Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 8



- Já tentou a casa da Gabrielle?
- Já! Eu já liguei para todos os amigos dessa menina, ela não está em lugar nenhum! Em lugar nenhum! – Stéphanie nunca esteve tão desesperada em toda a sua vida – e o pior é que Fernando e Gabrielle também sumiram! Eu liguei para as duas casas e eles não voltaram da escola! Me parece que o Miguel voltou, mas sozinho!
- Essa menina se meteu em encrenca, eu tenho certeza de que ela se meteu em encrenca – já passava da meia noite e o casal continuava do lado do telefone, em guarda, esperando tocar, qualquer notícia era válida. O velho Umbrella só conseguia olhar pela janela, para o enorme prédio em forma de seta que ficava há algumas quadras dali, na Warhol’s Square. – papai, porque você não liga pra tia Augusta ou pro tio Pietro?! Os meninos gostam muito deles dois!
- Não tem telefone lá no Apocalipse Hall – disse o velho, frio – é fora de cogitação que eles tenham ido para o sítio, é fora de Neon City, menores de idade só saem da cidade à noite na companhia dos pais.
- Vou ligar pra mamãe! – Stéphanie pegou o telefone.
- Larga esse telefone, Steph! Deixe a linha livre caso a Max resolva ligar! – Dominick tomou o telefone das mãos da mulher.
- Olha pro relógio! É uma da manhã! Tem certeza de que ela vai ligar?!
O velho subiu, catou seu DiscoStick, meteu-se numa capa preta, calçou suas botas, desceu da sua torre prateada e abriu a porta da frente.
- Eu não sei vocês, mas eu vou até o prédio da Alberta...
- Mas fazer o que, papai?! Você está maluco? Está fechado a essa hora!
- Não se esqueça, Dominick, que hoje é sexta feira, e a “Fazendinha da Tia Alberta” costuma fazer o corujão a partir das uma e meia... – ele botou o pé pra fora da casa, meteu as mãos no vaso de uma samambaia e puxou um controle remoto preto de um único botão.
- O que você está fazendo, papai?! – Dominick correu afoito para o pátio de pedra.
- Eu nunca pensei que fosse precisar disso algum dia... – o pátio abriu-se repentinamente. Stéphanie gritou de susto, quase caíra no buraco que havia se formado no lugar da fonte central do jardim. Uma plataforma substituiu a fonte rapidamente por uma estranha moto anti-gravitacional prateada salpicada de luzes azuis que ladeavam sua estrutura lisa e aerodinâmica.
- Papai! Mas o que é isso?! Como você escondeu isso aí todo esse tempo?!
- Ah, menino, relaxa! – fez o velho Umbrella, todo cheio de trejeitos e floreios. – no tempo que você tava em Marte, eu fiz uns ajustes nessa casa, já que essa daqui só vivia socada na firma – apontou com o cajado brilhante para Stéphanie, que ainda estava muito chocada pra falar alguma coisa.
- E as crianças sabem disso!? – Dominick dava voltas e mais voltas ao redor da moto. Era incrível. Não tinha rodas, flutuava produzindo uma auréola de calor.
- Claro que sabem, elas sabem de tudo, meu filho – com uma gargalhada, ele subiu na moto e saiu em disparada, cortando os ares feito um foguete, planou junto aos carros aéreos sobre a cidade mais brilhante de todo o planeta, rodopiou por entre as alegorias dos prédios, deu piruetas ao redor dos outdoors e dos telões e foi pousar exatamente sobre o tão famoso prédio da empresa maligna de Alberta Veronese.
- Aqui eu já cheguei... O grande problema agora vai ser entrar nessa fortaleza... – Christopher retirou do bolso um aparelho retangular prateado muito semelhante a um tenori-on, instrumento muito usado na música neo-eletrônica dos nossos tempos. Mas isto que o velho Umbrella tinha em mãos não era um aparelho que produzia sons, era na verdade um rastreador cujo alvo, o chip que atraía o seu sinal, era o Pen Drive triangular de Maxine. – Eureka! No térreo! – e iniciou sua caçada pelo respiradouro do prédio. Conseguiria ele chegar a tempo?

- Se eu dissesse a vocês que estão completamente perdidos, seria muito pouco perto da situação real de vocês... – ele deu uma mastigada no tabaco e ajeitou o cinto das suas calças apertadas de vaqueiro. – esse botão bem aqui vai mandar vocês direto pra esse incinerador, onde vocês serão assados, após este estágio, alguns de vocês continuarão vivos, o que é uma lástima, mas o fato é que serão fatiados e embalados como alimento pré-requentado... – ele respirou fundo, havia dito tudo num fôlego só. – ele dançou os dedos sobre a pequena mesa de controle do robô-incinerador. Seus braços estavam parados, tesos como estátuas de ferro. Os grandes olhos de vidro fixos nos três acorrentados e amordaçados de cabeça pra baixo, seu focinho de touro já soltava fumaça. O galpão estava vazio naquela noite, todos os corpos haviam torrado lá dentro a esta altura. As lágrimas dos jovens caíam de cabeça para baixo, encharcando suas testas nervosas e seus cabelos. Gabrielle era a que mais se retorcia, Fernando parecia entorpecido.
Um aparelho de telefone celular tocou. Robert meteu as mãos no bolso e atendeu.
- O que?! – ele tomou a informação recebida de sobressalto – como assim?! Ela está vindo pra cá agora?! Ela não ia ficar por lá durante uma semana?! Droga! Droga! Estou indo, estou indo!
Ele voltou-se pros dois cientistas que os observavam sérios.
- Estão me chamando no último andar, a chefa está voltando de viagem com novidades! – ele apontou os dois dedos indicadores na cara dos dois. – não vacilem. Fiquem de olho. – e levou o dedo à pálpebra inferior, puxando-a para baixo, e em seguida saiu pela porta dupla quase à galope.
Os dois cientistas se entreolharam.
- Eu não acho certo que... – começou a mulher. Foi logo interrompida.
- Não me venha com seu sentimentalismo! Ou são eles ou nós vamos virar carne!
- Eles são apenas jovens, Paulo! São crianças! Tem uma vida inteira pela frente!
- E eu também! – ele virou de costas para cena, não queria olhar para aqueles seres humanos prestes a ter a mais terrível morte que se pode imaginar: ir parar na barriga do seu próprio vizinho.
- Não seja egoísta, Paulo! Vamos soltá-los! Vamos dizer que alguém veio aqui, nos rendeu e os libertou, sei lá! Eu invento qualquer coisa!
- Suas invenções vão nos levar pra forca! Estas ordens vêm da ESFERA!
- E se eu disser pra você que tudo isso aqui é ilegal?! E se eu disser que não acredito em nenhuma palavra do que essa gente diz!? Eles são os vilões aqui, Paulo! A ESFERA preza pela vida humana, ela não deixaria que isso acontecesse! Isso tudo aqui é ilegal, completamente ilegal!
Paulo vacilou.
- Você acha, realmente?!
- Vamos! Me ajude!
O varal em que os três estavam pendurados iniciou sua descida após o simples toque numa tela touch-screen. Enquanto isso, o velho Umbrella e suas complicações na coluna rastejavam pelos túneis do respiradouro do prédio:
- Ai, droga! Droga! Eu não sou nenhum jovem de 17 anos agora! O que eu tinha de fazer pra cá?! Porque eu simplesmente não usei a saída de incêndio do prédio?! Porcaria! – ele já se arrastava com dificuldade quando uma das telas de saída de ar quebrou com todo o seu peso, fazendo-o vir abaixo com tudo, bem no meio de um salão repleto de balcões onde compostos químicos e experiências em pausa descansavam tenebrosos. Clones, robôs gigantes, mesas cheias de frascos e livros, de tudo um pouco ali havia naquela galeria de horrores. Verdadeiros monstros, alienígenas abertos para análise, corpos e cadáveres humanos em estado de bálsamo para estudos, tanques de nitrogênio, de hélio, de elementos químicos desconhecidos, de metais estranhos trazidos do espaço, de elementos radioativos contidos por vácuo. O grande galpão do último andar, o galpão que antecedia a sala de controle central de Alberta Veronese.
Vozes começaram a ser ouvidas assim que o elevador apitou. Christopher rastejou para debaixo de uma mesa. Tudo ali estava à meia luz, o que facilitou a sua camuflagem.
- Como assim ela está vindo?! Essa velha é maluca por um acaso?! – eram gritos agora, gritos revoltados de um homem muito afoito – ela causa um acidente semi-nuclear nas ruínas e foge, assim, como se não fosse pouca coisa?!
- Ela já está na lista de procurados da ESFERA, e já nos foi dada a ordem de acionar o sistema assim que ela aparecer por aqui... Temos de fazer isso mesmo, Senhor Robert?
- Não Margarida! Não façam!
- Mas aí seremos cúmplices!
- Só faça o que eu mandar, Margarida! Só o que eu mandar!
- Mas a ESFERA...
- Que se dane a ESFERA! Esse computador idiota será passado quando a velha Alberta por os pés na cidade! Em menos de três horas ela estará aqui!
Christopher ouvia tudo com muita atenção. Os três vultos cruzavam o galpão a passos largos em direção à porta circular da sala de controle, esperariam pela sua chefa ali, embaixo da lâmpada que iluminava aquela entrada, feito três sentinelas sombrias e malignas, estátuas assustadoras. O velho escondido embaixo de um dos balcões não podia nem respirar, um movimento em falso e detectariam a sua presença naquele lugar. Ele já havia ouvido o bastante para concluir que Alberta Veronese estava armando contra a ESFERA e fora descoberta bem a tempo pelo sistema, como conclusão, estava sendo caçada como criminosa nos quatro cantos do globo àquela altura. Quem diria. Tantos anos se passando por boa moça, servindo de bom exemplo, de estudiosa, inteligente e comportada, aquela mesma Alberta Veronese que sentava do outro lado da sala de aula com os populares acabaria como criminosa. Mas, como diriam os pais de Christopher “um dia a casa cai”, e realmente caiu para aquela velha senhora que passou tantos anos escondida atrás de uma máscara, sendo a criatura mais sonsa que ele já vira até hoje. É um velho clichê, mas é a realidade mais universal de todas: a justiça tarda, mas não falha. Porém, quem disse que Alberta desistiria?
- Minha senhora! Minha senhora! – exclamou Robert ao ver a porta do elevador se abrir do outro lado do galpão. As luzes foram acendendo uma a uma enquanto os saltos das pequenas botas da mulher estalavam feito tiros dados para o chão, fatais como a sua dona. A eletricidade estática ainda percorria todo o corpo potente da sua armadura de cowgirl biônica, de cima à baixo, soltando faíscas pelos esporões
- Cale a boca Robert! – um raio azul saiu da sua mão esquerda e atingiu em cheio vários frascos que descansavam em cima de um balcão. As chamas subiram rapidamente. “Alerta de fogo. Alerta de fogo” soou o alarme de incêndio – eles estão chegando já! A ESFERA já acionou o exército, em 15 minutos eles estarão cercando o prédio! Prepare o meu carro.
Robert ainda estava estático. Surpreendido pela nova aparência de sua ama, estava sem palavras.
- O QUE ESTÁ ESPERANDO?! VÁ! – gritou – AGORA!!!
Robert saiu correndo. Os dois cientistas foram logo atrás. Alberta ficou sozinha, era hora de atacar.
Christopher rastejou alguns metros, pôs-se de pé, catou uma corda que surgiu por ali em boa hora e avançou para cima da mulher, surpreendendo-a por trás e pegando-a pelo pescoço, a velha grasnou. Seu primeiro reflexo foi levar as mãos às costas, agarrando em cheio as orelhas do velho. A saída foi jogar-se de costas sobre seu agressor, como muitas vezes fizera nos ringues de luta livre, esmagando-o com todo o seu peso e o peso da sua armadura de titânio. O velho Umbrella deslocou o ombro e soltou um grito, largando a corda imediatamente para levar a mão boa ao ombro machucado, foi então que o jogo virou. Alberta Veronese o prendeu com suas fortes pernas e sentou-se em cima dele.
- Ora, vejam só! Christopher Umbrella! Há quanto tempo, há quanto tempo! – ela puxou um cigarro do bolso e acendeu com o dedo. – Não vou perguntar a você como chegou aqui, suspeito que tenha descido pelos respiradouros do terraço... Mas agora isso pouco importa! – e desferiu-lhe um soco fatal de ferro, quebrando o nariz. – isso é por você e aquele seu Apocalipse Club passarem metade do ensino médio rindo da minha cara pelas costas!
Christopher gargalhou.
- Então você sabia?! – gargalhou de novo.
- Eu sou sonsa, mas não sou tonta, Umbrella – virou-o de peito para o chão e amarrou suas pernas e suas mãos com a mesma corda que ele usara para tentar sufocá-la há alguns segundos atrás. – vê como o jogo vira?
- Vejo! Cuidado, muito cuidado para ele não virar contra você, que está tão acostumada a controlar tudo e todos à sua volta! – ele ria, mas seu ombro deslocado combinado ao nariz quebrado doía feito o inferno, para ele que nunca havia quebrado um osso sequer em todos aqueles 64 anos. Para sua surpresa, a velha colega de escola Alberta Veronese deu-lhe um chute com o bico da bota bem no meio do estômago ao se levantar. Christopher uivou de dor. Sua dentadura caiu. Neste exato momento, Robert entrara no galpão, bestificando-se com a cena que encontrara após apenas cinco minutos de ausência.
- Feche essa boca que se não entra mosca! Temos apenas cinco minutos para dar no pé, as tropas estão fechando o quarteirão!
E então o alarme soou, fazendo do branco das paredes um vermelho vibrante e do silêncio mortal um lamentar infernal de sirenes.
- Creio que vocês não tem mais todo esse tempo! – riu Christopher. Alberta o olhou com a mesma cara de nojo que olhava para todo mundo, caminhou até Robert, o pegou pelo braço e saiu arrastando-o. – aurrevoi, monsieur Umbrella! – debochou.
Mal se passaram 15 minutos, e para o alívio do velho que já chorava rios de lágrimas de tanta dor, Maxine, Gabrielle e Fernando entraram no grande galpão por uma escada de emergência acompanhados de dois cientistas. Ele gritou por eles, com o último fôlego que tinha.
- Eu não disse! Eu disse que eles tinham um prisioneiro aqui em cima! Eu ouvi aqueles dois falando sobre um velho quando estavam descendo para a garagem! – vibrou a mulher.
- Vovô! Vovô! – Maxine desabou em choro imediatamente, abraçando o velho com cuidado e acariciando o seu rosto ensangüentado, completamente desfigurado pelo punho de ferro de Alberta Veronese. O velho uivava feito um lobo ferido. – calma vovô! Calma! Nós vamos sair daqui! Vamos sair daqui sim! Você vai ficar bem!
- Minha filha! Minha filhinha! Por favor! Saia daqui, leve Gabrielle e Fernando com você! Agora!
- Não! Eu não saio daqui sem o senhor! – chorava a garota, acariciando e beijando os cabelos grisalhos do avô.
- FAÇA O QUE EU ESTOU DIZENDO! – gritou ele – vão para o Apocalipse Hall e peçam ajuda para o Pietro! Ele sabe onde está a Manopla!
- Do que você está falando? Do que você está falando?! – Maxine estava confusa. Podia ouvir os robôs subindo as escadas, o prédio já tremia.
- Eles não sabem do plano da Alberta! Eles não sabem que ela quer sobrepor-se ao sistema! Alguém tem de pará-la!
- E porque eu?! – perguntou Maxine, chorosa.
- Porque você é Maxine Fernandes!
A parede Oeste explodiu, lançando concreto e poeira para todos os lados, revelando a impressionante paisagem de Neon City, uma verdadeira flor resplandecente e colorida brotando no meio da escuridão do deserto. Repentimente, a moto psicodélica do velho Umbrella apelidada de Planária entrou voando pelo buraco na parede. Era grande o bastante para confortar três pessoas.
- Subam nela! Subam! Ela vai levá-los até o sítio!
- O sítio do meu avô?! Nas ruínas de Macapá?!
- VÃO!
Os robôs prateados de braços e pernas finas começaram a lotar o galpão. Os três já voavam por sobre a cidade, desviando de prédios e rodopiando no ar como se montassem uma libélula que brincava por entre os tubos das alegorias de neon que permeavam as construções da cidade. Desviando dos carros voadores e das ligas de braços metálicos que interligavam os monstros de concreto, sumindo por entre as estrelas, atravessando os céus gelados do deserto em direção às tenebrosas ruínas da velha cidade abandonada de Macapá.

