Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

domingo, 10 de abril de 2011

Theoria

Eu tenho uma sacola cheia de sonhos

E um baú repleto de fantasia

Eu tenho uma mente estranha

De noite e de dia

Mas meu coração é vazio


Eu tenho uma casa alaranjada

De janelas gradeadas e azulejos azuis

Nada nesse mundo me seduz

Nenhum ser humano me deduz


Você sabe quem eu sou?

Eu fui terra, eu fui céu

Eu fui água, eu fui fel

Amargo como semente de limão

E os cajus do quintal sequer florescerão


No meu mundo, as cigarras cantam de madrugada

À luz das estrelas, comemorando o luar

Os lobos saem de dia, usando chapéu

Foram passear

E o que há atrás daquela porta

Só a fechadura dirá


Eu tenho uma bagagem estranha

Ela tem o formato de uma palmeira

E está cheia, lotada de besteira

Nunca vi tanta bala

E nem tanto caviar

Caviar é coisa de rico

Cansei de fantasiar


A realidade é outra coisa

Mas prefiro ficar aqui dentro

Do que me vender ao relento

Falando em vender,

Jamais me dei fácil

Que nem certas vadias que conheço.

Pra falar a verdade, a mim mesmo desconheço


Carroça, carrapato, caipora

Alguma coisa nesse mundo me apavora

No Messenger eu nunca estou ausente

Eu só estou descontente

Por isso não venha dizer oi

Eu só respondo depois


Depois que os pássaros pararem de chorar

E os pedaços do meu coração

Eu consegui juntar

Já não tenho mais chão

Flutuando no céu

Sem conseguir atravessar o véu


Alguém furou a teoria

Que sustentava essa patifaria

Que eu chamo de vida

Vida minha,

Vida minha


Eu nunca sou eu mesmo

Estou sempre representando

Como uma espanhola dançando tango

Estou farto de estudar

Vestibular ficou pra lá


Meus amigos, onde estão?

Na padaria, comendo pão?

E o meu amor, que se perdeu

Esfacelou, evaporou

Nunca existiu.

Isso me apavorou.


E eu por acaso sou gente?

E eu por acaso sou humano?

Minha vida é uma grande mentira

Ora, quem diria


Eu finjo que te entendo

Eu finjo que te amo

Eu finjo que te sinto

Eu finjo que existo


Uma cópia barata

De alguém que já existiu

Foi assim

Que minha teoria faliu.

sábado, 9 de abril de 2011

Capítulo X - Amélia Mimieux e a Profecia da Lua Vermelha

Pouco antes de montar o pássaro gigante e voar rumo aos confins das Cordilheiras, Amélia recebeu a visita das Feiticeiras das Montanhas, em suas máscaras de crochê e seus mantos coloridos ou brancos. Elas surgiram como fantasmas alados, esvoaçantes por entre as árvores, macacos místicos de pele da cor do leite, saltando de galho em galho com a graça de bailarinas celestes, sem quebrá-los ou sequer provocar um leve farfalhar daquelas folhas dos pinheiros, das araucárias, dos bambus e dos ciprestes. Eram anjos mascarados.


Aquela que sabia a língua humana e que falara com Frederico há um dia atrás desceu de seu galho, enquanto as outras observavam das alturas, os olhos esbugalhados curiosos, outras desconfiadas, assustadas ou até mesmo desgostosas e reprovadoras. Kärla, como se chamava, aproximou-se sorrateiramente da jovem que a observava séria, fez uma reverência e se apresentou.

- Humana, eu me chamo Kärla, A Caçadora. – começou, tirando a sua máscara de samurai da cabeça. As outras feiticeiras estremeceram e soltaram exclamações em gemidos e murmúrios.


Era proibida a retirada da máscara fora dos limites da aldeia, que ficava há quilômetros de distância dali, quase no fim da floresta, longe o bastante do mundo humano para que as árvores ficassem escassas. – falo a tua língua porque já estive no teu mundo, já fui do teu mundo, e quando caí neste mundo por acaso, ainda pequena, fui acolhida pelas irmãs... – fez um gesto para os vultos nos galhos – estivemos observando vocês com atenção durante todos esses dias, sem saber como reagir ao que estaria por vir...


- Aonde você quer chegar com tudo isso? – perguntou uma irritadiça Amélia, com o pequeno pássaro que havia sido seu pai pousado no ombro.

- Há coisas que você precisa saber antes de partir até os limites das Cordilheiras...


A conversa durou certo tempo, elas sentaram-se no chão mesmo, de pernas cruzadas na posição do lótus, frente a frente uma da outra. O grande pássaro do tamanho de um pônei também arriou-se ao chão ao lado das duas, procurando proteger a jovem o máximo possível, como se a própria fosse seu filhote, e ali Kärla iniciou sua história...

Há muitas eras atrás, não havia nada no vácuo, ele era apenas um espaço vazio ocupado por névoa branca e espessa, onde os restos de um estranho mundo perdido flutuavam, eram grandes pedaços de terra sem vida. No vácuo havia moradores muito antigos, seres sem corpo, seres sem alma, feitos de sombra, que não tinham propósito algum, vagavam errantes, e por vezes caíam no mundo humano, onde causavam grandes desastres. Os Espectros, como são chamados, já tiveram um rei, um senhor de sombras, que sonhava em dominar o universo. Foi derrotado pelas cinco guerreiras lendárias, e após a derrocada de tal ser, o vácuo viu-se abandonado, e os Espectros voltaram às origens como seres errantes nas sombras.


Antes de mais nada, você precisa saber que o tempo varia muito entre o seu mundo e as Cordilheiras. Você pode passar um segundo aqui, mas não se espante se ao voltar para o seu mundo deparar-se com todos aqueles que você amava mortos. Assim como mil anos aqui neste lado podem ser um piscar de olhos lá do outro.

Mas um dia, as grandes massas de terra flutuante começaram a se unir e a formar enormes montanhas bem no meio do vazio, se reuniam formando verdadeiras trilhas, antes caminhos de pedra estreitos, depois estradas sólidas e em seguida blocos colossais e pontiagudos. As montanhas se reuniam aos poucos em uma linha errante que seguia em direção ao infinito, e com o passar dos anos, as massas de terra ficaram tão unidas que pareciam ter nascido grudadas, juntas, ali. Pensou-se que algo grandioso estava para acontecer, e foi exatamente isso o que aconteceu


Um grande cortejo de espectros passou por entre as montanhas pedregosas, e nossos primeiros antepassados presenciaram isto, porque chegaram junto ao cortejo vindos de mundos distantes. A caravana cortou os vales e a beirada dos penhascos, uma enorme caminhada que levava quatro luxuosas liteiras para o vazio mais adiante onde a linha montanhosa terminava. Lá, aquele a quem os espectros chamaram de Lilith, O Sanguinário, desceu de sua liteira, e seus outros três irmãos fizeram o mesmo.

Os quatro deuses deram as mãos e usando seus poderes demoníacos deram a luz a um novo mundo, isso demorou algum tempo, de modo que os deuses tiveram de construir uma morada temporária no cume da montanha mais alta, a última montanha das cordilheiras, aquela que eles chamaram de Auriel. Lá no topo foi erguido um enorme palácio de ouro, onde os quatro deuses meditaram durante muito tempo em silêncio, concentrando todos os seus poderes na criação de outro mundo, e no final, os espectros comemoraram porque tinham um novo rei e um mundo concreto para viver.


Mas logo se decepcionaram, pois Lilith e seus irmãos partiram para o novo mundo, agora já habitado por criaturas trazidas de outros universos ou criadas a partir da mente dos deuses. Os quatro deuses se foram para aquilo que chamaram de Oráculo, a fonte da sabedoria, sem sequer olhar para trás. Mas Lilith prometeu aos seus servos que voltaria quando chegasse a hora, e eles saberiam quando seria hora.

Um dos espectros perguntou como, e Lilith sorriu, esfregou as mãos com força e espalmou-as em forma de concha. Ali entre seus dedos havia um pequeno sapo de grandes olhos amarelos, e assim, foi profetizado que quando aquele sapo estivesse tão grande e gordo a ponto de explodir e a lua cheia no céu tornar-se vermelha como sangue, Lilith voltaria do Oráculo para governar.


O Sanguinário contou-lhes a profecia do fim das Cordilheiras e contou-lhes sobre o que aconteceria após a queda daquelas montanhas no abismo. Ensinou-lhes também o ritual necessário para que ele viesse a este mundo, e por fim partiu para o Oráculo junto de seus irmãos, deixando para trás de si um grande milagre, uma vasta e farta floresta que tinha origem no mundo humano.

