carros, as casas, os postes e até mesmo as pessoas são cobertas por neon, numa espécie de futurismo absoluto feito de cor e expansão cultural. Nesta cidade repleta de cinemas, teatros, museus, casas noturnas, shoppings e centros culturais é onde nossa história começa...




Selva de Neon. Vinil e couro. Metal por toda a parte, cobrindo os corpos, cobrindo os esqueletos dos carros. Penteados coloridos, cabelos exuberantes, colares exagerados, óculos psicodélicos, piscando suas luzes hipnotizantes sem parar. Eletrônica no último volume, corações faiscantes nas paredes, colunas dóricas e coríntias como em ruína aqui e ali. Dançarinos suados em cima de palcos improvisados. Danças frenéticas e moicanos absurdos.

- Eu simplesmente não acredito! Isso por um acaso é um Rayban Wayfarer?! Que ridículo, ninguém mais usa isso Maxine! – exclamou a garota gordinha de penteado Chanel azul curtíssimo.

- Ninguém usa isso há mais de 40 anos, você quer dizer! – chegou cheia de ginga, do tipo mais estranho, uma garota de gargantilha metálica e jaqueta coberta por pequenos espelhos quadrados que em conjunto formavam uma verdadeira couraça refletora que parecia incendiar juntamente àquela cabeleira vermelha farta da garota. – sério, Maxine, toma cuidado com isso. Além de ser ridículo, também é uma raridade, não se vê um em tão perfeito estado desde 2014, quando sua avó andava em jipes pelo deserto!
Na parede principal da casa noturna Octopus o relógio universal em forma de octágono marcava a data: 17 de Setembro de 2057.

- Fala Gabrielle! – as duas fizeram seu toque particular, choca os cinco de cá e choca os cinco de lá, elas se abraçaram – Vai ver isso vale uma fortuna e eu nem sei! – os olhos castanhos de Maxine iluminaram-se feito duas grandes estrelas apocalípticas num céu escuro. As três amigas viraram suas taças de bebiba fumegante e mostraram a língua gargalhando. Fosforescentes elas estavam agora.

- E a que horas você troca de lugar com o DJ, Maxine? – perguntou a gordinha bebendo mais um pouco do Néctar de Afrodite. Assim era chamada a bebida mais famosa da década de 50 do século XXI.

- Falta meia horinha só... Duas e meia da madrugada eu entro – Maxine vibrou dos pés à cabeça, quase cuspiu a cereja de Afrodite na cara das amigas – vocês não fazem noção do remix que eu fiz pra essa noite! Não fazem mesmo! Eu peguei uma música muito antiga, muito antiga MESMO! Meu avô guarda umas coisas muito tensas na torre lá de casa! Tem um baú cheinho de CDs! Ouviram? CÊ-DÊS!

Gabrielle foi forçada a levantar os seus óculos de arame trançado que imitavam um gradeado de tela para olhar bem na cara da amiga, piscando rapidamente seus cílios postiços gigantescos e azuis que lembravam borboletas fulgurantes.

- Tá de brincadeira?! – fez ela. – eu nunca cheguei a ver um CD na minha vida! O meu avô tem uma porcaria de um computador de HD mole no quartinho dele que só tem músicas em formato MP3, nunca vi um CD!

- E nem vai! Essas relíquias não saem do sótão! – Maxine alisou um dos garçons que passava ali por perto, calça de couro, gravata borboleta, sem blusa, cabelos espetados para trás. – Miguel, querido, vá buscar uma bebida para nós, sim?
O cara bufou, pegou as taças e saiu pisando firme.

- E ajeita essa cara! As clientes não gostam de caras mal-humorados! – gritou Gabrielle, sem olhar pra trás.

- Vai se danar, ô alegoria! – gritou ele de volta. Gabrielle lhe devolveu o dedo do meio bem alto.

- Esse garoto me irrita. – fez.

- Ele é legal, mas não sabe levar as apostas na esportiva – Tifa, a gordinha de Chanel azul deu de ombros. – quem aposta com Maxine Fernandes não tem noção do perigo.

E então houve mais um toque de amigas. As duas deram risadinhas.

- E então, Max, faltam 5 minutos pra você subir na SpaceCowboy... Vai mostrar o tal do remix?

- É claro que vou! Hoje à noite isso aqui vai pegar fogo!

Gabrielle fez um bico e se abanou. As três riram.

Maxine ajeitou-se dentro do vestidinho curtérrimo Giorgio Armani New Generation, prateado, aerodinâmico e todo trabalhado no futurismo, alisou suas botas e escalou a escada na parede que levava à cabine do DJ, para encarar o monstro eletrônico que era a mesa SpaceCowboy. O Pen Drive da garota era sua alma, o que ela tinha de mais importante, era sua essência pura, tudo o que havia de mais importante estava ali. Fotos da família, músicas, vídeos, filmes, livros inteiros, uma biblioteca digital, programas dos mais variados e por último e mais importante, seus remixes. Tudo isso em quase 400 gigas, mal cabia em um terço da palma da sua mão. Um pequeno pingente triangular encaixava perfeitamente nas novas entradas USB da nova era.

- Não acredito! – o queixo de Tifa praticamente caiu. O pirulito azul que ela chupava foi pra dentro da lixeira que estava ao seu pé.

- E eu muito menos! – Gabrielle jogou seu cabelo pro lado – mas é Remedy, da Little Boots! De onde ela desenterrou isso?! O pessoal vai adorar, o povo daqui do Octopus tá numa onda retrô...

A festa rolou madrugada adentro, enquanto o enorme móbile de neon cor-de-rosa em forma de polvo girava vagarosamente esticando seus tentáculos elásticos sobre o público lá embaixo. A psicodélica Octopus era um palácio do qual Maxine Fernandes era a princesa. Ali, e em mais nenhum outro lugar, ela se sentia em casa de verdade...


FIM DA PRIMEIRA PARTE!