Bem vindos à minha fábrica de sonhos!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Draconius Nefastus - Parte 4 [o fim está próximo!]

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 16 de Novembro de 1996.

O dia amanheceu claro e ensolarado, e não mais parecia tão tenebroso quanto fora antes.
Mas tudo continuava deserto e silencioso por ali. Nosso capitão mandou preparar a canoa que iria nos atravessar até além do nevoeiro, e garantiu que um de seus homens iria remando ao seu lado, de modo a não arriscar a vida de nenhum morador local. As águas do mar eram amareladas à luz do dia, e ao provar o sabor, percebi que aquilo não era água de mar, e sim de rio! Seria aquilo um delta e não sabíamos?
Prosseguimos com roupas arejadas e sem nenhum complemento além de máquinas fotográficas, papéis e canetas, câmeras de filmagem e binóculos. Tínhamos tudo o que precisávamos: primeiros socorros, roupas limpas e comida básica numa sacola, e assim cruzamos canal após canal até desembocarmos numa baía enorme, tão ensolarada quanto os córregos que deixamos para trás, ladeados por pura mata virgem e verde vibrante de vida e harmonia.
Por volta de meio dia o tempo foi fechando, e um dos marujos disse que aquilo não era coisa da natureza, e sim da maldição que aquele lugar tinha. Após isto, mais adiante, já não se via um palmo na frente do nariz, porque o nevoeiro era quase palpável de tão grosso e pesado. O calor era intenso, e por várias vezes pensei em me refrescar com um pouco de água, mas os outros me repreenderam, disseram para não por um dedo para fora da embarcação. Isso me assustou. O nevoeiro durou meia hora, meia hora que pareceu a mim um século de inferno e calor. E quando eu jurei que esse martírio não teria mais fim e eu morreria cozido ao lado dos meus companheiros de expedição, um vento forte me pegou em cheio, e eu abri os olhos então.
Estávamos diante de uma praia de areia de rio tão extensa quanto uma praia de areia branquinha do mar. Era a frente da cidade maldita. Na beira da água cresciam muitas árvores e arbustos, plantas de várzea. Mais uma vez a atmosfera de pântano sombrio me pegou em cheio, e após remarmos todos juntos, encalhamos na praia suja de troncos, cocos, sementes, raízes e plantas aquáticas deixadas para trás pela maré, e caminhamos em direção à uma estranha estrutura de concreto e pedra que lembrava muito um cais, só que era muito estreito para cais e muito distante da costa também, era quase uma passarela para dentro do rio. Subimos por uma velha escada, moderna demais para pertencer àquelas bandas, e mais uma vez estávamos caminhando sobre tábuas de madeira, só que desta vez eram grossas e seguras, nem um pouco podres.
Acreditem se quiserem, havia até um trilho abandonado ali, como se antes houvesse andado um trem sobre o rio, aquilo deixou a todos nós confusos, aturdidos, espantados e cheios de expectativas e perguntas que fazíamos e resolvíamos para nós mesmos, pois ninguém se atrevia a falar. Havia bancos ao longo daquela ponte, e em cinco minutos já havíamos chegado ao vilarejo dos nativos refugiados. Ali haviam muitas e muitas árvores de todas as espécies, crescendo sobre a estranha e moderna cidade abandonada, tudo ali era caos e destruição. Ray Ann estava maravilhada, deslumbrada, fotografando tudo e identificando traços de arquitetura e tecnologia alienígena. Uma avenida tomada pelo mato levava em direção ao coração da cidade, mas antes de podermos passar desapercebidos, fomos surpreendidos por lanças, flechas e arpões.

Os nativos nos viram.
Fomos levados até a tal chefe deles, e realmente, ela tinha todos os traços europeus que a velha Cyvalda nos havia avisado existirem. Por isso nem nos subtraímos diante do cocar de penas, folhas e pedras preciosas que ela usava, e nem mesmo diante do trono de couro e ossos em que ela estava sentada com seus cabelos loiros e com seu rosto de trinta e pouco. Ela tinha todo o jeito, toda a atitude de uma dama da sociedade, e se portava como aquelas madames de butique evitando ao máximo, contatos com o povo que agora governava.
- Ivi’ka, strohn’hem, darylehn farrast! – ela cacarejou, Os nativos pularam gritando, alegres em suas roupas tão modernas quanto a de Rose. Vai ver ela havia as costurado para eles, e ensinado sua língua a eles também, porque alguns deles falavam um português de sotaque angolano. – preparem a festa da oferenda! Abim’raso, a Grande Klaàpacthu finalmente terá uma refeição à altura, que trará energia e vitalidade nova ao seu corpo apodrecido que desperta em busca da cópula de a cada 6 anos, no dia 6 do mês 6! E este dia é hoje, enfim!
Os nativos iniciaram a baderna e a gritaria de “vivas!” outra vez.
- Pois Abim’raso me deu o poder e a majestade para lhes governar, e eu lhes digo: alimentem-na! Em nome de Klaàpacthu!
Eu ergui a minha voz, finalmente tive coragem para isso.
- Alto lá, Rose Nilde, sua farsante! Nós sabemos quem você é, afinal de contas, e de realeza não tem nada! Só se aproveitou da ignorância desses nativos para se fazer autoridade!
Os nativos olharam-se confusos depois olharam duvidosos para Rose Nilde. A mulher arregalou seus olhões assustados, de modo a parecer mais um bicho do que uma gente, e aquilo me apavorou por completo. Ela colocou o dedo diante do rosto e fez um “shhh” nervoso, cochichou alguma coisa no ouvido de um dos seus “guarda-costas” que transmitiu a mensagem aos nossos carcereiros, e esse troca-troca de informações nos direcionou imediatamente a uma das cabanas de couro.
Após um tempo nos cozinhando naquele calor infernal da selva acentuado pelo abafamento das nuvens pesadas no céu do lado de fora, transformava a barraca de couro numa verdadeira fornalha, viraríamos pernil se ficássemos ali mais do que o necessário. Assim, após repararmos no interior estranho que aquela barraca tinha, Rose Nilde entrou, com os seus olhões mais esbugalhados do que o normal, ela parecia transbordar de felicidade e euforia, como um andarilho que, perdido no deserto, estava vendo a água pela primeira vez em semanas. Ou talvez um náufrago que tivesse passado tempo demais preso numa ilha desconhecida.
Ela nos explicou aos sussurros chiados e mal-compreendidos por nós, havia dado de cara com esta “ilha” que mais tarde revelou ser parte do continente. Enfim, nos disse a mesma estória que a Vó Darcy nos contara em seu vilarejo sombrio. Disse que seus amigos desertaram e deixaram-na para trás para morrer no lugar deles, pois os nativos queriam oferecer todo mundo ao seu deus com asas de morcego. Ray Ann sorriu e sacudiu a cabeça dizendo para a pobre Rose Nilde que seus amigos foram pegos por algo dentro do nevoeiro assim que deixaram a costa.
A velha só faltou pular de felicidade ao saber que fora vingada pelas feras do local. Mas agora ela precisava da nossa ajuda, precisava escapar dali. Peter perguntou o porque de ela tanto querer fugir se ali era uma rainha, e ela disse que odiava e temia tudo naquele lugar, pois previa o momento em que seus súditos se virariam contra ela e a entregariam para a besta alada. Capitão Maurice começou a bolar um plano imediatamente, mas mandamos que ele parasse, pois nosso objetivo era, acima de tudo, filmar o interior da cidade maldita e mostrar para o mundo o que havia naquela mata.
Rose gargalhou, assustando a todos nós. Fábia quase caiu dentro de um balde de tripas secas. A mulher disse com um sorriso sombrio que ninguém jamais voltava de lá. Foi então que um grito nos surpreendeu, vindo de longe, um grito descomunal e apavorante que deixou a todos alarmados. Um grito impossível de ter sido produzido por qualquer criatura viva deste mundo, um grito de alma penada, de demônio, macabro e agourento como nunca antes fora ouvido um grito antes.
Abim’raso. Os sussurros, sibilos, choros e gemidos que vieram do lado de fora pareciam uma maré maligna de agouro e sofrimento vindo de fora. Até a fria Ray Ann arrepiou-se toda. Fábia Paola e eu já estávamos fraquejando naquele momento. Era hora de desistir e fugir...

Fim da Terceira Parte!

