Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 16


- Nós sabíamos que havia alguma coisa errada quando as tempestades elétricas no deserto se intensificaram... Quer dizer que... Se o mundo de vocês acabar... – aquele que era Christopher, mas ao mesmo tempo não era, tinha um ar de sofrimento, de amargura, de solidão, dureza e abandono. Sua imagem era de arrepiar. Cabelos muito compridos, porém ralos desciam por sobre o único uniforme amarelo da congregação ao redor da mesa composta por homens e mulheres vestidos de preto, usando a braçadeira vermelha com o símbolo do triângulo de três braços. Aquilo mais parecia uma convenção nazista do que qualquer outra coisa. Era assustador. Christopher Umbrella, ou Saturno Revenge, era um homem apavorante.
- O de vocês também acaba, e vocês nunca poderão vencer Carmen Parafuso, porque essa dimensão e tudo o que existe nela, inclusive vocês próprios, vai sumir. – Christopher estava pouco à vontade naquela mesa redonda, com todos os rostos, conhecidos ou não, voltados para ele, o observando hora com desconfiança, hora com assombro, hora com atenção. Seus olhos passearam pela sala branca, se maravilharam com o incrível holograma que girava acima das suas cabeças reproduzindo o mesmo esquema que Maxine havia desenhado no chão da casamata, há meses atrás, em mundo não tão distante dali. Seus olhos brilharam como duas estrelas distantes quando o holograma mudou para a forma humana, uma mulher, usando um belo vestido do século XVIII, rosto de porcelana, olhos enormes e boca pequena muito bem desenhada em forma de arco de cupido. Christopher sabia quem aquele holograma imitava, mas achou melhor ficar calado a respeito. – vai ser como se vocês nunca tivessem existido...
- Você não se lembra, Chris? – fez Pietro, do outro lado da mesa redonda flutuante, branca e lisa, gelada como um iceberg plano flutuando num mar invisível – nós já estivemos aqui antes! Nós já vivemos isso antes! Eu não lembrava, mas agora eu me lembro, eu lembro de tudo!
- Sim, eu também me lembro agora – respondeu Chris, um tanto nervoso, não sabia se podia ou não contar o desfecho verdadeiro daquela realidade alternativa, contar que Augusta e Pietro daquele mundo eram traidores, contar que eles estavam sendo controlados pelo Doutor Maurice Angel Lispector que era o verdadeiro mentor por trás de The Big Machine, a CPU do mundo. A Augusta original, por sua vez permanecia calada, quieta, seus olhos como duas luas espertas passando de um rosto para outro, atentos à conversa, mas assustados e perdidos, ela não devia ter sido mandada para aquela missão.
- É claro que vocês dois se lembram, acabamos de mandar vocês de volta para o passado! – exclamou a androide com o rosto de Ray Ann. Era mesmo, Christopher quase havia se esquecido de que Ray Ann fora convertida em máquina após o terrível acidente na trituradora interna de The Big Machine. De repente ele se sentiu nostálgico, tinha uma intimidade acima do comum com aquelas pessoas do futuro, sentia-se de certo modo parte daquela história, aquela história não teria fim sem a ajuda dele e de seus amigos, e isso era um fardo e tanto! Era quase um orgulho! Saudosismo puro fazendo seu coração acelerar. Por onde essas memórias andaram dentro de sua cabeça? Como ele permitiu-se olvidar? Com certeza a Ray Ann do passado lembrava, eles foram os dois únicos que não tiveram a memória afetada. Lembrava como sua versão androide entrou pela janela, de como o rolo compressor destruiu a casa onde ela vivia com as tias, de como eles foram levados outra vez para o futuro alternativo, pela última vez, para salvar o curso da história. Era bravo, era heroico, era histórico.
- Não, não somos os mesmos – fez Pietro, abanando um pensamento como se fosse mosquito. – nós temos 17 anos agora, os que vocês mandaram para o passado tinham 16, são outros Pietro e Chris, de outra época, 2009. Nós somos de 2010! Havíamos perdido a memória, mas voltar aqui nos fez lembrar de tudo...
- Faz sentido – a androide deu de ombros e sentou-se. Christopher a analisava, talvez fosse bom não ter de tomar banho, talvez fosse bom fazer uma revisão de peças a cada semestre, trocar o óleo e as engrenagens, ter força sobre-humana, e um design de matar qualquer modelo de inveja. – só que ela ainda não havia vindo aqui – indicou usando um movimento rápido do rosto a uma confusa Augusta que fitava o vazio agora, se balançando na cadeira pra frente e pra trás. Talvez estivesse ficando louca.
- Não mesmo – Saturno Revenge fez um muxoxo e voltou-se para sua versão mais nova outra vez. – e então, vocês precisam de ajuda? Precisam do meu exército para salvar a sua dimensão?
- Mais do que precisamos, necessitamos – cruzou os dedos por sobre as coxas. – como eu já falei, estamos em estado de calamidade. Alberta acha que morremos na explosão da escola, mas a essa altura ela já deve saber que estamos vivos, e se ela conseguir destruir o Apocalipse Club, a realidade alternativa em que vocês vivem estará liquidada, e vocês desaparecerão antes de conseguirem derrotar a Carminha...
- Espera aí, está querendo dizer que nós conseguimos derrotá-la?! – uma mulher loira levantou-se na outra extremidade, com um sorriso de orelha a orelha. Era Suzannah.
Christopher e Pietro se entreolharam divididos e ansiosos. Haviam assistido muitos filmes de ficção científica para saberem que nada a respeito do futuro poderia ser revelado no passado, para que a posteridade não se comprometesse e o curso da história não sofresse mudanças drásticas. E se eles revelassem o desfecho daquela realidade alternativa? Com certeza Saturno Revenge e seu exército chegariam sem nenhuma cautela e com toda pompa à cidade, confiante da vitória, acabariam derrotados pelas Células e pelos outros robôs-insetos, e o verdadeiro futuro, de onde seus netos vieram, jamais iria existir. Seus netos iriam desaparecer como se nunca houvessem existido, e eles estariam à mercê de Alberta, Velma e Úrsula. A linha temporal é muito delicada para ser manuseada por leigos e despreparados, uma palavra mal interpretada pode arruinar vidas para a eternidade. No caso, o futuro de Neon City jamais existirá se o Doutor Maurice não for derrotado e esta realidade desapareça no tempo certo, na hora certa.
- Nós entendemos a cautela de vocês, rapazes – fez a voz grossa do Pietro que os resgatou no deserto graças ao aviso de queda de meteoro. O De Lorean só conseguiu sair desta dimensão e ir para outra graças às descargas elétricas poderosas da clava de Lana Palafita, sem isso eles nunca teriam chegado até aqui, e foi tudo tão rápido que eles caíram feito uma estrela cadente naquele mundo. – temos de ajudá-los, saturno, para o nosso bem...
O homem, o único de pé, ainda ponderava, sério, braços cruzado sobre o peito, olhar vazio. Havia algo que ainda incomodava Christopher, algo que deixava o seu peito apertado, atordoado com a possibilidade de algo horrível acontecer, daquela história ter um fim trágico. E se? Seus olhos recaíram sobre a androide que o analisava como ele o fizera há poucos segundos atrás.
- Ray – chamou Chris, baixinho. A mulher tomou um susto e levou o dedo metálico ao peito, apontando para si mesma. Chris assentiu, ela não hesitou em se inclinar para frente na mesa, para ouvi-lo melhor. – Ray, daqui há um mês, por favor, vá até o ano de 2009 e resgate a mim e a você! Um rolo compressor irá destruir a sua casa, e se nós ainda estivermos lá dentro, não haverá nem você e nem aquele cara ali – apontou para a sua versão carrancuda daquela dimensão. Ray Ann permaneceu calada, séria, apenas assentiu e não pensou em questionar. Aquele rapaz viera do passado, porém de um ponto muito mais adiantado. Ele sabia do que estava falando, e ela sabia o que tinha que fazer. – eles irão lhe mandar ao passado para que aborte a missão de “impopularizar” a Carminha, e você já sabe o que fazer. Tire-nos daquela casa o quanto antes.
- Pode contar comigo! – sorriu ela, exibindo o polegar. Christopher riu, reconfortado. A voz alta de Saturno Revenge invadiu a sala de convenções outra vez, quebrando ao meio todas as conversas paralelas parasitas que haviam surgido a partir do seu silêncio.
- Pessoal, reúnam todo o Arsenal necessário, preparem nossos melhores homens e os uniformes especiais para a guerra! Vamos salvar o universo! – socou a mesa. – está decidido!
Augusta, pela primeira vez desde que chegara ali, demonstrou algum tipo de emoção, reagindo às perspectivas de que ela talvez houvesse enlouquecido, levantando-se de sobressalto, gritou:
- GRAÇAS A DEUS! – respirou aliviada e debulhou-se em lágrimas, sendo consolada pelos comemorativos Pietro e Christopher. Recebeu em troca uma salva de palmas dos conferentes, inclusive de si mesma! Na verdade, de sua versão mais velha, e muito mais séria. Era hora de se preparar para o confronto final ente os Apocalípticos e a S.U.J.A.! Chris mal podia conter-se de felicidade ao imaginar a cara que aquela gorda asquerosa da Úrsula iria fazer quando visse uma tropa de robôs extra-dimensionais invadindo o território dela sem mais nem menos! E a cara da Alberta então?! Seria impagável ver aqueles olhos inchados completamente abismados, impotentes perante a sua derrota. O império das generais malignas estava com os dias contados!