E da curta estadia de Lilith neste pequeno mundo restou este palácio de ouro, resplandecente, coroando o alto da montanha mais alta de toda a Cordilheira, onde este mundo termina. E os espectros então consagraram aquele lugar como um templo, e ali fizeram oferendas e rituais de adoração a Lilith nas noites de lua cheia, esperando a noite da lua vermelha. Enquanto isso o pequeno sapo crescia, se alimentando no começo apenas dos insetos que aqui viviam... Foi ele quem deu fim a toda a fauna que habitava este lugar, ele devorou os insetos um a um, e depois os coelhos, os esquilos, os pássaros, os cervos, os veados e até a família de lobos, a família de panteras e os ursos. As criaturas que restaram esconderam-se nas entranhas das montanhas...


No final de seu banquete ele já estava tão grande e gordo que passou a ser adorado como rei no templo, e os espectros o chamaram de Ousama, O Poderoso. Ele havia criado consciência também, pensava como gente, e após ver o pequeno Frederico na clareira há alguns anos atrás, decidiu que se faria homem de um jeito ou de outro, seria gente. Em seu nome, porcos foram trazidos do mundo humano e sacrificados nas pedras, da carne do porco Ousama se alimentou, pensando que se faria gente, mas não se fez.

Não bastava querer ser gente, queria também ser rei. Reinar sobre os espectros, sobre os monstros e sobre os homens, queria ocupar o lugar de Lilith, aquele que o criou, e por isso ordenou aos espectros que trouxessem o humano da profecia, aquele que consagraria seu corpo na noite da lua vermelha. Mas os espectros erraram não só uma, mas duas vezes, trazendo primeiro o pai e por último o filho, na companhia da irmã, a qual sequer deveria ter vindo. Isso deixou Ousama furioso. Ele queria provar do sangue humano, se o sangue humano traria Lilith de volta, porque não o transformaria em gente?


Mas ele era grande e gordo demais, jamais poderia sair do palácio sem morrer esmagado pelo próprio peso, e os espectros não podiam sair à luz do dia porque desapareciam, tornavam-se invisíveis, e sequer podiam entrar na maldita casa amarela, que os repelia e os amedrontava. Havia um encanto nela, e eles sequer sabiam de onde ela havia saído. Certa vez Ousama criou um monstro feito da sua própria carne, mas a criatura, uma cópia menor sua, não sobreviveu. Após perseguir Dimitri, o pai, na floresta, desfez-se em muco e evaporou, e isso deixou Ousama muito frustrado, quem levaria o sangue humano até ele?

Eis então que no mundo humano, alguém se matou numa banheira, alguém próximo a Frederico. Era exatamente disso que Ousama precisava: alguém que não quisesse viver, alguém descartável para servi-lo somente naquele momento, alguém que não o atrapalhasse e que ele pudesse jogar fora. E então você se pergunta “porque ele não tomou do sangue dela?”. Ora, pelo simples motivo de ela não conter o sangue de monstro, o sangue da profecia, o sangue mágico. E assim, os espectros trouxeram Geraldine para as Cordilheiras, e possuíram seu corpo, mudando sua essência por dentro, transformando-a naquele corvo monstruoso que sequestrou Frederico.


“O que eles vão fazer a ele?” Você se pergunta.

E eu lhe respondo.


Vão ungi-lo nos óleos sagrados, perfumá-lo nas pétalas mágicas e uni-lo em matrimônio simbólico com a lua. Ele será o primeiro alimento de Lilith neste mundo. O seu coração saciará a sede do Rei dos Monstros por sangue, e assim que Lilith estiver de pé, Ousama o matará, assumindo então a coroa do reino das aberrações, tudo isso sob a luz maldita da lua vermelha, o crepúsculo das eras.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Reconstrução


Eu me postei debaixo daquela árvore debaixo do sol da tardinha, esperando por ela. Não demorou muito para que ela aparecesse, e assim que eu vi seu rosto, acredito que tudo o que eu vinha sentindo há algumas semanas veio pra fora. Quer dizer, não tudo, mas boa parte das coisas ruins que eu tenho guardadas no meu coração vieram pra fora num mar de lágrimas insistentes que levaram numa cachoeira o meu delineador, o meu lápis de olho, toda a minha beleza removível, o pouco que eu tenho. Se é que eu a tenho, afinal, "qualquer um é mais bonito que ela" disse Anna a respeito da garota desagradável da nossa turma "até o Antonio é mais bonito que ela".

Acho que isso foi a gota d'água dessa semana difícil que eu tenho passado. A última vez em que me senti tão mal, tão pra baixo, tão feio e tão mal-quisto foi quando Desirée reuniu uma horda de degenerados e desocupados para encher a minha página do formspring de xingamentos e ofensas, o cyberbullying. Sou uma pessoa de ego muito frágil, como já citei anteriormente na postagem a respeito da minha primeira visita à Junta Militar: eu sofri muito durante grande parte da minha infância e adolescência, não suportava sequer me olhar no espelho. Ora, eu nunca fui um menino bonito, mas eu precisava me amar de alguma forma, a saída foi o meu cabelo, mas isso já foi discutido antes.

O fato é que eu tenho me sentido muito, muito mal mesmo nesses últimos dias e sem nenhum motivo aparente, eu tenho me isolado das pessoas que me querem bem e procurado a presença de pessoas que me fazem sofrer de alguma forma (conscientemente ou não), tenho tido ataques de ansiedade frequentemente (falta de ar seguida de batimentos cardíacos acelerados, aumento da temperatura corporal e a sensação de que alguma coisa terrível vai acontecer ou está acontecendo), e o que a Anna disse naquele momento foi uma brincadeira, é lógico, mas caiu na minha cabeça como uma bomba que me devastou.

E ver a Bia ali na minha frente trouxe à tona a memória de um tempo em que eu me sentia amado, querido e... bonito, de bem com meu corpo e comigo mesmo. e então eu comecei a chorar e não conseguia parar de maneira alguma e deixei a pobre da menina completamente confusa porque ela não estava entendendo nada! Eu preferi não entrar muito em detalhes do porquê do choro. "Saudades" eu disse, e outras meias-verdades.

E aí eu fiquei remoendo um bocado de coisas, relembrando os meus tempos de Apocalipse Club - Rayanne, Fabíola, Pedro, Bia - todo mundo se preocupava comigo e me queria bem, assim como eu me preocupava com eles e também os queria tão tão bem. Eles gostavam de mim do jeito que sou e me compreendiam, e se não entendiam, se esforçavam para aceitar e respeitar qualquer atitude ou ponto de vista meu, acima de qualquer coisa, eles me admiravam e me protegiam e cuidavam de mim.

Eu nunca fui muito normal... Tá legal, sejamos sinceros, eu NÃO SOU normal de maneira ALGUMA, eu tenho uma cabeça confusa cheia pensamentos desconexos e avulsos, coisas que precisam ser ditas ou escritas para não serem perdidas no abismo de mim, e algumas pessoas não entendem isso, e também não dão a mínima para tentar entender. Tudo bem se forem desconhecidos ou não muito íntimos, mas pessoas que se dizem suas amigas deveriam se esforçar para compreender, não é mesmo? Não que eu esteja pedindo para que PAREM O MUNDO E TENTEM ME COMPREENDER POR FAVOR, EU PRECISO DE ATENÇÃO, não, longe disso, nada disso!

Cada um tem a sua própria vida e as suas próprias questões para lidar, há coisas muito mais importantes do que eu, e como a Brena me disse sem meias palavras nessa segunda-feira e da forma mais dura o possível, "O MUNDO NÃO GIRA TODO AO TEU REDOR", pode ter soado como uma crueldade na hora aos meus ouvidos, mas era a verdade explícita, nua, despida e descarnada, fazendo sexo com a realidade bem diante dos meus olhos e, nossa, isso foi um pouco chocante no momento, mas ela fez o papel de uma boa amiga afinal de contas, à maneira dela, e é por isso que de todas as pessoas que eu conheci nesses poucos meses de Unifap, ela foi aquela com a qual eu mais me identifiquei em muitos aspectos.


E, nossa, foi tão bom encontrar a Bia depois de tanto tempo! Eu me senti encaixado de novo, senti como se uma pequena parte do pedaço que havia se desprendido de mim houvesse voltado, e eu me senti parcialmente revitalizado, eu estava MESMO precisando rir, e a Bia é especialista nisso, ela me faz rir desde a terceira série, não consigo encontrar minha existência antes dela, ela me ensinou a ser feliz rindo. Rindo da vida, rindo de si mesmo, rindo dos outros. Rindo. Foi como receber um raio de sol depois de muito tempo num quarto escuro, e por isso que eu chorei tanto, tanto quando a encontrei debaixo da árvore.