L.A.M.B. - A Wonderful Holiday [parte3-final]

Naquele dia, o sol amanheceu tão quente quanto em qualquer outro, e a Rosa tão faladeira quanto qualquer outro animado papagaio num dia ensolarado da Amazônia. Na noite passada papai havia saído pelas nove da noite e voltado lá pelas 11 ou 12, o que me deu o apartamento inteirinho só para mim enquanto ele estava fora. Iêda dormia, cansada do Círio, eu pelo contrário aguentei muito bem todos esses dias agitados que tive de 9 a 13 de outubro, já estou praticamente acostumado com dormir tarde e me acordar cedo... Então, quando eu via vídeos sobre assombrações no Youtube, principalmente sobre a maldição do Lobisomem, e lembrava das histórias terríveis que a Camilla havia me contado, aquilo começou...
Era pra lá da meia noite, acredito eu, quando comecei a ouvir os estranhos sons de pedras sendo jogadas contra a porta e a parede do lado de fora do apartamento, no pátio. Eu me arrepiei todinho, lembrando da história do bole-bole [leia a primeira parte de A Wonderful Holiday] enquanto as pedrinhas voavam em direção à porta e à parede, estalando no azulejo do pátio. Me levantei então e abri a porta, gritando: “pode parar com a graça que eu sei que são vocês que estão jogando!” porque eu jurava que as meninas estavam me pregando uma peça, só para me assustar! Mas não, papai estava do outro lado da cerca, lá embaixo, sibilando para eu calar a boca e passar a chave para ele.
Ufa! Não era assombração nenhuma, só o papai querendo entrar! O.o’
Então tudo bem, desci pela escuridão, levei a chave para ele, mas assim que ele subiu, algo inusitado aconteceu: uma pedrinha foi lançada contra a porta no exato instante em que ele fechou, mas lá embaixo não havia ninguém...
Após uma batalha daquelas, conseguiram me botar para fora da cama, e assim, após um rápido banho que tomei, desci as escadas e tomamos café todos juntos como de costume. Mas ao descermos, eu e Iêda vimos que as meninas não estavam arrumadas, ainda estavam de pijamas e muito bem despertas. Perguntamos a elas o porque de não estarem arrumadas, e elas disseram que não iriam, pois tinham de ajudar a Tia Ana com o almoço e a arrumação da casa. Foi então que Iêda e seu poder maligno de persuasão entraram em ação!
Tia Ana, comadre do papai, é conhecida pelas filhas e por todo o Jarí por ser muito dura, direta e decidida. Quando papai chega para almoçar e sobe para a soneca, pode chegar até o Papa às portas dela procurando pelo papai, mas ela não deixa subir alma viva alguma, o que rendeu o apelido de General entre o pessoal da prefeitura. Porém, para comigo e com minha irmã ela não é nada disso que dizem por aí, muito pelo contrário, ela é uma mulher amável, acolhedora, espirituosa e muito engraçada, sem contar que cozinha muito bem [ela precisa ME ensinar a fazer aquele bife! Senhor de Misericórdia!].
Iêda levantou-se da mesa do café e foi até a tia, que estava lavando louça naquele momento, e perguntou a ela porque as meninas não poderiam ir [Camilla e Mimi estavam para aula, por isso não foram], e ela por sua vez repetiu o mesmo que Yara e Lorenice disseram: precisavam ajudar nos afazeres do dia. Iêda pediu mais uma vez, e conseguiu derreter o coração da Tia Ana quando pegou Yara, abraçou-a e disse “Por favor, tia! Elas são minhas amiguinhas!”.
Essa Iêda não vale nada! Como ela conseguiu? Só sei que Tia Ana disse “ta, ta bom, leva elas, aproveita e deixa elas pra lá!”. E então foi uma alegria só, as meninas correram para o quarto trocar de roupa e fomos todos no carro do papai até o cais do campo de futebol, onde sempre rola o festival de verão de Laranjal onde as pessoas se banham. Pois bem, Tio Clal, marido da Tia Ana apareceu logo depois com a lancha [ou voadeira se preferirem] com o símbolo da maçonaria. Demorou um pouco para finalmente partirmos, pois papai resolveu dar um stop para ir buscar a namorada dele e ir ao supermercado.
Nisso ele nos deixou no cais, e embarcamos logo porque ele estava demorando muito, assim Tio Clal dirigiu a lancha até a balsa do bate-estaca, e lá ficamos por um tempo até recebermos o aval para voltarmos ao cais e pegar o papai, que demorou um tempo significativo. E neste meio-tempo, ficamos contando histórias sobre rio, revendo as lendas que contamos a algumas noites e imaginando a reação de minha mãe se visse minha irmã e a mim estacionados no meio do rio...
As meninas ficaram fazendo propaganda da terra delas, direto, dizem que Gurupá é um sonho, doze horas de viagem rio acima, do lado do Pará, fica esta cidade de mais de cem anos. Elas disseram quem existem casas de pedra e de barro lá ainda, do período colonial, e a igreja da cidade é uma beleza também, e estão todos torcendo para que passemos o período de festas de final de ano com eles lá, na terra deles. Fico imaginando se seria uma boa. Realmente deve ser muito divertido bem “aventuresco” algo diferente, algo que vai me fazer sair bem da minha rotina, como foi este dia do passeio da cachoeira...
Papai chegou logo depois, e após um momento desesperador quando soubemos que ele iria dirigindo a lancha, seguimos numa viagem incrível rio acima, vendo cada porto do caminho, cada paisagem deslumbrante e cada vila ribeirinha... Vocês não fazem ideia de como a nossa região é bonita, é algo paradisíaco, algo indescritível. A selva, as águas negras do rio encantador, as extensas ilhas que dividem o rio em braços, a vida borbulha a cada esquina. A mata ali é um ser único, vivo e onipresente, é quase como se o homem nem tivesse chegado a tocar naquilo tudo, a Amazônia é uma joia única e rara. Uma joia viva que canta várias canções ao mesmo tempo, canções que se unem numa única maravilha que nos encanta e seduz.
Tantos mistérios, tantos segredos escondidos, tanta coisa que precisa ser vista. Quem ainda não veio nos visitar não sabe o que está perdendo. Não há palavras para descrever o sentimento que brota na gente, a sensação de fazer parte daquilo, de ser um pedaço minúsculo de um todo. Iêda, Yara e eu até comparamos o passeio no rio até a cachoeira com o percurso que os barcos fazem para chegar até a ilha de Harper na minissérie O Mistério da Ilha, mas eu agora eu acho que não, é algo muito mais grandioso que isso, é uma experiência única. Em imaginar que morei durante tantos anos ali e não vi nada disso... Posso até ter visto, mas eu tinha três anos de idade apenas e não lembro de mais nada.
Exceto da vez em que a maré estava braba e a nossa voadeira quase virou nas águas barrentas de outro rio desses... Nem me lembro onde foi isso, mas lembro que paramos o barco num casebre ribeirinho, e foi a primeira vez que eu vi camarões vivos =D. Mas isso foi há muito tempo atrás... Voltemos ao presente!
Eis que chegamos á cachoeira, e nossa, como tudo ali é belo. Pedras negras colossais descansam na beira do rio, a mata verde e espessa sussurra para a água nervosa que desce do alto em cascatas brancas e cristalinas de bolhas e espuma. A água ali é quente, pois desce das planícies pedregosas do alto rio, e escorre para a grande via das águas escuras em riachos e corredeiras incontroláveis. A primeira coisa que fiz quando a lancha “estacionou” foi escalar um monte de pedras [quentes por causa do sol] que levava até uma pequena, mas poderosa cascata lá no alto, cercada de árvores e pura mata. Aquilo ali me lembrou exatamente, sem tirar nada, o talvez mais popular filme de todos os tempos “A Lagoa Azul”, onde tem aquelas cachoeiras no interior da ilha e etc.
No começo eu só ia entrar na água pela cintura, nem tirar a minha blusa eu quis, mas acabou que eu não resisti à água e fui com tudo, pouco me importando se meu cabelo iria dar muito trabalho depois [e como deu...]. No final das contas, tive de tirar a blusa mesmo porque ela estava ficando amarelada por causa da tonalidade da água, e acabei ficando só de sunga! [que mico...], olha que eu admiro a Beth Ditto e todo aquele negócio revolucionário dela de posar pelada e não ter vergonha de mostrar as suas curvas volumosas e tal, mas eu ainda não sou tão desinibido quanto ela, apesar de admirar muito toda a sua coragem.
Pois bem, eu só de sunga é uma coisa bem parecida com ela na capa da revista LOVE se vocês querem saber, e após a chegada dos barcos turísticos de passeio que sempre fazem visita lá [e que chegaram logo depois da gente], o povo não fugiu à regra e ficou me encarando mesmo. É claro, quem ia perder essa oportunidade de ver um hipopótamo albino ao vivo e a cores? ;O;