Fim do Apocalipse Dezesseis!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 15


- Ray! Ray! Olha pra trás! Olha pra trás! – os que foram enjaulados sacudiam sua gaiola e se debatiam feito macacos em um bando nervoso, teimando em derrubar sua prisão temporária, desarmados e desprotegidos, sob o olhar atento da 9ª General nomeada da S.U.J.A., completamente cercado por um exército de cidadãos amapaenses hipnotizados fortemente armados e uniformizados, em estado de prontidão caso a ordem de fuzilamento fosse dada. As chances de escaparem de uma situação crítica como aquela era remota, impossível, mesmo que um dos integrantes do grupo houvesse ficado de fora, o que era o caso. Ray Ann havia se escondido atrás das cortinas do auditório e lá se manteve agachada, calada, mesmo após a invasão dos dois gorilas de metal que resistiram a todo tipo de laser ou projétil lançado por qualquer uma das armas potentes dos Apocalípticos, nem a incrível arma de Miguel conseguiu paralisá-los. Ray não suportou ficar escondida por muito tempo, não vendo seus amigos na mira de fuzis, bazucas, lasers e outras pistolas que ela nunca havia visto em toda a sua vida, ela tinha de fazer alguma coisa, mesmo sabendo que qualquer atitude que ela tomasse seria suicida.
Então eis o que ela fez: pulou de trás das cortinas feito uma pantera negra soturna e rápida, derrubou quatro soldados-zumbis com pouco esforço e esquivou-se da saraivada de lasers e balas escondendo-se atrás de uma das colunas que ainda restavam de pé, sustentando o teto do auditório. Lá atrás montou campana, presa e sobre forte pressão psicológica, arriscava-se vez ou outra, mudando de esconderijo, passando de uma coluna para a outra, usando-as como escudo enquanto atirava, seus disparos nem sempre eram bem sucedidos, e um dos lasers acertou em cheio uma das volumosas e escuras mechas de seu sedoso cabelo. Corte perigoso, este.
- PAREM! – gritou uma voz vinda do além. Os tiros cessaram no mesmo instante. Montado numa prancha prateada voadora, um vulto esguio encapuzado surgiu a jato, numa velocidade incrível, desceu do enorme e disforme buraco no teto do auditório, levantando ainda mais poeira, misturando a partida do De Lorean à sua entrada triunfal. Ray Ann parou de atirar ao presenciar aquela cena absurda: do que se trataria tal criatura? Uma espécie de duende verde macapaense ou o surfista prateado marajoara? Tragicômico seria se seu coração não estivesse tão acelerado e seus olhos escuros banhados por rios salgados de lágrimas nervosas. Respirava com dificuldade e tremia seu laser nos pulsos, tremia como nunca havia tremido, jamais havia se sentido tão sozinha e desamparada, nua, sem proteção alguma. Aquela garota superprotegida pelas suas tias, agora era uma mulher de uniforme borrachudo branco, com uma arma pesada em mãos, toda suja de reboco, sem uma mecha do seu adorado cabelo, tremendo feito um bezerro recém-nascido.
- Então você se acha forte o bastante para enfrentar a minha frota, sozinha, garota?! – debochou a voz, feminina, mas grossa. Primeiramente Ray Ann caiu de joelhos, suas pernas não suportaram o peso do seu corpo, mas forte e persistente, levantou-se e franziu o cenho, fazendo cara de má, pronta pra enfrentar o que viesse como a mulher de pulso que era. Ela tinha quase certeza de que aquela mulher misteriosa era Alberta, e se realmente fosse, estava perdida, porque ela não vinha sozinha. – o prédio está cercado, galera, vocês perderam! PERDERAM! Não sei o que vocês planejaram invadindo o quartel general, e não consigo imaginar como derrotaram Lana e sua clava, mas dependendo de mim, vocês não escapam... Se bem que... – retirou seu capuz, revelando um rosto conhecido, mais uma pertencente à elite escolar, ao time de basquete do Centro de Ensino Cyclone – os meus meninos fizeram um bom trabalho capturando metade grande parte do grupo!
Como boa vilã, sua gargalhada ecoou pelas paredes, sem fugir às regras da escola de vilania e clicherismo. Talvez fosse o hipnotismo, ou talvez fosse a roupa, quem sabe ela mesma possuísse aquela personalidade asquerosa, nenhum deles a conhecia o bastante para defini-la ou julgá-la, na verdade o Apocalipse Club sequer prestou atenção à ela alguma vez. Alexis Suçuarana era uma moça alta, distinta e até feminina perto da última macho-fêmea enfrentada pelo grupo na batalha mortal que quase levou à morte de todos. Enfrentar uma clava daquele tamanho não é pra qualquer um.
- Vocês do terceiro ano acham que podem tudo! – estalou a língua duas vezes e desceu sua prancha voadora até a jaula onde Maxine, Fernando, Miguel, Haruno e Fábia estavam de mãos atadas, sem reação e completamente desprovidos de defesa, à mercê da própria sorte – ah! Então os rumores eram verdadeiros! Vocês são os viajantes do tempo! – apontou seu dedo comprido, suas unhas reluzindo, o esmalte perolado reagindo às luzes das lanternas dos guardas. O prédio estava completamente sem energia. – pensei que essa história fosse papo... Mas pelo visto... Tem mesmo como ir para... – aos poucos, voltou seus olhos para o palco do auditório, arregalou os olhos e ficou vermelha feito um tomate nervoso – O FUTURO! – gritou. – ONDE ESTÁ A MÁQUINA DO TEMPO?
Os Apocalípticos permaneceram calados. Alexis apertou um botão em seu controle remoto prateado, o mecanismo fez a gaiola descer uma descarga elétrica alta o suficiente para atordoá-los e deixá-los confusos. Ray Ann permanecia sem reação.
- ONDE ESTÁ? RESPONDAM?
- EI, SUA VADIA, EU AINDA ESTOU AQUI! – a voz trêmula, porém audaciosa de Ray Ann cortou o silêncio após os gritos de dor de seus amigos, e sem pensar duas vezes, puxou o “gatilho”, por assim dizer, da sua arma. O laser acertou as costas de Alexis em cheio, derrubando-a da prancha voadora, levando-a de testa ao chão. Uma saraivada de balas iniciou-se vinda dos soldados-zumbis, fazendo com que a nervosa Ray procurasse esconderijo outra vez atrás de uma das colunas.
- PAREM! – gritou Alexis, levantando-se do chão com dificuldade. – ELA QUER BRINCAR? ENTÃO NÓS VAMOS BRINCAR! – sua testa sangrava, mas isto parecia sequer fazer cócegas, o sangue descendo pelo seu rosto como lágrimas de vampiro nem mesmo a incomodava. – ISTO AQUI É UM DUELO, VESTIBULANDA, VOCÊ SABE O QUE É?
- Eu assisti muito filme de faroeste pra quê?! – riu a garota, nervosa, de trás da coluna.
- Trata-se da minha honra agora! Vamos! Saia de trás dessa coluna e me enfrente como mulher!
Uma velha música ecoou na cabeça da jovem, uma música típica de filmes do gênero, talvez uma gaita acompanhada de um assobio sonoro. Ela até poderia rir se quisesse, mas não o fez, mesmo sabendo que lembrar os velhos episódios do Pica-Pau nas tardes da Rede Record cruzando o deserto e enfrentando o Zeca Urubu montado no cavalo Pé-de-pano naquele momento crucial fosse no mínimo engraçado. Tinha que manter a cara de má, tinha que se mostrar durona, corajosa, osso duro de roer, mas não aguentou, soltou uma gargalhada daquelas que só ela sabia dar, jogando a cabeça para trás e mostrando os dentes com toda a graça.
- Do que você está rindo?! – gritou Alexis, nervosa.
- Nada que te interesse, sua intrometida! – pulou para fora do esconderijo com a arma em punho. A trilha sonora de Kill Bill inteira já havia passado pela sua cabeça. – agora vamos começar logo com isso.
- VOCÊS PRECISAM DE UM JUIZ! – gritou Fábia esticando seu bracinho gordinho pra fora da gaiola – precisam de um juiz!
- CALE A BOCA, GORDINHA, EU SOU A JUIZA AQUI! – urrou Alexis, apertando o botão azul no seu controle remoto outra vez, mais uma descarga elétrica desceu do teto pelas grades até o chão e subiu pelos uniformes, que apesar da aparência, não eram feitos de borracha como esperado, ou então não estariam recebendo tanta dor nos nervos.
- Você vai pagar por tudo isso, ah se vai! – grunhiu Ray por entre os dentes – até um dia desses você era só uma X-9 da Velma, e eu tenho certeza de que você continua a mesma! O hipnotismo não vai durar pra sempre!
- Eu não sei do que você está falando! – estavam cara a cara agora, misturando seus hálitos numa nuvem de bactérias. – agora vire-se! – segurou no ombro da garota e virou-a de frente para o palco – sete passos, vire e atire! Vamos ver quem é o gatilho mais rápido do Oeste!
- Nós estamos no norte! – gritou Fábia.
- CALA A BOCA GORDINHA! – mais descarga elétrica.
- PARE DE MACHUCAR OS MEUS AMIGOS! – rugiu Ray.
- Então mande-os calar a boca! – fez – ANDA! SETE PASSOS!
De costas uma para a outra, respiraram fundo, armas penduradas no cinto, passadas lentas e calculadas, arrastadas, pisadas fortes e seguras, mãos suadas, respiração ofegante. Ray Ann escorria, suava frio, tremia dos pés à cabeça enquanto sua rival permanecia fria e dura como um robô às ordens de Alberta. Alexis era apenas mais uma zumbi como o seu exército que assistia à cena, inexpressivo, o que a diferenciava deles era o uniforme, objeto das três generais principais, apenas uma boneca nas mãos do sistema, ela era uma garota boa fora de transe, aquela não era ela, não mesmo, o comportamento dela na escola não condizia com aquilo, nem o olhar era mais o mesmo. Ray Ann quase tinha pena dela.
- RAY! RAY! OLHE! VIRE-SE! VIRE PRA TRÁS! OLHE! – um coro de berros iniciou-se na jaula, num verdadeiro sacolejo, eles sacudiam as grades e pulavam aos gritos feito um bando de chimpanzés em surto, braços e pernas sacudindo para fora da gaiola, mas era tarde demais, a pobre Ray Ann fora enganada por sua rival, que não dera sequer dois passos e meio antes de virar e colocar a arma bem no meio das costas da garota.
- Quais as suas últimas palavras, vestibulanda?!
- Morra, vadia!
Numa velocidade incrível, como Drew Barrymore em as Panteras, Ray Ann foi ao chão repentinamente e girou feito um peão, aplicando uma rasteira surpresa na rival que caiu de costas com um baque surdo, feito uma jaca que desceu do último galho da árvore, caiu de pernas para o ar, com seu salto agulha para cima, parecia mais uma rã estirada no chão agora.
- Tão confiante de si que baixou a guarda, não é mesmo?! – num movimento mais rápido ainda, Ray virou Alexis de peito para baixo, prendendo a mão da general com muita facilidade às costas. – Quem é a mais rápida agora, hein?
A jovem ficou tão presa à situação que esqueceu-se de prestar atenção no mundo ao redor, de modo que não viu quando o exército fardado de cidadãos convertidos em robôs calculistas avançou, formando um círculo armado até os dentes a sua volta, com metralhadoras, fuzis e lasers apontados diretamente para a sua cabeça, e eles eram muitos, muitos mesmo. Os Apocalípticos estavam perdidos.
- Mas o que está acontecendo? – fez uma voz grogue, logo abaixo de Ray Ann, alguém parecia ter se acordado de uma ressaca pesada, ou talvez houvesse passado anos dormindo, quem sabe até estivesse sofrendo de alguma doença degenerativa, a voz era sôfrega e arrastada – você... Porque está em cima de mim?! Está me machucando! Ai! – gemeu a voz outra vez. Ray voltou seus olhos para baixo, tirando-os do cano duplo da espingarda enfiada bem no meio do seu nariz.
Era Alexis que vocalizava, aquela era sua voz verdadeira, a voz original da garota do nono ano que fora hipnotizada pelas três generais malignas da S.U.J.A.
- Ai, o que você fez comigo?! Minha cabeça está latejando! Anda, sai de cima de mim garota! – empurrou uma Ray Ann bestificada para o lado e grunhiu – eu hein! Onde já se viu um negócio desses? Quem esse povo de hoje em dia pensa que é?! – encarava feio àquela que há poucos segundos atrás a mantinha prisioneira numa chave de perna com os braços cruzados à força nas costas, sem prestar atenção no batalhão de homens e mulheres fortemente armados e inexpressivos que mirava exatamente na cabeça da garota que a prendera. Os Apocalípticos na gaiola se entreolharam confusos, o que estava acontecendo?!
- AI MEU DEUS! – gritou Alexis, jogando os braços pra cima e depois levando a mão ao coração, havia pegado o maior susto da sua vida e já começava a chorar, afinal, acima de tudo, ela era só uma criança usada para os propósitos bárbaros de Alberta. Caiu de joelhos no chão, as mãos juntas diante do peito, unidas como numa oração – POR FAVOR, NÃO ME MATEM, POR FAVOR! – ela implorava de olhos fechados, a cabeça rodando sem parar – EU NÃO SEI O QUE FOI QUE EU FIZ, MAS NÃO ME MATEM, POR FAVOR! NÃO ME MATEM! ABAIXEM AS ARMAS! ABAIXEM! EU NÃO FIZ...
No mesmo instante, o exército recuou, recolhendo todo o armamento para si, as armas maiores foram para os ombros, as menores foram para os cintos. Como o verdadeiro exército de robôs-humanos que eram, continuaram ali, parados, vazios, olhando para o nada enquanto uma desorientada Alexis rastejava na poeira pedindo clemência e rezando para todos os santos que conhecia, pedindo perdão por coisas que nem sequer fizera. Ray Ann, compadecida da pobre moça, rastejou até ela para consolá-la.
- Calma, calma – esfregou os ombros da ex-vilã desorientada – olhe, olhe, eles abaixaram as armas!
Apontou para os zumbis.
- O que?! Eles não vão me matar?! – seus olhos pareciam duas luas de cristal molhado, apavorada, ela tremia como Ray tremera há alguns minutos atrás, e ela sabia como era, por isso sentiu que tinha de ajudá-la, de confortá-la. Sentir-se sozinha e desamparada era a pior coisa do mundo.
- Não, não vão! Eles obedeciam a você, e agora que você saiu do transe, eu vou te contar tudo o que aconteceu, mas primeiro solte os meus amigos – indicou a gaiola prateada com o queixo.
Mais uma general convertida a Apocalíptica? A história de Haruno se repetindo?