E depois eu me lembrei repentinamente que havia marcado cinema com o Andrew depois da faculdade - e mais uma vez o Andrew me ajuda a lidar com a depressão! Foi ele quem veio me visitar no dia seguinte ao cyberbullying, me dar apoio moral e me fazer sorrir. - e aí tive de subir num ônibus diferente do habitual para ir ao shopping, mas quando cheguei lá e telefonei para ele, descobri que o filme não estava sendo exibido no Cine Macapá e sim no Imperator! Morri de rir comigo mesmo e tive de andar mais algumas quadras pra chegar até lá (bondade minha, tive de atravessar um bairro pra falar a verdade!), mas valeu a pena porque, nossa, Sucker Punch é incrível, é visualmente maravilhoso e tem um enredo digno de um livro de Lemony Snicket! (é assim que escreve o pseudônimo do autor de Desventuras em Série?).

Eu me identifiquei tanto com a personagem principal! Babydoll, procurando fugir daquela realidade dolorosa transforma a sua vida trágica em metáforas internas, e se perde dentro delas, se perde em seus devaneios enquanto faz aquilo que sabe fazer de melhor: dançar. Só que, no meu caso, eu escrevo! Aquele filme na verdade foi só uma concretização e exposição por parte e terceiros daquilo que eu faço desde pequeno, desde o momento em que meus pais se separaram e o mundo inteiro começou a desabar sobre a minha cabeça: sonhar, me perder num mundo de sonhos, transformar as coisas ruins que me acontecem em história mirabolantes que se desenvolvem na minha cabeça, cheias de explosões, magia, robôs, dimensões desconhecidas e monstros abissais, enquanto aqui fora eu recebo golpes dolorosos da vida.

Vocês acham que a saga The Big Machine veio de onde, afinal de contas?! Desse meu desejo de liberdade, de fuga, e é por isso que eu me identifiquei tanto com Babydoll, ela é a personificação da minha alma: pequena, frágil, delicada, perdida num mundo interno tão grande. Acho que é por isso que eu sou meio autista... Nasci num corpo grande demais, talvez minha alma se perca por aqui por dentro às vezes e eu tenha esses pensamentos suicidas loucos!

Ai, são tantas coisas! E como a pipoca estava gostosa! Tantas coisas para dar atenção e eu só consigo lembrar do sabor da pipoca! Se o Andrew não tivesse me tirado desse fundo de poço e me levado para o cinema, acho que a esta altura eu estaria com os pulsos cortados ou algo pior! Sempre o Andrew pra me animar nessas horas... E depois, quando eu cheguei em casa, a Rayanne me ligou, e foi tão bom falar com a minha amiga!

Agora eu sei como ela se sente às vezes. Eu ralho tanto com ela quando ela começa com esses pensamentos pessimistas escrotos, e ela com toda a paciência do mundo me pede pra concentrar nos estudos quando estou a ponto de enlouquecer (è_é -s)!

E é nessas horas que nós caimos na real: no final das contas, amigos ainda são conferidos nos dedos das mãos!

Dizem que crianças que nascem em dias muito chuvosos tem propensão à desenvolver depressão... coisa de Feng Shui... Bom, enquanto houverem pessoas como estas na minha vida, eu duvido muito que o Feng Shui fará algum efeito.

Era isso. Um desabafo. Uma reconstrução.



XXXO


Louie Mimieux



Felicidade

Houve um dia pela manhã

Um simples dia pela manhã

Em que minha consciência abriu seus olhos

E sentiu que o sol já havia nascido

E cada pedaço de mim procurou a dor

Mas a dor não estava lá

Havia um grande buraco onde antes havia um parasita

Mas ele próprio não estava mais lá

A dor havia ido embora

Havia sumido

E no lugar dela havia uma grande nuvem branca

De paz, de harmonia.

Deus, como eu queria...

Que aquele momento houvesse durado para sempre

Quem sabe, um dia...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Capítulo IX – Frederico Mimieux e Ousama, O Poderoso


Por um tempo, Dimitri tentou entender o que havia acontecido. Ali, caído, logo abaixo da primeira janela da casa, a janela do quarto da frente, ele tentava organizar as ideias de modo a não enlouquecer ou fazer alguma besteira. Sua vista estava turva, tudo era borrão de luz e cor. Ele ainda sentia o bico do corvo gigante envolvendo sua cabeça e lançando-o para o lado como se seu corpo fosse feito de palha, um nada, um boneco de vento. Um brinquedo no bico do corvo. No bico de Geraldine. Era esse o nome da garota, não era? Ele podia sentir a dor lancinante atravessar suas têmporas para furar seu cérebro, isso causava pequenos choques ao mascar, respirar, falar. Teria ele quebrado a cabeça? O barulho do ruflar das asas da criatura ainda ventava em seu ouvido, aquele som pesado de cartas de baralho se espalhando sobre a mesa. E Frederico! Frederico, onde estava?

Levantou-se com dificuldade e lutou contra o escurecimento repentino da vista, que foi seguido por explosões de cores psicodélicas atrás das pálpebras, ele caiu de joelhos e tateou, procurando onde se apoiar. Encontrou pés, e subindo um pouco mais, pernas. Era Amélia.

- Ela o levou – disse Amélia, apática. – a coisa levou ele, voando. – sua voz começava a distorcer. Ela ia cair em prantos outra vez. Mas ela não estava desmaiada há pouco tempo atrás? Como ela se levantou tão depressa? A não ser que as horas passaram e ele nem percebera. Por certo, o dia já ia amanhecendo. O céu perdia sua escuridão aos poucos no raiar de uma nova aurora silenciosa e calada, uma aurora fria como tudo o mais naquele lugar o era. Até a luz do sol era fria como gelo. Os raios solares não tinham nenhum efeito naquelas montanhas verdes, azuis, cinzentas em seus topos, brancas no cume. Cordilheiras cortando um enorme vazio de névoa e nada, como um caminho, uma travessia de um mundo a outro.

- Precisamos... Segui-la... – balbuciou o pai, pondo-se de joelhos. – precisamos... encontrá-la...

- Eu falei que estávamos mortos. Ninguém me ouviu. Ninguém deu à mínima. – gaguejou a moça. Um movimento no céu fosco do amanhecer chamou sua atenção. Era um pássaro. Amélia gritou e se abaixou. Pássaros agora lhe causavam pavor. Vultos pretos nos céus mais ainda. Depois da experiência traumatizante da garota-corvo, Amélia nunca mais seria a mesma. Mas aquele pássaro era bem menor que o corvo gigante, antes Geraldine. Era uma espécie de pintassilgo ou algo parecido. Um pardal ou qualquer coisa com a pele na cor da madeira, ele descia em círculos, e conforme se aproximava do pátio destelhado, ficava maior, maior e maior, até se tornar tão grande a ponto de apavorá-la por completo e fazê-la soltar guinchos altos e estridentes de pavor. Arrastando o pai para dentro de casa com violência. As mãos geladas forçavam movimentos limitados pelo medo, e as pernas doloridas bambeavam tanto pela fraqueza quanto pelo temor. Aquela coisa não ia levar mais ninguém da família! Ninguém!

E então o pássaro pousou, com um rasante, foi parar do outro lado da clareira, perto da saída para a estrada. Ele tinha o tamanho de um pônei, tinha o bico fino e os olhinhos pretos como duas pérolas, as pernas finas como gravetos e seu corpo tão bem desenhado! Era uma graça em tamanho família!

- O que você quer?! – gritou Amélia para a criatura, há metros de distância dela. – Vocês já levaram o Fred, não levaram?! Não estão satisfeitos?!

- Esse... – balbuciou o pai, em sua agonia. A cabeça realmente havia rachado, ele botava sangue pelos olhos e pelo nariz e pelas orelhas. – é o pássaro que te salvou... filha... – e cuspiu uma bola de sangue.

- PAPAI! PAPAI! – guinchou a garota, segurando a cabeça do homem entre as mãos enquanto aninhava-o no colo. – PAPAI! O QUE ESTÁ HAVENDO?! PAPAI!

- Eu... Eu estou morrendo, Amélia! – ele riu, como se isso fosse algo de muito bom. E realmente o era, perante aquele inferno em que sua vida se transformara nesses últimos dois anos. Primeiro todo aquele isolamento, agora seus filhos à mercê de coisas que ele nunca havia visto por ali. Exceto pela grande fera verde que o havia perseguido no meio do mato, logo nos primeiros meses de estadia... Era isso o que ele ia contar a Frederico antes dos gritos começarem... Pobre Fred, nunca saberia o que havia perseguido o pai naquela mata silenciosa.