Fim da parte oito!
-Q

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Algumas Explicações sobre...



O novo The Big Machine!


Espero que estejam gostando, gostando mais ainda agora, que a ação de verdade começou! Estou aqui para fazer alguns esclarecimentos sobre a obra em si, e outras coisas que podem ter ficado pelo ar deixando vocês a ver navios. Acho que isso é completamente desnecessário, porque praticamente tudo foi explicado naquele Prólogo de introdução que foi junto com o primeiro capítulo. Mas, mesmo assim, pra quem pegou o bonde andando, eu aconselho a lerem primeiro o The Big Machine I para entederem a sua continuação, porque a história é bem complicada e pode acabar dando um nó na cabeça de vocês.


O que acontece nessa continuação?


Acontece que os personagens principais de TBM2 são NETOS, sim, NETOS dos protagonistas da epopeia que antecede esta que vocês acompanham (na verdade, está mais pra crônica, não é verdade? Eu ainda não sei classificar os contos desse blog, porque não são curtos e são bem complicados de se tecer). Maxine Fernandes é neta de Christopher Umbrella e de Augusta Montgomery. Não, a Augusta e o Chris não se casaram, acontece que o filho de Christopher, Dominick, se casou a filha de Augusta, Stéphanie. Juntos eles tiveram três crianças: Maxine, Gustavo e Alexandre. Maxine é a mais velha.


Fernando e Miguel são netos de Ray Ann, enquanto que Gabrielle é neta de Pietro, e por fim, a bela Tifa é neta de Fábia Paola. É claro que me esqueci de colocar os netos de Suzannah e de Don Hills nessa trama, não trouxe também os netos do Doutor Maurice Lispector e nem os de Carmen Parafuso porque os citados não tiveram tanta sorte assim de irem parar no mesmo colégio e na mesma cidade em que os respectivos netos dos dito-cujos estudam e vivem.


Espero não ter complicado AINDA MAIS a cabeça de vocês. Mas fica aqui o conselho: acompanhem a trama, pois muitas coisas vão ser reveladas daqui por diante.


The Big Machine II é bem mais colorido, psicodélico e aéreo do que The Big Machine I, que era mais térreo, metálico, bruto, mecânico. Aqui a luta é contra uma humana que quer derrubar a paz entre as máquinas e os homens, e não contra uma máquina que quer dominar o mundo, então vemos a situação se inverter de uma maneira inesperada depois que os personagens primordiais derrotaram o doutor Maurice que agia por trás da Grande Máquina.


O que aconteceu neste futuro utópico foi o equilíbrio final entre homem e máquina. O homem não tira mais proveito da tecnologia para destruir o mundo, mas para a sobrevivência ecologicamente sustentável, após o susto da desertificação de 60% do planeta após um "Apocalipse Social" que ocorreu por volta de 2012 e 2014, onde as pessoas sofreram histeria coletiva e iniciaram a 3ª Guerra Mundial. Após os embates, os humanos sobreviventes formaram clãs e se dividiram pelo deserto em caravanas, na necessidade da procura por água e comida. Caravanas estas que vez ou outra encontravam-se para comercializar e confraternizar (festivais onde Alberta Veronese lutava por pelo menos duas vezes ao mês). Neste meio tempo, nas ruínas de uma cidade comum, isolada do resto do mundo e com pouquíssimos habitantes restantes, o cérebro meio humano e meio máquina ESFERA surgia, dando início a construção de uma cidade totalmente planejada à base de cálculos precisos que visam a sustentabilidade e o equilíbrio entre o homem e a natureza (como aquela que pretendem construir lá pras bandas do oriente médio). Aos poucos, conforme o passar dos anos, os homens que ali foram chegando foram se estabelecendo (e ainda se estabelecem), recebendo casas, empregos, móveis e meios de transporte, todos providos pela ESFERA. Para manter isto, é preciso trabalhar, estar em dia com os impostos que mantém taxa fixa e estar em dia com a lei também. Ou seja, quem comete crime fica sem seus bens subsistenciais.


A moeda corrente em Neon City é completamente digital, como créditos recebidos num cartão onde estão todas as informações do individuo, como CPF, RG, código de DNA, endereço e número de telefone, entre outros, moeda esta chamada de Prisma. É a moeda universal e obrigatória. Todos os indivíduos recebem o tanto que precisam para sobreviver e mais um adicional extra para o lazer de cada um dos filhos, mantendo apenas uma classe social igual, o que muda de uma família para a outra é a maneira de aplicar a sua renda, o que deixa uns mais pobres que os outros, por gastos excessivos com bobagens, o que ainda é um problema para a ESFERA, que não pode mudar a mentalidade humana. Em caso de casais, o marido recebe o mesmo tanto que a mulher, e como são casados, ela não recebe a taxa de lazer reservada aos filhos, mas ganha um adicional para o lazer próprio. O homem também ganha esta mesma taxa, e por isso o que é direcionado aos filhos do casal caem diretamente no cartão pessoal de cada um. Depois dos 19, esse crédito não é mais válido.


No caso de alguns adolescentes que resolvem trabalhar cedo, como Maxine que ganha por ser DJ, o que ela recebe é bem pouco comparado ao que o salário dos pais proporciona.


A automação social e o sedentarismo foi um grande problema até virar lei vigente os dois dias sem automóveis ou elevadores ou qualquer outro aparelho que faça o trabalho das pernas do homem, batizado de Dia das Pernas pelos populares. É cobrado também por pessoa uma taxa de 60 minutos diários de exercícos. Sem a prática dos exercícios, o carro e outros bens de automação são retirados do indivíduo. Entre outras coisas, o universo de The Big Machine II é bem complicado, e eu só expliquei uma parte básica dele, uma parte bem desnecessária pra falar a verdade, o importante aqui é focar na história.


Mas o motivo verdadeiro desta postagem é deixar anotado essas ideias de sociedade utópica que eu não queria peder, e que podem até ser úteis num futuro próximo, não acham?
Outra nota importante que quero salientar antes que alguém venha me atirar pedras sobre algumas incoerências científicas, é: que fique bem claro que o Grande Colisor de Hádrons utilizado nessa trama foi alterado para que chocasse as "partículas de Deus" para gerar a tal falha no tempo e espaço, pouco antes do doutor Maurice morrer, ou seja, é tudo ficção científica saída da minha mente doentia, só faz de conta. O verdadeiro Colisor de Hádrons, da nossa dimensão, só serve mesmo para colidir átomos, embora eu não saiba exatamente qual a serventia disso para a humanidade.


PS: Estou usando algumas obras de Jaime Sorayama para ilustrar alguns pontos da trama, vocês as viram até agora no final da parte 7 e no começo da parte 6. Vou usar mais ainda daqui por diante, ele é um ótimo artista, deem um Google nele :)

The Big Machine II - Parte 7!