Fim do Apocalipse Quinze!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 14


- Identificação exigida – repetia a voz, insistentemente. Uma luz do além iluminava seu rosto com uma potência sobrenatural distinta que o estava deixando tonto, até o escuro das suas pálpebras parecia um branco eterno graças àquela iluminação, bem em cima do rosto. Com detalhes, era possível enxergar cada veia da pele que recobre o globo ocular, cada mínimo detalhe da capa protetora da vista, das pálpebras, oscilando entre vermelho, laranja e amarelo, num carnaval de cores quentes e vivas. – Identificação exigida. – a voz insistiu. Christopher franziu o cenho e levou a mão sobre os olhos, que mesmo fechados, estavam sendo cegados. Teve vontade de dar um tapa naquela porcaria que estava produzindo barulho tão irritante, aquilo era um gravador? – Identificação de voz não confirmada pelo civil, iniciando scan facial...
A luz mudou repentinamente de branca para vermelha, num flash laser.
- Civil não catalogado no sistema, invasor alienígena! Código 4L13-N, ativar laser paralisador! – fez a voz metálica.
- Ah, mas você não vai ativar NADA! – aquela voz era humana, Christopher tinha certeza disso porque sabia que não era um aparelho que a estava reproduzindo, o que de certo modo era estranho porque ela ecoava numa frequência um pouco distante, talvez fosse a tontura do momento. O fato é que a voz precedeu a escuridão e uma série de tiros, alguns sons de metal sendo amassado e um tipo pequeno de explosão, alguns grunhidos e gemidos de luta corporal e por fim o som de sistemas elétricos entrando em colapso, o som do curto-circuito. Foi aí então que o rapaz sentiu-se, estava de cabeça pra baixo, e lembrava-se de quase nada, lembrava-se do momento em que saíra da sua dimensão, e lembrava-se do momento em que perdeu a consciência, quando teve a sensação interna de que estava esticando feito uma goma de mascar, e depois vieram as trevas.
- Você está bem rapaz? Está bem? – o homem o puxou pelo braço de mau jeito. Christopher gemeu. Era difícil abrir os olhos. – desculpa amigo, esqueci de soltar o cinto de segurança – deu uma risadinha e apertou o fecho, Christopher foi de cabeça ao teto do carro, que agora meio que havia se tornado o chão. Gritou. – Au! Meu Deus, desculpa! Ai, vem cá! – aos poucos, com jeitinho, ele foi saindo, sua vista ainda estava muito embaçada para poder enxergar alguma coisa, e o homem estranho mais o machucava que o ajudava. – ai, vocês são pesados! O que vocês andam comendo no passado hein?
- Nós... Não somos... Não viemos do passado... – gemeu a voz de Augusta em algum lugar ali próximo.
- Nós viemos de outra dimensão – a voz de Pietro parecia muito mais equilibrada e recomposta do que a dos dois restantes. Talvez ele fosse o que tivesse menos sofrido com a queda do De Lorean no outro mundo.
- Vamos ter que rebocar a máquina de vocês – ao abrir os olhos por completo, pela primeira vez, Christopher viu o homem apertar um botão ao lado do que parecia um relógio de pulso, e com o punho fechado, apontar o braço em direção ao carro capotado. Um laser azul escaneou o corpo do veículo, de forma extraordinária, aquela espécie de laser transformou cada parte do De Lorean em pixel, e como areia, eles foram sugados para dentro do relógio de pulso. Se é que aquilo poderia ser considerado um relógio. Pietro esfregou os olhos.
- Quem é você?! – exclamou Augusta.
- Eu? Me chamo Pietro Heinrich, muito prazer – ajeitou o cinto e estendeu um sorriso de orelha a orelha. O Pietro original entrou em estado catatônico naquele momento.
O De Lorean havia os levado para o meio do nada, o meio de um deserto, um deserto do outro mundo. Não havia sequer sinal de vida inteligente em quilômetros, exceto uma espécie de veículo policial num estranho formato oval, possuindo duas rodas, agora completamente destruído, com restos de robôs despedaçados ao redor. Pelo número de cabeças, eram dois... Mas espere... Havia algo de estranho naquelas cabeças, elas eram muito familiares aos três.
- Meu Deus! É a cabeça da Carminha! São as cabeças da Carminha! – exclamou Chris, arregalando os olhos e levando as mãos à boca, estava enjoado.
- Claro que não, seu besta, tá vendo que esses robôs tem a cara dela?! – fez Pietro, já revoltado, com uma bolsa de gel geladinho segura na testa, para aliviar a dor do baque. – ou tá pensando que a Carminha tem duas cabeças?!
Mesmo após aquele breve esclarecimento, tal visão ainda deixava Christopher Umbrella ojerizado, era repulsivo ver aquela cabeça de olhinhos apertados, queixo pontiagudo e dentes de catita longe de um corpo, era como se a própria Carmen tivesse sido decapitada a sangue frio, tal ideia o fazia tremer dos pés à cabeça e suar frio, era nauseante ver as partes daquele corpo franzino e magricelo – agora duplicado – todo espalhado pelo chão do deserto, num misto de metal, pele e couro rasgado, o couro sintéticos dos uniformes usados pelo que mais tarde o Pietro da outra dimensão descreveria como Células, os olhos e os ouvidos de The Big Machine, o cérebro do mundo.
O número de pessoas era superior ao número de transporte: havia um único veículo para a locomoção até o que aquele homônimo de Pietro, mais velho e mais magro chamou de “Fortaleza Digital de Asgard”, veículo este que para a surpresa dos três viajantes interdimensionais era exatamente igual aos que foram pilotados por Haruno de Lana na perseguição nos corredores dentro do que um dia fora o prédio da faculdade FAMA. Uma Planária, pouco maior do que as outras, bem mais robusta e aerodinâmica, quase ameaçadora, com a cabeça em forma de seta preservada, mais pontiaguda que a original, se é que a Planária do mundo de Christopher era mesmo a original. Seus ocelos usados como faróis eram bem maiores e iluminavam mais, suas laterais brilhava num azul noturno de neon incrível, era um banquete para os olhos, e o melhor de tudo: flutuava! Planava no ar!
- Vocês tiveram muita sorte, não podemos ficar aqui por mais tempo, já sabem que eu destruí aquelas duas – meneou o queixo em direção aos restos mortais dos androides-Carmen. – eles virão em um número muito maior, já devem estar a caminho.
- Mas eles são pequenos, você os quebrou praticamente com as mãos nas costas! – exclamou Augusta, chutando a cabeça robótica decepada.
- Porque eu sei qual o ponto fraco das Células, mas em quantidade superior a esta, elas são um problema. E põe problema nisso! – parecia preocupado, olhando para o horizonte, estava esperando os veículos ovais surgirem para o seu desespero – vai ser o jeito rebocar vocês até o posto avançado, eu não posso auto-rebocar, vou ter que fazer o percurso de Planária...
- Você está querendo dizer que vai fazer conosco o mesmo que fez com o De Lorean? – exclamou Christopher, levantando-se, ainda tonto. Não houve resposta, apenas ajustes no grande relógio negro de pulso.
- Ei! PELHA LHÁ! – fez Augusta, graciosa, levantando os braços para o alto – eu não vou ser teletransportada nem a pau! Vai que eu vou e minha cabeça fica! E aí? Como é que eu fico? Uma Augusta sem cabeça?! Vou ter que trabalhar de assombração e...
- Deixa de frescura menina, vai ser rápido e nem vai doer – fez Pietro, balançando a sacola de gel para ver melhor o conteúdo dela.
- E por um acaso você já foi teletransportado?! – retrucou.
- Não, mas viajei de uma dimensão para a outra, e se isso não me matou, o que vai me matar?!
- O Pietro tem razão Guta – intrometeu-se Chris, criando forças pra se levantar. – de setembro pra cá, nosso mundo e nós mesmos desobedecemos todas as leis da lógica e da física! O que mais pode dar errado?!
Os três voltaram suas cabeças para o Pietro mais velho, que fez uma careta e deu de ombros.
- Decidam, ou fiquem aqui ou vamos para o posto avançado, as Células devem estar chegando... – apontou para o horizonte iluminado por uma luz espectral misteriosa, que parecia ter origem há quilômetros de distância. A noite estava escura e fria, exceto por aquelas luzes alienígenas estranhas que dançavam no céu do deserto.
Poucos segundos depois, o som ameaçador de motores pneumáticos roncando há quilômetros de distância se fez ouvir através do eco que aquelas colinas áridas proporcionavam.
- Ô boca maldita hein! – esbravejou Augusta. – vamos, me desmembra logo! Prefiro morrer teletransportada do que morrer nas mãos de robôs interdimensionais com a cara da Carminha! Já pensou que sacanagem?!
O Pietro mais novo e mais gordinho soltou uma gargalhada alta que ecoou por quase todo o deserto. Em dois tempos os três não estavam mais lá, num piscar de olhos o mundo ao seu redor se transformou da noite escura e fria do deserto para um galpão escuro e abafado repleto de máquinas inutilizadas e empoeiradas. O enjoo veio logo em seguida, os três vomitaram quase que em sincronia. Foi tudo rápido demais, vultos negros segurando metralhadoras, lasers e outras armas potentes de grosso calibre amontoaram-se ao redor dos três, mantendo-os na mira, um movimento em falso e eles seriam fuzilados a sangue frio.
- Quem são vocês?! – urrou um dos vultos. A iluminação era parca e fraca, impossível distinguir quantos eles eram, podiam ser dezenas, centenas, o galpão era enorme, a única maneira de saber a quantidade de homens armados era conferindo os pontos vermelhos que se distribuíam dos pés à cabeça em Christopher, Augusta e Pietro, marcando os alvos: braços, pernas, barrigas, pés, porém nenhum deles possuía a paciência ou o tempo necessário para tal banalidade, estariam mortos antes de pronunciarem paralelepípedo em russo caso esticassem um dedo sequer para coçar o nariz. As mãos para o alto, as testas suadas, as bocas escorrendo o restinho do vômito do teletransporte, Augusta chorava copiosamente.
- Nós viemos de outra dimensão! Precisamos de ajuda! Precisamos de ajuda! – gritava Christopher para o nada, sua voz reverberando no metal, no ferro, no chumbo, ecoando e se multiplicando, aumentando e diminuindo conforme executava suas curvas sônicas através das trevas. Os soldados armados na escuridão mantinham-se imóveis, inexpressivos e impassíveis, era uma angustiante e desesperador, Pietro já havia fechado os olhos e entregado sua alma aos Orixás, entoava baixinho algum cântico que aprendera nas tradições da família. Por ironia do destino, haviam eles sido enviados para dentro do quartel inimigo? Para dentro daquilo que o povo daquela dimensão chama de The Big Machine? E se tudo aquilo que fora dito há alguns minutos atrás fizesse parte de um plano para encurralá-los e mata-los? Eles estavam perdidos, seu mundo estava perdido, afinal eles eram a última esperança de Macapá, talvez do mundo inteiro!
- Outra dimensão?! – urrou a voz outra vez – LIGUEM OS REFLETORES!
Jatos de luz acertaram os rostos sujos de terra e suor em cheio, retinas feridas, olhos lacrimosos e mãos levadas ao rosto, em reflexo, para proteção, feito criaturas vampiras expostas ao sol, ajoelharam-se e contorceram-se, talvez por susto, talvez por medo, talvez entregando-se à morte iminente.
Nas trevas, passos silenciosos, abafados por uma sola de material estranho, caminhando para a luz. Uma espada de samurai nos ombros, um uniforme amarelo colado ao corpo, óculos escuros e headphones no formato cômico de orelhas de gato, dando o último toque de excentricidade ao ser que parecia ter saído diretamente dos filmes de Quentin Tarantino para o mundo real. Cabelos escuros longos desciam até o meio das costas, um relâmpago negro pintado no rosto, abaixo do olho esquerdo, talvez para disfarçar alguma cicatriz de luta, ou talvez apenas por charme e vaidade pessoal. O que era aquele ser andrógino? De que mundo aquilo havia saído?
- Bem vindos, viajantes! – disse, jogando a espada para um dos soldados, que a apanhou numa demonstração de reflexo perfeito, direto no cabo, sem hesitar.
- Quem é você? – gaguejou Christopher.
- Eu? – a criatura gargalhou, retirou os óculos escuros e jogou os cabelos para trás. Christopher e seus amigos entraram em estado catatônico quase que instantaneamente. Seu anfitrião não precisava abrir a boca para dizer mais nada, tudo era muito claro. Claro como água, claro como um puro cristal, como um diamante, transparente como um fantasma, não eram necessárias explicações ou acréscimos, porque uma imagem vale mais do que mil palavras, e um único rosto vale por um universo inteiro delas. – EU SOU VOCÊ!