- PAAAI! – gemeu a garota, beijando a testa do homem entre lágrimas e caretas, seu nariz escorria, seus olhos escorriam, ela estava suja e suada, arrasada.

O pássaro gigante pulou do outro lado da clareira até a entrada da casa, como os passarinhos fazem, espalhando o seixo reclamão para todos os lados. Amélia gritou e tentou enxotá-lo com apenas um braço, enquanto o outro acariciava as ventas amassadas do pai.

- VÁ EMBORA! VÁ EMBORA! ME DEIXE SÓ! – chorava a garota. – ME DEIXE EM PAAAZ! – guinchou, a voz cada vez mais rouca e mais fina, o nariz cada vez mais entupido. Abaixou sua cabeça sobre o rosto do pai, e seus cabelos escuros cobriram as faces do velho com delicadeza, enquanto as duas testas se encontravam dentro da oca capilar que havia se formado pelas madeixas de Amélia ao redor dos dois. Aquele era o universo particular deles. O último momento. O derradeiro momento.

O pássaro ignorou os pedidos da moça e aproximou-se mais ainda. Chiou baixinho e bicou a mão do homem semimorto com delicadeza. O corpo do homem começou a encolher, e isso espantou Amélia, ela gritou e tentou agarrar-se ao pai, que simplesmente desaparecia entre as roupas pesadas de frio. Ela puxou as roupas vazias para si, procurando vestígios do corpo que antes as habitava, ainda havia um pouco de gente lá dentro, um pouco de ser humano, mas ele encolhia cada vez mais e se perdia dentro dos tecidos da calça, da blusa, da camiseta, da jaqueta, ia ficando cada vez menor, encolhendo até desaparecer, e quando Amélia achava que seu pai havia evaporado para todo o sempre, quando seu choro ficou mais forte e mais doloroso porque não haviam mais lágrimas em seu estoque, algo piou dentro do gorro vermelho que o pai usava.

Havia um passarinho ali em seu colo agora, no meio do ninho de tecidos que ela havia formado ao redor de si. E a pequena criatura batia asas e cantava com tanta graça e felicidade que ela não se segurou e começou a rir, rir como se tivesse quatro anos de idade novamente. Enxugou as lágrimas, assoou o nariz e pegou a criaturinha entre os dedos, formando uma concha de mãos ao redor do pequenino com todo cuidado. Esse era o seu pai. Ela beijou a cabecinha do pequeno e ficou ali, a admirá-lo cantar em suas mãos. Ele ensaiou voos, e quando finalmente conseguiu, pairou ao redor do pássaro gigante, sua versão tamanho família.

- Me leve até meu irmão, por favor. – pediu Amélia ao grande pássaro. Ele inclinou a cabeça para o lado, se fazendo de confuso, mas havia entendido muito bem o recado.

•••


Houve um espaço de tempo curtíssimo entre a realidade e o delírio, mas este espaço de tempo se estendeu de tal forma a parecer eras, milênios entre devaneios e visões do mundo ao seu redor e do mundo interior. Frederico viu-se outra vez na clareira, ainda muito pequeno, admirando o grande sapo parado próximo ao amontoado de capim, seu papo lustroso e pegajoso subindo e descendo num ritmo lento e preguiçoso, a íris na horizontal fixa nele, em Frederico, no pequeno Frederico. E então o sapo começou a crescer, a inchar feito um balão, até atingir proporções assustadoras. Então o garoto gritou, e a língua viscosa e rosada da criatura escapou-lhe da boca com o som de um chicote, enrolando-se nele e engolindo-o por completo.

E dentro do sapo havia um mundo, um mundo em forma de serpente cortando um vazio escuro e cinzento, nebuloso. Havia acima de sua cabeça várias estrelas e planetas tão próximos que ele poderia tocá-los, gigantes anelados ou gasosos dançando juntos a uma valsa milenar. E então ele estava caindo em direção àquele mundo, atravessando os planetas, as nuvens de poeira cósmica, as galáxias espiraladas e os aglomerados de pedras congeladas do espaço, as nebulosas coloridas espalhadas no veludo negro como areia preciosa feita de diamante em pó. E conforme ele se aproximava daquela serpente cinzenta que cortava o vazio, ele discernia cores e formas.

Aquilo ali abaixo era uma cadeia de montanhas. Uma cadeia de montanhas de pontiagudos picos brancos e gelados, cobertas por um denso manto verde que seguia em sua extensão até certo ponto, onde a mata começava a ficar escassa e a neve se fazia cada vez mais presente. Onde o ambiente começava a ficar mais escarpado e consequentemente mais perigoso. Frederico estava cada vez mais próximo da cordilheira, caindo no vazio cada vez mais rápido, feito um meteoro pego na armadilha da atmosfera terrestre, e quanto mais próximo ficava, melhor discernia o que havia ali embaixo. E ele percebeu que cortando caminho entre as montanhas havia uma estrada, ladeada pela floresta, uma estrada cinzenta que seguia até o infinito, desaparecendo logo após os montes mais escarpados e cinzentos da cordilheira, no horizonte distante de onde o sol nascia. Era uma paisagem surreal e delirante, completamente indescritível.

Ele entendeu instantaneamente o que era aquilo, era uma ponte entre dois mundos, um caminho cortando o vazio nebuloso abaixo dele, cortando o vácuo cinzento feito de fumaça e nada, a morada dos Espectros. Espectros de corpo disforme e olhos amarelos. Ele sabia que se virasse para trás veria o seu mundo girando no vazio, o planeta terra, o mundo humano, a origem da densa floresta mista que permeava a base e o corpo das montanhas, um eco da natureza real repetido várias vezes e reverberando ao longo da serpente cinzenta da cordilheira. E quanto mais distante as montanhas ficavam do mundo humano, mais escassa a mata ficava. O eco se tornava findo com a proximidade de outro mundo, um mundo distante habitado por seres estranhos, governado por feiticeiros tiranos e bruxas perversas, repleto de criaturas inimagináveis fruto de alguma mente doentia, em constante guerra pelo trono, pelo poder. O mundo de Oráculo.

E então ele alcançou o chão com um baque surdo, acordando do sonho.

Frederico gemeu. Sentia cada centímetro do seu corpo doer e latejar, pulsando como um enorme coração. Sentia muito frio, um frio que ele jamais imaginara sentir em toda a sua vida. Ele não sentia nem as pernas e nem os braços, suas extremidades estavam mortas, desconectadas do corpo, formigando como se milhares de cupins corressem por entre as suas veias, abrindo caminhos paralelos a elas. Espasmos e cãibras dolorosas foram despertando seus membros adormecidos aos poucos, mas a dor era tão lancinante, tão tortuosa, que o fazia ansiar pela morte como um doente em estado terminal. Sentia-se como um frango tirado do congelador, deitado na pia, descongelando para a refeição.

Ele tentou abrir os olhos, mas tudo o que via era um misto asqueroso e irritante de cor e luz que agredia a sua retina de uma forma que o impelia a gritar e se esconder nas trevas, se ele tivesse forças para se mover ao mínimo. Era terrível, terrível demais para suportar. Lágrimas começaram a escorrer do canto de seus olhos e a molhar o tapete vermelho onde ele jazia torto, do jeito que havia caído de encontro às montanhas que cortam o vazio. Ele uivava baixinho, babando, arfando, chamando pelo nome da mãe, do pai, da irmã... Do amor. E isso lhe deu forças para mexer os dedos e forçar a sensação da existência das extremidades pelo cérebro. Ao abrir os olhos de novo, a vista já estava mais clara e mais organizada, e ele pode distinguir cor de forma e se localizar.

Frederico encontrava-se no centro de um amplo salão, com o teto alto, tão alto e tão distante, sustentado por grossas colunas douradas e peroladas. Tudo ali tinha um brilho sobrenatural, um ar de inexistência onírica inacreditável, aquele lugar sequer parecia palpável. O chão era muito bem polido e lustrado, de uma madeira escura e forte, cheirava como recém-cortada. Ele podia sentir as árvores da mata rodeando-o naquele momento. O salão era extenso e retangular, como um corredor para gigantes, foi o que Frederico constatou ao forçar sentar-se e olhar para trás. Intercalando as colunas douradas havia vasos gigantescos, colossais, contando a história da humanidade em belas pinturas: os egípcios, os japoneses, os chineses, os assírios, os persas, os babilônios, os maias, os astecas, os russos, os mongóis, os gregos, os troianos, as tribos solitárias da Oceania. Tudo registrado com uma perfeição impecável. As paredes daquele local eram estranhas, pareciam feitas de papel arroz e bambu como as portas das casas do Japão, tiras de bambu na vertical e na horizontal formavam um gradeado que era coberto com o fino papel arroz.