De fato, eu as meninas brincamos muito naquele dia, mergulhamos, nadamos contra a correnteza, nos aventuramos nos montes de pedra abaixo da cachoeira, disputamos para ver quem era mais forte contra a força das águas na parte mais rasa. [Detalhe, distendi o músculo da batata da minha perna nessa hora e pensei que nunca mais fosse me mexer, quase morri de dor, mas nem gritei nem fiz nada, por incrível que pareça. Pobre de mim! Chamei por Deus e mundo dizendo que não conseguia mexer minha perna, mas ninguém ligou mesmo! Que horror!] Depois que recuperei metade dos movimentos da minha perna direita, vesti minha calça com muito esforço, depois minha blusa e dei um tempinho dentro da lancha. [o tempinho que houve para todos os piuns do mundo me ferrarem, coisa que eu só vim sentir ontem de manhã, vê se pode? Jurava que tinha voltado da Cachoeira de Santo Antônio sem nenhuma ferrada dos malignos piuns, mas no dia seguinte, haja coçar!].
Antes de tudo isso acontecer, vocês acreditam que eu perdi meus óculos naquelas águas profundas e escuras feito breu? Também, só ideia minha tomar banho de rio usando óculos! E culpa da Iêda também, que ia quase me afogando! É que a Yara nos convidou para atravessar o canal com ela até a queda d’água que ficava do outro lado, mas após constatar que era fundo demais, gritei para Iêda voltar. Porém a débil mental resolve se agarrar em mim, e mesmo depois de eu tentar empurrá-la mil vezes para a parte mais rasa, ela voltava e me levava pro fundo! Ai, que raiva que me dá de gente burra!
No final das contas, uma mão bateu no meu rosto e levou meus óculos para o fundo, mão que a Iêda jura que não foi a dela. E a Yara também jura que nem chegou perto de mim nessa hora. É claro que quando se perde algo no meio da correnteza de um rio pedregoso, escuro e fundo, é certeza de que nunca mais se verá o objeto perdido. O próprio papai disse que àquela altura os meus óculos já estavam no fundo do canal lá ao longe. Mas outra de coisa de sobrenatural aconteceu naquela manhã. Os garotos que trabalham no barco do pai da Yara ficaram sabendo da história dos óculos perdidos, e eles passaram praticamente a manhã toda no fundo do rio, vasculhando. E no final das contas, quando eu já planejava o que eu faria para copiar assuntos do quadro e pegar ônibus, um dos garotos boiou para fora d’água com meus óculos na mão!
Meus óculos são um tesouro enorme para mim, porque é com eles que eu enxergo, e com eles presenciei muita coisa na minha vida. Sem contar que o aro dele é do Rio Grande do Sul, terra que nunca esqueço e que sempre faço questão de relembrar. Enfim, estes óculos são uma parte importante de mim [como meu pen drive] sem eles eu não sou nada. Papai pagou doze reais para os caras e mais três coca-colas do nosso isopor. Enfim, após isso tirei meus anéis, guardei tudo o que tinha de valor na bolsa e terminei de curtir a manhã ensolarada... Até o momento que distendi o músculo e fui comer tucunaré assado na brasa [e na braba], sem tempero nenhum numa fogueirinha no meio das pedras...
Acabei foi mascando meu cabelo, não levo jeito para essa vida selvagem.
Vocês podem até achar uma bobagem da minha parte, mas eu acredito em todas essas lendas de interior, em todas essas encantarias de mata, em toda essa sabedoria antiga das nossas terras, e tenho certeza de que no momento em que pedi ao rio que devolvesse meus óculos, ele viu que meu pedido era sincero e percebeu o quanto eu necessitava deles. Quando se perde algo num rio, algo pequeno como óculos ou um anel, jamais se acha. Mas o rio foi generoso comigo e me devolveu o que era meu. È a prova concreta do que eu disse na primeira postagem dessa série; tudo na mata tem dono, tudo no rio tem dono. As entidades que cuidam das águas dos rios e das árvores e das plantas são muitas, e cabe à elas a decisão de serem generosas conosco ou não. Seja lá que entidade devolveu meus óculos, muito obrigado ;D.
Na volta do passeio paramos no cemitério onde foi enterrado o corpo de Joseph Greiner, alemão que morreu de malária tentando levar o nazismo à Amazônia. Gente ruim morre assim mesmo, das piores doenças possíveis. Vimos uma casa caindo aos pedaços, construída há mais de 100 anos, na época da extração da borracha e do ouro, com janelas antigas de vidro quebrado, sustentada por pernamancas feito palafitas normais, mas de arquitetura puramente europeia. Sinistro...
Ah, e na volta, cada vez que o barco parava eu levava um susto e entrava em desespero, imaginando o que estaria por vir ou o que estaria acontecendo! Que horror, morro de pavor de encalhar no meio de um rio, ainda mais um rio de águas escuras como o Jarí, onde a gente nunca sabe o que tem no fundo... Me arrepio todinho só de imaginar. O problema era que a maré estava seca e corríamos o risco de encalhar a qualquer momento. Yara ia atrás, do ladinho do motor, cuidando da posição da hélice e reparando o momento em que água saísse suja de barro, que significaria que encostamos no fundo do rio. Lorenice vinha quieta o caminho todo, estava morta de cansada. E Yara me surpreendeu por saber tudo sobre pilotagem, motor de lancha, rio e maré, uma verdadeira nata da navegação fluvial! Palmas pra ela! ;D~
Foi então que a hélice bateu contra alguma coisa no fundo do rio, e fomos todos lançados para frente. Nossas cabeças viraram para trás todas ao mesmo tempo. O barco parou. Foi então que ergueu-se da água uma tartaruga enorme, do tamanho de uma ilha! Sua boca era escura e mais profunda que o maior dos fossos, era uma besta monstruosa que... brincadeira gente, não aconteceu nada disso, to viajando aqui... O que aconteceu foi que realmente batemos em algo, mas não sabemos o que. Talvez fosse um tronco, ou uma pedra... Ou realmente uma tartaruga gigante! ;O
Chegamos sãos e salvos ao cais, e para casa todos fomos, tomar banho e descansar. Após o descanso, à noite fomos à pizzaria, não sem antes, é claro, nos reunirmos todos no quarto das meninas para “tricotar”. Camilla é quem sabe dos podres de todo mundo. Adoro essa garota. Nosso santo bateu certinho! Sem comentários mais, fomos andando até o Maré Mansa, e lá papai mandou pedir uma mesa gigantesca pra todo mundo sentar, pois além do pessoal de costume estava a irmã mais nova da namorada do papai.
Yara e Lorenice sentaram perto de mim, e enquanto a pizza não vinha [e até mesmo depois que chegou], eu e Yara ficamos falando sobre as piores coisas que já nos aconteceram, como os MAL-ENTENDIDOS da nossa vida nos prejudicaram. Contei pra ela a história da Garota Box e o surto dela depois que rimos da situação inusitada em que ela se encontrava. Yara disse que já havia lhe ocorrido o mesmo. Umas garotas pegaram-na cantando sozinha, e espalharam pela escola toda que ela era uma doida. O caso dela foi bem pior, porque as garotas fizeram de maldade e sujaram a reputação dela por aí. No meu caso, quem teve a reputação suja fui eu, pois além de a escandalosa ter dado um show todo por causa de uma brincadeira totalmente relevante ainda saiu pela escola inventando coisas sobre mim.
Mas nem por isso a Yara foi na coordenação inventar histórias que ouviu de terceiros. E olha que ela tem 13 aninhos, e já é muito mais adulta que qualquer garota de terceiro ano. Contei para ela que todo mundo em Macapá me odeia [fato~], até aqueles que nunca me viram já me odeiam antes de me conhecer. Papai diz que é tudo coisa da minha cabeça. Não é, todo mundo me odeia mesmo. O pessoal da escola me odeia. As pessoas nas ruas me odeiam. Meus vizinhos me odeiam. Até meu cabelo me odeia [fato2~].
Ela disse que também não é lá muito admirada pelo pessoal da escola...
De barriga cheia, fomos dar uma volta na praça, e fizemos todos a promessa do dedinho de amigos para sempre enquanto íamos de braços dados pela rua. Até fechamos a passagem do papai atrás da gente, fizemos uma corrente para ele não passar. Até porque lá no Jarí não é o que podemos chamar de “movimentado”... Só sei que após esse final de semana maravilhoso, ganhei quatro novas irmãs incríveis, amigas, companheiras, maravilhosas e bonitas.
Meninas, estou morrendo de saudade de vocês!
Nossa viagem de volta demorou muito para acontecer, íamos de manhã, mas o motorista que iria nos levar pela estrada resolveu que só vinha de tarde pela parte de uma e meia. Fiquei super triste de ter de voltar e confesso que chorei em casa antes de dormir.
Chorei por ter uma vida tão complicada, tão confusa, mas tão maravilhosa e cheia de pessoas incríveis com quem posso contar sempre.
Chorei pelo fim do grupo que eu, Brenda, Jamile, Marcus e Raíssa formávamos, e chorei simplesmente por uma confusão de sentimentos que me corrompiam por dentro naquele momento. Inclusive pelo fato de eu não ter visitado a Tia Adma e a Jamile nessa visita ao Jarí, e eu nunca deixo de visitar a família Casseb nem uma única vez. O que me deixou com um peso enorme na consciência e me faz imaginar o quanto a Jamile deve estar puta da vida comigo.
9 de novembro é aniversário dela, tenho de comprar um presentão pra ela... Para compensar essa minha maldade...