Fim do Apocalipse Catorze!

















Mais um Apocalipse surpresa
Para os leitores deste blog
Eu adorei esse capítulo
O fim está próximo! Aguardem!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

9.20.19.13.5.723378


A imagem daquela pobre cadela atropelada não me deixou dormir. Me deitei às 3, mas às 6 eu já estava de pé. Não conseguia imaginar nossa protetora, nossa amiga, apodrecendo ao ar livre, lá fora no quintal, dentro de um saco preto, esperando alguém para enterrá-la.
Ele havia cavado o buraco, mas era eu quem tinha de fazer isso, era eu quem tinha de jogar a terra sobre ela. Não havia motivos para cavar mais fundo, estava perfeito, o buraco cobria metade das minhas pernas, e eu sou alto, alto demais. Era profundidade o suficiente para fazer o descanso final da vigia do lar.
As imagens do dia anterior me vinham à cabeça enquanto os pássaros cantavam e o sol terminava de nascer. Minha irmã havia acabado de ir para a aula. O vento gelado da manhã acariciava o capim com carinho, acordando a folhagem das árvores trazendo os raios de sol consigo, tornando amarelo o brilho azul espectral deixado para trás pela madrugada. Eu nunca vira mamãe sofrer daquele jeito, não por um animal. Trancou-se no quarto após ir até a porta de casa receber a notícia do vizinho. Não teve coragem de ir até a calçada para ver o corpo, oculto pelo velho Ford KA branco que costumávamos usar há algum tempo atrás. Agora uma carcaça sucateando.
Mas eu tive coragem.
E preferia não ter visto a boa e velha Gabi estirada daquele jeito.
Na mesma hora me veio à imagem à cabeça. Daquela raposa de pelos dourado-alaranjados que explodia e dava lugar a um monte de larvas, numa imagem acelerada de sua decomposição na abertura de True Blood. Seria esse o destino dela? As moscas já se acumulavam.
- Foi de manhã cedinho - disse o velho - o carro acertou ela em cheio, ela correu chorando pra cá e se jogou aqui atrás do carro...
Levei a mão à boca. Mamãe entrou.
- Quer que eu a enterre? Eu levo ela...
- Não, não, não precisa - fiz, perturbado - o rapaz tá vindo pegar ela já...
O velho foi-se. Entrei. Procurei o rumo do quarto, segurei a mão dela. Estivera chorando ao telefone há alguns segundos antes de eu entrar pela porta.
- Calma, não chora, isso é super normal. Eu sei o que a senhora tá passando, mas é assim mesmo e... - segurei na mão dela. Ela puxou a mão bruscamente para junto do corpo e levantou-se furiosa.
- Não quero mais saber de bicho nenhum aqui nessa casa! - disse, às lágrimas. - quero todos esses gatos fora daqui! Tudo eu! Tudo eu!
- Nenhum de nós teve culpa, mãe.
Ela ficou calada.
Me levantei e saí, fui me sentar na cadeira de balanço roxa do pátio. Cruzei os braços atrás da cabeça e fiquei admirando aquela tarde amarela e poeirenta, quente como o inferno. Um dia ensolarado e melancólico como aqueles dias de minha infância em que eu passava as tardes na casa da vovó, brincando sozinho enquanto as outras crianças estavam na escola. Meus pais haviam acabado de se separar.
Havia cheiro de chão recém-encerado e Laura Pausini tocando baixo no rádio da sala. Todas as luzes da casa desligadas, todos os adultos dormindo a sesta vespertina. Mas eu não, eu ficava andando pela casa, pra lá e pra cá, explorando cada canto dali. As moscas se acumulando em cima da mesa, cheiro de café recém-feito e pão quente com manteiga direto da padaria. Os raios de sol entravam fortes pela janela da cozinha onde minúsculos grãos de poeira dançavam no ar como mini universos num balé constante. Pó.
Havia também o som distante do sorveteiro e seu carrinho de mão, a buzina estridente de carros e o som irritante mas reconfortante da voz vinda dos auto-falantes no caminhão da Tropigás. Década de noventa. Cigarros baratos. Vento nos coqueiros do quintal. As folhas verdes lustrosas esfregando-se umas nas outras provocando aquele barulho delicioso que eu tanto adorava. Às vezes eu me deitava sozinho no chão sujo para olhar os pombos no telhado e as copas dos coqueiros dançando ao sabor do vento. Ficava imaginando o que havia do outro lado do muro, na casa do vizinho, e me divertia falando sozinho, brincando com uma velha cruz de metal da minha altura que há muito havia sido esquecida ali perto dos entulhos. Zerão, o cachorro dormia ali perto. Não se aproxime muito, ele morde.
Assim eram as minhas tardes na casa da vovó. Seis ou cinco anos de idade. Era sempre assim. E eu não sabia porque, mas aquela atmosfera daquela tarde fatídica onde encontramos o corpo da Gabi já sem vida me fez lembrar dessas doces e melancólicas tardes solitárias, onde eu me sentia muito bem acompanhado de mim mesmo. Eu era muito mais feliz quando não me relacionava com as pessoas. Ah! Se eu soubesse! Teria optado por se autista como alguns pais e professores estavam me qualificando!
- Ela trancou a porta - minha irmã surgiu no vão da porta da sala - e agora? Eu tenho que tomar banho e me arrumar pra ir pro balé, as coisas estão todas lá dentro!
Dei de ombros.
- Ela acha que a culpa é nossa.
Silêncio.
- Eu vinha avisando há séculos - continuei - essa cachorra tava solta desde o dia de ano novo. Eu vinha dizendo: "prende essa cachorra, prende essa cachorra" ou "vai acontecer uma merda, ou o carro vai bater ou ela vai morder alguém! prende essa cachorra!", agora mamãe finge que não me escuta.
- Não NOS escuta - corrigiu minha irmã - ela espera acontecer pra depois lamentar, precisa ouvir tudo de fora pra poder confirmar se é verdade ou não, nunca nos ouve. Nunca.
- Às vezes somos mais sábios que ela - terminei.