- Será que eles voltaram sozinhos pra casa? – Tifa ainda olhava desolada para as portas de ferro fechadas do prédio. Os robôs com cabeça de vaca faziam a segurança do lado de fora, com seus rostos serenos e amigáveis.
- Devem ter voltado sim, acho melhor não nos preocuparmos... – Miguel tentava disfarçar, mas estava morrendo de medo de voltar pra casa sozinho e acabar dando de cara com um daqueles ETs que andam por aí.
- Mas o Fernando nunca te faria voltar pra casa sozinho, ele é todo paizão e tal... – Tifa mordeu seu pirulito e guardou o cabinho branco.
- É, eu sei... – Miguel estava quase lagrimando. Era baixinho, todo turrão, metido a machão, fazia tipo de que não tinha medo de nada, que não precisava de ninguém, mas escondia uma criança dentro dele. Era precoce. Jovem e muito precoce. Com 15 anos parecia ter 19, era como a sua avó era. – e o pior é que se eu chegar sozinho em casa sem o Fernando, mamãe vai descer de pau nele quando ele chegar, e eu não quero ferrar pro cara...
- Eu te entendo... Ainda bem que eu sou filha única! – Tifa pegou sua mochila azul celeste, meteu nas costas e saiu andando, assoviando uma melodia.
- Ei! Ei! Pra onde você vai?! – Miguel correu até ela.
- Ora, eu vou pra minha casa! Já são quase 10 da noite, e meu pai me mata se eu chegar um pouco mais tarde que isso – Tifa parou para comprar mais pirulitos numa das lojas de conveniência em forma de ovo que ficam espalhadas pela praça.
- Mas e a Gabrielle? E a Max? Você não está preocupada com elas?! – Miguel gesticulava feito um louco para o prédio gigantesco que projetava sua sombra de neon vermelho e azul sobre a Warhol’s Square. Um grupo de bailarinas motorizadas girava no ar usando mochilas anti-gravitacionais ali perto. Mais ao longe, um desfile de grifes de rua ocorria sobre pernas mecânicas.
- Cara, relaxa, eles voltaram pra casa, querido! A mãe da Max é uma bruxa, ela deve ter corrido pra lá assim que o relógio bateu as oito... Os pais da Gabrielle são bem liberais, mas nem tanto, ela tem horários também... Seu irmão deve ter se encontrando com alguma gata por aí e deve de estar dando uns amassos num desses escurinhos, agora, RELAXA, por favor!
Miguel ficou estático após essa bronca.
- Se ele desaparecer eu vou ser totalmente responsabilizado, Tifa!
- GAROTO – gritou ela – por favor, você está me estressando! Vai ver ele até já está em casa a essa hora!
E assim, a gordinha saiu saltitando pelas ruas coloridas e psicodélicas de Neon City, para pegar o metrô e ir pra casa.
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- Não quero ouvir desculpas, Mariana, quero essa geringonça funcionando ainda hoje!
Na sala de controle do Grande Colisor de Hádrons, Alberta e Mariana tomavam chocolate quente enquanto discutiam o futuro.
- Mas é impossível, Alberta! Os nossos operários já disseram que com a ajuda dos robôs, o serviço acelerado, deixará tudo pronto para o primeiro teste em uma semana! E nós não temos certeza de que isso vai nos levar para outra dimensão!
- Você não entende, Mariana! Ele vai nos levar para outra dimensão SIM! Maurice Lispector trabalhou 10 anos aqui, ele fez as alterações necessárias e me mostrou do que isso era capaz! Você não viu o que eu vi! Você não viu a realidade alternativa de The Big Machine, onde o homem é o imperador supremo sobre as máquinas!
- Você está sendo utópica, Alberta, está ficando velha e voando alto demais! – Mariana cometeu o maior erro de toda a sua vida naquele momento.
- Do que... – Alberta virou-se vagarosamente, sua voz repentinamente rouca e amarga – você me chamou?!
Os olhos de Mariana saltaram das órbitas, seu coração acelerou e ela sorriu, amarela.
- O-oi? – fez-se de desentendida.
- DO QUE VOCÊ ME CHAMOU?! – gritou Alberta, dando um chute numa das cadeiras que ficavam diante da mesa de controle geral. Mariana protegeu o rosto com a prancheta e deu dois passos para trás, em direção à porta. Qualquer movimento em falso e ela correria feito uma louca.
- Eu disse que você está... está ficando...
- VOCÊ ME CHAMOU DE VELHA!
- E-eu?! ALBERTA?! – era hora de fazer-se de vítima. Mariana levou a mão ao peito e escancarou a boca – eu jamais te chamaria de velha, Alberta, eu tenho a mesma idade que você e não me considero velha!
- Eu sei que você me chamou de velha, Mariana! Eu não sou surda! – disse Alberta, aos berros, atirando sua xícara de chocolate quente longe. Ela se espatifou na parede. – Ah, mas eu vou te mostrar quem aqui que é velha!
Ela começou a retirar a lona de segurança do painel de controle.
- Alberta, o que você está fazendo?! – Mariana correu até ela, tentando impedi-la. Foi atirada longe.
- Vou ligar essa porcaria agora mesmo!
- Não! Não faça isso! Tem pessoas trabalhando lá embaixo! Uma pane no circuito elétrico pode matar todo e incendiar tudo isso aqui! Há elementos nucleares nisso, Alberta!
- Cale a boca e me diga onde fica o botão de ligar!
- Não! – Mariana pulou no pescoço da amiga e as duas entraram num embate corporal. Alberta levou suas mãos diretamente nos cabelos da amiga que deu um grito e chutou sua canela. A mulher gritou e deu-lhe um soco, as duas caíram no chão e rolaram de um lado para o outro. Mariana bateu com a cabeça de Alberta no chão três vezes antes de levar uma mordida no braço e guinchar feito um guaxinim. Foi quando o jogo virou e Alberta ergueu-a no ar usando apenas um braço.
- Se esqueceu de que lutei vale-tudo durante quase toda a minha vida?! Não é à toa que uso esse cinturão aqui! – e lançou-a sobre a mesa de controle. O baque do corpo de Mariana desmaiado sobre as três alavancas principais ligaram o monstro, causando uma enorme pane que matou tragicamente 20 funcionários e deixou 80 feridos em menos de um segundo. Quase todos os robôs foram perdidos por causa das grandes descargas elétricas expelidas pelo monstro metálico, foi um verdadeiro inferno catastrófico. Alberta desceu as escadas da sala de controle às gargalhadas – eu sabia! Eu sabia que isso funcionava!
No exato momento em que pôs seus dois pés minúsculos no chão, foi surpreendida por uma forte descarga elétrica que lhe pegou em cheio. Lançando-a contra a parede e torrando-a dos pés à cabeça. O que restou de Alberta Veronese naquela dimensão foi a sua marca registrada, agora derretida: o cinturão dourado.
- Senhora Mariana! Senhora Mariana! Você está bem?! – três oficiais da equipe de resgate ajudaram Mariana a levantar-se, uma hora depois do ocorrido, quando as buscas avançadas encontraram seu corpo caído embaixo da mesa de controle. O colisor de partículas havia se desligado automaticamente alguns minutos atrás por insuficiência de combustíveis, o que foi bandeira branca para que a equipe de resgate entrasse nos túneis em busca dos feridos e dos corpos dos que não resistiram às fortes descargas elétricas e aos resíduos químicos que vazaram da estrutura.
- Alberta! Alberta! – gritava Mariana, ainda grogue, chamuscada dos pés à cabeça, libertando-se dos braços dos bombeiros e em seguida correndo para fora da sala de controle. Deparou-se com o cinturão de ouro derretido no chão exatamente no centro de um círculo de fogo. – Não! Alberta! – algumas descargas fracas elétricas ainda percorriam os túneis pelo chão e pelo teto, escapando das rachaduras na estrutura colossal do grande colisor de partículas. Era altamente desaconselhável ficar passeando por ali. Desfazendo-se em lágrimas, Mariana Hesketh recolheu o artefato do chão. – o que você fez, minha amiga, o que você fez?!
- Temos que sair daqui, senhora! – alertou um dos bombeiros erguendo-a do chão à força – esse lugar corre o risco de explodir, e há um vazamento próximo de gás hélio...
- Mas e a Alberta?! A Alberta foi teletransportada!
- Eu sim em lhe dizer que não, minha senhora, ela foi desintegrada...
Mariana gritou e se contorceu. Os bombeiros precisaram contê-la.
- EU? DESINTEGRADA?! ALBERTA VERONESE NUNCA SE DESINTEGRA!
A irritante voz retumbou vinda de dentro do Colisor de Hádrons. Uma enorme placa de metal deslocou-se e caiu com estardalhaço no chão. A gargalhada ecoava por todo o local. Descargas elétricas ricocheteavam feito serpentes furiosas, queimando e destruindo tudo. E então, em meio à fumaça e ao fogo, a vaqueira surgiu, trajando um novo uniforme e um novo cinturão marcando sua chegada triunfal. Como uma “cowgirl” biônica, metal e couro vermelho cobriam seu corpo de cima à baixo. Na ponta de cada seio do sutiã de ferro, agulhas eletrizadas trocavam pequenas descargas elétricas, o resto do seu busto estava protegido por uma placa de ferro tão grossa que nem a bala mais potente atravessaria, ela sobreviveria a qualquer ataque terrorista, armada e perigosa. Sobre tudo isso, caía-lhe um pequeno colete vermelho de couro e botas de cano alto, estava vestida para matar.
- Prepare-se, Neon City, sua nova rainha está chegando!

Fim da Parte Sete!

PORRA! Lá vai eu escrever uma novela! - -’

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Às vezes assusta...

O nível de visitas desse blog sobe assustadoramente numa média de 60 pessoas por 4 dias... Fico me perguntando quem tanto visita isso aqui e não deixa nenhum comentário.


Realmente, é um pouco estressante e chato ficar deixando comentários. Demora muito, é verdade, e tem toda aquela burocracia da "conta google", não me admira que leitores anônimos leiam e não deixem comentário.

Mas, pra dar aquele incentivo, deixem pelo menos um "oi" na minha caixa do formspring né.