“Amo você, você me ama, somos uma família feliz... com um forte abraço e... ESQUECI O RESTO huhuhu’ – by Jamile.”
[as fotos eram muitas, naum deu pra por as melhores D: coloco outra vez!]

nota'

gente, vou parar de ficar pegando imagens do google e colocando aqui para ilustrar, posso estar pegando imagens que possuem direitos autorais e as pessoas ficariam muito zangadas se me vissem usando do trabalho delas para promoção própria, eu também ficaria, então vocês só verão imagens mesmo quando for REALMENTE necessário.

beijos grandes!

;D

Draconius Nefastus - Parte 3

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 16 de Novembro de 1996.

Aquele porto mais parecia um pântano. Campânulas se enroscavam nas pilastras das palafitas e capim crescia no telhado capenga da maioria das casas. Sapos coachavam alto, era quase impossível ouvir o som da voz da falante Fábia, que não parava quieta um minuto, gargalhava alto a cada piadinha nervosa que fazia, e todos os marinheiros mal-encarados a olhavam feio quando isso acontecia, e por várias vezes vi o nosso capitão Maurice repreender dois ou três moços que puxavam os facões da bainha da calça. A cada sinal de que eles levavam a mão à cintura, eu me preparava para pular na ressaca e afundar na lama negra e barrenta se fosse necessário. Eles eram temerosos e ficavam muito nervosos com as risadas histéricas de Fábia que poderiam atrair qualquer coisa vinda da mata ou mesmo um nativo local com os ânimos mais agitados.Pietro ia à frente, registrando tudo com a sua parca câmera da época, que gravava filmes em preto e branco capturados com a ajuda de uma manivela. Haviam casas com teto de palha, casas pendendo para cair no lago, casas quase cobertas pelo mato e muitos animais selvagens. Uma família de javalis passeava abaixo da ponte aos nossos pés, e uma arara vermelha grasnava palavras estranhas e disconexas como "hort", "crapatu" e "horest". Aquilo me deixou muito mais nervoso que Fábia Paola, e eu estava pensando seriamente em me lançar na lama escura junto aos javalis, mas mudei de ideia ao ver uma enorme sucuri enroscada numa pernamanca que sustentava uma das casas. Algumas crianças e um velho cutucavam a cobra para que ela desenroscasse. Quanto mais andávamos adiante, mais coisas estranhas víamos, e cada vez mais o tempo fechava e escurecia. Anunciava chuva e o ar estava parado demais. Eram aproximadamente sete da noite quando chegamos a mais uma cabana simples onde morava uma velha curandeira.
O teto da cabana estava repleto de itens bizarros e peculiares, até assustadores pendurados por fios de cipó ou barbantes. Tudo lá dentro era uma bagunça só. Lixo se misturava a pertences pessoais e se espalhava por cima de velhas mesas de pau improvisadas e estantes raríssimas de ébano, mas que agora estavam puídas e velhas, pois pertenceram a gerações passadas de colonizadores daquela região. Haviam cabeças encolhidas, havia sapos mortos dentro de jarros, cabeças de macaco, cobras, patas de animais, olhos, asas, penas, lagartos, pássaros empalhados e outras coisas inóspitas e esquisitas, de causar repulsa e medo. A velha era branca, contrário da população local, e fumava tranquila seu cachimbo. Seus olhos eram quase fechados pelas rugas, e sua boca já era quase só um buraco escuro. Alguns mais velhos diziam que ela tinha mais de 300 anos, e que seus avós já a conheciam quando eram pequeninos. Aquilo me deixou deslumbrado, e fiz questão de anotar cada detalhe do que se passou na casa dela.
A velha era conhecida do capitão Maurice, sábia e conhecedora da floresta e das forças ocultas, conversou com ele em particular durante aproximadamente meia hora, e após isso nos mandou entrar para ter com ela. A velha deu um trago no cachimbo, bateu a cinza, olhou o pôr-do-sol pela janela, colocou a dentadura, botou a chaleira no fogo a lenha e disse a nós que atenderia pelo nome de Vó Darcy, apelido dado pelos moradores ao seu nome de batismo Dariana Cyvalda. Muito simpática e carinhosa, contou a nós um pouco da história da vila e um pouco da sua própria história enquanto misturava as ervas noturnas, acendia as velas, fazia as oferendas para os seus estranhos deuses da floresta e enchia alguns potes com água para colocar na janela. Disse a nós que isso era para dar de beber às almas, e o que ela me disse causou arrepio na espinha, o que me fez aproximar mais de Ray Ann, que estava tão vislumbrada e espantada quanto eu. Nossos corações batiam sincronizados, em ritmo de pavor e aventura. Após contar que havia vindo parar ali de barco ainda aos seis anos, quando fora capturada por piratas em um porto na Escandinávia e rodara o mundo na embarcação deles, contou para nós que ali só haviam duas ou três casas na época, e tudo por ali era muito calmo. Mas já, desde aqueles tempos, o além das águas turvas, para lá das bandas do nevoeiro, foi sempre inspiração de temor e atenção. Disse que na sua juventude, fora criada por uma velha enrugada que nem ela, e que quando o nevoeiro de além-águas alcançava a vila, todo mundo apagava o lampião, para não atrair a atenção das criaturas malignas que vinham junto dele.
Quando o nevoeiro vem, ouvem-se gritos, ouvem-se assovios, cochichos nas sombras bem ao pé do nosso ouvido, ouvem-se gargalhadas, grasnados e conversas macabras de vozes corrompidas, grossas de mais ou finas de mais que parecem amaldiçoar a alma daquele que estiver escutando, por isso é necessário que se tape os ouvidos e que se feche as portas. Aquilo me arrepiou mais ainda, eu já tremia dos pés à cabeça e procurava apoio para minha sanidade, certificando-me de que estava cercado pelos meus amigos e por fortes marinheiros que estavam à espreita no segundo cômodo e na entrada. Já era noite quando essa parte assombrosa da história começou, e quando pus-me a imaginar aquelas situações apavorantes de gelar a espinha e enlouquecer a sanidade. Era terrificante.
A velha contou que só atravessou para além do nevoeiro uma única vez, mas lá não seu ouve voz de espírito algum, porque ali eles descansam de barriga cheia. Porém, mais adiante, vê-se vultos brancos redondos na água e vultos negros voando pelo céu. Para mais além há uma cidade em ruínas, na costa do continente. Esta cidade está sempre coberta pelo nevoeiro, e há casas e prédios e templos e ruas e praças e postes e avenidas e hotéis, tudo coberto por mato e musgo e limo, mas ninguém mora lá, porque é amaldiçoado.
Os nativos da tribo kahaphatu vivem no cais, em cabanas improvisadas de lona, folhas e peles de animais, e são um povo muito hostil e amedrontado, por viver à mercê dos espíritos e das criaturas malignas da floresta às suas costas. A chefe da tribo de refugiados atende pelo nome de Rose Nilde, e vou já avisando. Disse a velha. Ela gosta de cantar de galo e se vangloriar por tudo, mas nem nativa é, pois foi abandonada por um grupo de exploradores franceses que não tiveram coragem de ir mais adiante e entregaram-na de oferenda quando fugiram... Pena, disse Vó Darcy, que o barco deles foi engolido metros antes de sair do nevoeiro. Pelo quê, não se sabe.
Aquela declaração fez meu coração saltar feito um touro brabo de testículos amarrados. Eu estava desesperado para voltar ao barco e esperar até a hora da próxima partida, mas Fábia Paola levantou-se e disse que estava disposta a enfrentar o que fosse para descobrir o que há escondido na cidade secreta. A velha Vó Darcy fez uma cara séria e repreensiva antes de dar um sorrisinho sarcástico e sacudir o cachimbo indígena para Fábia dizendo "vá em frente então, menina bonitona, vá! Mas eu já avisei". Assim a chaleira apitou, e a nossa hora acabou. Quando dei por mim já estava caminhando pelas pontes bambas e apodrecidas mais uma vez, correndo risco de escorregar para o negrume abaixo dos meus pés ou fazer desabar toda a estrutura frágil de madeira podre abaixo de mim. Não podíamos mais ver as casas, só os lampiões e os rostos ao lado deles, olhos escuros nos encarando. Dormimos no barco naquela noite. E foi uma noite repleta de pesadelos apavorantes e capciosos que me deixaram tão nervoso a ponto de ter disenteria. Foi uma noite difícil...