Entrei, peguei um livro, sentei-me no pátio. Daniel Molloy estava sendo transformado em vampiro dentro da cabine do avião em "A Rainha dos Condenados". Que livro fantástico. E nada do rapaz chegar. Aquele rapaz que já é homem agora e que eu conheço desde os doze anos. Que me viu crescer praticamente. Ele chegou já perto do anoitecer, restavam duas horas e meia de sol.
- Vai ajudar ele a cavar, por favor, tá?! - fez ela, abrindo a porta do quarto onde eu me estirava no chão, tentando ler o meu livro, escapar da realidade.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho - disse, frio.
- O QUÊ? - perguntou. Não tinha escutado.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho. - disse, gelado.
- COMO É QUE É? - de novo. Ela tinha ouvido. Estava só me desafiando a dizer de novo.
- Quando a Baby morreu, eu cavei o buraco sozinho. - nunca repito uma sentença tantas vezes quanto repito aqui dentro dessa casa.
- MUITO OBRIGADA! - fez, raivosa, bateu a porta do banheiro e se trancou lá dentro. Suspirei e fui lavar a louça. Às vezes sinto necessidade de ter minha própria casa, mas acabaria morrendo na sarjeta sem a ajuda dessa mulher. Isso me deixa decepcionado comigo mesmo. Olha o meu tamanho!
Me tranquei e comecei a escrever. Um capítulo inteiro da minha nova história fluiu como água, como um capítulo há muito tempo não fluía! Me senti em êxtase comigo mesmo! Era fantástico! Há quanto tempo eu não escrevia com tanta vivacidade, com tanta verossimilhança! Com tanta paixão! Eu estava realmente no interior da França ou era impressão minha? A resposta para a dificuldade em escrever nestes tempos difíceis é que agora eu tenho muitas coisas na cabeça ao mesmo tempo. Antes eu era oco, vazio, não tinha muita coisa no cérebro com o que me preocupar. Mas de repente me senti com 14 anos de novo, viajando em meu mundo interno outra vez! Que mágico!
Até que me cortaram a linha do pensamento, e lá fui eu comprar o lanche na padaria. Já era noite. Eu me sinto envergonhado em andar nas ruas com a blusa do meu antigo colégio agora, mas todas as de ficar em casa estão sujas.
Tornei a entrar em meu mundo. E assim fiquei durante um tempo até me informar do que havia acontecido aqui na vida real.
- Ele não enterrou ainda. Acha que tem que cavar mais fundo. - disse, chorosa para mim. Pobre mamãe! Eu sei muito bem o que ela está passando. A morte da Baby pra mim foi uma gota d'água e tanto. - Amanhã cedo talvez ele venha e... O que é isso que tu estás assistindo?
- É True Blood, mamãe.
E então até ela se rendeu ao cotidiano conturbado dos moradores de Bon Temps. Depois minha irmã entrou e elas assistiram por durante uns trinta minutos. Partiram. Terminei a noite assim, chocado pela vida real e pela ficção; a doce avó de Sookie, Adele Stackhouse fora morta, assassinada cruelmente, jazia sobre uma poça de sangue no meio da cozinha! Que horror! E eu me havia apegado tanto àquela senhora em tão poucos episódios! Ela era uma personagem tão carismática e encantadora!
Mas que crueldade, Allan Bal seu filho da mãe!
Mas que crueldade, vida! Sua filha da mãe!
Quer saber? Que todos se ferrem, eu vou enterrar aquela cachorra! Pensei. Deixei um episódio de The Vampire Diaries baixando e fui dormir. Às seis já estava completo o download. Assim que terminei de assistir, pulei da cama e fui para o quintal, empurrei o saco preto para dentro do buraco com a enxada, o cadáver duro e já fétido caiu com um baque surdo no fundo do pequeno poço. Ela era pesada! Então comecei a enterrar, puxar toda a terra a minha volta para dentro do buraco.
E então lembrei de Jonna Lee e sua iamamiwhoami, em seu concerto, cantando os versos desconexos de 9.20.19.13.5.723378 enquanto enterrava a bola de alumínio que continha as cinzas do garoto carbonizado. Ora, e porque não cantar também? Tornar isso ainda mais dramático?


A brisa me lambeu o rosto suado como uma vaca.


Carry my head

With this mengled body

It hurts

Like

Hell

Like

Hell

Lights are on

But there's nobody home

Long asleep

As hard as most...














Em memória de Gabriela.

xxxo


Louie Mimieux

domingo, 6 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 13


Augusta meteu a mão na maçaneta, Miguel empurrou-a.
- Abre essa porta! Abre! Temos que salvar os outros! A Fábia tá aí do outro lado, a sua avó também! Os meninos... Nós temos...
- Eles estão seguros! A Max e o Fernando vão cuidar deles...
Outra marretada do bastão-clava fez tremer as estruturas do prédio por inteiro, poeira e até mesmo pedaços de reboco desceram aos montes do teto, uma coluna estourou ali próximo e uma parede inteira veio abaixo não muito longe.
- Mas...
- Não! A nossa prioridade é encontrar a Máquina do Tempo, encontrando-a, todos estarão a salvo!
Outra marretada fez a porta vir abaixo.
- VOCÊS NÃO VÃO FUGIR DE MIM, SEUS RATOS! – gargalhou Lana, derrubando metade do galpão. Descargas elétricas causavam pane no sistema elétrico, água jorrava da tubulação quebrada, os Apocalípticos fugiam, atiravam às cegas, procuravam abrigo, choravam.
Desabalada carreira iniciou-se às cegas pelos corredores do prédio, procurando uma porta, uma saída, um esconderijo, uma luz naquela escuridão. A única luz que havia era da qual eles deveriam fugir, correr, pois agora, logo atrás, montada numa motocicleta reluzente vinha uma furiosa Lana Palafita, sacudindo sua clava no alto enquanto mais raios azuis atingiam o caminho por onde passava.
- Rápido pulem aqui! – uma mão branca estendeu-se no escuro em direção ao grupo em correria. Era Haruno, também montada numa estranha moto. Christopher teve a sensação tão estranha quanto aquela situação de já ter visto aquele veículo flutuante em algum lugar. Lembrava muito um tipo de platelminto, sua fronte era a cabeça em forma de seta, e seu corpo aerodinâmico prateado esguio reluzia num azul quase branco, luzes alienígenas escapavam dos dois “olhos” da máquina, os faróis.
- Mas de onde estão saindo todos esses veículos?! – gritou Augusta.
- Não pergunte! Apenas suba! Eu sei onde a Máquina do Tempo está! – subir numa Planária em movimento era um desafio, Miguel seguiu metade do percurso pendurado ao lado feito um chaveiro, já que ele nunca fora muito alto, de modo a deixar o veículo empenado para a esquerda. A clava passava perigosamente perto dele a cada curva, a cada guinada, a cada subida e descida, o prédio vinha desabando logo atrás, formando uma corrente de perseguição perigosa. Os escombros vinham descendo atrás de Lana enquanto ela própria acelerava atrás dos invasores da sua fortaleza, o quartel general para o qual ela foi incumbida, o qual ela prometeu proteger como à própria vida no dia em que foi amarrada pelo capataz de Alberta e hipnotizada pela própria numa das salas escuras daquele prédio, do mesmo jeito que aconteceu aos outros seis generais espalhados por Macapá inteira, tocando o terror e representando a ditadura da forma mais ameaçadora e intimidadora o possível. Com mão de ferro eles representavam Alberta da melhor forma, conquistando e transformado pessoas em meros zumbis serviçais.
- ARGH! – um grito ecoou. Algo acertou Lana em cheio.
- É a Fábia! A Fábia pegou a Lana de jeito! – gargalhava Augusta – Dá-lhe gordinha doida!
- Vai Fábia! Acerta essa vagabunda! – urrava Christopher. – acerta o orangotango de calcinha! Acerta!
Haruno não sabia se guiava a Planária ou gargalhava, por pouco não perdeu a direção e levou todos para a morte, direto na parede. Há menos de dois metros de distância, Lana sufocava entre os seios anormais de Fábia enquanto a própria acertava várias coronhadas na cabeça da vilã que rugia feito um animal revoltado, um verdadeiro babuíno irado se debatendo em cima do que parecia ser uma Planária de cor negra, também flutuante como a prateada montada pelos Apocalípticos em fuga.
- HARUNO! – após o grito de Miguel, todos saltaram da moto flutuante, antes que ele pudesse terminar a frase. O corredor enfim havia acabado, e o que antes era uma moto voadora futurística em forma de platelminto agora era um monte de ferro fumegante e retorcido, estourado no meio do salão que havia atrás do fim do corredor. Havia fumaça branca por toda a parte, poeira, escombros, tijolos e madeira pareciam chover, vários corpos se retorciam e tossiam em meio ao reboco, foi tudo muito rápido, toda aquela densa nuvem de poeira os impediu de ver o momento em que Lana capotou por cima dos escombros da parede e foi ao chão de boca, estourando os dentes da fileira da frente. Seu bastão-clava voou longe, caindo feito um meteoro no meio do salão de conferências da faculdade, abrindo uma cratera enorme e digna da queda de um. A maior descarga elétrica de todas iluminou todo o auditório, indicando a posição da Máquina do Tempo, e ela era exatamente como Christopher imaginava: um DeLorean, como em “De Volta Para o Futuro”, magistral, prateado e tão quadrado quanto o original, aerodinâmico para a época em que foi lançado no mercado. Arrepios e espasmos percorriam seu corpo conforme a densa poeira branca no ar, os restos mortais da parede e do piso, se dissipava. As faíscas azuis resultantes do curto circuito na energia do prédio que o impacto do bastão-clava causara iluminavam o corpo da máquina de modo espectral e de certa forma um tanto caótico, icônico, mágico, de modo a endeusar aquela raridade, tanto automobilística quanto científica. As lâmpadas fluorescentes falhavam, piscando num ritmo frenético, acendiam e apagavam transformando o ambiente destruído numa verdadeira danceteria do Apocalipse, uma batida eletrônica retumbava ao fundo dos tímpanos do jovem Christopher, 17, quase 18, seu sangue fervia. Era a adrenalina do momento.
Correu, correu como nunca havia corrido, tirou forças do além para saltar por sobre as cadeiras de estofado vermelho, rasgadas, retorcidas, destruídas e inutilizadas, amontoadas umas sobre as outras ao redor da cratera formada pelo bastão-clava que fumegava no seu fundo escuro faiscante. O DeLorean parecia chamá-lo, parecia ter vida própria, mesmo estando parado no palco para palestrantes, tinha um tipo de áurea sobrenatural, como se tivesse saído diretamente dos filmes de ficção científica para a pacífica e atrasada Macapá, as cortinas azuis que o emolduravam no seu pequeno descanso o tornavam quase uma divindade, talvez fosse culpa da sua capacidade, de cruzar a linha temporal, a linha do possível, a linha do real, a linha das possibilidades tangíveis e lógicas. Miguel já estava lá perto, abrindo a porta com a mesma arma que deu fim às câmeras de vigilância, testando o painel e fazendo ligação direta.
- Vamos! Entrem, entrem! – gritava, fazendo sinal para aqueles que viajariam entre as dimensões. Augusta tentava acordar uma Fábia desmaiada enquanto Pietro certificava-se se Lana ainda estava viva realmente: parte do teto havia caído em cima dela e apenas uma das suas mãos eram visíveis para fora dos escombros. Aos poucos o restante do grupo foi aparecendo, Maxine e Fernando davam o ombro à Haruno que havia torcido o pé, enquanto Ray Ann apenas observava aquela situação impossível, catatônica.
- Precisamos sair daqui, os gorilas estão vindo... – sibilou Fernando para Maxine. – vamos acabar exatamente como ela – apontou para a mão retorcida de Lana Palafita, entre dois pedaços de concreto. O céu estrelado se estendia sobre a cabeça deles, invadindo através do rombo enorme que a batalha havia causado, resultado do choque da planária negra de Lana com uma das colunas que sustentavam o auditório. Um vento gelado entrava por ali, agora a poeira era praticamente invisível, dissipada por completo. O prédio estava prestes a cair, e o tremor de terra, sinal dos gorilas chegando, só aumentava os riscos de estar ali.
Christopher e Augusta observavam à cena com lágrimas nos olhos. Porque tudo aquilo estava acontecendo? O DeLorean alçou voo, levantando a poeira que já havia baixado, estavam deixando para trás os seus amigos, estavam deixando seus irmãos de coração à mercê do perigo, da morte, deixando-os por suas próprias contas. “Maxine e Fernando vão protegê-los”, disse Miguel antes de fechar a porta “não se preocupem, eles são o nosso futuro, a razão da nossa existência, só estamos vivos agora porque vocês estão à salvo”. Augusta levou as mãos ao rosto para limpar os pingos de cristal líquido e salgado que escorriam dos cantos de seus olhos, molhando suas bochechas fofas e macias, deixando o rosto da bonequinha quente e vermelho, como uma cachoeira de emoções. Miguel beijou suas faces. “vai ficar tudo bem, acreditem em mim... Olha só, já programei tudo, não mexam nesse painel em hipótese alguma! A não ser que queiram ir parar num mundo onde formigas mutantes gigantes vivem, e acabar virando almoço delas!” fez uma careta engraçada, Christopher riu. Miguel pegou a mão do rapaz e beijou-a “confio em você cara, vai lá”. E fechou a porta.
O DeLorean voou para a abertura no teto, atravessando-a. Do alto, os três viajantes dimensionais que em poucos segundos estariam partindo para o desconhecido viram o exército de gorilas-robôs que se formava ao redor do prédio semi-destruído. Augusta tapou os olhos, Christopher virou o rosto. Apenas Pietro aguentou a cena, talvez ele nem sequer estivesse entendendo o que estava acontecendo de verdade, ele era lento às vezes. Será que todos estariam vivos quando eles voltassem?