E o teto? Havia teto? Havia sim, e era um grande espelho que refletia e repetia com perfeição tudo o que havia no chão.

O rapaz deu uma boa olhada ao redor. Aquele lugar tinha um quê de palácio oriental, mas havia também um ar russo na arquitetura e nas cores que dançavam numa sincronia perfeita entre o frio e o quente. Euroasiático, era essa a palavra para aquele salão, para aqueles enormes vasos intercalando as colunas, onde xoguns dividiam espaço com faraós e caciques, dinossauros, aves, florestas e cidades. Atlântida também estava retratada em um dos enormes vasos. E a origem da vida também. Os grandes mistérios explícitos, o delírio dos cientistas, o tesouro dos antropólogos, a loucura dos arqueólogos. Aquele lugar lembrava samurais, gueixas, bambu e incensos, seda, e mariposas de asas felpudas e pesadas.

Mais à sua frente, não muito longe, o salão terminava, a grande caixa de ouro retangular tinha fim em uma enorme porta dupla de correr, onde o luar havia sido perfeitamente representado em seu apogeu. O círculo lunar alvo aparecia completo semicoberto pelas nuvens, parecia iluminar de forma fantasmagórica os degraus de ouro que levavam até ele, um painel dividido no meio pelo limite das duas portas. Havia duas piras em forma de cuia sustentadas por correntes que pendiam do teto, nelas queimavam incensos de várias cores, de todos os sabores, exalando um perfume sobrenatural pelo lugar, uma mistura de aromas inebriante que deixou Frederico um pouco tonto.

As portas se abriram. Frederico sobressaltou-se e ficou a admirar o escuro com pavor. Do outro lado não havia nada se não trevas. E das trevas dois olhos amarelos brotaram, e ao redor deles formaram-se dois corpos opacos e disformes, sombras, cópias mal feitas da humanidade, com pernas, braços, mãos e troncos, mas sem feições ou vida alguma, eram só sombras e nada mais, poderiam ser transpassadas por espadas ou martelos e jamais seriam atingidas. Espectros. Eles deram um passo à frente, um passo para a luz, sincronizados, e a iluminação do local não fez com que os dois vultos desaparecessem, muito pelo contrário, eles afastaram para a esquerda e para a direita, abrindo espaço para a passagem de algo muito grande, algo que só aquele lugar poderia comportar, algo que só poderia passar por uma passagem daquela magnitude.

A coisa no escuro oscilou, e o som de um arrastar asqueroso invadiu os ouvidos de Frederico, que se arrepiou do dedão do pé até à nuca. O mínimo movimento da coisa fazia o chão tremer, era algo realmente muito grande, e parecia borbulhar, pois como plano de fundo ao barulho do arrastar vinha um gorgolejar gutural e o som do escorrer de algum tipo de gel. Ou gosma, pensou Fred, e a perspectiva daquilo o deixou enojado, os pelos de seus braços estavam completamente eriçados, ele era um verdadeiro porco espinho, arrepiado como nunca estivera antes. E ele nunca foi um menino de sentir nojo das coisas, exceto, é claro, de baratas.

Um odor fétido invadiu seu olfato através das narinas dilatadas, aquilo embrulhou seu estômago. Tinha cheiro de peixe e terra, ao mesmo tempo em que lembrava algo pantanoso. Metano ou butano? De qualquer modo, era um gás fétido de decomposição que deixou Frederico completamente tonto, e então aconteceu.

O som reverberou pelas paredes, rachou o espelho do teto e fez chover pequenas lascas sobre o tapete vermelho que levava aos degraus de ouro, Frederico abaixou a cara e cobriu o rosto para proteger do vidro procurando também tapar os ouvidos para aquele som infernal. Aquele som fez vibrar as colunas de ouro e tremer os grandes vasos, provocou forte farfalhar no papel arroz que protegia o interior do salão cobrindo o gradeado de bambu, como se atingido por uma forte ventania. Mas não, aquilo era o som, era o puro som de um coaxar.

E a coisa veio para fora das sombras com um pulinho, e o baque daquela massa de carne verrugosa e suja no chão fez tremer tudo ao redor. Frederico repreendeu o berro que ia dar, tapou a boca com as duas mãos geladas de pavor, estava suando frio, sua testa estava molhada e suas axilas escorriam, seu coração estava tão acelerado que os batimentos pareciam tê-lo dilatado, como se o mesmo tivesse vida própria e naquele exato momento estivesse se arrastando à força para fora do peito. Suas orelhas esquentaram de uma forma que ardiam como se pegassem fogo. Aquilo era o desespero.

Diante dele havia um sapo. Um enorme sapo verde, talvez maior do que um carro, muito maior do que um carro, grande e gordo, com uma coroa de ouro no topo da cabeça, tão mórbido que mal podia se mexer.

Seus olhos eram duas grandes bolas de basquete amarelas reluzentes como duas lâmpadas, entrecortados por uma pupila retangular horizontal negra como ônix, suas pernas grossas e tronchas terminavam em patas atarracadas de cinco dedos finos e desproporcionais ao seu tamanho, dedos longos que mais pareciam garras. Seu corpo parecia uma gelatina de terra, grama e estrume, era uma grande bola, uma massa disforme de verrugas e cistos que fora mal modelada por algum demônio sapeca e jogada à terra para trazer desgraça, aquela coisa fedia a morte e perigo, apesar de seus olhos apáticos e carentes de emoção, ele sequer olhava para alguma coisa, era estrábico, olhar para frente era o mesmo que olhar para duas direções diferentes. Sua pele era verde e muito úmida, viscosa, dava a impressão de aderência adesiva caso fosse tocada, e nela alguns pequenos parasitas se reproduziam. Aqui e ali, bolhas enchiam e estouravam, nas suas pernas, nas suas costas, na sua cara enorme. E seu papo era um grande atrativo: uma bolsa pulmonar gigantesca que inchava revelando filetes de veias roxas grossas e depois diminuía, virando uma massa flácida de pele asquerosa, subindo e descendo feito um balão, fazendo pingar o muco que o recobria por todo o lugar, sujando os degraus dourados e o tapete vermelho abaixo dele.

As duas sombras de olhos amarelos se recurvaram reverenciando-o, e tambores encheram os ouvidos de Frederico. Frederico nunca sentira tanto medo em toda a sua vida, enfim estava chorando, derramando rios de água salgada pelos olhos, cachoeiras que brotavam de dentro de seu coração, de trás da sua retina, fontes cristalinas de emoção eclodindo da montanha de pedra sem sentimentos que Frederico era. Que tipo de ser humano ele era afinal? Sempre dizia-se que a vida toda passa diante dos olhos antes de morrer, e era exatamente isto o que estava acontecendo ao rapaz naquele momento. E a pergunta sempre voltava, era a mesma: que tipo de ser humano ele era? Que tipo de criatura medíocre ele pensava que era?

Nunca acreditara em toda a sua vida no sobrenatural, nunca creu que tais coisas existissem, que tais atrocidades e aberrações povoassem lugares afora da mente doentia humana. E agora ele estava ali, diante da criatura mais feia e mais aterrorizante que ele já vira, dentro do que parecia ser um palácio imperial Euroasiático. E aí a pergunta voltava, sempre a mesma: que tipo de ser humano ele era? Que tipo de criatura medíocre e insignificante ele era? Um homem preso à rotina do dia a dia, preocupado com coisas mundanas, retido aos mínimos detalhes da futilidade, coisas efêmeras e passageiras, coisas totalmente relevantes, nunca teve a mente aberta, nenhuma ambição, nenhuma imaginação, sequer iniciativa ou forças para crer na existência de tais seres, de tais mundos. Como ele pode limitar-se tanto à vida mundana? Como ele pode prender-se dessa forma ao mundo humano? Porque ele não se permitiu viajar, viajar nas possibilidades, dar asas à imaginação, crer, acreditar?

E agora ali estava ele. Diante da última coisa que ele esperava ver em toda a sua vida. Lutando contra o seu raciocínio lógico, lutando contra o que via naquele momento e o que havia aprendido na sala de aula, vivendo a vida pacata do morador de uma cidade esquecida do resto do mundo, uma cidade como qualquer outra. E então Frederico percebeu que essa luta interna estava acontecendo há muito tempo, na verdade, desde o momento em que subiu naquele ônibus. Em que desceu na clareira, em que encontrou as feiticeiras. Aquela era a luta do ser humano, a luta diária da humanidade, dividida para sempre entre o crer e o ver. Mediocridade. Limitação. Era hora de abrir o coração.