Fim da Terceira Parte!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Draconius Nefastus - Parte 2

Christopher Umbrella,
Ex-Repórter e Antropólogo da Universidade Real Franco-Italiana em 15 de Novembro de 1996.


Estávamos nós ali, diante do cais de Nova Iorque, eu havia vindo de táxi, e a jovem louca Ray Ann havia vindo no carro de seu irmão Don. Acompanhando-me no táxi vieram a paleontóloga Fábia Paola e meu amigo de longa data Pietro Heinrich. Eu não sabia o que aconteceria dali por diante, mas meu coração batia em ritmo acelerado, pulsando forte e gritando para que eu corresse da morte certa, mas eu era inexperiente, como já disse, e curioso repórter nunca sacia sua sede por conhecimento. Estava diante de mim uma importante oportunidade de me tornar famoso, de finalmente brilhar, de ter o meu nome estampado no topo de colunas famosas de importantes jornais do país e do mundo. O homem que desbravou o desconhecido. O homem que encarou a morte. Aquele que seria o primeiro repórter do mundo a presenciar coisas que nenhum outro olho jamais viu antes. Coisas nefastas que na verdade nunca deveriam ter sido descobertas. Mas na época a minha sede por poder borbulhava meu sangue, e a possibilidade da fama subia à minha cabeça feito o vapor enfurecido de uma chaleira, como o vapor que aquela embarcação cuspia da sua chaminé suja e puída. Era minha chance de brilhar como jornalista, e deixar para trás os tempos das vacas magras, deixar para trás os jornais periféricos. Era a minha chance... Quão bobo fui... Quão ambicioso fui. Ao finalmente dar-me conta da loucura que estava fazendo, do lugar onde estava, das pessoas desconhecidas e malucas que estavam me acompanhando nesta empreitada sem volta, do oceano altântico todo ao meu redor, me envolvendo numa dança de ondas azuis e negras, acariciando o casco do navio como se o barco e a água fizessem amor, já era tarde demais. Nova Iorque estava distante, suas luzes estavam fracas e ficando opacas por causa do nevoeiro. O barulho da música alta e das buzinas parecia miragem no meio da escuridão tenebrosa do mar. Tudo estava calmo naquela noite, calmo demais, mas uma calmaria nervosa e maligna, a calmaria que precede a morte.


Por dias a fio o navio seguiu, e eu já impaciente, enlouquecendo ali dentro, como um rato preso dentro de um domo de vidro. Era terrível aquilo. Enquanto não fazíamos a primeira para então, pusemos a conversar durante horas a fio, acabando com metade do estoque de chá que iria para os grandes senhores das ilhas do Caribe, que ficavam no caminho da terra desconhecida. E entre uma e outra xícara de chá, beberica daqui beberica de lá, começamos a nos soltar mais uns com os outros, e quando finalmente deu-se a primeira parada em um porto pequeno numa ilha pouco conhecida, eu já estava incrivelmente íntimo de Ray Ann e de Fábia Paola, já éramos mais do que amigos, andávamos como três irmãos, colados um no outro pra cima e pra baixo, e eu fascinado, ouvia as histórias sem pé nem cabeça que antes o ex-repórter que vos fala nem sonhava em acreditar um dia, histórias bizarras, cheias de sangue e horror, de feras terríveis, de pessoas selvagens que comem carne humana, de tribos milenares que fazem rituais macabros de bacanal e sacrifício, elas contaram-me de florestas verdes como a esmeralda, que transbordavam de vida desde o solo rico em flores e folhas até os últimos ramos das árvores de copas que chegam a sumir no espaço estrelado de tão altas que são. Algumas são maiores que os prédios de Nova Iorque! Disse Fábia Paola.


Ela disse nunca ter ido até nenhuma vez na vida, e nem sonhara antes em transpassar as águas turvas do mar marrom que cerca aquelas terras, por puro pavor do que poderia haver ali, e que estava pensando seriamente se ia mesmo prosseguir com esta aventura imprudente após o último porto antes da parada final. Antes de chegarmos até lá, passaremos por um arquipélago de grandes ilhas. Disse Ray Ann. Ela disse a mim que as ilhas são pouco habitadas, e que a mata nativa é tão bela e exuberante quanto a que encontraremos mais adiante do mar de águas turvas. A maior parte da população vive no litoral em pequeninas vilas isoladas do resto da humanidade. Eles raramente veem outras pessoas, por isso ficam muito desconfiados com a chegada de uma embarcação grande como aquela, vindas de fora. Poucas passam por ali, por medo dos nativos, pois diz-se nos portos do mundo todo que já são selvagens e agressivos os habitantes das vilas ribeirinhas do Arquipélago do Búfalo. Ray Ann também nunca foi até a terra desconhecida, nem mesmo passou próxima aos portos minúsculos e esquecidos das ilhas quase inabitadas. Disse ter ouvido falar pela primeira vez do caso num manicômio, onde um louco que ela costumava tratar na época em que era psiquiatra delirava constantemente sobre uma criatura hibrida chamada Klaàpacthu pelos nativos locais. As tribos afro-americanas da região chamam a criatura de Exúbia, e os índios do Amazonas, terra da borracha, dizem que a criatura descendo de uma raça antiga de seres humanos alados, com asas de morcego que antigamente habitavam o interior de uma rocha apelidada de Pedra do Morcego.


Os índios dizem ser o único membro restante da tribo que foi dizimada há séculos, e que esta criatura diabólica foi acolhida como uma deusa pelos nativos daquelas terras. Há até uma pirâmide construída em sua homenagem, deixada para trás na cidade secreta pelo estranho povo que habitava ali. Há sim uma cidade construída a milênios, oculta pela mata, e agora é lugar que representa perigo e morte para os ribeirinhos e para os nativos. Explicou-me Ray Ann. Aquilo estava me amedrontando por demais, e cada vez que a noite caía e nos reuníamos com a tripulação para um chá e um jantar, eu já imaginava as horas em claro que passaria em minha cama, imaginando o que me encontraria e me agarraria pelo caminho.


Assim seguimos viagem por infidáveis dias que eu já nem contava mais, e que já estavam virando rotina, me inserindo no ambiente do mar. A cada dia um novo detalhe me era iserido, e aos poucos fui sabendo que Ray Ann estava lá porque acreditava piamente que a cidade fora construída por uma raça alienígena que a deixou para trás após uma tentativa de colonização mal-sucedida. A própria criatura citada era um alienígena em sua opinião, e eu já estava começando a acreditar naquilo tudo. Após isto Fábia Paola contou-me sua história. Disse-me que sua família sempre fora pegada com Deus, desde que ela nascera sempre fora assim. Seus pais eram missionários e andarilhos que pregavam em lugares distantes da civilização, assim ela acabou atracando por aquelas bandas pela primeira vez, levada por seus pais, que haviam sido guiados por boatos de possessões demoníacas e aparições de feras infernais naquelas ilhas, vindas do nevoeiro, ou véu, que cercava as terras ocultas e amaldiçoadas do Klaàpacthu. Ao desembarcar os apetrechos e as malas, eles logo deram de cara com um caso misterioso, de uma mulher que estava grávida a apenas uma semana, mas que já tinha barriga, porém esta estava cheia de veias e roxa como uma beringela.


Após cuidar durante dias da mulher doente, a mãe de Fábia Paola foi testemunha do nascimento de um monstro metade homem, metade morcego, que foi abatido por um velho pescador com um tiro de espingarda quando a criatura tentou fugir pela janela do casebre de madeira. Foi uma cena macabra. A mãe da ferinha morreu no parto, pois sua barriga estourou feito um ovo de rã.