Fim do Apocalipse Treze!
vou confessar que...
eu tava guardando essa foto
pro último capítulo
não deu >:

sábado, 5 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 12


- Como você pode ter certeza de que podemos confiar nela? – Christopher levou um cutucão na costela que mais doía. Deu um gemidinho baixo e um empurrãozinho de leve em Ray Ann, acompanhada de uma preocupada Fábia.
- Ela é a Haruno! Simplesmente por isso! – exclamou Chris, como se isto fosse o óbvio. A mesma pergunta se repetia de bocas diferentes o tempo inteiro e isso estava ficando muito repetitivo.
- AI! AI! AI! UMA COBRA! UMA COBRA! – alguém gritou na escuridão. Arrepios e espasmos sequenciais consumiram o bando de cima abaixo.
- Isso não é uma cobra, Vó Guta, é um saco plástico! – Miguel começou a rir em algum lugar ali próximo.
- Pare de rir de mim! E eu não sou sua avó! – alguém foi afogado na Lagoa dos Índios logo em seguida por uma mão furiosa de uma garota enojada. Aquela água era turva e cheia de detritos, naturais ou não, um pouco de lixo e muito, muito mato. Havia alguns peixes e com toda a certeza, serpentes rastejavam por entre as plantas aquáticas ali próximas, era um lugar asqueroso e todo roçar de quaisquer folhas lodosas causava arrepios naqueles jovens burgueses de classe média, não acostumados a este tipo de situação. A única que parecia não reclamar daquilo era Ray Ann.
- Mas... – grasnou a voz afogada de Miguel, retornando para o fundo da lagoa logo em seguida, parecia mais que duas jiboias estavam brigando há poucos metros do grupo.
- Ei! Ei! Larga ele! Larga ele! – Ray se meteu na briga, livrando os cabelos de seu neto futurístico das mãos de Augusta.
- Ei digo eu! Parem com isso já! Parem! PAREM! – Maxine se jogou no meio dos três e acabou levando puxões de cabelo e algumas cotoveladas. Ela podia jurar que tinha mato dentro do uniforme branco borrachudo que usava. – eu sei que os ânimos estão um pouco exaltados e a situação é de risco, mas assim já é demais! Fiquemos unidos! E você, Miguel, se comporte! Pior que criança! – bufou e jogou o cunhado longe das duas.
- E se continuarem fazendo tanto barulho, os gorilas vão nos achar, estão olhando muito na nossa direção! – Fernando apontou por entre as moitas espaças e carregadas, abrindo uma fresta entre os galhos para que todos pudessem observar o prédio onde um dia funcionara a faculdade FAMA, há poucos metros de distância deles, erguendo-se na escuridão como um ponto de luz. Cercado de holofotes apontando em todas as direções, para o matagal da lagoa, para o céu estrelado e para o mundo ao redor ao mesmo tempo em que iluminavam a própria construção. Vasculhando a área, os enormes robôs símios observavam atentos à escuridão, como estátuas de metal, a aparência inanimada daquelas criaturas artificiais enganaria o mais atento dos observadores, em um grupo de cinco, eles observavam as quatro direções, Norte, Sul, Leste e Oeste, enquanto o quinto robô fazia a ronda no terraço. A imagem do prédio era esplendorosa e um tanto assustadora em meio àquilo tudo, amplamente iluminado, uma fortaleza branca. Lá dentro nos corredores os guardas humanos, zumbis fabricados pelos campos de concentração, faziam a ronda nos andares, olhares frios e objetivos, sem emoção alguma.
- Como vamos fazer para entrar nesse lugar? Vamos acabar esmagados por um desses gorilas! Se todos não resolverem nos explodir aqui mesmo, onde estamos! – exclamou Augusta, apontando para o ponto prateado que reluzia à luz dos holofotes que giravam entrecortando as nuvens lá no alto, no céu, cruzando o caminho do robô que brilhava feito uma joia coroando o alto da construção.
- Há uma maneira... Não se esqueçam de que logo ali fica a Choperia da Lagoa – ela apontou para o bloco do prédio que ficava oculto pelas árvores, um dos salões de eventos mais renomados e de prestígio da cidade, elegantíssimo por dentro, coisa de primeiro mundo, Los Angeles ou Hollywood, seu interior lembrava um verdadeiro cassino, e Christopher sabia do que se tratava porque a formatura da oitava série em 2007 fora ali. – mais pra lá, do outro lado, fica aquele galpão onde funcionou a Casa das Carnes e a Yamada... Na lateral deve haver uma entrada para os caminhões com as mercadorias, afinal aquilo era um supermercado antes...
- Haruno tem razão, mas vamos ter que dar a volta então?! – Pietro levou a mão à testa com um tapa, fez uma careta e esmurrou a água. – é muito longe!
- Mas vale o esforço, precisamos salvar o passado para que haja futuro. – fez Maxine, o vento sacudiu suas madeixas ruivas artificiais de leve, ela parecia uma sereia perdida dentro daquela lagoa. – o plano é o seguinte... Dois de nós ficarão do lado de fora, vigiando a entrada enquanto o restante entrará no prédio... Vamos vasculhar todo o lugar, e Deus queira que a Máquina do Tempo deles esteja aí dentro... Caso ela realmente esteja, Miguel vai operá-la, ele é o nosso especialista em tecnologia – ela riu para o cunhado que bateu continência. – o vovô, a vovó e o Pietro vão para a outra dimensão, nós vamos ficar por aqui para o caso de haverem problemas... Eu, Fernando, Miguel, Fábia, Ray Ann e Haruno vamos dar um jeito caso algo dê errado! – ela piscou para o marido, que sorriu. Uma forte emoção tomou conta de todos. Os corações ficaram acelerados e as veias ferveram o sangue instantaneamente, era a adrenalina do momento contagiando seus corpos, atingindo-os em cheio como um trem nos trilhos, Christopher queria gritar, estava com um sorriso de orelha a orelha e algo preso na garganta, um frio no estômago fez Fábia Paola dar um gritinho e levar os punhos fechados à boca, arrepiando-se dos pés à cabeça. De marias-chiquinhas, parecia ter saído de um anime. Parecia estar vivendo um anime, ver todo o Apocalipse Club ali, diante dela, usando aqueles uniformes brancos de látex, com o estranho símbolo do triângulo místico no lado esquerdo do peito causava uma sensação de união, de comunhão, de companheirismo e de heroísmo. Seria tudo aquilo um sonho?
- Câmeras! – Ray Ann apontou para as duas palmeiras que ladeavam uma das entradas laterais do prédio. Dois olhos biônicos tontos, vasculhado o ambiente com ferocidade.
- Não seja por isso! – Miguel fechou um olho, mirou e atirou. Nenhuma bala, nenhum laser, nem um raio, nada, apenas a fumaça e as faíscas escapando por entre as peças das duas câmeras. Queimadas. – prontinho!
- Pra moita! Rápido! – sibilou Haruno apontando para o vulto de metal que vinha pisando firme de longe, sacudindo o chão de pedra com força. Os gorilas estavam fazendo a ronda. Um dos holofotes focou exatamente sobre o lugar onde antes o grupo estava abaixado, uma moita de galhos compridos e quase sem folhas. Foi por muito pouco que sua posição não foi entregue de bandeja para o inimigo. Christopher engoliu em seco, tentando imaginar o que estaria os esperando depois daquela entrada escura que abria-se diante dele como uma boca de hálito gelado, um galpão obscuro e úmido do outro lado os esperava. Primeiro Miguel e Fernando correram e tomaram as laterais da entrada, depois foram engolidos pelas trevas do galpão, e assim de par em par cada um deles entrou. Lá dentro o silêncio imperava, e era assustador, frio e gelado. A porta azul no canto mais distante daquele galpão levava para o lugar onde antes funcionava o estoque do supermercado, agora mais uma sala fria onde as armas do esquadrão S.U.J.A. descansava, esperando pelo uso, motocicletas futurísticas, veículos estranhos e aerodinâmicos, canhões sônicos potentes e estantes intermináveis com pistolas, metralhadoras e bazucas. Armamento pesado recolhido do exército pelos zumbis. O teto era alto e distante, a iluminação era amarelada e parca, algumas lâmpadas piscavam, falhando, denunciando o mau contato, dando um ar de mistério e abandono àquela câmara secreta de armas. Lúgubre.
- Isso não tem saída? – exclamou Fábia.
- Ali está! A entrada para o supermercado! – Christopher abriu a porta de saída do depósito para deparar-se com um enorme laboratório tecnológico onde armas novas e experiências científicas eram testadas de dia, à noite, nas madrugadas, era um museu sombrio de prateleiras e balcões repletos de frascos, robôs de todos os tamanhos e suas peças, desligados, armamento e estranhos recipientes guardavam pequenas criaturas que mais pareciam fetos. Estaria a S.U.J.A. trabalhando com clonagem? Líquidos coloridos borbulhavam e tornavam-se fluorescentes na escuridão enquanto braços mecânicos controlados por computador estavam congelados no tempo sobre as peças biônicas onde faziam reparos há algumas outras atrás. As agulhas cirúrgicas ainda estavam quentes, aliás.
- Eu não sei porque, mas to achando isso meio estranho, vocês não acham? – Pietro estava vasculhando o lugar com os olhos. – estou achando isso aqui vazio demais... aqui estão as experiências delas... isso aqui é material secreto... deveria estar sendo vigiado...
- E ESTÁ SENDO VIGIADO! – bradou uma voz do além, ecoando pelas paredes do galpão. Apoiado na mureta do segundo andar, um vulto escuro os observava. As armas foram sacadas de imediato, postando-se de costas uns para os outros formando um círculo perfeito, os apocalípticos apontavam para o escuro esperando o assalto. Até então nada aconteceu, uma risadinha baixa ecoava pelas paredes e passos de um salto agulha furavam o chão produzindo um ruído de “troc” insuportável, causando apreensão e nervosismo. Fábia tremia segurando a sua arma.
- Quem está aí?! – gritou Maxine.
- Apareça! – urrou Christopher. As pistolas de laser estavam muito bem bombeadas e carregadas agora.
- Tolinhos... Acharam que passariam despercebidos pela segurança! – o vulto no segundo andar riu de novo, descendo às escadas com o seu salto barulhento irritante, estava se aproximando. Quando os passos pararam ao pé da escada, refletores potentes cegaram os apocalípticos repentinamente, pegos de surpresa, eles foram ao chão retorcendo-se e tapando a vista, os olhos agredidos pela luz forte, que queimava.
- Eu sou a General de Número 10 responsável pela administração do prédio da central! – um único refletor acendeu-se sobre o vulto na escuridão, revelando sua identidade vestida no uniforme preto, carregava um bastão na mão direita que terminava numa bola de ferro maciço coberta por espinhos pontiagudos, descarregando eletricidade no ambiente ao redor. Suas orelhas de abano e sua cara achatada de macaca revelaram a sua identidade, seu cabelo oleoso escorrido era sua marca registrada.
- Lana Palafita! – exclamou o grupo em uníssono. Quer dizer, parte dele, só aquela cota que vivia naquela cidade e naquela mesma época, e que estudava na mesma escola que as generais malignas da S.U.J.A., essa cota sabia que Lana Palafita e sua cara de ribeirinha eram figurinhas batidas no álbum das amiguinhas mais íntimas de Velma. Mas ali, como uma general e segurando aquela estranha arma, representava um novo tipo de figura, e bem mais ameaçadora. Seu olhar mau encarado costumeiro de bicho do mato agora tinha uma tonalidade elevada de maldade, objetivo, duro e fulgurante, hipnotizado e cego.
- CORRAM! – foi o que Fernando conseguiu gritar antes que Lana Palafita acertasse o chão em cheio com seu bastão-clava, abrindo uma cratera enorme no piso do galpão, fazendo descer poeira do teto enquanto as rachaduras nas paredes se entrecortavam e se cruzavam ferozes. O poder daquela arma era fenomenal, tratando-se de matéria densa concentrada, aquela pequena bola cheia de espinhos devia pesar quase uma tonelada, vinha acompanhada de uma luva biônica que aumentava a força do seu usuário com eficiência para que ele pudesse portar um equipamento tão pesado e potente. Descargas elétricas ricochetearam nas paredes como cobras azuis mortais, procurando um alvo para cravar suas presas. Por ser um material altamente concentrado, acumulava energia como nenhum outro material, seu simples atrito com outros materiais causava explosões eletroestáticas poderosíssimas. Christopher olhou de relance para trás antes de ser lançado para longe pela potência do bastão-clava, podia jurar que vira os músculos de Lana Palafita duplicarem de tamanho ao manipular da arma. Foi bizarro vê-los retornarem ao tamanho normal, secando feito um bolo ao contrário até encaixarem-se nos ossos para assumirem a forma franzina de sempre da garota.
- Como em Gantz! – gritou Christopher. Ele sabia o que era aquilo. Aquilo era o uniforme! O uniforme fazia aquilo! Aqueles músculos artificiais eram artifícios do uniforme!
- Vem! Vem! – Miguel sinalizava para Christopher de trás de uma prateleira. Havia uma porta ali, Augusta e Pietro já estavam do outro lado. O rapaz não pensou duas vezes antes de correr para lá. A porta fechou-se atrás dele com um baque surdo. – Vamos atrás da Máquina do Tempo!