The Big Machine II - Parte 6

- Max, você está delirando! – disse a mãe
- Max, você está louca! – disse o pai.
- Deixem a menina falar! – gritou o avô – vão para o quarto, meninos! Vão! – ele sacudia o DiscoStick cintilante para os irmãos mais novos de Maxine, ordenando que subissem e ficassem lá em cima. A garota se derramava em lágrimas no colo do velho. – agora conte para o vovô, o que você viu? – fez Christopher Umbrella, doce e calmo, apaziguando o coração da jovem.
- Era terrível, vovô! Terrível! Terrível!
- A Tifa chegou a ver isso? – perguntou o velho, sério. Seu rosto cheio de rugas iluminado pelo brilho que emanava dos cristais na ponta da sua bengala, um DiscoStick como o da cantora vanguardista Lady GaGa, viva até os dias atuais através de aparelhos sofisticados que proporcionam-lhe o poder da fala e dos movimentos através de braços e pernas artificiais. Vez ou outra ela solta uma das suas pérolas, e continua compondo para quase todos os cantores conhecidos da década de 50 do século XXI, é como um Guru da Pop Music.
- Não, não deixei que ela visse, mandei ela correr!
- Alguém viu vocês?
- Não, não sei... As câmeras, talvez... Sei lá! – ela voltou a enterrar seu rosto no colo do avô.
- Havia mulheres penduradas como frangos... mesmo?! – gaguejou Dominick. Stéphanie lhe deu um tapinha na nuca.
- Não seja tolo, Dominick! Não está vendo que ela só está impressionada?! É o que eu sempre digo! Hoje em dia o sistema alivia muito pra esses meninos! – e a mãe de Maxine iniciou seu discurso rotineiro, dando voltas pela sala – no meu tempo havia guerra civil, assassinato em massa, homicídios planejados a sangue frio, tráfico de drogas, gangues...! Eu cheguei a contar pra você, Max, das favelas no Rio de Janeiro?! Das baixadas de Macapá?! Das facadas diárias e dos corpos que vez ou outra encontravam por aí?!
- Pare com isso, Stéphanie, sua tola! Você nem é desse tempo, sua estúpida! – ralhou o velho, eticando-lhe o brilhoso DiscoStick no meio da cara. – eu que vi tudo isso pela TV no meu tempo não fico fazendo pressão psicológica na menina! E você que só soube dessas coisas porque a Augusta te contou, fica falando besteira! Você é igualzinha à sua avó Misty, aquela velha hipócrita!
- Olha lá como você fala comigo! Seu velho! – ela abaixou o cajado com violência. – não mexa com a minha família!
- Não sei como uma mulher tão boa como a Augusta foi ter uma filha como você! – o velho mantinha sua vara psicodélica esticada em direção ao rosto da mulher, com o nariz em riste e os olhos julgadores, carregados pela idade e pela sabedoria. E então voltou-se para a pequena Maxine.
- Conte-me, meu anjo, o que você viu lá?
À meia luz daquela sombria sala de tempos remotos, Maxine iniciou seu relato.

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As luzes do laboratório foram ligadas, e 21km de extensão de túneis circulares acenderam como um aro subterrâneo resplandecente. A equipe técnica estava por toda a parte.
- Qual o diagnóstico? – perguntou Mariana, com a prancheta em mãos.
- Na verdade, não é nenhum milagre que este lugar e toda a parafernália nele contida estejam intactos, Senhora Hesketh. – começou o chefe de exploração. A caneta de Mariana fuzilava o papel – foi uma estrutura de milhões investidos, é um verdadeiro abrigo anti-nuclear! Temos 90% desses 21km de tecnologia em perfeito estado, mas vamos ter de fazer algumas substituições de peças e viemos preparados para isso, fique tranquila.
- Acho melhor você me tranqüilizar mesmo. Aquela mulher lá em cima tá que não se agüenta, ela quer ver essa coisa ligada até o final dessa semana... – Mariana suspirou.
- Não se preocupe, Senhora Hesketh, ela o terá sem dúvidas!
- E quanto tempo vai demorar esses reparos?
- Um ou dois dias, talvez, dependendo do desempenho dos robôs que trouxemos...
- Então, quer dizer que se os robôs executarem a tarefa melhor do que o esperado, podemos ter tudo pronto amanhã?
- É uma possibilidade, minha senhora.
- Quero essas máquinas ligadas já! – e virou as costas.
O homem arregalou os olhos.
- Mas, Senhora Mariana! Não podemos fazer isso! Os técnicos ainda estão terminando a análise, o diagnóstico vai demorar talvez a semana inteira! É uma máquina gigantesca, temos muito ainda que olhar!
- Então apressem-se, se ainda quiserem a cabeça sobre o pescoço. – disse Mariana, fria, olhando de cima. Deu as costas ao homem que tinha as duas mãos no pescoço, prevendo um final trágico para sua equipe e para si próprio.


- Não era coisa da minha imaginação! Não era! Será que ninguém me escuta?!
- Maxine, pra ser sincera, acho que você está ficando maluca! – Gabrielle fazia o estilo retrô naquela manhã, usando franjinha curta sobre os olhos, cabelos compridos, calça apertada, salto alto e jaqueta de couro coberta de cristais. Os corredores daquela área da escola eram sempre vazios. O colégio em forma de disco ficava no alto do edifício mais alto de neon city, com vista panorâmica para toda a cidade, sempre girando a 2km/h, proporcionava uma visão ampla e mutável das paisagens exuberantes da selva de neon, agora uma selva de concreto e metal: era dia e toda a iluminação artificial estava apagada, a luz usada nos prédios era totalmente natural. Projetados com tetos e enormes fachadas de vidro, os edifícios e construções daqueles tempos visavam a sustentabilidade, a economia e a preservação das matrizes energéticas. A escola não fugia a esses padrões.
- Porque será que ninguém acredita em mim?! – Maxine chutou a parede. – eu juro que eu vi! A Tifa estava comigo, ela entrou lá! – a garota apontava para a amiga que olhava o céu, distraída e sonhadora enquanto chupava seu costumeiro pirulito azul.
- Sim, mas você me mandou correr depois que ficou pálida feito uma múmia – respondeu.
- Vocês querem uma prova? Então vocês a terão! Venham todos comigo após a aula, vou mostrar pra vocês que o que eu estou falando é verdade!
- Vamos ser pegos, com toda a certeza – pronunciou-se Fernando, soltando uma baforada do seu cigarro eletrônico. – o sistema não tem falhas, Max, se vocês entraram naquele lugar era porque alguém queria que vocês vissem algo. As câmeras teriam dado o alarme.
- Sei lá, ainda acho que as duas estão piradas, essa história está muito mal contada! – dessa vez foi Miguel a se pronunciar. – eu voto por irmos todos lá depois da aula.
- Sabe que não posso ir, tenho supletivo e vou ficar por aqui até as nove da noite – afirmou Fernando, o único dali que cursava o terceiro ano. Gabrielle estava no segundo juntamente com Maxine enquanto Tifa fazia o primeiro ano ao lado de Miguel.
- Então você que fique!
Dito e feito: sete da noite estavam todos usando seus chapéus de caubói, dando voltas por dentro do Shopping Center da comida, se divertindo com os robôs em forma de vaca que passeavam pelo local cantando uma bela canção e tirando fotos dos visitantes, comendo amostras grátis até enjoar e tentando a sorte no disputadíssimo touro mecânico. Primeiro foi Fernando, que conseguiu fugir do supletivo. mas acabou caindo de cara após três segundos em cima do touro...
- Vai Gabi! Vai! Você consegue! – gritava a torcida organizada. Gabrielle lutava contra a criatura de metal ferozmente, com toda a garra que a raça negra sempre teve, girando seu chapéu no ar e gargalhando alto. Ao final da sessão, seu recorde foi sete minutos em cima do touro mecânico.
- Parabéns menina, você tem espírito de vaqueira! – cumprimentou um dos funcionários.
- Meu avô tinha um sítio antes de tudo virar um deserto, acho que herdei dele o sangue de fazendeira!
A turma seguiu caminho rindo alto. Apenas Maxine fazia cara feia pra todo mundo. Eles estavam fugindo do foco, se perdendo do objetivo.
- Max, ajeita essa cara, por favor, você está estragando o passeio – Fernando segurou o queixo da garota. Ela afastou sua mão.
- Nós não viemos aqui a passeio, Fernando, você sabe muito bem!
Uma funcionária passou oferecendo espetinhos de carne. Miguel estendeu a mão.
- Eu se fosse você não comeria isso! – fez Max, apontando para a bandeja. A loira continuou sorrindo.
- E porque não, senhorita? È carne de alta qualidade feita nos laboratórios da Fazendinha da Tia Alberta, especialmente para vocês.
Gabrielle meteu a mão num dos espetos e mordeu com vontade a carne.
- Vocês não sabem do que isso é feito, vocês não sabem de que é essa carne, ou de QUEM.
Fernando começou a ficar sem graça.
- Me desculpe, moça... – fez, arrastando Maxine para uma conversa particular. – o que você está pensando?!
- VENHA COMIGO! – foi sua vez de arrastá-lo. – esperem aí, vocês! Nós já voltamos!
- Ah, não mesmo! – Gabrielle foi logo atrás. Sobraram Miguel e Tifa que logo se entretiveram numa sala de jogos. – eu também quero ver essa parada aí, não me deixem pra trás!
Encabeçado por Maxine, o grupo chegou a sessão de gelados logo em seguida, e para surpresa de todos, a porta estava interditada e guardada por dois seguranças robóticos. Maxine gelou dos pés à cabeça.
- Rápido, disfarcem!
Os três pegaram produtos das prateleiras e começaram a analisar em grupo. Os guardas de metal estavam ali, parados, com cara de pateta, mas estavam muito atentos a tudo o que estava acontecendo ao redor, e estavam de olho nos três suspeitos que conversavam ao lado da geladeira de iogurtes.
- Será que eles descobriram a nossa invasão?! – Max suava frio – não é possível! Ali não tem câmeras!
- Alguém deve ter visto vocês entrando lá ontem né – sussurrou Gabrielle – vocês duas são muitíssimo discretas, com toda a certeza – fez, sarcástica.
- Não enche o saco, Gabi, a coisa é séria. Se tem guardas reparando a entrada do frigorífico um dia depois que nós invadimos o lugar, é porque o que eu vi era real!
- Ou talvez eles estejam apenas tentando reparar uma falha de segurança, Max!
Os imponentes robôs-segurança com cabeça de vaca e cara de cavalo deram um passo à frente, dando um susto e tanto no trio. Gabrielle caiu sentada. Os olhos de brilho verde das máquinas mudaram para o vermelho. O robô com cabeça de vaca pronunciou-se:
- Maxine Fernandes, por favor, nos acompanhe!
Os garotos em desespero tentaram fuga, mas para cada um que tentou correr, outros pequenos robôs que imitavam cabritos fecharam seu caminho. Os dois maiores pegaram Maxine pelos braços e arrastaram-na para dentro do frigorífico, agora com a porta aberta. Os outros robôs menores agarraram Fernando e Gabrielle, levando-os para o escuro do depósito gelado logo em seguida. Os três gritavam, esperneavam, chamavam por socorro, tentavam apoio nas prateleiras e em tudo o que houvesse pelo caminho onde eles pudessem segurar, mas de nada adiantava, o mercado pareceu vazio e sem vida repentinamente, como se nunca aberto antes, um silêncio mortal imperava na ala dos frios sendo cortado por gritos de socorro.
- Nunca gostei de cabras! Nunca gostei dessas malditas cabras! – Gabrielle tentava se defender com o salto do sapato, inutilmente, o que lhe prendia era de metal reforçado.
Mal sabiam eles, fora tudo planejado. Outros robôs menores interditaram os corredores de aceso à ala de produtos congelados com a falsa afirmação de piso molhado, por isso ninguém os via os ouvia, no resto do prédio a festa rolava solta com música alta e diversão, ninguém jamais os escutaria.
Do lado de dentro do frigorífico, Robert, o capataz de Alberta esperava pelo grupo seqüestrado com um sorriso maligno no rosto oculto por uma cortina de lingüiças penduradas num varal, ladeado por um homem e uma mulher vestidos de branco dos pés à cabeça.
- Você! – gemeu Max, com ódio.
Robert tinha em mãos duas provas do crime, duas provas de que Maxine e Tifa estiveram lá: um pirulito azul dentro de um saco plástico conservante e um fio de cabelo escuro no outro.
- Sua idiota! Olha o que você fez! Você nos trouxe direto para a boca do lobo! – gritou Gabrielle.
- Sua amiga tem toda a razão, Max – riu Robert, sarcástico – você voltou à cena do crime, você voltou direto para a minha boca!
- Você não pode! Você não vai! Eles vão sentir a nossa falta! Vamos ser dados como desaparecidos! Eles vão nos procurar em todo o lugar! Você e a sua Alberta estão perdidos se não nos deixarem sair daqui!
Robert gargalhou alto, sua voz retumbando feito trovão pelos quatro cantos do galpão gelado.
- Tola! Você é uma tola! Assim que você virar carne e estiver nas prateleiras desse super mercado, todos os seus registros e o dos seus amiguinhos aqui serão apagados da ESFERA, será como se vocês nunca tivessem existido!
- Eu vou acabar com você! – Fernando lutava contra os braços mecânicos que o prendiam, se contorcia feito um animal capturado, violentamente, chutava e socava, sem obter efeito algum. A cabra que o segurava forte torceu seu braço e o fez gritar de dor, isso foi o bastante para fazê-lo parar. Gabrielle estava chocada demais para fazer alguma coisa, parecia tão robótica quanto a máquina que a prendia.
Os olhos de Maxine saltaram, seu grito sofrido cortou o mundo naquele momento, mas a música era alta demais para que alguém pudesse ouvi-la.