Aquilo me deixou completamente enojado, e o balanço da embarcação me fez correr para a proa e vomitar cachoeiras inteiras. O asco era muito grande. Após isto Pietro contou-me sobre como a história das terras amaldiçoadas chegou aos seus ouvidos. Sua mãe era professora num velho bairro de negros, e lá ele conheceu a Madame Saravá, macumbeira e feiticeira de primeira que conhecia de tudo um pouco, e era muito amiga de seus pais. Certa vez, como era pequeno, perambulando e xeretando pela casa de Madame Saravá, Pietro deu-se com um armário escuro e mórbido, iluminado apenas por uma fraca luz verde e repleto de dentes de alho pendurados ao lado de cordões feitos de ervas, sementes, fitilhos, estatuetas de orixás e balangandãs africanos dos mais variados. Curioso, abriu o armário sem pensar que aquilo significaria grande coisa para a dona da casa. Aquilo foi crucial para que sua mente já fértil o levasse para o ramo do cinema: lá dentro havia um ser empalhado, o ser mais estranho que ele já vira, e após levar grande susto com aquilo, chorou durante horas. Quando cresceu um pouco mais, Madame Saraiva mandou chamá-lo, e a ele contou tudo o que sabia sobre aquela fera mumificada, pois ele já havia visto a criatura e agora estava tão envolvido nisso quanto ela, de modo que os espíritos ficariam muito zangados se ela deixasse-o ir sem dar as instruções de como guardar aquele segredo.


A criatura era exatamente idêntica ao ícone de madeira que Fábia carregava consigo.


E assim aportamos no último porto.


Na ilha das fechaduras.



Fim da Segunda Parte!

L.A.M.B. - A Wonderful Holiday [parte2]


Agora sim! Vou contar pra vocês um pouquinho do que aconteceu no Círio de Monte Dourado e do nosso incrível [e desesperador!] passeio até a cachoeira de Santo Antônio, subindo o Rio Jarí...

Passei o dia anterior todinho dizendo que não ia de jeito algum ao Círio pela parte da manhã. Eu não queria caminhar, de jeito nenhum! Que pecado eu tinha de pagar? Nem promessa eu havia feito para a Santa... Quanto aos pecados, eu só tinha uma pagar, porque o outro as pessoas consideram pecado, mas não tem nada demais nisso, então, forçado fui ao Círio, caminhar atrás da Santa e louvar e agradecer. Quando chegamos à beira onde se pega a catraia a Santa já havia atravessado para Monte Dourado, e quando chegamos lá do outro lado a procissão já subia a ladeira, e rapidamente nos misturamos aos outros penitentes que iam se abanando, conversando, batendo foto, filmando ou rezando.

Papai leva essas coisas muito a sério mesmo [é pecado demais nas costas, meu bem ;p], passou a metade do percurso de cabeça baixa enquanto eu ia com a cabeça lá no alto, olhando tudo o que acontecia de cima, não porque eu fosse metido ou estivesse desrespeitando quem rezava, pedia ou agradecia, é porque eu sou alto mesmo viu? No começo nem estava tão quente, mas logo começamos a sentir o calor do mormaço forte, o dia era nublado e o ar estava parado, com raras brisas.

Se bem que eu nem suei tanto, papai que parecia estar derretendo. As meninas também nem ficaram tão suadas, a não ser que eu não tenha visto! [estavam conosco somente Yara e Lore, porque a Mimi. ainda está de resguarda e a Camilla tinha de arrumar a casa e lavar a louça! Ô sortuda essa menina, não?].

No final das contas foi uma experiência ultra divertida e sadia, porque caminhamos todos juntos e em nome da nossa religião [eu sou católico apesar de eu ter ficado o dia anterior todo dizendo que não ia para o Círio porque era hinduísta e só caminhava pra Lorde Ganesh XD]. Eu tenho certeza que perdi pelo menos 500 gramas em toda aquela penitência, e ainda bati com olho em algumas caras conhecidas. Marcus e a turminha dele estavam por lá só de passagem para olhar, pagar pecado que é bom, nada. Marcus mudou muito depois da briga que separou a todos nós, eu, Jamile, Brenda, Raíssa e ele. Dizem que ele anda por aí em más companhias, mas disso eu não sei porque nem moro aqui...

Eu nem o teria visto se não fosse a Raíssa, que surgiu do meio da multidão de branco sacudindo sua mão no ar, as unhas vermelhas como o sangue e longas como garras de gata. Acenava para mim de longe e passava pó no rosto, uma verdadeira patricinha, foi até engraçado vê-la falando alto toda espevitada e agitada no meio daquela gente toda calada e séria, o pessoal ficou olhando que só, porque ela falava alto no telefone, xingava, passava maquiagem e se olhava no espelho. Como ela estava diferente! Quer dizer, os olhos dela continuam lindos e espertos como sempre foram, e o corpo continua a mesma coisa, mas havia um algo a mais que eu não soube identificar... Será que... Ah, mas é lógico!

É melhor nem comentar o que eu pensei agora gente, deu até medo! O.o’

Tudo bem, adorei revê-la e conversar com ela aquele pouquinho de tempo que caminhamos lado a lado um pouco à frente do meu grupo na procissão que percorria as ruas bem arborizadas e arejadas de Monte Dourado. Ela procurava desesperadamente pelo namorado, comentou que estavam em desencontro desde que ela havia chegado com o pai. Me convidou várias vezes para acompanhá-la até a praça, agradeci e disse que não, porque estava com papai e que depois dali iríamos todos almoçar em família.

Ela disse que precisava de um táxi urgente, passou a mão nas minhas costas e correu para a rodovia aberta para os veículos. Caminhamos mais uns quilômetros em silêncio, comentando baixinho sobre o estado em que se encontrávamos, e sobre o tempo e sobre a caminhada. Dobramos no canto do posto e subimos para os bairros altos, cortando pequenas ruas, conhecidas e desconhecidas, cheias de jardins e casas coloridas, árvores e flores, sem lixo e sem poluição, um sonho se não fosse o calor penitencial do mormaço.

Então Raíssa surgiu outra vez, das trevas, encravando suas unhas nas minhas costas, e então tivemos tempo o suficiente para colocar a conversa em dia, comentar sobre a separação triste brusca que o nosso grupo sofreu logo após a minha última ida ao Munguba, onde vivemos momentos importantes da nossa amizade e onde Jamile morou durante um tempo considerável para acontecerem muitas coisas. Como eu já disse, falamos sobre Marcus estar andando com um grupinho que não é famoso por ajudar velhinhas a atravessar a rua, falamos sobre a Brenda ter sumido de vez após sua mudança para o Jarí e falamos sobre Jamile ter trocado as estressantes e complicas amizades físicas pelas amizades virtuais. Raíssa contou-me que está morando em Almeirim, há alguns quilômetros de lá, e tentamos achar uma explicação para essa nossa triste e brusca separação após a época da eleição do ano passado, meu último final de semana na terra encantada de Munguba [aquele era o meu paraíso particular, o único lugar do mundo onde eu sentia que tudo podia dar certo, que todas as minhas amizades eram verdadeiras, onde eu realmente me sentia bem, onde eu esquecia o mundo e vivia momentos incríveis ao lado deles, onde me sentia querido pelas pessoas.]

Após a crise financeira a CADAM entrou em colapso, e a nossa amizade também. Assim como um setor da CADAM faliu, um setor da minha vida também faliu: o mundo particular do Munguba. Após as lamentações e as risadas baixinhas para não perturbar as beatas, Raíssa atendeu ao telefone, e disse que estava num desencontro total com o namorado que havia muito estava na praça esperando-a quando resolveu ir procurá-la na procissão, no exato momento em que ela decidira ir na praça procurá-lo. Assim ela se despediu, e sumiu na multidão outra vez. Não sem antes me apontar o Marcus, que passava com seus novos amigos sobre um gramado de uma esquina.

Após um tempo meus pés já estavam em cacos e minha coluna em frangalhos. Não parava de tomar água, mas mesmo assim me sentia sem força alguma, parecia estar virando gelatina. Mais um pouco e eu estaria vivendo uma experiência extra-corporal! Mesmo após cortar caminho, ainda continuamos presos à procissão, e quando papai já não aguentava andar, e nós também não, pegamos a chave da casa do juiz Moacir e fomos descansar em seu pátio.

Lá tivemos um agradável almoço de pernil refogado ao vinho, bifes e frango, conversamos durante algum tempo e eu pude ver pela primeira vez em toda a minha vida uma barata branca [albina, na verdade], uma raridade na natureza, por isso ninguém teve coragem de matar. A meninas aproveitaram a nuvem que passava para brincarem um instante na rua, e antes de chegarem os donos da casa deitamos no pátio e pegamos vento. O mensageiro-dos-ventos batia singelo causando gostosa melodia, e as árvores sussurravam umas para as outras enquanto a música cristã entoava ao longe na passeata.