E então a boca da criatura pavorosa abriu-se, e filetes de muco e gosma ligaram aquelas abas que eram seus lábios rachados e asquerosos enquanto eles se afastavam. De lá de dentro da sua caçapa bucal, um gás verde escapou, e língua rosada do monstro veio para fora como um verme, uma minhoca gigante. Ela dançou como uma naja ao som de uma flauta, ao redor da cara do sapo inexpressivo, e esticou-se até Frederico, pingando gosma no tapete vermelho impecável. Fred gritou e arrastou-se para trás, fugindo da língua extensível do monstro, ainda toda arrepiado, suado, suas roupas rasgadas, ainda sujas de piche e sangue proveniente das garras do corvo que o trouxera àquele lugar. Geraldine.

Que horror! Que pavor! Que horrenda era aquela língua cor de rosa, que parecia ter vida própria, alcançando-o, tocando-o. E então ele desistiu, jogou-se de costas para o chão, e a coisa entrou por debaixo da sua blusa, e rasgou-a com força. E então o sapo provou da sua pele branca, do seu suor, das suas bactérias humanas, brincou com os seus mamilos rosados, brincou com o seu pescoço, desceu para suas axilas e para os seus braços, lambendo-o, sujando-o de muco verde e fedorento. O rapaz não reagiu, permaneceu deitado enquanto o verme rosado que era a língua do sapo o analisava e o descobria. Para seu espanto repentino, a coisa retrocedeu e afastou-se. O sapo gigante coaxou outra vez.

E os tambores recomeçaram mais altos, acompanhados de gritos e palmas, numa estranha língua desconhecida aos ouvidos de Frederico, que percebeu a origem dos sons: eles vinham de dentro dos vasos! Sim, os tambores, as palmas e os gritos de louvor vinham de dentro dos vasos, como se bruxas estivessem executando algum ritual macabro e proibido ali dentro. Algo lhe dizia que aquela linguagem provinha do árabe, não era o turco das feiticeiras das montanhas, lembrava algo muçulmano, algo do deserto, um misto de africâner e beduíno, ao mesmo tempo em que as entonações pendiam para o hindu. Que coisa bizarra e ao mesmo tempo curiosa! Os vasos cantavam como se tivessem vida!

Mas na verdade não eram os vasos, e sim o que havia dentro dos vasos.

Despontaram de seus gargalhos escuros e perfeitamente redondos chapéus cônicos, com suas pontas levemente arredondadas. Eram pretos, alguns baixos, quase toucas, outros tão compridos e altos que pareciam postes pendendo nas cabeças que se seguiram após o seu surgimento. E quando Frederico deu por sim, viu que homens estavam brotando dos vasos como flores crescem da terra, vestidos em mortalhas brancas, tinham as faces pintadas de branco e os lábios inferiores pintados de vermelho. Seus olhos estavam vendados por rendas vermelhas de onde pendiam sementinhas vermelhas presas delicadamente por fios nas bordas das vendas. Vinham fazendo estranhos movimentos e formando estranhos símbolos com os dedos, com as mãos: triângulos, círculos, estrelas e pássaros.

E viu-se então que eles estavam levitando para fora dos vasos, pousando delicadamente no piso do salão em seguida. Um a um, eles desceram como se por mágica, postando-se um ao lado do outro, de costas para os vasos de onde haviam saído, às margens do tapete onde Frederico jazia imóvel. Homens, de todos os tamanhos, vindos de vários mundos diferentes, sequestrados pelos espectros em noites tempestuosas para servirem ao seu deus misterioso dentro daquele templo, vestidos como os dervixes sufistas do oriente médio, eles começaram a bater palmas ritmadas enquanto os tambores recomeçavam. Um deles – aquele que possuía a mão com o olho no centro desenhada no chapéu. – deu um passo à frente, fez o estranho gesto com as mãos – um triângulo diante do peito, um círculo ao redor do olho direito e um pássaro entrelaçando os polegares – e falou, para espanto do rapaz, em português.

- Saudamos a nossa alteza real, Rei Ousama, O Poderoso, senhor das Terras Proibidas e das Montanhas Cinzentas, senhor dos Espectros e soberano das Cordilheiras, que ungiu e consagrou a oferenda em nome de Lilith, O Sanguinário!

Os outros homens produziram sons estridentes semelhantes aos sons que as muçulmanas fazem quando expressam alegria. Fez-se silêncio. O grande sapo desceu os degraus dourados de forma preguiçosa e sedentária, ofegando e produzindo ruídos de cansaço com a garganta, liberando no ar mais do seu gás verde, e então coaxou mais alto do que nunca, arrebentando as paredes do templo.

- Que comece o Matrimônio Lunar! – gritou o homem.

E as palmas recomeçaram, acompanhando os tambores. Um cântico assustador cheio de sons arrastados, agudos e arrepiantes iniciou-se naquela estranha língua árabe. E eis que eles, que pareciam dervixes, mas não o eram, começaram então a dançar, a girar em círculos no próprio eixo, de braços para o ar, cortando o salão enquanto outros batiam palmas e os tambores do além ribombavam furiosos. Girando como planetas brancos, seus saiões alçavam voo e formavam círculos perfeitos no ar ao redor das suas cinturas, acertando Frederico no rosto por diversas vezes.

O rapaz enfim viu-se perdido no meio daqueles dançarinos giratórios, estando tão tonto quanto eles em sua tentativa de se conectar ao divino, tão confuso, tão desamparado. Pétalas de flores estranhas o atingiram no rosto e óleos aromáticos ungiram a sua pele. Estavam temperando-o, preparando-o para o casamento, preparando o corpo para a oferenda.


Hey, Pessoal!


Estou aqui para informar-lhes que tanto o escritor que vos fala quanto a internet 3G da Vivo estão de TPM, ou seja, nosso estado emocional está muito instável, de modo que o pouco que eu consigo produzir vai para as resenhas e resumos entediantes da faculdade. Estou começando a ficar farto de ficar lendo aqueles textos complicadíssimos para discuti-los depois, isso é um saco, mal entrei na faculdade e já quero sair. Minha semana só está no meio e foi traumatizante o suficiente para o resto do mês, ou seja, ultrapassei minha cota de fortes emoções dando banho naquele cachorro sarnento, não desejo o que passei na manhã de ontem nem para o meu pior inimigo! Foi terrível, terrível! Paguei todos os meus pecados! Só de lembrar daquilo minha cabeça já começa a rodar... Entre outras coisas que vem acontecendo, minha vida atual está me saindo uma versão dantesca da anterior (que já era uma tragédia grega por si só), em outras palavras, a coisa está mais complicada do que o habitual, mas nada que eu não possa resolver com o tempo.

Como eu ia dizendo antes de relatar a efeméride da semana, estou produzindo muito pouco fora os textos da faculdade, e ando sofrendo altos e baixos emocionais muito sérios, sinto que preciso de muito mais do que um simples abraço materno, preciso de um profissional urgentemente. Tenho coisas estranhas passando na minha cabeça ultimamente quando fico sozinho e acho que estou desenvolvendo algum tipo de síndrome do pânico ou algo parecido, já pensei até em me matar nesse final de semana passado, mas pela graça divina, não temos veneno de rato em casa e eu não tenho coragem o suficiente para me cortar com o estilete (ainda bem), e portanto, vocês não vão ter muita coisa neste blog além de Yellow que já está no finalzinho (série curta, não?).

Minha mente tem trabalhado de forma estranha ultimamente, muito estranha, não gosto de me pegar pensando sozinho porque tenho medo dos meus próprios pensamentos. Por exemplo, agora, só de escrever isso meu coração está disparado e está ficando difícil de respirar. O mais engraçado é que eu não consigo expressar isso de maneira alguma! Na faculdade ou em casa, eu só consigo rir, fazer piadas, agir normalmente, não consigo me abrir com ninguém, nem no meu diário eu escrevi a respeito disso, tenho medo de falar com outras pessoas e acabar chorando e fazendo papel de louco, e a última coisa que eu quero no momento é ser internado.

Enfim, mudando de assunto pelo zelo da minha sanidade mental, estou trabalhando no enredo de uma série de contos independentes chamada "Creepshow - Contos Macabros", que será curta como Yellow e terá capítulos com histórias independentes com início meio e fim numa única postagem, quase todas elas falam de como o amor é perigoso, e por isso a música tema central da série é "O" da iamamiwhoami, que tem uma letra e uma melodia que se encaixa PERFEITAMENTE no clima da série. Bom, mas vai demorar um pouco até que vocês vejam isso por aqui, então, gente bonita, só peço que aguardem com todo o coração!


beijosmil


Louie Mimieux

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Capítulo VIII – A Família Mimieux e a Visita de Geraldine


- Espera aí, do que vocês estão falando? – o pai cortou o silêncio que se abateu após as duas declarações feitas por seus filhos. Declarações chocantes para uma tarde chocante como aquela. Fez-se mais silêncio.