Fim da Parte Seis!

The Big Machine II - Parte 5



- Isso é completamente insano, Maxine – vovó Augusta abriu o forno e retirou de lá uma bandeja cheia de suspiros, ali naquela fornada havia o bastante para alimentar toda a turma de Maxine, que naquele momento abarrotava a cozinha do apartamento da velha sem ter nem onde se sentar. Miguel e Fernando estavam de pé, Maxine e Tifa sentadas nas cadeiras e Gabrielle brincando com o cachorro, ajoelhada no chão quadriculado. – aquela mulher não recebe ninguém, absolutamente ninguém diretamente no escritório dela!
A velha largou a bandeja na mesa e colocou as mãos na cintura. Os adolescentes, netos de seus amigos de escola atacaram os quitutes na mesma hora.
- Mas ela vai me receber! Ela vai receber a todos nós! – Maxine foi a única que não levou o doce à boca. – ou eu não me chamo Maxine Fernandes! – deu um soco na mesa.
- Quebra essa mesa, sua moleca, que teu avô vai pagar! – vovó Augusta era mãe de Stéphanie, e era uma senhora de idade muito comum para aqueles tempos. Tinha algumas tatuagens nos braços, gostava de andar sempre maquiada e de cabelo feito, tingido de preto, as unhas sempre pintadas numa cor diferente a cada dia, era uma velha e tanto. Gostava de cozinhar às vezes. Nas raras vezes que a jovem Maxine a visitava.
- Desculpa vovó – Maxine recolheu as mãos para o colo e deu uma risadinha amarela.
- E vovó nada, pode me chamar de Guta, eu já disse! – ela ajeitou a franja. – assim você me faz sentir velha demais. E eu sou macaca do rabo pelado, mas nem tanto...
- Dona Guta, é verdade que você chegou a fazer colegial com a velha Alberta e o braço direito dela, a Miranda Hesketh? – Gabrielle levantou-se e encostou-se na parede, com as mãos nos bolsos. O cachorro continuava pulando na sua perna. Um cachorro biônico que tinha função de alarme contra assalto e incêndios e nas horas vagas servia de aspirador de pó.
- Não só eu fiz como os avôs de todos vocês fizeram! – a velha Augusta fez uma careta e virou-se para a porta da geladeira, espelhada, para dar uma olhada na aparência. Fez uma careta ao lembrar-se da intragável Alberta Veronese em seus tempos de adolescência – mas vocês não têm noção de quem era essa Alberta no colegial! – a velha vaidosa puxou uma cadeira e sentou-se – aquilo era metido à gente que vocês nem imaginam! Tinha o rabo desse tamanho, achava que era a dona do mundo, se achava melhor do que os outros, fazia pouco das pessoas por trás e pros adultos e professores fazia cara de santa com aquele cabelinho loiro enroladinho, aquela vagabunda... E o pior é que a safada era inteligente mesmo, não se podia negar, aquilo era um gênio... Mas um gênio do mal, com certeza – a mulher tomou um gole de chá verde e ofereceu xícaras pro resto do grupo, compenetrado na história. – ela era o tipo de pessoa, o estereótipo que vocês vão encontrar em qualquer escola do mundo! A garota loira, boa moça, inteligente e maligna, o tipo de pior espécie, aquilo que vai longe, sabe? – Augusta deu uma gargalhada – e o pior é que a safada era sapatão, e era hipócrita até o osso, E AI DE QUEM DISSESSE QUE ELA ERA ISSO! – disse, dando voltas com o dedo indicador no ar, fazendo pouco. Suas deslumbrantes argolas verdes sacudindo nas orelhas. Os garotos riram à beça da mulher, ninguém usava aquele termo depreciativo e pejorativo há muito tempo. Vovó Augusta tinha um ar adolescente tão aconchegante que os deixava muito à vontade para fazerem piadas e soltarem gargalhadas. – isso é o mínimo que eu posso adiantar dela, antes de todas as outras coisas. Ela tem algum tipo de síndrome do exclusivismo sabe? Se acha a poderosa. Nunca vai deixar vocês subirem ao escritório dela. Nunca.
Maxine arrastou a cadeira para trás.
- Isso porque ela ainda não me conheceu!
Augusta deu um tapa na mesa e se levantou.
- Ora, Maxine, meu poupe! Está sendo birrenta e mimada, menina! – fez a velha – era só uma boate! Só uma boate! Os pais de vocês têm dinheiro suficiente juntos para abrir outra, e aproveitem que o pagamento mensal da ESFERA está saindo esse final de semana!
- Não era só uma boate, vovó, era o ganha pão de muita gente, desde garçons à dançarinos e funcionários de limpeza, e inclusive o meu! Não parecia, mas eu ganhava pra ser DJ ali, e a senhora não sabe como é difícil hoje em dia arranjar um emprego nessa cidade, os bons cargos foram todos ocupados e a central de empregos computadorizada da ESFERA está mandando um bocado de gente de volta pra casa por falta de vagas todo dia...
- Deixa de besteira, menina! O que mais tem por aí é bar e boate abrindo, vocês encontram outro lugar pra brincar! – Augusta levou mais chá verde à boca.
- E aliás, acho que a empresa dessa mulher já tem prédios demais pela cidade! Já chega de laboratórios – Maxine estava quase ficando sem respostas.
- Isso, chega de laboratórios, com a cidade crescendo tanto, chega de laboratórios que produzem a nossa comida, vamos todos morrer de fome! – Augusta fez uma careta. – é por um bem maior, minha filha, vai por mim.



- Sabe, Max, acho que sua vovó está certa por um lado – disse Tifa, receosa, enquanto as duas caminhavam à noite para casa. A selva de neon povoada de tantas aberrações culturais nunca esteve tão radiante e colorida como naquela noite. Grupos de dança se apresentavam em plena via pública, artistas sobre pernas robóticas equivalentes às nossas pernas de pau dos dias atuais cuspiam labaredas de fogo, alienígenas de oito braços pintavam telas belíssimas à luz dos grandes prédios resplandecentes enquanto a batida frenética do Dark Disco retumbava nas células do metal, do couro, do vinil e do neon. Mulheres assustadoras desfilavam com sua maquiagem assombrosa e seus penteados insanos por toda a avenida, as lojas de departamentos apinhadas de gente, os shoppings daquela área lotados. Mistura maluca de Tóquio, Nova York e Índia.
- Acha mesmo que eu estou sendo infantil, Tifa? – apesar de toda a animação da Warhol’s Square, Maxine caminhava de cabeça baixa.
- Um pouco, na verdade... Existem um milhão de boates por aí, vamos arranjar um point novo, eu tenho certeza...
- Mas a Octopus era... a Octopus! – Maxine bateu com o pé no chão e olhou para cima. O prédio em forma de seta da “Fazendinha da Tia Alberta INC.” dividia a Warhol’s Square no meio, tendo em seu térreo um hiper mercado com tudo o que se tem direito. Os olhos de Maxine brilharam e ela agarrou o braço branco e gordo da amiga que derrubou seu querido pirulito azul no chão. – vamos, Tifa! Eu não vou ficar aqui zanzando pelas ruas sem fazer nada! Eu simplesmente não suportaria!
- Ei! Meu pirulito! – foi a única coisa que Tifa conseguiu gritar antes de ser arrastada pra dentro do mundo Texano que era o maior mercado do mundo. Aquele monstro fora projetado para ser um parque de diversões alimentícias, com direito a touro mecânico, fazendinha de animais-robôs super realistas, cascata gigante de leite desnatado e chapéu de caubói para os visitantes, sem contar as outras inúmeras atrações do parque e as infinitas opções de produtos para compra e consumo, todas sobre o carimbo tamanho 44 da Cinturão de Ouro. No hall central, uma vaca gigante balançava o rabo, soltava fumaça pelas ventas e mugia de verdade, e Tifa estava sendo arrastada em meio à tudo aquilo como um dos carrinhos de compras em alta velocidade, desgovernadas as duas adolescentes estavam.
- Onde será? Onde será? – Maxine estancou de repente, respirando com dificuldade, apoiou as mãos nos joelhos e abaixou a cabeça, seus cabelos escuros fora de moda grudados na nuca. As duas estavam na sessão de frigoríficos. – Onde está, onde está?!
- O que você está procurando hein?! – Tifa já chupava outro pirulito enquanto olhava as prateleiras térmicas lotadas de frangos assados na hora. Maxine não agüentou, teve de se sentar um instante no chão mesmo.
- A entrada para o depósito do frigorífico! – exclamou ela – todo super mercado tem uma porta escondida para os depósitos, e geralmente ficam perto da área dos congelados ou dos frigoríficos...
- Você é bem observadora hein? – a amiga esticou a mão para ajudar Maxine a levantar. As duas agora estavam de pé, de volta à caça.
- Não falei! Olha lá! – Maxine iniciou outra corrida desembestada, arrastando a pobre amiga de cabelos azuis junto com ela.
- Maxine, calma! Eu vou acabar vomitando meu lanche da tarde todinho!
Entre a sessão dos iogurtes e a sessão de carnes e peixes, Maxine e Tifa encontraram a porta para o freezer do país das maravilhas, e por sorte, sem nenhum funcionário ou cliente à vista para delatá-las. Se fossem pegas no ato, iam passar a noite numa sala de aula aprendendo a respeitar as leis do sistema operacional em prol de uma humanidade mais unida e respeitadora, o que era um saco, pra falar a verdade.
- E agora, qual o plano brilhante? – a voz da gordinha ecoava por entre as prateleiras acinzentadas do mundo gelado. O hálito das duas formava nuvens no ar daquele depósito. – olha só! Sorvete de uva! – Tifa largou o seu pirulito azul para atacar um dos potinhos que estavam dando sopa logo ali ao lado.
- Não toque em nada, Tifa! – Maxine deu um tapa na mão da amiga – Se não, atenderemos por roubo e vamos passar uma semana prestando serviços no jardim de infância da escola!
- Ahá! Eu sabia! Olha só! Outra porta! A porta para os laboratórios!
Aos fundos do galpão, uma porta de saída no canto esquerdo, escondida por uma arara cheia de lingüiças penduradas como casacos sobre a armação de ferro. Maxine hesitou: olhou para trás. Silêncio, frio, gelo e alimentos conservados.
- Vamos, Max, esse lugar me dá arrepios! – Tifa segurou no casaco da amiga. Mas e se por um acaso do outro lado houvesse guardas, seguranças ou funcionários esperando por elas? Como elas iriam lidar com isso? O que iria ser delas? Maxine fechou os olhos, prendeu a respiração e abriu a porta com toda a força. Do outro lado havia apenas um corredor deserto, um corredor redondo esterilizado com cheiro forte de hospital.
- Onde será que isso vai nos levar? – as duas prosseguiram a caminhada pelo sinistro corredor branco, sempre olhando para trás, atentas ao mínimo dos barulhos, pé ante pé, na surdina, sussurrando. Mas mesmo um sussurro ali soava feito trovão no teto côncavo.
- Você está ouvindo isso? – perguntou Tifa, tirando o pirulito da boca.
- O que? – Maxine estancou. Um arrepio lhe subiu a espinha.
- Parecem gritos! – Tifa fez uma careta de pavor e deu meia volta – não vou mais a fundo! Não vou! Vou pra casa porque tá quase na hora da vovó colocar a janta! – Maxine puxou a amiga de volta.
- Volta aqui!
- Eu não! Vai ver eles estão torturando os enxeridos que invadiram os depósitos como castigo! Eu é que não vou ficar pra saber de onde esses gritos estão vindo!
- Temos que ir adiante nisso! Agora a coisa ficou bem séria! – Maxine olhou para trás – temos que saber de onde estão vindo esses gritos e chamar a polícia! Vai ver eles estão fazendo algo fora da lei aqui!
- Não tem como, Max! A empresa da Alberta é um dos braços principais da ESFERA e do sistema dela! Se algo está sendo feito aqui é porque a central deu total permissão, e tenho certeza de que há uma explicação legal e lógica para todos esses...
Um grito feminino cortou o corredor. Até agora o mais alto de todos. As duas tremeram nas bases. Maxine correu em direção ao final do corredor, e ao ver duas sombras se projetando na parede da bifurcação onde o caminho se divide em dois, jogou-se no chão e pregou as costas na parede. Vozes ecoaram ali.
- Eu achei isso abominável! – disse uma voz feminina.
- Era apenas um clone, e defeituoso! Veio com câncer no útero! – explicou a voz masculina.
- Mas trata-se de uma vida, meu caro, uma vida HUMANA! Criada em laboratório, mas humana!
- Você só pode ser nova por essas bandas não é? Honre o seu contrato e fique calada, ou a central manda te matar assim que você sair daqui!
- Está ficando louco?! – a mulher ficou assustada.
- Não, doutora, são como as coisas funcionam. Se Alberta mandou, é porque a ESFERA mandou, e devemos obedecer bem calados.
- E o que acontece com os clones que são jogados aí, nessa sala?
- Você não vai querer saber...
Os passos caminharam pra longe. Maxine olhou para o lado direito. A amiga estava agachada feito uma sapinha ali ao lado.
- Fique aqui! Eu vou ver onde ele jogou o tal clone!
Max levantou-se e caminhou com o coração na mão, a passos lentos e calculados, os olhos do tamanho da lua, o peito quase criando vida própria. Uma porta dupla de metal encerrava o segredo. Estava entreaberta. Seus dedos morenos deslizaram para fora das longas mangas do casaco, tocaram no frio mineral gélido e opaco que refletia uma versão de seu rosto retorcida e mal formada. Os dedos deram o empurrãozinho que faltava para que ela pudesse ver uma multidão de mulheres penduradas de cabeça pra baixo naquele galpão, como frangos prontos para o abate, acorrentadas e amordaçadas, todas com o mesmo rosto de nariz de batata, cabelos loiros encaracolados e olhos quase fechados. Braços mecânicos as manuseavam para cima e para baixo, pendurando-as e desprendendo-as das altas araras para jogá-las em um monstro robótico incinerador ao qual os braços pertenciam. Maxine fechou a porta, virou para a amiga e sussurrou:
- Corra. Corra Agora.