Após o almoço decidimos [eu, Iêda, Lorenice e Yara] dar uma volta e demos de cara com um poço profundo e gradeado, feito uma cisterna, um sistema hidráulico, um escoamento de água, oculto atrás de árvores cheias de cipós, mato e cogumelos, num restinho de mata na pequena cidade, beirando um barranco após um largo de terra batida. Parando para pensar agora, talvez eu realmente tenha me inspirado em Monte Dourado para criar a Vila de Mônica onde se passa boa parte da vida de Afonsa em As Dellabóboras. O fato foi que filmamos a reação dos morcegos que dormiam no fundo do poço quando o eco dos nossos gritos e das nossas vozes os acordava. Era bem sinistro ali, um clima de aventura imperava naquele lugar, atrás dos agradáveis quintais de Monte Dourado. Adoro coisas assim. Sempre gostei, desde criança, e foi numa aventura desse tipo que nos metemos logo na manhã seguinte...



[fotos:O povo pagando promessa, papai e Yara no Círio, as meninas brincando na rua, o bebê é o Kayã, da Mimi, que fofoo, ah, e essa coisa sou eu, no pátio da casa do juiz descansando meus pés gordos e cansados ;p]

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Nota'

As imagens abaixo são do dia do Círio em Monte Dourado [onde paguei todos os meus pecados ;o] e do dia da piscina [da noite, quero dizer].

-Pega a gorda fujona! - gritou papai em meio às beatas que rezavam de cabeça baixa enquanto caminhavam. Ana Duarte ia de fininho por uma ruela periférica da via por onde o Círio passava. O dia estava quente e minha cabeça já começava a rodar. Brisa era coisa rara, e o céu estava nublado [o que mostra a bondade de Deus para com os pecadores, poderia muito bem estar fazendo o costumeiro sol de rachar da amazônia], mas o mormaço era grande.
Mas ainda tivemos forças para gargalhar.

L.A.M.B. - A Wonderful Holiday [parte 1]