- Eu não me lembrava, e duvido que você também se lembre. – Frederico fixou seu olhar profundo nos olhos escuros do pai. – quando eu era criança, e falei do buraco na sebe, e falei sobre o que havia do outro lado, e ninguém me ouviu. Foi aqui que eu estive naquele dia.

- Eu também não lembrava, mas no dia em que eu rolei a encosta, quando morávamos no Paraná, eu vi uma trilha que levava até esse lugar... – disse Amélia, os cabelos lisos e escuros completamente desgrenhados, os olhos eram duas luas vazias olhando para o nada, ela estava em transe pelo pânico – E depois quando eu olhei não estava mais lá...

Dimitri não podia ralhar com os dois àquela altura do campeonato, ele sequer lembrava-se do episódio do buraco na sebe, não fazia ideia de onde ficava essa sebe, para falar a verdade. Crianças falam pelos cotovelos quando são pequenas, e muitas vezes inventam coisas para chamar atenção, procuram atrair o olhar atencioso dos pais e prendê-los ali com histórias fantásticas de todo tipo. O fato é que os adultos ignoram as crianças, não dão o mínimo de confiança para o que elas falam. No caso de Amélia, ela não falara nada, sequer comentara o que tinha visto posteriormente, no hospital só balbuciava coisas desconexas a respeito de uma grande borboleta amarela, “a minha borboleta”, ela dizia. Disso seu pai jamais havia esquecido. Acidentes sofridos por crianças nunca são esquecidos por seus pais, eles sempre se lembram.

A floresta estava calada como sempre estivera. Nenhum pássaro piava, nenhum roedor chiava, a brisa não batia, as folhas não farfalhavam. Era um quadro vivo de natureza morta. Intocável na linha temporal. As trepadeiras cresciam silenciosas enroscando-se nas araucárias, nos pinheiros, nas sumaúmas e nos carvalhos, árvores de diferentes regiões, de diferentes países, de diferentes estados, cresciam tão juntas e tão unidas que passavam a falsa impressão de floresta Amazônica. Arbustos carregados de frutinhas e moitas cheias de espinhos jaziam gelados, um ao lado do outro, as folhas lustrosas brilhando sob a luz da tardinha, debaixo do céu nublado, clima gostoso. Havia muitos troncos caídos no meio da mata, e pedras colossais se erguendo do solo através do tapete de matéria orgânica morta, folhas, galhos, sementes e frutas, talvez animais também. Nestes monumentos naturais, o musgo, o limo, e nas áreas mais úmidas, o lodo, cresciam deliberadamente, cobrindo tudo de verde limão, deixando poucos pontos marrons e pretos aqui e ali. Flores gordas e pesadas escapavam de seus ramos pendendo para fora das moitas, das árvores, dos troncos. Papoulas, Orquídeas, Violetas e Margaridas silvestres no meio do mato alto. Selva mista insondável. O crepúsculo se aproximava.

- Papai, me abraça... – Amélia enfim saiu do transe, seus olhos já marejados, seu lábio inferior se pronunciando num biquinho rosado e molhado, a boca já torta, o choro ia começar. Ela uivou com o rosto escondido no ombro do pai, junto ao tecido do casaco. Chorou como há muito tempo não chorava, se lembrando das mãos negras, dos olhos, das bocas na escuridão, cheias de dentes afiados ou não.

Frederico era uma estátua inexpressiva ainda, parado, olhando para o mundo calado ao redor, tentando captar o mínimo ruído, o menor movimento no mato, ao redor da casa, no céu ou na terra, entre os cascalhos. Seu coração batia violentamente contra as costelas, o ar gelado da montanha entrava e saía dos seus pulmões como farpas afiadas de gelo. Ele suava frio. Estava entrando em desespero. Aquilo era a loucura. A loucura humana. Um pássaro gigante havia salvo sua irmã da morte e sumido entre as nuvens. Que diabos aquilo queria dizer? Que diabos de lugar era aquele?

Frederico começou com lágrimas, escorrendo pelos cantos dos olhos e descendo pelo seu pescoço branquelo cheio de sardas. E então uma careta se formou, sua boca entortou, e algum tipo de monstro se revirou em seu peito, se contorceu pela sua garganta e lutou para sair na forma de um som. Suas cordas vocais vibraram furiosas à passagem da criatura. Era um urro. Ele tinha um urro preso no coração, e precisava soltar aquilo com toda a sua força. Abriu bem a boca, escancarou sua garganta pra cima e gritou o mais alto que podia.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRRRRRGHHHHHHHHHHHHHHHH! – suas veias azuis saltaram da testa, das laterais do pescoço. Seus bíceps brancos e duros como pedra dobrando de tamanho pela força do ódio pela incompreensão. Suas pernas arquearam e retesaram, seus ombros recurvaram pra frente, e ele pareceu bestial. Um homem louco. Era isso o que ele era.

Em resposta ao seu urro, algo rugiu além das montanhas, e o som ecoou feito um trovão pela floresta, fazendo as árvores encolherem de pavor e os galhos vibrarem. Pela primeira vez, os olhos humanos dos três Mimieux viram a floresta se mexer. Uma ventania atravessou a clareira com uma força avassaladora, sacudindo os galhos com ferocidade e arrancando suas folhas mais velhas. As árvores gemeram de pavor, e Frederico poderia jurar que ouviu vozes no vento, lamentos e choros, pedidos por clemência e misericórdia. Ele não duvidaria da origem daqueles lamentos. Jamais duvidaria da existência deles.

Após isto, eles entraram.

Tomaram banho

Vestiram-se

Sentaram à mesa da cozinha.

E ao primeiro gole do café preparado de emergência por Dimitri, a ventania lá fora recomeçou, audível naquele silêncio mortal.

- Como você sabia que nada podia entrar? – Fred cortou o silêncio. Amélia levantou seus olhos vermelhos e inchados para o irmão, sua mandíbula pendia. Ela parecia retardada pelo efeito de alguma droga. Nunca vira a irmã tão mal.

Dimitri continuava com os olhos fixos no líquido preto do café, soltando fumaça.

- Como você sabia que nada podia entrar? – Fred repetiu a pergunta. O pai levantou a cabeça vagarosamente.

- Eu fui perseguido.

Fez-se mais silêncio. Um silêncio de espanto.

- Perseguido? – indagou Fred, duvidoso.

- Alguma coisa me perseguiu... Eu estava caçando...

- Caçando?! Mas aqui não tem animais! – Fred aumentou sua voz em algumas oitavas.

- Sim, mas antes eu não sabia disso, isso foi logo nos primeiros dias, à tarde... Eu fui um pouco mais longe do que o comum... E algo começou a me perseguir... – as pausas dramáticas que Dimitri fazia irritavam os nervos já aflorados de Fred de uma maneira louca, ele queria socar tudo, destruir, pisar, esmagar, correr como nunca havia corrido. Ele estava furioso.

- Que... – começou ele, entredentes, controlando a raiva. – algo?!

Amélia recomeçou a chorar, suas lágrimas salgadas e pesadas caíam no café como pingos de adoçante melancólico. Foi quando os gritos começaram, guturais, na noite escura, do lado de fora, vindos do topo das árvores, do meio das moitas, de trás das pedras, de dentro das trevas. Amélia escorregou para debaixo da mesa e tapou os ouvidos com toda a força e chorou alto. O pai desceu para junto da filha e abraçou-a forte, tentando acalmá-la com palavras meigas e doces, chiados entredentes e beijinhos. Frederico continuou lá em cima, sentado, olhando para a parede, olhar frio como gelo e duro como mármore. Os gritos eram como os pios noturnos das aves de rapina, intercalavam-se por espaços cada vez mais curtos de silêncio, algumas vozes queriam dizer alguma coisa, outras eram apenas sons rasgados na noite, urros de pavor, tortura, feito pessoas sangrando nas masmorras, homens morrendo em cadeiras elétricas, mulheres sendo violentadas. As vozes eram grossas, finas e por vezes agudas, algumas tão grossas que pareciam leões ou ursos rugindo, mas quando o balbuciar gutural e alto começava a formar palavras, aí o desespero de quem estava dentro da casa aumentava.