Fim do Apocalipse Doze!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

The Big Machine 3 - Apocalipse 11


- As três principais generais da S.U.J.A., Alberta, Velma e Úrsula estão em expedição ao interior do estado em busca de refugiados da ditadura, elas não vão poupar esforços até que a torre seja construída... – Haruno foi interrompida bruscamente por Maxine.
- Torre?!
- Sim – Haruno prosseguiu, sempre tranquila e equilibrada. Enquanto todos estavam abalados pelas novas informações, ela parecia muito calma – elas estão construindo uma torre bem em cima de onde antes ficava o Monumento do Marco Zero, vai ser uma espécie de “palácio” para elas... Mais da metade dos zumbis está trabalhando nisso, no ritmo em que as coisas andam, ela estará terminada em menos de um ano, estão usando os restos dos prédios para construir uma estrutura metálica enorme... Mas no momento, a cidade está sob os cuidados de outros Generais...
- Espera um instante! Tem outros generais?! – Christopher levantou da cadeira, todos foram pegos de surpresa por aquela informação. Corações quase saltaram para fora do peito, o grupo entrou em desespero.
- Sim! Trancados aqui vocês nunca vão saber nada! – Haruno fez uma careta e colocou as mãos na cintura em menção de cobrança, como se fosse fácil ficar perambulando por uma cidade cheia de macacos-robôs assassinos. – vocês têm de entrar em contato com os outros grupos de refugiados! Vocês lideram o maior grupo de todos e estão aqui, isolados, sem saber de nada do que está acontecendo! Sim, há outros generais lá fora, uns cinco ou seis. Todos são da escola onde vocês estudavam...
- Não vai me dizer que elas transformaram o grupinho dos populares em generais! – Ray Ann bufou. Fernando deu um soco na parede, fazendo tremer toda a estrutura do cômodo, estava furioso.
- Sim, o irmão da Alberta foi visto usando um uniforme preto montado em um dos Donkey-Kongs, assim como outras pessoas que eu nunca vi, mas que vocês supostamente devem conhecer... – Haruno olhou pela janela mais uma vez. Estavam todos apreensivos, pois o sol já estava prestes a sair. Os primeiros raios da Aurora já despontavam no horizonte, cruzando as nuvens carregadas de um dia nublado que viria por aí. Uma iluminação natural fraca deixava a paisagem azulada e fria, a praça das armas estava deserta, todos já haviam se recolhido, menos eles. O gramado lá fora estava azul, os paredões de pedra de oito metros estavam azuis, os baluartes e seus vigias estavam azuis também, uma segunda feira azul, pensou Christopher, como a música do New Order.
- Com certeza devem ser a Rosálio, o “Turco” e o Edvaldo! – Ray Ann deu um tapa forte na mesa, como se o mosquito que ela matou fosse uma espécie de representação da peça que faltava, da charada que havia resolvido. A luz azul que entrava pela janela aberta junto com o vento gelado deixava seus cabelos perolados espectrais, as velas já haviam apagado há muito tempo, todos ali pareciam fantasmas apáticos banhados pelas luzes da aurora, do começo da manhã. O cantar dos passarinhos os causava angústia e desespero. Ser tocado pelo sol era quase uma dor, queria dizer que eles estavam à mercê do desconhecido.
- E estes são só alguns dos nomes cotados! – exclamou Pietro – a turminha dos populares não se restringe à nossa sala de aula, tem outros pela escola também e mais um bocado espalhados pela cidade! Eles devem estar soltos por aí aos montes nos caçando! – ele estremeceu, não se sabe se de frio ou de medo. O vento que entrava pela janela era gelado o bastante para fazer Maxine abraçar seu marido Fernando de um modo como não abraçava há dias.
- Não, mas devem estar no comando só os mais confiáveis, os mais próximos... – Fábia citou o óbvio.
- E que história é essa de uniforme preto?! – exclamou Augusta.
- Não sabemos o que ele representa, mas é quase como se fosse uma segunda pele... – voltou seus olhos para a aurora outra vez. O azul estava se diluindo em laranja agora. As nuvens estavam se dissipando um pouco. – Os Generais estão responsáveis por vasculhar áreas distintas da cidade e recolher todo o material de construção necessário para a torre, além de capturar refugiados, os grupos de refugiados caíram muito essa semana... Cada um ficou com uma zona diferente... Zona sul, zona norte, zona leste e zona oeste, e controlando eles à distância estão as três principais, que ficam isoladas e muito bem guardadas pelos DK’s no prédio da FAMA...
Os olhos se arregalaram, os rostos espantados se entreolharam, surpresos. Exclamações brotaram de todas as bocas em forma de gemidos, palavras abafadas e xingamentos. Elas estavam escondidas ali o tempo inteiro!
- É impossível chegar lá por terra. A estrada foi completamente destruída...
- Espera um instante! Espera! Espera! – Maxine levantou-se de repente, o cenho franzido e o corpo retesado, na defensiva. Aproximou-se de Haruno ameaçadora e fitou-a profundamente, colocou as mãos na cintura e semicerrou os olhos. Os dois rostos ficaram tão próximos que elas poderiam ter trocado um beijo. Cara a cara elas eram muito parecidas, uma era a cópia idêntica da outra, a diferença estava na cor dos cabelos. Max tingira os cabelos de ruivo, eram ondulados e cheios de curvas, enquanto que Haruno possuía belas madeixas lisas e escuras como cataratas à meia noite. Poderiam ser mãe e filha se Maxine não fosse uma viajante do tempo vinda direto do futuro há alguns meses atrás. – como você sabe de tudo isso?!
Agora todos entraram no mesmo estado de defesa em que Max se encontrava. Alguns até puxaram suas armas, outros se levantaram da cadeira e se afastaram.
- Ei, ei! Calma! – Haruno levantou as mãos em sinal de rendimento. – tudo bem, tudo bem! Eu ia contar de um jeito ou de outro, eu sabia que isso ia acontecer! – levantou-se. Todos deram um passo para trás. Haviam eles colocado o inimigo para dentro da Fortaleza? Se isto realmente fosse verdade, a esta altura Alberta estaria a caminho assim que o sol raiasse! O desespero se dissipou feito uma febre mortal, contaminando todos os ali presentes. As armas já estavam a postos, apontadas diretamente para a garota risonha. Eis que a bela jovem jogou sua mochila sobre mesa, abrindo o zíper com rapidez, produzindo o velho ruído escolar tão costumeiro de salas de aula. Puxou de dentro algo de aparência borrachuda, preto, lembrava uma sacola plástica ou algo parecido. Maxine não se conteve, puxou o estranho objeto das mãos da garota antes mesmo que ele todo estivesse fora da mochila, esticando-o por sobre a mesa. Era o uniforme preto, a segunda pele dos Generais.
Foi a vez de Maxine puxar a sua arma, tomando distância e apontando diretamente para o rosto da jovem. A única arma branca dali era a dela, parecia ter saído diretamente de um dos filmes do Star Wars, pulsava e vibrava em seu punho, produzindo ruídos instigantes e pneumáticos, emanando um brilho rosado que deixou o rosto de Haruno numa tonalidade pêssego irresistível. Christopher tomou a frente, protegendo a amiga.
- Max! Não! – gritou. – abaixem as armas! Todos vocês! – disse, olhando feio para Miguel e Fernando.
- Abaixem as armas o caramba! – começou Miguel, o mesmo instinto explosivo da avó. Uma grave discussão iria começar ali e terminaria muito mal se Haruno não houvesse se pronunciado com um grito
- Eu fui uma General! Eu fui uma General! – disse, levantando os braços. – agora parem com isso antes que alguém saia ferido!
Haruno havia dado mais um motivo para as armas continuarem apontadas na sua direção. Lasers vermelhos formavam espalhadas pelo seu rosto, mas ela parecia muito tranquila, um pouco apreensiva, é claro, estava na mira de armas potentes vindas diretamente do futuro, um tiro daquelas maravilhas elétricas e um grande estrago irreversível estaria feito. Seus braços continuavam para o alto, as mãos vazias, estava se entregando de corpo e alma naquilo, estava escrito em seu olhar.
- Qual a garantia que você nos dá para que acreditemos em você? – perguntou Maxine, ainda com os olhos semicerrados, sua boca apertada de nervosismo. – qual a garantia que temos de que você não está nos atraindo para uma armadilha? Que você não é uma espiã infiltrada?