Fim da Parte Cinco!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Explicações à parte...

Gente, me desculpem, sei que tá demorando um pouco pra chegar a parte da ação de verdade nesse novo The Big Machine, mas posso adiantar pra vocês que está faltando pouco para Alberta Veronese dar o seu golpe!

The Big Machine II - Parte 4


- Porcaria de frio! Porcaria de frio! – exclamava Alberta, passando pasta de cacau nos lábios em curtos intervalos de tempo. – se os idiotas do mundo tivessem dado ouvido aos avisos antes! Agora olhem pra isso! Olhem! “Não, vamos continuar jogando carbono na atmosfera! Estamos lucrando mesmo!” – fez ela, sarcástica – bando de filhos da mãe! Se eles soubessem o quanto é difícil e caro criar comida artificial em laboratório, tinham parado com a porcaria da poluição a tempo!
- Dê-me a sua mão, senhora, eu lhe ajudo a descer – ofereceu-se o co-piloto do helicóptero. Alberta Veronese deu-lhe um tapa na mão.
- Tá pensando o que? Que eu sou alguma velha acabada?! – gritou – eu sei muito bem descer sozinha! Com licença! – ela empurrou-o, bruta, e desceu pisando firme no chão de gelo, fincando pé na neve macia com o salto da sua bota. O uniforme era o mesmo, mas agora tratava-se de uma versão própria para o frio constante europeu. O aquecimento global e a inversão térmica tornaram grande parte do hemisfério norte do mundo uma grande calota de gelo. A Europa conserva hoje em dia apenas 15% da sua população anterior, o que ainda é muita gente. O frio em algumas áreas chega a -60º no inverno, o que torna insustentável a habitação constante daquele local. Grandes cidades como Paris e Londres viraram apenas ruínas de gelo, constantemente explorada por antropólogos, arqueólogos e sociólogos mundiais, vindos do hemisfério sul do globo, onde se encontra 80% da população mundial em grandes capitais como Dubhai, Neon City e outras.
- Onde está a maldita ruína?! – berrou Alberta. Ela era acostumada a dar berros constantemente, mas nunca imaginara que sua voz esganiçada fosse ser tão necessária. O vento forte e a nevasca faziam tudo virar um inferno, era impossível de ouvir alguma coisa dita a baixos decibéis.
- Você está pisando em cima dela, senhora! – gritou o co-piloto.
Alberta ergueu seus olhos para a paisagem. Não teve coragem de levantar seus óculos de proteção. Até porque era altamente desaconselhável, a não ser que você queira ter suas córneas congeladas. No horizonte, robôs gigantes trabalhavam retirando a terra e a neve na paisagem cinza. Homens e mais homens desciam e subiam da cratera gigantesca, 21 km de cratera, para ser mais exato.
- No momento eles estão procurando a entrada do laboratório, minha senhora. – esclareceu a chefe de exploração e cientista-chefe oficial de Alberta, Mariana Hesketh, era esta a mulher que estava no controle por aquelas bandas. Estudaram juntas praticamente a vida inteira, separando-se apenas com a chegada do período em que cursaram faculdade. Mariana resolveu fazer Farmácia, e acabou se tornando uma exímia manipuladora de compostos químicos e da ciência. Como grande amiga de Alberta, acabou sendo a primeira cotada para o cargo de braço direito da velha fazendeira quando a ESFERA deu-lhe o ofício logo quando chegou a Neon City. As duas costumavam ficar sempre em primeiro e segundo lugar com relação às notas na lista de melhores alunos da turma. Eram dois cérebros e tanto.
- Quero que encontrem essa entrada o quanto antes, Mariana, precisamos ligar essa máquina urgentemente!
- Você acredita mesmo que essa parafernália toda ainda funciona depois de 40 anos debaixo de nevasca constante? Eu duvido muito, amiga, vai por mim... – Mariana ajeitou seu penteado Chanel em V, o vento o estava destruindo completamente. Já era uma velha àquela altura, mas uma velha muito conservada, ao contrário da amiga. Ela costumava se cuidar bastante, sempre teve o rosto muito limpo, desde a adolescência, era uma das mais bonitas da turma. Agora estava magra, praticamente seca, seus cabelos lisos escuros agora curtos e brancos, o que reforçava seu ar de superioridade mais ainda.
- Sejamos otimistas, Mariana, isso não pode falhar, não agora! Estou a apenas um passo de encontrar com Maurice, apenas um passo e ele me dirá como assumir o controle da ESFERA!
- Você sabe que estamos enviando informações falsas para a central da ESFERA, tanto do laboratório central em Neon City quanto daqui das explorações, e isso é crime duplamente qualificado contra a Ordem e a Segurança Mundial.
- Somos inteligentes o bastante para driblar aquela sucata – Alberta tirou os olhos da paisagem e voltou-se para a amiga, que por trás dos óculos de proteção e dos cabelos brancos tinha um ar de descrença e desesperança. – ora, vamos, Mariana! – tentou animar – a ESFERA é só uma máquina, ela não é Deus!
- Mas é justamente disso que tenho medo, Alberta – Mariana pegou as mãos da amiga e apertou. Era um exercício de aquecimento, mas também era um exercício de compreensão. – a ESFERA não é Deus. Deus teria piedade de nós se pedíssemos perdão. A ESFERA não. Ela é uma máquina, ela é exata, ela não tem sentimentos.
- Não se esqueça que ela é metade humana!
- Mas quem é o humano por trás dela? De quem é a metade do cérebro que é humana naquilo? Qual a verdadeira forma da ESFERA? Nenhum de nós sabe Alberta, nenhum de nós...
- Senhora! Senhora! – o ambiente estava repleto de esferas de metal flutuantes através de onde os trabalhadores se comunicavam. Uma delas veio voando até Alberta. – Senhora Alberta! Senhora Alberta! – as esferas comunicadoras eram equipadas com telas holográficas e duas antenas receptoras de sinal. As imagens exibidas logo em seguida pela esfera que veio até Alberta aos berros deixaram-na completamente chocada. Como ela poderia ser tão sortuda assim? – Senhora Alberta! Nós a encontramos! Nós a encontramos!
- EU NÃO TE FALEI? EU NÃO TE FALEI?! – Alberta sacudiu a amiga e deu-lhe um abraço nervoso de estalar os ossos. Um rosto surgiu na tela do comunicador, tratava-se de um dos operários de confiança de Mariana Hesketh.
- Nós a encontramos, Senhora! A entrada para o laboratório do Grande Colisor de Hádrons foi encontrada! – o homem aparentava muito nervosismo. A tela em seguida mostrou a porta e alguns outros homens retirando a terra e a neve com a ajuda de pás e braços mecânicos. Um tatu robô fazia o trabalho mais pesado que era tirar as grandes pedras do caminho, mas grande parte da entrada já era bem visível.
A velha gargalhou, e sua risada cortou a nevasca como uma lança afiada.