- Estão tentando nos fazer ir para fora. – disse Fred, frio e sem nenhuma sensibilidade. – estão tentando nos meter medo. – as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto outra vez.

Os gritos mais grossos arrepiavam, e as vozes mais agudas agoniavam. Era como se uma cidade estivesse em chamas lá fora, e os habitantes dela estivessem presos em suas casas, morrendo lentamente, consumidos pelas chamas, queimando de fora pra dentro, tostando no inferno feito churrasco e gritando por socorro, por clemência. Um grito mais alto parecia ter vindo de uma das janelas, estava tão próximo que poderia ter vindo de dentro da casa. Este fez Fred oscilar em sua frieza e saltar de leve para o lado, de susto. Agora eram gritos e assobios, longos, curtos, de todos os tipos, intercalando os gritos das almas torturadas nas trevas.

E então tudo parou. O pai saiu do esconderijo de debaixo da mesa, mas Amélia continuou lá, ganindo como um animal espancado.

- SOCORRO! SOCORRO! – o gritou vinha da frente da casa, algo sacudia as grades com força. – SOCORRO! POR FAVOR ALGUÉM ME AJUDE!

Dentro da casa, silêncio.

- Malditos... – gemeu Dimitri. Fred estendeu a mão aberta para o pai, pedindo tempo, silenciando-o.

- Não, este está nítido demais. – sussurrou Fred, sério, o cenho franzido, toda a sua atenção voltada para o silêncio – os outros eram confusos, balbuciados, ou simplesmente gritos do além... Esse está nítido demais...

- POR FAVOR! – algo ou alguém chorava alto do lado de fora do gradeado do pátio, batia palmas, sacudia a grade, como uma macaco preso à força numa gaiola – ALGUÉM! ALGUÉM ME AJUDE! EU ESTOU SOZINHA NO ESCURO AQUI FORA! POR FAVOR! ALGUÉM!

Os olhos de Fred esbugalharam, seu queixo caiu, seus músculos retesaram.

- GERALDINE! – disse para o pai.

- Quem?! – indagou Dimitri, confuso, seguindo o filho para a porta da frente, tentando impedi-lo de abrir a passagem, de ir lá fora, tentando segurá-lo. Aquilo era um truque, ele tinha certeza, um truque das sombras tentando enganá-lo. – Não faça isso Fred! Não! Não!

Tarde demais, ele escancarou a porta para o pátio, deixando o ar frio da noite entrar com toda a força, capaz de arrepiar até mesmo os pelos da nuca de Amélia que ainda se escondia embaixo da mesa da cozinha, de ouvidos tapados. Ela cantava algo bem baixinho, para si mesma.

Do lado de fora, após os azulejos azuis, as cadeiras de balanço de ferro enroladas em macarrão colorido azul e roxo, atracada na grade, completamente nua e toda molhada, estava uma mulher. Uma jovem, uma moça, branca como leite, cabelos escuros e longos, muito longos, mistos, em parte ondulados, em parte lisos. Seu rosto era tão fino, seu nariz era arrebitado como o de uma boneca, e sua boca era um botão de rosa minúsculo e vermelhinho. Seus olhos eram duas pérolas negras arregaçadas pelo pavor, como uma deusa da noite que caíra de seu trono e estivera vagando no mundo mortal em busca da sua nova morada.

- GERALDINE! – gritou Fred, correndo para o portão, abrindo-o e deixando que a pobre moça caísse de bruços, seus seios fartos em forma de gota amorteceram a queda e se esparramaram no piso frio. Seus mamilos rosados engelharam pelo contato com a superfície gelada. Frederico abaixou-se e virou-a de peito para cima. Ela estava desacordada agora.

- Quem é ela? – perguntou o pai, desnorteado.

- Geraldine, uma garota da minha sala! – explicou, elétrico, medindo o pulso e ouvindo o coração da moça, sangue lhe sujou a orelha direita. Ela ainda estava molhada. – ela teve um ataque de histeria e atacou um professor com a lapiseira semana passada, e foi expulsa da escola!

- O que?! – exclamou o pai. – e que diabos ela está fazendo aqui?! Nua e molhada?!

- E eu lá sei! – guinchou o rapaz, dando tapinhas no rosto da garota. – vamos menina, acorda! Acorda!

- Olhe! Olhe! – o pai agachou-se e levantou as mãos da garota. Os pulsos estavam cortados. – ela se matou!

Frederico ficou estático.

- Se... Matou...

Tudo se ligou então. Os fatos se emendaram como os retalhos de uma colcha.

Geraldine se matou, provavelmente no banho, estava molhada e recendendo a sabonete.

Quem se mata vai para o inferno.

Logo aquele lugar era o inferno.

- Estamos mortos pai – constatou o garoto, mórbido, olhando para o rosto pálido da garota com os olhos vazios. – estamos mortos, estamos mortos, estamos mortos! – levantou os olhos para o velho homem e gritou – ESTAMOS MORTOS, PORRA! – saliva voou em todas as direções.

- Ela está acordando! – afirmou o pai, segurando o rosto da jovem entre as mãos. A garota tossia. E sua tosse foi ficando mais alta, mais forte e mais rouca, até que de seus lábios uma lama negra jorrou nos rostos do pai e do filho. Frederico deu um pulo para trás. A garota abriu os olhos e se inclinou para frente, apoiou-se no cotovelo e tossiu mais, cuspindo mais lama negra.

- Be agudem... – gemeu ela, com a boca cheia daquela coisa negra e viscosa, oleosa e grossa feito petróleo.

Ela postou-se de quatro feito um cachorro e começou a vomitar mais e mais daquilo, logo estava em tudo, em seus cabelos, no seu peito, escorrendo por entre seus seios, descendo por cima dos mamilos, escorrendo pela barriga e se acumulando no umbigo. O modo como a cabeça dela inclinava para frente quando vinha a ânsia era grotesco, parecia que ela iria quebrar-se ao meio a qualquer momento, e então parou. Ela se levantou e olhou para Frederico. Pai e filho estavam estáticos e apavorados, encarando a mulher misteriosa sem reação alguma.

Amélia surgiu na porta e gritou ao ver seu pai e seu irmão ajoelhados no chão encarando uma assombração branca de cabelos compridos, uma estátua de morte e luxúria parada no meio do pátio, entre as cadeiras de balanço coloridas, toda suja de piche.

A garota inclinou a cabeça para trás, algo embaixo da pele do seu pescoço se mexeu de forma grotesca. Amélia gritou de novo. Os cotovelos de Geraldine dobraram ao contrário, quebrando ao meio e estalando alto. Amélia gritou outra vez. O mesmo aconteceu com seus joelhos, dobraram para trás com um estalo alto, fazendo Frederico arrastar-se para trás na velocidade de uma aranha, indo se espremer na grade, observando apavorado à cena da sua ex-companheira de classe Geraldine se deformando ali na sua frente.

O movimento embaixo da pele do pescoço se intensificou, e algo brotou da sua boca aberta, a cabeça tombada para trás concebeu um grosso bico negro e lustroso, sujo de sangue. Amélia caiu desmaiada para trás após seu último berro da noite. O bico começou a grasnar, alto e ensurdecedor. Ao dar-se conta, Frederico percebeu que os braços da garota estavam tomados por longas penas negras e lustrosas que cresciam das suas axilas e da longa extensão da sua pele, e logo todo o seu corpo estava coberto por elas. Penas pretas e longas, uma plumagem havia lhe crescido sobre a pele.

Escamas brotaram da pele de suas pernas tortas, escamas amarelas. Cada pé abriu-se com um rasgão em três únicos dedos, e suas unhas formaram longas garras brancas de ave de rapina. Um rabo brotou-lhe do final da coluna vertebral. O misto de humana e ave caiu de costas e se debateu como se tivesse morrido, foi a deixa para que Dimitri se levantasse e corresse até o filho para puxá-lo para dentro de casa. Porém, quando estava à meio caminho do rapaz atirado ao chão, a ave gigantesca, agora já completamente transformada, em um pulo pôs-se de pé e grasnou furiosa, dando-lhe uma bicada que o lançou longe, contra a parede. O bater de asas da criatura arrebentou o portão, o gradeado, o telhado e tudo o mais que protegia o pátio. Era um corvo, um enorme corvo preto com olhinhos de piche e penas escuras lustrosas que à luz brilhavam num arco-íris tridimensional espetacular.

A coisa grasnou e mirou Frederico, bateu asas e carregou-lhe no bico, lançou-o no ar com força e voou ao seu encontro, pegando-o feito alimento na pata direita e voando para longe, para o escuro, para o além. Para onde Amélia e Dimitri jamais poderiam ir.