Tudo isso começou com a peculiar invasão de uma vespa ao apartamento [que a lore matou porque estávamos todos desesperados]. As luzes do lado de fora se acendem à noite, e como Laranjal do Jarí fica encravada no meio da infernal e fantástica selva amazônica, todos os insetos correm para a primeira luz que se acende as seis horas da tarde. Até então eu não tinha nenhuma intimidade com as filhas da Comadre de meu pai, muito pelo contrário, me sentia todo encabulado perto delas, pois elas me observavam muito como se esperassem que eu dissesse algo, e muitas vezes eu falava feito uma vitrola durante um bom tempo, assuntos vagos e relevantes, dos quais elas riam só para me agradar, ou às vezes riam de verdade, do meu senso de humor seco e direto.
Mas a invasão da vespa foi o ápice, o início de tudo, se vocês querem saber. Eu mal sabia o nome da menina Camilla, e ainda achava que ela era a Yara! Calma, eu explico. Aqui elas são quatro, na verdade, cinco, todas muito jovens e muito bonitas, de onze a dezessete anos. Começando pela Lorenice (nome diferente, né? Parece o nome de uma dama da época dos reis e rainhas *-*), ou como é conhecida por aqui “A Garota de Gurupá”, e terminando pela jovem mãe Mimi (acho lindo esse nome *-*), e de cada uma fiz questão de conhecer a história pessoal do começo ao fim, e tenho certeza de que tenho muito ainda a descobrir destas minhas novas amigas, mas não preciso me preocupar, porque teremos muito tempo para isso.
Esta é a terceira vez que estou passando o final de semana na casa de meu pai, que mora nos altos da comadre dele, a Dona Ana, que é uma mãezona na verdade, uma anfitriã de mão cheia, simpática e muito hospitaleira. Suas filhas são três, Camilla, Yara e Mimi, que são bem parecidas com ela, todas têm os mesmos olhos. Camilla é uma garota de 15 anos, muito bonita e tão faladeira quanto eu, começou me contando todos os podres do Jarí, íamos andando na rua e ela ia me apontando pessoas e lugares dizendo “aquele ali é maconhado, aquela lá é ex de não-sei-quem, aquela ali é só cara, e naquele tal canto aconteceram tais e tais coisas”, o telefone dela não para de tocar um segundo, o que me faz imaginar o quanto ela é popular por estas bandas. E com um corpão daqueles quem não seria? Ela é realmente muito bonita, me lembra algum tipo de atriz ou coisa parecida, e é tão conversadora quanto eu, o que nos fez ficar fofocando e comentando várias coisas durante um bom tempo.
Lorenice no começo foi a com quem eu mais falei. Ela é uma garota muito meiga e engraçada, e é impossível para mim acreditar que ela tem onze anos! Minha irmã tem essa idade e nem tem o corpo tão desenvolvido assim. E, aliás, ela já tem um rosto de mulher madura e decidida para idade dela, e realmente o é, bem diferente das garotinhas infantis amigas da minha irmã. Pra mim todas elas têm a mesma idade que eu, porque são bem mais ativas e expressivas do que as outras garotas das faixas etárias delas. Sim, como eu ia dizendo, Lorenice é uma menina engraçada e com um senso de humor ótimo, é bem tranquila e combina mais com a minha irmã no jeito dela, não é aquela menina escandalosa, mas também não é aquela garota retraída, na verdade nenhuma delas é, todas são boas meninas.
E então temos a Yara, que de todas parece ser a mais nova, não cheguei a perguntar a idade dela, mas pelo pouco que conversamos nesses dois dias, nós dois temos muito haver mesmo. Gostamos de rock, odiamos o calor (e o sol!), somos mais dos dias nublados e a noite. Loirinha tão faladeira e cheia de opiniões quanto eu, é afilhada do meu pai, e pelo que eu vi, ele gosta muito dela. Isso é bom, porque ela já é uma grande amiga apesar do pouco tempo que nos conhecemos. Ela é bem agitada e divertida, e hoje de manhã quando fazíamos o percurso do Círio em Monte Dourado ela quase desmaiou! Não a culpo, o mormaço era grande e as brisas, raras, de modo que em quatro ou seis quilômetros eu já estava vendo tudo de cima, e não é porque eu sou alto, mas porque a minha alma já não era mais minha!
Por último temos a mamãe Mimi, que na primeira vez em que vim passar o feriado aqui [e quando eu era super envergonhado com o novo ambiente familiar], ela estava grávida, e a partir da segunda vez em que aqui estive [semana passada!], já estava com o pequeno [e esperto] Cauã nos braços. De todas foi a primeira com quem falei, na primeira vez que passei o final de semana com o papai, no dia dos pais, ora vejam só! Conversávamos sempre sobre assuntos de escola [ela está no terceiro ano do ensino médio], animais de estimação e comida, coisas de casa. Ela raramente sai porque tem que cuidar do bebê [que é uma graça], e é uma ótima mãe, pois as outras mães que possuem a mesma idade de Mimi nem querem saber de cuidar da criança e jogam tudo para as costas da avó.
Ontem à noite, na umidade impossível da Amazônia noturna, fomos convidados a comer um churrasco à beira de uma piscina, sob a luz das estrelas, na casa de um engenheiro florestal conhecido do papai e dos compadres dele [aqui é assim, meu bem, eu só frequento casa de gente importante, beijo pra vocês!]. Chegando lá, fomos muito bem recebidos por ele e por sua mulher Patrícia, e as meninas, não resistindo, tiveram de voltar a casa para trocar de roupa e cair na piscina. Eu e Yara ficamos só na borda, molhando os pés, eu porque tenho muita vergonha de tirar a roupa, e ela por outro motivo qualquer, mas acabamos sendo atingidos em cheio por jatos d’água esguichados por mergulhos artísticos das garotas e de um dos filhos dos nossos anfitriões. E eu tentando fugir me joguei de costas... pra quê! Havia uma enorme poça d’água bem atrás de mim. Conclusão: fiquei encharcado.
A noite estava tão úmida e tão quente, vocês aí do sul não fazem noção do quanto isso se faz presente em plena alta Amazônia, região da extração do caulim, do rio Jarí, dos morros de barro e do verde intenso, das belas cachoeiras e das estradas de poeira, é uma região de contraste e beleza, não percam a oportunidade de visitar! Como eu ia dizendo, a noite estava tão úmida que assim que eu saí do apartamento, meus óculos embaçaram e minha roupa encharcou. Pra completar havia chovido à tarde e isso só aumentou o calor e a umidade.
Lá na piscina nos divertimos tirando fotos, contando casos que aconteceram nas nossas escolas, micos que pagamos [Lorenice campeã! Gritou feito uma desesperada quando, em Belém, o ônibus passou em alta velocidade em frente ao museu, que era onde elas iriam fazer o passeio do dia. Mal ela sabia que os ônibus não param fora do ponto!].
Em imaginar que a nossa conversa começou quando eu perguntei quem dali tinha namorado, e então todas elas riram sem jeito. Após isso o papo foi alto. Camilla contou-me das loucuras das escolas públicas daqui, das brigas de terçado nas ruas e dos professores agredindo alunos dentro de sala de aula! E eu pensando que... bem, deixa pra lá! Yara contou-me um pouquinho das coisas que ela gosta de fazer, sobre o seu prazer em ler versos e em desenhar, sobre as músicas que ela gosta de ouvir e sobre a sua família. Não sei como nem quando, mas ao me dar conta, já estava contando a elas tudo o que sei e o que descobri sobre a Maçonaria e seus mistérios.
Elas não sabiam nem da metade dos mistérios que giram em torno dessa organização secreta que ainda arrepia os pelos da nuca de muita gente nos tempos atuais. Não me recordo a época exata em que os maçons surgiram, mas sei que tudo começou quando o comércio na Europa estava à beira da ruína total, e os comerciantes resolveram unir-se em uma organização cujo o lema era ajudar uns aos outros para superar aquela crise momentânea. Deu certo, e ajudando-se, os comerciantes foram pra frente [assim que funcionam as lojas maçônicas]. Porém, a “seita” que eles formaram sobrevive até os tempos atuais com os mesmos rituais. Pactos de sangue, oferendas ao bode, que é o patrono deles, mantos negros, espadas simbólicas, pastas pretas secretas, livros de regras que funcionam como bíblia, hierarquias em que o “líder” deles deve ser tratado como Vossa Excelência...
Se vocês querem saber, até hoje eu não consegui entender muito bem o que realmente acontece nas reuniões dos maçons. Boatos e lendas dizem que os comerciantes se uniram há séculos atrás num pacto com o diabo, por isso devem fazer oferendas ao bode. Tenso isso.
Foi então que comecei a contar a elas lendas das quais elas não faziam ideia, e que eram daqui da região mesmo, como a Rua da Maçonaria em Belém, onde todas as lojas são maçônicas e onde, dizem as más línguas, trota um bode preto depois da meia-noite (até me arrepiei agora).
Contei a elas da época em que o Jarí era só uma vila extrativista da borracha e do garimpo (eu não sou tão velho assim, ta? Eu li tudo isso num livro da História do Amapá!), do Mapinguari que assombrava as matas sombrias e quentes ao longo do rio Jarí (pra quem não sabe, o Mapinguari é um macaco imenso de dois metros de altura que fede a morte, é peludo e negro como a noite, tem os pés tortos, a boca na barriga e solta um grito horrendo quando sai da mata, capaz de arrepiar todos os pelos do corpo, até de onde não tem. Conta-se que ele fez uma visita ao Jarí na época em que este era só uma vila, fazendo o percurso da rua principal inteira gritando. Quem já ouviu o grito do Mapinguari diz que é a coisa mais feia que um homem pode ouvir enquanto vive, capaz de deixar até uma pessoa louca. Tenso isso. Yara se tremeu todinha e disse que nunca mais vai ver a corrida até a padaria na Tancredo Neves como um simples passeio matinal).
E então, por sua vez, Camilla contou a mim duas histórias macabras que vou fazer questão de contar pra vocês agora mesmo, em todos os detalhes!
A primeira história se passa na infância delas, quando ela e Yara ainda eram pequenas e moravam num casarão construído bem ali na beira, bem de frente para o rio, numa casa de altos e baixos construída posteriormente pelo pai das duas, que após receber muitos avisos da vizinhança sobre a casa ser assombrada (contava-se que antes, ali morava velha macumbeira que matou seu filho e escondeu-o debaixo da palafita), decidiu comprar o terreno mesmo assim. Numa noite solitária, com o pai pro trabalho e a mãe para a faculdade, as garotas e o avô brincavam de bole-bole (brincadeira regional que consiste em colocar várias pedrinhas da beira do rio nas mãos em concha e jogá-las para cima, e em seguida, formar concha com as costas das mãos rapidamente, para que as pedrinhas caiam de volta sem cair no chão; ganha quem aparar mais pedrinhas), e assim ficaram até tarde da noite, pra lá das dez.
Todos dormiam numa cama só enrolados em lençóis, porque a casa era muito grande e sombria e ninguém tinha coragem de dormir num quarto sozinho. Nesta noite não foi diferente. Porém, esta mesma noite teve algo de muito, muito diferente. Coisas macabras acontecem nesta nossa região cheia de lendas, magia e maldição. Cada vilarejo tem a sua história. Cada mata tem seu pai. Cada rio tem a sua mãe. E cada pedra tem seu dono. E o dono das pedras do rio atende pelo nome de Boto, que vira homem em noite de lua cheia, e que não gosta que usem seus tesouros como brinquedo.
Então, da direção do rio vieram as pedras na parede. Pedrinhas batendo contra a parede no escuro. Se espalhando no chão. Sons fantasmagóricos para quem tem a certeza de que não há ninguém em casa além dele próprio. A própria Yara disse que sentiu algumas das pedras atingirem os seus pés após mais uma jogada da força invisível que agia naquele quarto. E detalhe: tudo acontecendo da direção do rio. Pedrinhas se espalhando no pátio. Pedrinhas se espalhando no chão do quarto. Crianças tremendo nas camas. Escuridão e frio. Medo.
Camilla diz que nunca irá se esquecer daquela noite em que ficou fria feito pedra, suando feito uma porca e tremendo feito vara verde. Ela viu as pedras se mexendo sozinhas, e tem certeza do que viu. Ligou-se a luz e todos foram ver do que aquilo se tratava. E para surpresa de todos não havia nada, absolutamente nada. Tudo estava vazio. A passarela lá fora estava deserta. E a casa bem trancada. Sinistro...
O outro conto de Camilla é bem mais sério do que este, e me deixou realmente inspirado para escrever um conto de terror que se passa na Amazônia, porque este foi muito bizarro, inacreditável e apavorante. O jeito com que ela contou o fato só fez ficar mais atraente e cheio de suspense.
A família dela toda é de Gurupá, no Pará, e lá eles moraram durante anos antes de virem morar no Jarí, há seis anos atrás. Todo mundo aqui sabe que interior+ cidadezinha+ vila+ mata+beira de rio é sinal de encantaria e mistério. O que aconteceu foi o seguinte: o avô das meninas é dono de uma fábrica de palmito lá desse interior, e a fábrica fica justamente na beira do rio. O barulho que as máquinas de tratamento do palmito fazem é insuportável, não sei se vocês sabem, mas a barulheira é infernal, pois há todo um processo desde a extração do tronco da palmeira até o corte e a fermentação do produto, e isso dá um trabalho danado, que é igual a barulho intenso.
Eis que houve uma festa naquela localidade, e segundo contam, em meio à bebida e à música e à diversão, desce a entidade numa mulher. O espírito parou a festa e disse a todos que se tratava de uma entidade do rio, o temido Boto, e seu aviso foi bem claro: acabem com a fábrica, parem o barulho das máquinas, cessem com a bagunça! O motivo? Segundo a entidade, a casa principal da fábrica havia sido construída bem em cima de um buraco no barranco, e este tal buraco era a casa de uma família de Botos que estava muito furiosa por causa do barulho que não os deixava em paz de dia, quando era hora de dormir, e a ameaça foi feita: acabem com a perturbação ou a fábrica ia pro fundo.
No início todos riram, achando que se tratava de uma brincadeira, que a mulher estava bêbada, e após o primeiro deboche, o avô das meninas pediu a entidade que desse uma prova de que era realmente o Boto, dono do rio, senhor da metamorfose, macabro ser das águas. E o Boto deu sua prova. Contou ao homem reservadamente uma coisa que só ele sabia, uma coisa que nem a mulher, nem a mãe nem os melhores amigos sabiam. De todos era o segredo mais íntimo e feio. O dono da fábrica viu que a coisa era muito séria, e na manhã seguinte pediu que mergulhassem e olhassem debaixo da palafita.
Pasmem: havia uma boca enorme, praticamente um poço lá embaixo, um buraco escuro e macabro. Quem mergulhou disse que por mais longa que fosse a pernamanca, e por mais comprido que fosse o arame, era impossível de se encontrar o fundo daquela fossa. Camilla diz que o buraco maligno está lá até hoje, e que é possível muito bem ver a sua entrada quando a maré seca...
Fico aqui imaginando, o barulho gorgolejante da água entrando naquela fossa dos infernos, do vento frio que sopra de lá de dentro, do negrume que é a sua boca maligna, e dos seres místicos que o chamam de lar...
Nosso mundo é estranho.
Nosso mundo é bizarro.
E Deus queira que eu jamais tope com uma coisa dessas na minha vida.
Prefiro escrever sobre elas ;p~

Beijos fantasmagóricos de
Antonio Fernandes.

domingo, 11 de outubro de 2009

oooh@!

Ora, enfim alguém lê essa porra!
Ontem haviam sete visitas, todas minhas
E agora jah tem 16!!!