- Não tem muito o que fazer mesmo, Maxine, fica calma! – Miguel passava suas mãos nas costas da garota, isso costumava acalmá-la um pouco.
- Como eu vou ficar calma?! – gritou, cuspindo Ruffles pra todos os lados. Fernando, Miguel, Gabrielle e Tifa protegeram a cara. – a Octopus era a minha vida! Onde eu vou tocar agora? Na esquina da Warhol’s Square?! Olha bem pra minha cara!
- Maxine, por favor, você vai ter um infarto se continuar comendo tantas Ruffles assim! – Gabrielle recolhia do chão os outros três sacos de batatas consumidas pela amiga. Hoje Gabrielle estava mais chamativa do que nunca. Um conjunto violeta de couro com Strass por todo o corpo, um moicano vermelho e brincos gigantescos de miniaturas de saturno complementavam seu visual. Não era preciso nem citar a maquiagem. Sorte dela que nesses tempos é permitido quase qualquer coisa nas escolas.
- Tomara que eu tenha mesmo um infarto! Um infarto bem grande que me mate logo de uma vez!
- Não fala besteira, menina! Bate na madeira! – Tifa levou a mão ao peito, estarrecida, meteu seu pirulito azul na boca.
- Onde tem madeira? Onde? Nossos bisavós acabaram com tudo! – retrucou Maxine, revoltada – bando de leigos, isso o que eles eram!
- Não desconte sua raiva nos antepassados, Max – Miguel ainda tentava a tática de esfregar as costas. Maxine deu-lhe um tapa para que tirasse a mão dali.
- Eu tenho uma ideia – pela primeira vez após o fechamento da boate, Fernando se pronunciara, estava abalado demais para falar alguma coisa. Ele tragou mais um pouco do cigarro eletrônico à base de água e virou-se para o grupo. – vamos fazer um protesto, um protesto no prédio da empresa deles. Um grande e violento boicote.
- Acho que seríamos presos e passaríamos dois meses nas galerias subterrâneas – concluiu Tifa, que costumava piscar muito quando estava fazendo esforço pra pensar – e eu definitivamente não quero passar tanto tempo assim ali embaixo do estrume. Já pensou se algum cano estoura? Eu já ouvi uma história que...
- É tudo mentira, Tifa – interrompeu Gabrielle. – os canos do Sistema de Dejeto Ecológico não estouram nunca! O programa de TV falou sobre isso ontem. O nosso cocô desce pela tubulação, vai para os canais subterrâneos de tratamento, desce para as fossas e é transformado em energia, igual como algumas fazendas faziam no começo do século. Assim não esgotamos os últimos recursos naturais do planeta. – ela terminou com um sorriso.
- Nada de propaganda do governo aqui, Gabrielle, é por causa dele que estamos sem o nosso habitat natural. – disse Fernando, sério.
Maxine se levantou, catou o patinete e meteu a mochila nas costas. Olhou para todos os rostos de pé na calçada, todos desempregados e voltou-se para o grupo.
- Eu não sei vocês, mas eu vou fazer a Senhora Alberta Veronese ouvir algumas coisas hoje!

Fim da Parte Quatro! (tomara que não fique tão grande quanto o outro ‘-‘)

segunda-feira, 5 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 3


Calculando Informações...
Checando database...
Checando dados recebidos...
Inicializando Protocolo...
Dados Comprovadamente Seguros.
Arquivando na central ESFERA...
Arquivado.
- NÃO! ISSO É FLOODING! ISSO É INFORMAÇÃO FALSA!
Olhos abertos, olhos castanhos enormes abertos, constatando a sua localização atual, sentindo o despertar para a realidade. E a realidade é: um quarto comum, sem muitos luxos, mas muitos livros, muitos pôsteres e muitos bichos de pelúcia. Uma cama, um guarda-roupa e infinitas prateleiras.
- Acorde Senhorita Maxine! Já é dia Senhorita Maxine! Seu horário deve ser cumprido Senhorita Maxine! Está atrasada Senhorita Maxine!
- Eu já entendi, Edwiges! Agora pare de ficar repetindo Senhorita Maxine se não eu vou acabar te reprogramando! – Maxine atirou uma almofada na coruja de metal com olhos verdes que batia suas asas em cima do guarda-roupa. Uma coruja-robô, biônica, inteligência artificial básica e antiquada.
- Não faça isso comigo, Senhorita Maxine! Eu executo o mesmo sistema operacional desde 2020 Senhorita Maxine, seu pai lhe mataria Senhorita Maxine! – a coruja-robô desceu do guarda-roupa batendo suas asas metálicas e dando voltas completas em seu pescoço de metal, produzindo ruídos de ferrugem e maquinaria.
- Você está muito antiquada, Edwiges. Acho que está na hora do papai te trocar... – Maxine abriu o guarda-roupa, e aquilo que parecia ser um simples armário de madeira revelou ser na verdade a porta de entrada para um mundo que a garota chamava de closet. As gavetas de baixo abriram-se formando degraus, pelos quais Maxine subiu.
- Ele não o fará, Senhorita Maxine, eu sou relíquia de família, Senhorita Maxine! – a coruja foi logo atrás, com todos os seus ruídos e seus estalos pneumáticos de tecnologia ultrapassada. Maxine parou e virou-se.
- Edwiges, por favor, eu te peço – a garota juntou as mãos – vá procurar o que fazer! – gritou.
- Só executo uma tarefa se ela me for ordenada, Senhorita Maxine, especifique o que você quer que eu faça, Senhorita Maxine!
- Tudo bem! Tudo bem! – Maxine levantou as mãos pro alto em sinal de redenção – eu quero que você vá perturbar o Gustavo!
- Com todo o prazer, Senhorita Maxine! – Edwiges voou pra longe, saindo pela porta entreaberta, cantando algo como “senhor Gustavo, senhor Gustavo! Eu vim lhe perturbar, Senhor Gustavo”. Alguns segundos depois, Maxine ouviu os gritos do irmão aos fundos do canto da coruja, correu até a porta do quartinho e trancou-a antes que o garoto viesse socá-la como costumava fazer, e voltou para o seu mundo infinito de roupas, sapatos e acessórios, escondidos por um humilde guarda-roupa de madeira. Com o controle remoto nas mãos, Maxine apertou no mínimo uns seis botões, e eis o que aconteceu:
Um figurino vermelho completo com macacão vermelho de vinil, óculos Rayban SkyDrive, lançados recentemente com um design incrivelmente aerodinâmico e botas pretas. Maxine esticou os braços na direção das roupas e então as cores das suas unhas mudaram automaticamente de prata para vermelho ao reconhecerem o figurino de mesma coloração que estava diante delas. As mulheres da década de 50 do século XXI não se preocupam mais com fazer as unhas, elas são substituídas cirurgicamente por placas holográficas que mudam de cor conforme o figurino escolhido.
- Isso sempre é o máximo. Nunca vou me acostumar com a ideia – Maxine suspirou, vestiu suas roupas, catou uma bota preta qualquer jogada debaixo da cama e saiu para o café. A família inteira estava reunida lá embaixo, numa mesa redonda: os pais de Maxine, Dominick e Stéphanie, os dois irmãos de Maxine, Gustavo e Alexandre e o vovô Umbrella, que estava sempre olhando para o vazio com cara de sono e fazendo anotações aqui e acolá. A coruja Edwiges ainda perturbava Gustavo.
- Maxine, eu vou te matar! – ameaçou o garoto.
- Nem vem com essa pro meu lado, a coruja é sua, arque com as conseqüências. E se eu encontrar ela no meu quarto de novo eu vou reprogramá-la!
- Sabe que se fizer isso o papai te mata! – disse o pequeno Alexandre, comendo um biscoito.
- É, sabe que o papai te mata! – imitou Dominick apertando a bochecha da criança mais nova.
- Bom dia vovô! – Maxine pulou no velho e deu um abraço apertado daqueles, como ela costumava fazer toda manhã. O vovô Umbrella sorriu. 64 anos de idade, tinha uma fortuna em seu nome, e uma mansão em algum lugar, mas pouco gastava agora, já fora muito famoso, e nos dias atuais apenas recebe os louros da vitória.
- Bom dia minha filha! – o velho retribuiu o abraço – e aí? Como vão as coisas na Octopus?
- Renovaram meu contrato para mais dois anos, acredita?! – Maxine vibrou.
- Nossa! Mas isso é incrível meu anjo! É incrível! – ele abraçou-a de novo – nós precisamos fazer outro remix como aquele então! Se eu soubesse que isso ia te ajudar tanto assim, teria feito melhor para que você fosse contratada por mais cinco ou dez anos!
Maxine deu um beijo estalado na bochecha do velho.
- Não seja bobo, vovô! O que você fez por mim já está de bom tamanho! Agora basta que eu mantenha o contrato e a qualidade do eletrônico experimental.
- Vamos lá pra cima quando você voltar da escola para dar uma olhada nos meus CDs, meu bem! Tenho uma música que vai ficar ótima nos seus remixes... – os olhos cansados do velho Christopher Umbrella bateram sobre o pingente triangular no pescoço de sua neta, e de animados e eufóricos seus olhos passaram para um meigo saudosismo em satisfação. Ele pegou a joia tecnológica entre seus dedos enrugados com delicadeza e beijou-a.
- Cuida bem disso, minha filha, cuida muito bem. Isso ainda vai te ajudar muito! – ele ergueu as sobrancelhas e o dedo indicador.
- Acha que já não está ajudando?! Toda a minha vida está aqui!
- A vida de todos nós está – vovô Umbrella fechou os olhos e voltou-se para o livro velho que lia. Sempre gostou de livros antigos, desde que era muito jovem. Maxine deu-lhe outro beijo.
- Vou indo, nem vou tomar café! Vou dar uma passadinha na Octopus antes de ir pra aula, esqueci meu arranjo de cabelo lá ontem à noite...
- Então corra, corra! – o velho fez um gesto para que ela seguisse caminho. Maxine correu para a porta da cozinha.
- Use a porta da frente, Max! Que péssimo costume esse de ficar saindo pelos fundos! – ralhou a mãe – os vizinhos estão reclamando que você anda pulando as cercas das redondezas pelo menos três vezes por dia!
- Tomara que o cachorro da Dona Valéria te arranque um pedaço da bunda! – praguejou Gustavo.
- Gustavo! – fez Dominick.
- BUNDA! BUNDA! ELE DISSE BUNDA PAPAI! – gargalhou Alexandre jogando comida no irmão e no pai.
- E você não fique repetindo o que ele diz! – Stéphanie deu um tapinha na cabeça do filho.
- Não faça isso com ele Steph, ele é só uma criança!
Aproveitando a confusão, Maxine saiu pela porta dos fundos mesmo, fazendo o velho Umbrella que a tudo observava silencioso dar risadinhas baixas de prazer, voltando seus olhos para o livro.
A casa de Maxine imitava as velhas casas coloniais alemãs. Seu teto era pontiagudo, o último quarto no último andar era o dela, o da janela redonda. Apenas uma coisa fugia ao padrão da arquitetura: a torre prateada onde ficava o observatório do seu avô, lá onde havia tanta velharia e tanta relíquia. O terreno da família de Maxine era estranho, era circular, ficava no centro do quarteirão, seu acesso se dava por quatro vias, quatro corredores de arcos ornamentados com trepadeiras que começavam nas calçadas das quatro ruas que formavam o quarteirão. Cercada de arquitetura aerodinâmica por todos os lados e prédios altos fazendo sombra, aquela casa parecia simplória, fraca e medieval. O gramado era verde e cheiroso, quase não parecia sintético.
Sua mãe era muito ocupada, empresária freqüentadora assídua da sua firma, advogada muito eficiente, estava de contrato assinado com a empresa de uma conhecida milionária chamada Alberta Veronese, que fornece produtos alimentícios de fazenda para quase todo o país. Stéphanie costumava reclamar todo dia de como Alberta era truculenta e hipócrita, muito longe da imagem de velha senhora meiga que aparece na televisão. Mesmo assim, Steph tirava pelo menos uma hora do dia para cuidar do jardim encantado que ela havia construído com tanto amor logo que o marido comprara a casa, a única do bairro que mantinha a arquitetura original. O pai de Maxine era astrônomo. Ou melhor dizendo, astronauta mesmo. Estava de férias por enquanto, acabara de voltar de uma viagem de 6 anos que fizera às ruínas de Marte, onde os antropólogos e os arqueólogos analisam os resquícios de uma civilização antiga que ali habitou. Maxine não o via desde os 10 anos.