Haruno abaixou os braços, séria. Christopher nunca havia visto aquela expressão no rosto da amiga, ela que sempre fora tão sorridente e alegre, de expressão leve e um tanto distraída, sonhadora, agora adquirira um ar de mulher, determinada. Sua boca formava um desenho perfeito e rosado, como um botão de rosa, seus olhos lembravam os de um leopardo das planícies africanas, Haruno sempre tivera um olhar felino desde criança, olhar este que nunca estivera tão acentuado quanto naquele momento. Lembrava uma tigresa, aproximando-se da sua presa. Cara a cara com Maxine, as duas possuíam a mesma determinação, a mesma audácia no olhar, os mesmos traços felinos sensuais, mas ao mesmo tempo perigosos. Afastou Christopher para o lado com gentileza e pôs a mão em cheio sobre a arma ultra-tecnológica da sua sósia ruiva, abaixando-a com cuidado, aos poucos, enquanto declamava seu discurso para que todos a ouvissem. Os raios da aurora já iluminavam o grupo em alerta na sala. O dia já havia raiado lá fora.
- A garantia que lhes dou é a mesma garantia que me fez largar este uniforme por motivos éticos e acima de tudo humanos, a mesma garantia que me fez líder de um grupo enorme de órfãos que vagavam sozinhos e indefesos por esta cidade. É a mesma garantia que me fez chegar até vocês... – ergueu o punho e foi soltando os dedos um a um. – as minhas noções de justiça, honestidade, compaixão, humanidade e bom senso! Sempre fui muito sensata nas minhas atitudes, não sei em que ponto no meio disso tudo fui capturada pelos robôs e hipnotizada nos estádios... O que me lembro é de estar no meio daquela multidão nua, me contorcendo e lutando para não ser pisoteada, lembro-me de séries sequenciais de flashes fortíssimos que me deixaram tonta... Quando recuperei minha consciência plena, já estava vestida neste uniforme – apontou para a pele de borracha que se estendia sobre a mesa como a muda de uma serpente negra – ladeada por dois macacos de metal. Entrei em desespero, corri como nunca havia corrido, estava sendo seguida por eles de perto... Só consegui despistá-los após rolar um barranco para dentro de uma das áreas de ressaca da cidade... Tirei o uniforme, arranjei roupas novas em casas abandonadas e recomecei do zero... Vocês não têm uma pequena noção do que eu sofri, do quão confusa fiquei, do quanto me senti desamparada, perdida, aflita, morta. Minha salvação foi ter encontrado aquele grupo de crianças...
Levou as mãos ao rosto e desatou a chorar. Christopher a abraçou com força. Miguel e Fernando abaixaram as armas. Maxine foi a última que desistiu do conflito, baixando a guarda. Era hora de começar a bolar um plano, o raiar daquele novo dia era tão simbólico quanto o renascimento da Fênix após a combustão espontânea das suas penas dourado-avermelhadas. Aquele novo amanhecer representava a renovação de uma esperança que estava ficando perdida aos poucos, que estava se apagando com o passar dos meses que se arrastavam, rastejavam no calendário, angustiando e massacrando os corações aflitos. De repente, as madrugadas não pareciam tão escuras.
- Às vezes eu tenho flashes... das coisas que fiz como general... dos rostos dos outros generais... dos macacos-robôs que eu controlava... – disse, baixinho, meio que para si mesma. Nenhum comentário posterior foi ouvido da boca dos aflitos ocupantes do cômodo, agora incômodo, meio lotado demais.
Uma velha música entoada nas igrejas em missas de domingo e velórios ressoou dentro da cabeça perturbada de Christopher enquanto ele observava Ray Ann ser afagada pelo namorado sempre tão protetor e prestativo. Ele não desgrudava dela nem por um segundo, era como um protetor, um pai, ela parecia frágil, mas guardada em seus braços, a fera abraçando a rosa.
Se as águas do rio da vida
Quiserem te afogar...
Segura na mão de Deus
E vá...
Não temas, segue adiante
E não olhes para trás
Segura na mão de Deus
E vá...
Não era fruto da sua imaginação. O cântico entoava de dentro das paredes da fortaleza, como se as pedras seculares falassem. As velhas senhoras refugiadas, o grupo de oração do esconderijo, esta era a fonte do hino. Elas louvavam a Deus e agradeciam por mais um alvorecer, por mais uma noite em segurança, enquanto pediam e clamavam com fé pelo fim daquele martírio, pela prevalência do bem sobre o mal, naquelas terras tão distantes e tão isoladas, agora mais do que nunca. Os ventos do Amazonas nunca pareceram tão desesperadores e gelados, aquela canção era um conforto para todos aqueles corações, e também uma mensagem, uma mensagem de que tudo havia de melhorar, a paz está próxima, irmãos. Acreditem.



Fim do Apocalipse Onze!


Mais um Apocalipse surpresa para os fãs lindos deste blog!
Amanhã e domingo, novos capítulos estarão disponíveis!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Tudo Será Flores Daqui Por Diante


Primeiro você se matricula para estudar à tarde numa faculdade particular linda, com um prédio maravilhoso, um ambiente aconchegante e um corpo docente respeitável, o lugar perfeito para dar continuidade às suas aventuras com seus melhores amigos, que também se matricularam à tarde na mesma instituição, em cursos diferentes...

Então vocês passam dois meses ansiando pelo reencontro dos quatro restantes, porque uma vai ficar um ano sem fazer faculdade e talvez nem a veremos outra vez. Vocês se telefonam quase todo santo dia, imaginando como vai ser, ansiando, planejando, esperando ansiosamente pelo primeiro dia de aula, onde vocês provarão para o professor cruel que profetizou o fim de todas as amizades após o ensino médio, que nem o tempo e nem o destino apagará o que vocês construíram juntos, que vocês conseguiram manter o castelo de pé mesmo após o Fim com todas as letras.

E então chega o primeiro dia de aula e vocês se encontram e é aquela alegria! Uma nova fase da vida começa, vocês são jovens adultos! Ali estão vocês, unidos nesse novo passo rumo ao desconhecido, de mãos dadas, enfrentando um novo começo num ambiente totalmente diferente daquele com o qual eram acostumados, onde terão de se acostumar a novas regras e novos hábitos! A faculdade! Na porta do auditório, o último membro do grupo chega, a garota que faltava para completar o quarteto, e então vocês se abraçam e todos ficam olhando pra vocês. Que felicidade! Vocês estão juntos de novo! Na faculdade! Amizades que começaram na terceira, quinta série, primeiro, segundo ano, vão continuar no nível superior! É completamente utópico, improvável, mas vocês estão ali, a prova final de que farão de tudo para ficarem juntos.

E aí te dão a notícia.

E toda aquela felicidade vai por água abaixo.

Jogam um balde de água fria na sua cabeça.

Mas tudo bem, o curso vai ser à noite, se chegar cedo dá pra ver o pessoal na hora da saída! Não vai ser como o esperado, mas nem tudo é perfeito, não é mesmo? O importante é que estarão juntos!

Porém você passou em outra faculdade, uma universidade federal, que também é à noite. É claro que seus pais vão preferir que você curse na federal, não tem nenhum ônus, é de graça, e a renda só está ficando cada vez mais apertada por causa das contas a pagar. E agora?

Sim, Louie, você vai ficar longe dos seus melhores amigos.

Eu sei que você está se sentindo mal, sozinho, desamparado, desmotivado, sentindo que nada vale mais a pena e sentindo uma pontadinha de inveja daqueles que ficaram lá juntos. Unidos.

Sei que você está se sentindo deixado de lado, deixando de fazer parte de algo importante.

Sei que você telefona pra eles todo dia antes da entrada e depois da saída, pra saber como está e quem está por perto, o que aconteceu no dia.

E você acabou de saber que eles estão se sentindo tão perdidos sem você quanto você sem eles.

E sei também que você está se sentindo como a Hayden Panettiere em As Apimentadas 2.

Mas o destino gosta de pregar peças na gente.

E não pense que só porque coisas boas tem lhe acontecido, tudo será flores daqui por diante.