E eis então as ruas movimentadas de Neon City. As ruas repletas de robôs, repletas de gente, repleta de alienígenas também. Turistas de outras galáxias passando as férias, gente com cabeça de cavalo e gente com cara de peixe. Maquiagens pesadas, acessórios exuberantes, bizarrices do dia-a-dia, anomalias da moda. Roupas gritantes, figurinos berrantes, penteados malucos e impossíveis, era isso do que Neon City era, em base, feita. Ali a festa nunca parava, e nem o trabalho também. Enquanto uns se divertiam outros davam duro na manutenção dos computadores que aquilo tudo controlavam. Maxine ia tranquila em seu patinete motorizado, ornamentado por ela mesma, era coberto por um adesivo especial que tornava sua aparência vítrea, uma caveira coberta de strass descansava grudada no guidão do veículo, fazendo par com o capacete que tinha uma versão deste crânio em menor escala.
- Mas o que é aquilo? – Maxine freou uma rua antes da boate. Em frente a Octopus, dois enormes carros-tanque cor-de-rosa com os dizeres “Fazendinha da Tia Alberta INC.” nas laterais, em vermelho, utilizando de uma foto da dita-cuja fantasiada de vovozinha fechavam completamente a frente do estabelecimento. O dono da boate, Fernando, irmão mais velho de Miguel, estava esbravejando com Deus e mundo na calçada. Dois policiais usando os uniformes brancos com a cruz vermelha, o símbolo da ESFERA, estavam parados um de cada lado, fazendo escolta a um homem de rosto conhecido. Maxine acelerou.
- O que está acontecendo aqui?! – a garota largou o patinete no chão e correu até Fernando, abraçando-o pela cintura e voltando seus olhos para o grupo suspeito formado por dois policiais e três homens trajando os uniformes de caubói das empresas da velha Alberta Veronese.
- O que está acontecendo, Maxine? O que está acontecendo? Esses idiotas têm um documento que comprova que a empresa deles comprou o prédio da boate! É isso!
Os olhos de Maxine se esbugalharam, aterrorizados pelo futuro. Os dançarinos e os garçons (incluindo Miguel, ainda sem blusa e de gravatinha), até mesmo os freqüentadores da boate, começaram a sair e a se amontoar ao redor da cena, confusos, assustados, decepcionados. “a boate vai fechar?” eles perguntavam. Os passantes e pedestres também começaram a parar para ver o que estava acontecendo. Maxine, por reflexo, correu até o homem de preto que carregava a prancheta com o documento, pegou-o pelo colarinho e mandou as seguintes palavras:
- VOCÊ NÃO VAI FECHAR ESSA BOATE, NEM POR CIMA DO MEU CADÁVER!
Robert sorriu, sarcástico.

Fim da Terceira Parte!

domingo, 4 de julho de 2010

The Big Machine II - Parte 2




- No ano de 2012, o cérebro humano uniu-se ao cérebro eletrônico, formando assim, algo totalmente novo, nunca antes visto na face da terra – a voz grossa como um trovão ribombava nas paredes côncavas de metal. O trono negro flutuava no centro da gigantesca esfera oca que era a sala de controle, erguida no ar por puro magnetismo como as Montanhas Aleluia de Pandora. – nos 20 anos seguintes, o mundo foi falecendo aos poucos até tornar-se 60% inabitável, quase tudo estava perdido. Mas os cálculos nunca param, e o grande cérebro, a ESFERA, chegou ao seu denominador comum: para que as máquinas e os homens pudessem coexistir em harmonia, eram necessárias condições sustentáveis para que a vida no planeta não se extinguisse por completo. Neste meio-tempo, Neon City não passava de mera base de controle no meio do deserto que antes era a floresta amazônica, e a partir daí ela foi se desenvolvendo solitária, até tornar-se um oásis tecnológico no meio do nada. Aos poucos os homens começaram a chegar e a se abrigar nas unidades a eles destinadas, baseadas em tudo o que já fora feito pelos próprios para proporcionar as condições e o conforto necessário para a perpetuação da espécie humana. E desde então, homem e máquina coexistem em equilíbrio, como Yin e Yang ajudando um ao outro, um não poderia existir sem a ajuda do outro. A explicação para esta cooperação é que a grande ESFERA tem sua consciência sendo metade humana e metade cibernética, sempre pensando em harmonia pelo bem das duas faces da moeda...

Placas de metal desprenderam-se das paredes e formaram degraus diante do trono, levando a uma plataforma sustentada por cordas de cobre logo abaixo. O ser que ali estava sentado iniciou sua trajetória de descida em direção ao móbile gigantesco que levava à saída.

- Mas quem está no comando? Quem controla a ESFERA? Ninguém sabe, não fazemos ideia! Somos apenas marionetes da ESFERA, um cérebro semi-artificial trancado a sete chaves há níveis absurdamente inferiores no subsolo desta cidade. – a capa vermelha esvoaçou, puro charme. O salto alto vermelho das botas estalando no metal; As unhas compridas afiadas sugeriam perigosa mulher trajando vestes tão estranhas. Suas calças eram de couro puro, ainda cheiravam a boi fresquinho mesmo depois de tantos anos em uso. A blusa quadriculada de mangas compridas e estranhos detalhes remetiam ao Texas, arrematando-a estava o chapéu de caubói, bege, uma cor feia, mas que deixava seus cachos encaracolados louro-escuros mais realçados.

- EU DEVERIA ESTAR NO COMANDO! ALBERTA VERONESE! – rasgou-se a capa vermelha, caindo em farrapos sobre o chão gelado. – quem vai me garantir que estas malditas máquinas não vão se rebelar? Quem vai me garantir que essas malditas máquinas não estão armando contra nós enquanto estamos aqui, levando vidas pacatas iludidos pelas cores vibrantes do neon?! – pés pequenos, quadris largos, cabeça minúscula. Essa era Alberta. Mais conhecida como “O Cinturão Dourado” por causa de seu ilustre cinto de ouro, relíquia dos tempos em que ela fora lutadora de vale-tudo nas caravanas do deserto há 30 anos atrás. Nele lia-se a temida duplicação seguida do número quatro. 44 era o número. O número de Alberta. O número de vezes que ela fora campeã do deserto!

- Tens toda razão, minha senhora – surgiu das sombras este homem, trajando praticamente a mesma roupa que a de sua ama, porém em cores mais pesadas e escuras. Ajoelhou-se perante ela. – apoio totalmente a tua ascensão – e beijou suas mãos brancas. As mãos brancas da velha de 64 anos.

- Levanta-te, Robert, temos muitos contratos para assinar ainda com as transportadoras contratadas! Neon City produz hortaliças, aves, bovinos e peixes para as outras cidades menos desenvolvidas desse deserto infinito, não podemos dormir em serviço... – ela puxou-o pela gola da blusa – e as escavações na Europa? Como vão indo?! – os olhos apertados da velha Alberta brilharam. Olhos de Heath Ledger envelhecido.

- Foi bom ter me lembrado, chefe! – Robert deu risadinhas e balançou seu cabelo encaracolado de leve – pois foi justamente por esse motivo que aqui vim ter com a senhora!

- Então desembucha, homem, que não tenho tempo!

- Os nossos subordinados infiltrados na empreiteira que patrocina as escavações já encontraram o que a senhora procurava! O Acelerador de Partículas já foi localizado nas ruínas próximas à Genebra, e se os rumores dos ciganos estiverem corretos, a coisa ainda funciona!

Alberta pulou no pescoço de seu subordinado e distribuiu beijinhos em seu rosto, abraçou-o tão forte que foi possível ouvir seus ossos estalando em eco pelo local.

- Eu sabia que você não me decepcionaria, Robert! Seu avô acertou em cheio ao me indicar os seus serviços! – ela seguiu caminho em direção à saída. A porta circular abriu-se como fosse o mecanismo interno da lente de uma máquina fotográfica. – se o que eu vi há dois anos no laboratório do Doutor Maurice Lispector for realmente verdade, há uma realidade alternativa onde ele controla uma máquina gigantesca em forma de torre chamada “The Big Machine”, utilizando do cérebro de um ser humano! No caso, aquela menina magrela que estudava com a gente... Como era mesmo o nome dela? Carmen! Carminha Parafuso! E só poderemos acessar a esta realidade com o Acelerador de Partículas, que com as coordenadas certas será capaz de criar uma falha no tempo e no espaço que vai me mandar direto para lá!

Ela parou subitamente, estendeu a mão pro alto e voltou-se para o seu servo.

- Ou melhor dizendo, controlava... – ela jogou os ombros pra trás e a barriga pra frente – ele já morreu mesmo! – e gargalhou em seguida. Robert gargalhou junto a ela.

- Eu não entendi patavinas do que a Senhora disse, mas me parece ótimo! – e tornou a rir. Alberta endureceu seu rosto velho e rústico, dando-lhe um tapão nas costas. Robert calou a boca assustado.

- Então não ria, sua mula! Me acompanhe!

E os dois saíram da sala.

- É absolutamente fatigante usar a “Fazendinha da Tia Alberta S.A.” para esconder esse laboratório de experiências clandestinas! – ela e seu fiel servo atravessavam um enorme salão naquele momento, repleto de balcões de ponta a ponta. Bioquímica, Mecânica, Física Quântica, Eletricidade, Robótica, ali tudo era separado por alas imensas e exclusivas, experiências ali eram realizadas, experiências completamente proibidas pelo tratado de paz entre homem e máquina, pois visavam unicamente e exclusivamente a ascensão pessoal de Alberta Veronese e seus objetivos, que sempre estava a procurar uma maneira de ultrapassar as máquinas e assumir o poder de Neon City, o olho do mundo.

- Opa, Opa! Cuidado com isso aí, Yukari, vai acabar tirando o olho de alguém! – Robert jogou-se no chão ao perceber um braço mecânico descontrolado girando uma broca de diamante em sua direção. Mais à frente, cinco grandes tanques erguidos numa plataforma e alimentados por imensa tubulação continham clones de Alberta flutuando em placentas artificiais. Ela correu até eles e acariciou o vidro.
- São perfeitos, perfeitos! – e beijou cada um dos tanques – continue assim, Elídio, está indo muito bem! Assim não morrerei nunca! Sempre haverá uma cópia a me substituir. Basta transferir minha consciência para elas...
- Através de impulsos eletromagnéticos! – completou o cientista, piscando para a mulher que imitou um revolver com os dedos.
- Vai nessa, caubói! – e fingiu disparo.
A dupla saiu do laboratório conjunto e adentrou num corredor prateado infinito, sem portas, sem quadros, sem nada, liso e brilhante, refletindo a luz das lâmpadas fluorescentes.
- Prepare meu jato particular esta noite, Robert! Parto para a Europa amanhã mesmo, quero acompanhar de perto as alterações que devem ser feitas no Acelerador... – e seguiu caminho, peito pra cima, nariz empinado, voz grave e controladora. A temida fazendeira, Alberta Veronese.
Fim da Segunda Parte!

A Pedra Que Rolou


Era uma vez um pedra. Ela era cinza e gorda e vivia no alto de uma montanha, lá no topo, toda pomposa, toda pedregosa, toda bruta e mal-amada.

Um dia uma águia pousou bem em cima dela, e então ela iniciou uma queda longa e duradoura, que foi ficando cada vez mais rápida e violenta com o tempo. No caminho, a pedra ia levando junto consigo árvores, animais e até mesmo outras pedras. Levava casebres também até que a neve também acabou sendo levada junto, e todo aquele bolo de coisas ruins virou uma avalanche que desceu a montanha com bruta violência e espatifou tudo lá em baixo.

A Pedra foi a primeira que se destruiu, bateu contra uma parede de pedra e virou areia, que foi carregada pelo vento e misturada às impurezas, e ficou espalhada pelo mundo e esquecida pra sempre...

Às vezes por impulso dos outros nós acabamos fazendo coisas que podem destruir tudo e magoar as pessoas que estão ao nosso redor, a grande verdade é que devemos estar nos policiando o tempo todo para não sermos inconvenientes, intragáveis, abusados e às vezes até violento que nem a Pedra. Ninguém gosta de gente abusada, nem de gente metida e nem de gente inconveniente, por isso meça suas atitudes antes de fazer alguma coisa e pense duas vezes antes de magoar alguém.


/dica